Rimas (Francisco Álvares de Nóbrega)/Notícia biográfica

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Rimas por Januario Justinianno de Nobrega
Notícia biográfica


Reimprimindo as Rimas de meu tio Francisco Alvares de Nobrega, julguei accertado dar uma succinta idêa da sua vida.

Oriundo da villa de Machico d’esta ilha da Madeira, nasceu, em 1773 , no berço onde o pequeno nasce. [1] Veiu para esta cidade, e acolhido pelo Sur-Marcos João d'Ornellas, recebeu em casa d’este a primeira educação. [2] Descubriu-se-lhe talento, votárão-no á carreira litteraria, e entrou — seminarista — no collegio de São João Evangelista.[3] Já o arrebatava então o amor das Musas, para que a Natureza o havia creado [4]; mas a desgraçada tendencia para a satyra grangeou-lhe o odio do Bispo d'esse tempo, D. José da Costa Torres, que não era das melhores compleições, e que se constituiu seu implacavel inimigo.

Para um mancebo obscuro, que segue a vida ecclesiastica, o odio do seu Prelado não é pouco. Sobrevierão-lhe, em consequencia, não pequenos desgostos, que, mais tarde, pela transferencia d'esse Bispo para a Diocese d'Elvas, desafogou , para maior desdita sua, em algumas composições poéticas.[5]

Acabados aqui os seus estudos, ardor d'approveitar-se em patria alheia [6]o transportou a Lisboa, para melhor proseguir na sua carreira; mas o Bispo d'Elvas,[7] cujo odio a sua victima havia exacerbado, pôde-lhe fazer lá tal perseguição que o levou á Cadêa do Limoeiro, onde jazeria por muito tempo, se não invocasse o poderoso valimento do novo Bispo Funchalense, D. Luiz Rodrigues Villares, [8]alma pia, verdadeiro contraste de seu antecessor.

Foi posto em liberdade; mas o resto de sua vida, salvo curto intervallo em que ía, como poeta, ganhando celebridade, foi uma longa cadêa d’infortúnios.

Antagonista do fanatismo que então reinava, foi perseguido pela Inquisição, gemendo, como Bocage, nos seus carceres, e ultimamente , pela segunda vez, no Limoeiro d'onde lhe conseguirão soltura os quinze famosos Sonetos com que soube tocar o animo do Monarca.

Já a este tempo o affligia a molestia fatal, que veda a quem a soffre dar a mâo d'amigo, tractar os seus similhantes ;[9] e, aborrido da vida, cançado de luctar com a adversidade, curtindo, longe dos seus, acerbas angustias, no meio de penosas privações, aos 34 annos d'idade, achou que devia cortar o fio da existência, consumando o que já tinha revelado ao seu amigo e bemfeitor Manoel José Moreira Pinto Baptista.[10]

Levantou a propria eça no silencio da noite; rodeou-se dos livros a que consagrava as longas horas d'insomnia; pôz á cabeceira os seus escriptos, e libando , como Socrates, a bebida fatal, adormeceu no seio da Eternidade!

No dia seguinte familiares do sancto officio arrombavão a porta da habitação; —sahiu por ella o cadaver e depois os familiares, um dos quaes sobraçava um embrulho. Erão os escriptos do poeta infeliz, que a Inquisição arremessou ás suas fogueiras porque muitos d'elles erão brados d'execração contra ella!

Funchal 31 de Maio de 1850.
Januario Justinianno de Nobrega.

Notas[editar]

  1. Soneto — pagina 83.ª.
  2. pag: 21.ª.
  3. pag: 58.ª.
  4. pag: 59.ª.
  5. D'ellas, chegou ás minhas mãos o soneto que transcrevo. Achal-o-ha demasiado virulento quem não souber que o sollicito Pastor desterrou muitas das suas ovelhas, entregando-as á lôba da Inquisição: « São pedreiros-livres, dizia o sancto homem, inimigos do throno e do altar!... »

    » Alviçaras, Funchal, da oppressa frente
          » Arranca em fim o ramo d’acypreste;
          » As alvas roupas da alegria veste;
          » As faces banha de prazer vehemente!

    « O flagello tenaz da humana gente,
          » Mais terribil que fome, guerra e peste,
          » Por Decreto fatal da Mão celeste
          » A seu pezar te deixa em paz contente!

    « Era um sancto Varão!... viver devia
          » Lá no callado horror das mudas selvas,
          » Onde nem sequer visse a luz do dia;

    « Brutas feras tractar, manter se em relvas,
          » Esse aborto da torpe hypocrisia
          » O Bispo do Funchal, eleito d'Elvas.

  6. Soneto — pag: 90.
  7. Torres
  8. Soneto — pag: 11.
  9. Pag. 146.
  10. pag: 66.