Recordações Gaúchas/X

Wikisource, a biblioteca livre
< Recordações Gaúchas
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Recordações Gaúchas por Luís Araújo Filho
Capítulo X


A venda do Chicuta, deserta durante aquele dia, visto que a afluência do povo fora atraída sobre a cancha, apresentava ao entrar do sol o mesmo burburinho dos últimos dias.

À noite os aposentos regurgitavam de gente, - uns a repousarem da agitação diurna, outros em busca de carpetas, que nunca faltam.

Deste o número era crescido, de tal modo que não cabendo todos nas mesas que se formaram, os excedentes se contentavam em jogar de carancho, ou fazendo paradas nas mãos dos outros.

João de Borba e o compadre Giloca tomaram lugar numa mesa colocada no centro da casa, em que jogavam o solo com outros. Chico Pedro estava ali para cevar mate ou para o que se oferecesse, porque, como ele dizia: era pau pra toda obra.

De todos os lados só se ouvia o tilintar das moedas e a alegre explosão das balandronadas; uma nuvem de fumo toldava o ambiente do salão acanhado para o grande número de pitadores ali reunidos, com seus enormes cigarros, que pareciam charutos de palha, todos a fumegarem como chaminés numa tiragem constante.

De quando em quando, por entre uma intermitência daquele rumorejar piano piano ouvia-se roncar a cuia de mate e alguma voz grossa de mando que dizia:

- Toma, encilha isso, já'stá mui caicué.

Por entre a animação dos carpeteiros, garrafas e garrafas iam-se esvaziando, aos poucos, ao mesmo tempo que os cérebros se prendiam, as línguas se soltavam, e os gênios, cedendo aos temperamentos e instintos de cada um, mais e mais às claras se mostravam, quanto mais livres sentiam-se do império das convenções correntes naquele meio social tosco mas positivo.

Nalguns era expansão franco do bom humor e da galhofa, ferina às vezes, a desandar sobre os parceiros em ditos mordacíssimos; - noutros a transparência visível de algum sentimento ruim até então sofreado pelo receio da represália sempre imediata e terrível; - neste uma nuvem de tristeza a toldar-lhe repentinamente o semblante, sentindo reviver a latente mágoa de mal apagada ofensa, que os calores do álcool num momento reacenderam; naquele a mal disfarçado irascibilidade pronta a explodir ao primeiro choque, ao menor atrito; - em todos, enfim, a influírem com intensidade os vapores do álcool e da nicotina, fazendo deitar abaixo a cada qual a máscara, mais ou menos bela, amável, grosseira ou repelente, para mostrarem-se como quem eram, livres de todo e qualquer freio, cedendo à verdade do antigo axioma: In vino veritas.

Pela volta da meia-noite já algumas turras haviam-se azedado numa ou noutra mesa, e mais de uma mão, por baixo dos balandraus e japonas tinham acariciado os cabos das respectivas facas e adagas, ou puxado para a frente as pistolas, em geral de um ou de dois canos, porque os revólveres eram então raríssimos.

Felizmente, tudo corria bem, porque as cousas não tinham ainda passado de gestos ameaçadores, rostos contraídos, punhos cerrados, olhares de revés, etc., mas parecia que a mina estava bem carregada, à espera somente de chegar-lhe qualquer faisca ao estopim.

Entretanto, havia alguns comedidos e cautelosos, quase todos andarítes e forasteiros, que não tinham bebido, ou fosse por hábito ou por se acharem em pago alheio e ressentirem-se de uma certa falta de apoio ou proteção em caso de se verem mal.

Deste número eram os viajantes de quem nos temos ocupado até aqui, exceto Chico Pedro, que gostava, mas que mantinha-se em abstinência pelo muito respeito que devia aos seus patrões.

Desde o começo da noite um indivíduo sentara-se a um canto do salão, sobre umas canastras, de onde só tinha saído uma ou duas vezes para tomar água.

Era conhecido de um dos parceiros que jogava na já mencionada mesa do centro, pois este, aproveitando um pequeno intervalo, enquanto davam cartas, chegou-se a ele e entabulou mais ou menos a seguinte conversa:

- Então, seu Juca, esperava que você fizesse uma perna com os companheiros e está aí pra um canto desde a boca da noite, empacado que nem touro no santa-fé. Não se abichorne; ora o que foi, foi; - amanhã será outro dia, e faça Deus bom tempo. Venha, a sorte anda aqui por estes lados (e indicou a mesa de João de Borba e os outros) pode ser que nos caia na volteada alguma doradilha.

- Não posso, respondeu Juca Ruivo, (nome por que era conhecido) logo mais, por enquanto estou assuntando, depois...

- Cortado... era um tento, disse Chico Pedro, que na ocasião passava arrodeando a mesa com o mate.

