Recordações Gaúchas/VIII

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Recordações Gaúchas por Luís Araújo Filho
Capítulo VIII


A comitiva fez alto mais ou menos no ponto onde devia terminar a carreira, junto a uma grande ramada preparada com mais cuidado e mesmo com um certo conforto consentâneo com esta espécie de abrigo, o qual assemelhava-se aos nossos carramanchões atuais, bem tramado como era de folhagens, por cima e pelos lados, exceto um, calculadamente voltado para as bandas do nascente, proporcionando naquela estação e àquela hora um agradável sombra.

O arranjo interno ressumbrava uma originalidade tosca e um tanto selvagem, própria do lugar e da ocasião, mas sem excluir uns visos de conchego especial, indicando a presença feminina ali.

Poucos assentos de madeira aos lados e ao fundo uma pequena mesa e uma reforçada cadeira de embalo, que assim se chamavam naquele tempo as atuais de balanço. Um bonito couro de tigre, com as competentes garras e dentes, servia de tapete diante desta cadeira, em cujo espaldar estendia-se uma macia pele de pequeno veado, com seus salpicos desmaiados, a modo de pequenas obréias de chocolate claro disseminadas em campo cor de pinhão e preso por laços de fita vermelha na palhinha do encosto.

No mais era a própria natureza impondo-se com seu contingente de mimosas flores brotadas ali mesmo no solo, à maneira de um segundo tapete de verdura, e as ramas do abrigo, algumas das quais conservavam ainda a floração silvestre com que foram para ali transportadas.

O pessoal apeou-se e ao mesmo tempo um cavaleiro abriu a portinhola da carretilha; a proprietária desembarcou, seguida de uma servente, e tomou posse do improvisado alojamento supradescrito.

Logo após recebeu recado do seu competidor, que pretendia falar-lhe, e quase ao mesmo tempo apresentava-se ele, o Sr. Madruga, com alguns amigos.

Releva dizer que, apesar de naquela época serem pouco comuns os requintes de cerimônia, mais tarde espalhados entre nós até as raias do ridículo, ainda assim podiam-se notar belas amostras da natural cortesia dos nossos patrlcios para com as damas, atributo muito mais para apreciar-se entre gentes do campo; e o Sr. Madruga, moço ainda de seus 30 e poucos anos e bem apessoado, não era destituído destes dotes, podendo ir, quando queria, até as fronteiras do bem dirigido galanteio.

D. Rita passava já dos 40, mas dispunha ainda de bom cabedal de uma beleza que obstinava-se em resistir aos gastos do tempo. Nestas condições e dotada de gênio alegre e comunicativo, tornava-se uma pessoa muito atraente, querida e ao mesmo tempo respeitada.

Feitos os primeiros cumprimentos, ela como quem estava em seus domínios, quis obsequiar os seus hóspedes, oferecendo-lhes alguma coisa.

As bebidas de salão, emprestando-se o nome de salão ao lugar onde estavam reunidos os convivas, eram raras naquele tempo, máxima numa espécie de tolderia, como na ocasião, e a aristocracia delas pertencia aos licores adocicados, preferidos principalmente pelas senhoras.

Outras bebidas havia, como - cerveja Tenente-Pale-Ale, mas quase só para estrangeiros, e o famigerado vinho Carion, espesso e negro como tinta, que só era usado na mesa.

A gauchada, porém, e a gente pobre, que não podia gastar, só bebia aguardente, por uma espécie de nacionalismo, e, quando muito, anis de Maiorca ou capilés, hoje caríssimos.

Por isso a proprietária do carramanchão brindou suas visitas com os estimados licores de rosa e cravo, conforme a cor e principalmente o aroma das flores de que cada um tirava o nome a essência.

Oportunamente, o Sr. Madruga dirigiu-se à sua competidora; disse que estava às suas ordens para o desempenho do compromisso entre ambos contraído.

Passando a tratar das preliminares da carreira foram escolhidas duas comissões, - uma de três membros e outra de dois, - todas da confiança das partes, a primeira encarregada da medição da cancha, e a segunda de examiná-la quanto ao preparo do piso.

É verdade que a cancha fora cuidadosamente medida e preparada dias antes, mas agora era o ato oficial, - uma condição de contrato, por isso este trabalho foi executado no tempo apenas necessário para percorrer a passo acelerado a distância de 30 quadras, que este era o tiro que iam correr.

De volta as comissões declararam estar tudo em ordem e passou-se a outros preparativos. Nomearam-se quatro julgadores, - dois para cada laço; e para trás do laço da saída mediram-se 50 varas, espaço preciso para as partidas.

