Recordações Gaúchas/IX

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Recordações Gaúchas por Luís Araújo Filho
Capítulo IX


Giloca e João de Borba forraram o poncho, para o resto da viagem, felizmente, segundo o palpite do primeiro.

Depois de darem uma mota a Chico Pedro e Nadico, dirigiam-se vagarosamente ao seu pouso, quando foram atraídos para um grupo parado perto de uma grande barraca estaqueada entre duas ramadas.

Naquele momento três cavaleiros apearam-se ali e um deles mandou aproximar-se um peão que trazia pelo cabresto um cavalo escuro perfeitamente aperado, tendo atravessado e ligado por um tento sobre os arreios, um par de esporas de prata, um pala de gorgorão branco, e metido por baixo da sobrecincha um bonito relho com cabo aparelhado de prata e ouro.

O cavaleiro que parecia ser dono do referido cavalo, pediu para falar à proprietária da barraca, apresentandose-lhe uma mulher moça e lindíssima, vestida com esmerado gosto, segundo as modas da época.

- Minha Sra., disse o cavaleiro, desejo saber se a Sra., conhece este cavalo e estes objetos? e indicou o já mencionado cavalo escuro.

- De certo, respondeu ela, porque são do meu marido.

- Já não é assim; tudo isso ganhei ainda há pouco, como lhe poderão dizer estes amigos. Mas falta ainda uma parte da parada e eu venho perguntar se a Sra. quer pagar, nas condições do jogo que fiz com seu marido.

- Não entendo; a ele devia competir pagar o que jogou e não a mim... mas em todo caso, explique-se.

- Estes dois amigos estão autorizados a dar-lhe a explicação que pede.

- É verdade, disseram eles, seu marido tendo jogado todo o dinheiro que trazia consigo, jogou também o cavalo em que andava e os trens; depois incluiu a Sra. na parada, e este amigo teve a felicidade de ganhá-la.

- Mas isso não pode ser; ele podia jogar tudo.. mas a mim?... não pode ser... eu... não sou nenhum traste, não sou escrava...

- Bem sei disse o cavaleiro mas o que é verdade é que arrisquei o meu dinheiro, diante de testemunhas, e se ele tivesse ganhado, era natural que não me perdoasse.

- Sei disso, mas com dinheiro é outra cousa; um marido não joga nunca sua mulher; não pode ser.

- Minha Sra., insistiu ainda o cavalheiro, declaro que não é uma imposição do cumprimento da palavra que venho fazer, exijo de vontade e nada mais. Mas deve concordar que seu marido mui pouco, ou mesmo quase nada deve de a estimar, uma vez que a promete numa jogada. E depois, eu sou solteiro e bastante rico para fazê-la feliz, se se dispusesse a deixar um homem que despreza Vm. a ponto de não importar-se de a perder no jogo.

- Não posso acreditar; o Sr. deixe-me; quero ouvir da própria boca do meu marido isso que ele fez... deixe-me...

- Pois vai ouvir, porque eu vou chamá-lo, disse o cavalheiro; e ao mesmo tempo pediu a algumas pessoas que fossem procurar e chamar o marido perdulário.

Não foi difícil encontrá-lo, porque dai a poucos momentos, vinha o homem no meio de um grande acompanhamento, vexado e cabisbaixo, um pouco aos empurrões, debaixo da vaia e chacota da gauchada.

Ao aproximar-se quis recuar, mas os outros não deixaram.

- Mangueia, que é sentador, dizia um. Outros gritavam: venha um sinuelo, se não ele vai refugar. - Perdeu a costela!...

Vinha como um criminoso arrastado à presença do juiz. Quando enfrentou a barraca os outros o empurraram com força para a frente, e formaram roda, deixando-o no meio.

- Fale, gritou-lhe o cavalheiro ganhador, diga se é verdade que jogou comigo sua mulher e perdeu, diga!... e encostou-se a ele, pondo-lhe a mão no ombro.

O miserável jogador, sem levantar os olhos, com os braços caldos, respondeu, com voz abafada:

- É verdade... sim...

O outro procurou com a vista a mulher, mas já não a encontrou, porque ela tinha se retirado envergonhada para o interior da barraca.

- Quatro estacas é o que tu merecias e alto do chão três palmos, aldragante, gritou o compadre Giloca, que estava ali perto.

Como já ia sendo tarde, a multidão dispersou-se e cada um foi procurando seu pouso fazendo comentários sobre o caso escandaloso do homem que jogou a mulher.

Contam os contemporâneos que a mulher, despeitada pelo fato de o marido a jogar, abandonou-o, para ir viver com o outro.

Assim se passaram muitos anos, e morrendo este, deixou a ela em testamento regular fortuna. Nesta ocasião apareceu o marido propondo-lhe a continuação da vida conjugal, mas foi repelido. Então ele propõe-lhe uma ação judicial de divórcio, visando à repartição dos bens, mas sucedeu que tendo ele desaparecido... sem se saber como, a ação deu-se por finda. Houve quem dissesse que ele foi mandado enxugar, segundo a gíria do tempo.