Juca Ruivo olhou de revés e perguntou ao outro: - Quem é este chiru?

É gente daquele barbudo e do outro de chapéu vinagre, - uns tropeiros ou coisa assim...

- Deixa-te 'star, capivara, disse Juca Ruivo; tanto pode ser que eu tire do teu couro, pra pagar o que teu patrão me deve: e levantou-se, aproximando-se da mesa.

Isto foi dito um tanto alto, de modo que Chico Pedro ouviu, por isso, chegando-se ao compadre Giloca, disse-lhe ao ouvido:

- Cuidado que ai está o homem que jogou a mulher, - o das quatro estacas: se quiser sentar-lhe a marca, diga no mais, que eu aperto.

O compadre Giloca fez senha a João de Borba, e Chico Pedro foi disfarçadamente cevar mate perto de Juca Ruivo.

Dai a pouco, o parceiro que conversara com este, pediu-lhe que o substituísse um pouco na mesa, dando umas cartadas, enquanto ele sala fora.

Juca Ruivo tomou lugar; correram as cartas e ele examinando-as, largou-as na mesa e disse:

- Passo...

- A vida com mil trabalhos, resmungou Chico Pedro, como quem queria completar a frase de J. Ruivo, com aquela descaída agachada.

Este mediu com a vista o atrevido índio velho, mas, como não houvera ofensa direta, conteve-se, sempre reconcentrado.

Houve jogo e João de Borba arrastou a parada; contou depois a sua talha e apartou a outra que representava ganância, para continuar a jogar.

Correndo outra vez as cartas, Juca Ruivo, ou fosse porque não queria arriscar o interesse do seu amigo, ou porque não servisse a jogada, ou mesmo por esperá-lo, ainda não aceitou jogo e atirou com maus modos as cartas na mesa, dizendo:

- Passo...

- Por algum desgosto, disse o compadre Giloca, que lhe ficava na direita.

J. Ruivo, como já vimos estava de segunda tenção, mas também os outros estavam prevenidos.

Assim foi que virando-se para o impertinente aparteador, disse-lhe com rompante:

- Patrício, se lhe devo apresente a conta, porque não gosto que andem me pisando no poncho; nem me venham com ditos, porque sou potro que não agüento carona dura de ninguém.

E quase ao mesmo tempo que dizia isto, desfechou um tiro, à queima-roupa sobre o compadre Giloca, o qual ladeou rapidamente o corpo, indo a bala cravar-se na parede próxima.

Os contendores levantaram-se de um pulo, como impelidos por uma mola, e dentro da fumaça viu-se relampejar a folha afiada da adaga de Giloca, a qual caiu em cheio no rosto de Juca Ruivo, apanhando-lhe a orelha esquerda até o canto da boca.

Juca Ruivo entretanto, não se acobardou engatilhou outro cano da pistola, mas ao tempo de desfechá-la, o compadre Giloca manoteou-lhe no pulso, levantando-lho com força fazendo disparar a arma para cima, e no momento de encolher o braço para bandear o adversário, João de Borba o agarrou, evitando assim uma morte, ao mesmo tempo que outros arrastavam Chico Pedro para fora, porque este, ao cerrar-se o tumulto, como tigre cevado, tinha se ido logo ao sangrador de Juca Ruivo, e segurando-o pelos cabelos, com a faca levantada, queria degolá-lo.

A confusão foi geral entre os jogadores, e enquanto outros cuidavam de estancar o sangue ao ferido, os nossos viajantes saíram sem ninguém os incomodar, e favorecidos pela noite puderam tomar suas providências para seguirem viagem àquela mesma hora.

Estando prontos partiram, entrando Chico Pedro no seu papel de vaqueano. Disse que conhecia um vau abaixo do passo umas dez quadras e que era conveniente irem por ali e tomarem uns atalhos do outro lado até encontrarem novamente a estrada real, que devia ficar a uma e meia ou duas léguas.

Assim fizeram, saindo sem rumor, e caminhando de madrugada, foram amanhecer quase no entroncamento da estrada que os devia conduzir à fronteira.

Já com sol alto, ao treparem uma pequena coxilha, avistaram ao longe um grupo de 20 a 30 pessoas, a pé e a cavalo, que avançava vagarosamente no sentido oposto ao em que eles iam.

Em vista dos acontecimentos da noite os viajantes sentiram uns certos assomos de desconfiança, mas, pelo rumo que traziam os do grupo, em breve se fez a calma, quando o piá Nadico afirmou ter ouvido uns sons como toque de tambor e avistou entre as pessoas uma bandeira.

Era o Divino.

Deixemos por um momento a nossa comitiva, enquanto se aproxima do outro grupo e abramos um parêntesis para dizermos como se fazia naquele tempo o serviço do Divino.