Então D. Rita, montando um soberbo cavalo branco, que trazia previamente preparado para este fim, percorreu com o Sr. Madruga a cancha até o lugar da saída, ambos cercados dos seus amigos, como para deixarem-se ver e reforçarem a confiança naqueles que os acompanhavam no arriscado lance em que se ia empenhar, senão toda, pelo menos parte das suas fortunas.

Foi então escolhido, a contento de ambas, partes contendoras, o depositário da parada, cerimônia importante, celebrada diante de todo o imenso auditório, em pleno campo, a um lado mesmo da cancha. Recaiu a escolha no abastado fazendeiro major João Mendes de Arruda, morador no departamento do Serro Largo, Rep. Oriental, e pessoa muito considerada, que ali achava-se a outros negócios.

Cinqüenta onças de ouro era a parada.

O Sr. Arruda apeou-se, estendeu o seu pala de vicunha na relva, e sobre ele desdobrou um amplo lenço de seda, onde os competidores vieram cada um por sua vez, depositar uma por uma, as suas onças.

O depositário tomou nota em sua carteira.

Até então nenhum jogo de fora; tudo para isto dependia da resolução do último momento, - a escolha do cavalo do Sr. Madruga, - e os interessados perguntavam-se com certa ansiedade: qual será dos dois rosilhos?

As opiniões estavam começando a dividirem-se entre estes dois parelheiros e iam formando uma espécie de partido a favor do rosilho pequeno, quando repentinamente, do ponto onde estavam todos os parelheiros, encobertos pela multidão, romperam estrepitosas aclamações, gritos e vivas.

Estava feita a escolha, - fora enfrenado o cavalo rosilho grande, o qual naquele momento tomava posição para começar a partir.

Neste ínterim alguns partidários do cavalo rosilho reuniram-se e apresentaram ao dono da carreira uma boa porção de gateadas, propondo interessá-lo naquela parada, se ele, quisesse jogar, o que ele para comprazê-los, aceitou:

- Mais vinte onças, gritou o Sr. Madruga, e quase ao mesmo tempo, vinte onças de ouro tiniram, uma a uma, tiradas da bolsinha presa ao gancho do selim de D. Rita, para aquela espécie de rodeio parado à frente do depositário, - rodeio, sim, porque dai a pouco muitos viriam ali apartar o que fosse seu.

Começou então o jogo por fora, extremando-se, como sempre duas espécies de jogadores, - o de parceria cujo dever manda sacrificar muitas vezes o próprio interesse, sabendo mesmo que vai perder, ou deixando de ganhar no parelheiro contrário, só para obedecer ao princípio de lealdade de não cortar-se com os companheiros, e o jogador no mais, que só visa o lucro ou é arrastado pelo vicio desenfreado do jogar.

Alguns, que fizeram jogo avultado, recorreram ao depositário da carreira grande, o qual deste modo viu sucessivamente crescer o seu grande rodeio, à medida que ia enchendo de notas a sua pequena carteira.

Outros contentavam-se com casar simplesmente o dinheiro na mão do contrário, e por último eram os que jogavam sob palavra e bastava dizer pago a qualquer desafio para ter-se um compromisso tão formal como um documento.

Não faltou também quem fizesse jogo absurdo e desarrazoado, como adiante se verá, com concessões e pedidos de changui.

A este tempo já os cavalos tinham começado a partir, primeiramente percorrendo a galope curto as 50 varas prescritas e depois graduando a carreira, no intuito de pisarem juntos o laço, para poderem largar a um sinal dos julgadores.

Mas reconheceu-se logo a superioridade da saída do cavalo tordilho, que tinha muito mais pé do que o outro, e sabia-se que o corredor tinha ordem de aproveitar toda a luz que pudesse no começo da carreira.

Em tais condições o Sr. Madruga ordenou que o seu corredor aceitasse convite de qualquer maneira, porquanto alguma diferença não faria mal, em vista do largo tiro que haviam de correr.

Assim foi que na seguinte vez, ao enfrentarem o laço, mais ou menos, os julgadores deram o grito de VÁ! e os parelheiros galgaram a cancha, mas o tordilho foi como um laço que se arrebenta e cortou-se do outro mais de quatro corpos de cavalo.

Ao mesmo tempo a massa enorme do povo ali reunido moveu-se entre um alarido infernal de gritos e tiros, forcejando para acompanhar os corredores com estrépito medonho e levantando uma nuvem de poeira, que progredia sem cessar aumentada pelos grupos postados ao longo da cancha e que se incorporavam à medida que os parelheiros passavam.

Largo trecho a cavalo tordilho correu de luz cortada - mais de quadra, com grande satisfação de sua parceria, mas a um terço do tiro o rosilho começou a entrar e pelas quinze quadras mais ou menos, correram juntos, com satisfação igual para os partidários deste.