Folia chamava-se, como se sabe, o ato de tirarem esmolas de casa em casa, pela campanha, e foliões os indivíduos que disso se ocupavam, - quase sempre quatro, representando uma comparsa de música sacra, do seguinte modo: alferes da bandeira, que era quem a carregava e era o chefe do serviço, desempenhando também a parte de tenor; um tocador de viola, outro de rabeca, que faziam de barítono e contrabaixo, e um que tocava tambor e cantava com voz de tiple. Este era sempre menino.

Às vezes acrescentavam um pandeiro.

Esta era a genuína folia, a dos antigos.

Os foliões eram sempre bem esperados e ainda melhor recebidos.

Os moradores, com as respectivas famílias, iam encontrá-los a uma certa distância, e a dona da casa tomava das mãos do alferes a bandeira, que empunhava com santo recolhimento, sem dizer nada aos recém-vindos.

Estes, com os chapéus presos pelos barbicachos passados no pescoço e pendentes sobre as costas, contratos, empoeirados e com as frontes crestadas ao sol das romarias, entravam nas casas tangendo seus instrumentos e cantando as trovas tradicionais da folia.

Primeiramente cantavam em peditório religiosamente ouvido, e era muito comum, por entre alguma pausa daquela ritmada melopéia, ouvirem-se devotos prantos arrancados pela comoção causada pelo santo visitador, na expressão da tosca mas sincera poesia daqueles tempos.

Aqui chegou o divino
que a todos vem visitar.
Vem pedir-vos uma esmola
pra o seu império enfeitar.

O divino esp'rito santo
não pede por carestia,
pede somente uma esmola
pra festejar o seu dia.

Calava-se a orquestra e ninguém movia-se, todos cheios de santo temor; o alferes da bandeira percorria o auditório recolhendo as esmolas numa salva qualquer e muitas vezes no próprio chapéu.

Então voltava ao seu lugar e dirigia o agradecimento:

O divino esp'rito santo
agradece a sua oferta
que lhe deram seus devotos
para fazer sua festa.

O divino agradece
aos senhores e senhoras,
e também aos inocentes
que lhe deram sua esmola.

Terminado o agradecimento, tinha então lugar a cerimônia de beijar a pombinha, os cumprimentos aos foliões, as felicitações destes aos donos da casa e os obséquios recíprocos.

Aí começavam as ofertas e trocas de fitas da bandeira, pagamentos de promessas, as medidas que tiravam para curar moléstias e afugentar demônios, e quantas outras cousas, segundo a crendice de cada um, acabando por fazer passear a bandeira por todos os compartimentos da casa e cobrir com ela algum doente, se havia.

Se a hora não permitia ir além, em seguida ao agradecimento cantavam:

A pombinha do Divino
de voar já vem cansada,
Vem pedir aos seus devotos
que lhe dêem uma pousada.

Os foliões nessa noite eram os reis da festa, alvos de todas atenções sendo quase sempre a sua estada motivo para animado baile.

No dia seguinte reencetava a caravana o seu itinerário, nunca sem cantar antes de sair:

O divino esp'rito santo
vai seguir sua jornada,
agradece os seus devotos
que lhe deram esta pousada

Se despeçam nobre gente,
que a pombinha do divino
vai seguir sua jornada
visitar outros vizinhos.

Os moradores acompanhavam a folia até longa distância e, se havia casa perto, iam até lá; e assim sucessivamente de casa em casa, iam os foliões percorrendo municípios e comarcas, arrecadando as dádivas dos devotos: dinheiro, jóias e coisas de valor, que tudo era meticulosamente entregue ao respectivo festeiro, sem quebra de um vintém, porque eles, além de honestos, eram sustentados à tripa forra pelos habitantes que os hospedavam.

Mas, o andar dos tempos devia trazer consigo grave transformação nestes costumes, e os foliões de hoje, de cuja probidade muita gente duvida, se não têm calos devem ter pelo menos bem bons arranhões na consciência no tocante à arrecadação.

O próprio sentimento religioso, quase apagado no coração popular, já não permite o mesmo uso de outrora a esses romeiros da crença, invadido como se acha pelo prurido das representações aparatosas.

Continuando diremos que os foliões exerciam o seu dever mesmo em pleno campo ou estrada, se encontravam andantes.

Foi em tais condições que a nossa comitiva encontrou afolia.

Aí, todos descobertos, formados em grande círculo, após o costumeiro canto, deram os viajantes as suas esmolas com o espírito voltado para o resto de uma viagem feliz, com ajuda divina, e prosseguiram tranqüilos o seu caminho, indo pernoitar perto da linha divisória da Banda Oriental, cujo território deviam pisar no dia seguinte.