Até este momento nenhum dos corredores tinha feito uso do rebenque, e, a uma simples ameaça, o cavalo tordilho abriu nova luz, mas o rosilho entrou de novo e o seu corredor animando-o com gritos e abanando o rebenque ao cavalo, manteve o terreno ganhado e conseguiu adiantar mais de meio corpo.

De todos os lados continuavam a surgir grupos e grupos, rompendo em gritos e animando com palavras os contendores, cada qual conforme o próprio interesse, ao mesmo tempo que os dois animais resfolegando poderosamente, alagados de suor e cobertos de poeira, com as narinas dilatadas e os olhos chamejantes, iam devorando o espaço, lado a lado, como dois hipogrifos cavalgados por divindades infernais agachadas e presas nos seus costilhares.

Então o corredor do tordilho recorreu à soberania do látego aplicados três ou quatro vezes ao brioso animal que, como ofendido, num esforço supremo, conseguiu ainda emparelhar e abrir claro na frente do teimoso adversário, - umas quatro a cinco braças.

Mas foi de pequena duração esta vantagem, porque o outro, ameaçado e castigado também, parecia impelido por uma máquina de propulsão constante, vinha feito, e sustentava a velocidade, ao passo que o cavalo tordilho parecia que tendo atingido ao máximo da sua carreira, vacilava - aumentando ao sentir o rebenque e mermando em seguida, - de modo que o adversário foi colhendo, colhendo, até que no fim de umas duzentas varas deste aproximar insistente e angustioso para ele, juntaram-se de novo, mas desta vez não deviam despegar-se senão para o desenlace fatal da porfiada luta.

Assim, foram por algum tempo, avantajando-se alternativamente, - tirando a orelha, fiador, paleta, meia-costela, vantagem que um e outro recuperava em seguida, à força de rebenque, para o qual ambos os corredores haviam apelado, baixando a mão e cobrindo a marca dos seus cavalos, como último recurso.

A balança da vitória, inclinada a principio para o tordilho, pendia agora visivelmente para o outro, e era natural que este se até ali pudera vencer a grande diferença de saída, avançando sempre, dai em diante no mesmo teor, visto como estava que o competidor a pouco e pouco perdia terreno, não demoraria muito em resolver-se a questão em favor do cavalo do Sr. Madruga.

O momento decisivo se aproximava; da raia ouvia-se já o estrépito da carreira vertiginosa e disputada, e ao mesmo tempo vários cavaleiros de consideração, metendo-se por entre o povo, gritavam: - cancha!... cancha!... abram cancha!... - e a multidão compacta obedecendo àquela ordem, abriu alas e esperou ansiosa o momento supremo da vitória ou da derrota, segundo o interesse pessoal de cada um.

Nisto, a umas três quadras surgiam os parelheiros envoltos em uma avalanche de homens e poeira, mas o cavalo rosilho vinha adiante, com uma pequena luz, e o corredor quase deitado sobre o seu dorso, abanava o rebenque e de quando em quando, batendo na boca, tirava aqueles gritos selvagens tão conhecidos dos nossos homens campeiros.

Não era ainda perdida a esperança, por isso o competidor tentou uma investida; amiudou os golpes de rebenque e o seu cavalo, reunindo um resto da força, chegou a ponto de alcançar o outro, mas foi por derradeira vez, porque dai em diante este se distanciava cada vez mais na frente, e em poucos momentos pisava o laço, quase com a mesma luz com que o outro lhe saíra. Correu mais um pouco e parou; o corredor apeou-se; o entregou ao compositor e foi descansar em uma ramada, exausto como estava de fadiga e de emoção.

A parceria do Sr. Madruga reuniu-se em torno do vencedor, aclamando-o, por haver dado a cada um a posse de uma parada como poucas vezes teriam ocasião de jogar.

O vencido depois de passar o laço, deu uma volta por detrás do povo reunido e dirigiu-se tristemente até o alojamento da sua proprietária, a qual com a sua comitiva tratou de voltar pelo mesmo caminho até o estabelecimento onde se hospedava.

Assim terminou aquela famosa carreira, que decidiu por uma vez a antiga dúvida entre o sr. Madruga e D. Rita França.

A liquidação da parada fez-se ainda naquela tarde, visto como o depositário, autorizado pela declaração dos julgadores, de ter ganho o cavalo rosilho, fez entrega do dinheiro ao vencedor, bem como a outros, conforme os apontamentos que tomara.

Outros procuravam-se reciprocamente entre o povo, para receber ou entregar a parada a quem de direito, sem objeção, dizendo simplesmente, - ganhou na lei.

Belos tempos, sem dúvida, em que a velhacaria não tinha ainda tornado de praxe o papel selado nas relações mais insignificantes da vida prática, que mesmo assim nem sempre garante a fé dos contratos.