Senhora/Posse/IX

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Senhora por José de Alencar
Posse — Capítulo IX


Seixas surpreso e agitado pela proposição da moça, refletiu um momento.

O resultado dessa reflexão foi aproximar-se da mulher, ocupada nesse momento a ver os peixinhos vermelhos do tanque fervilharem à tona d’água para devorar os bocados de um jambo com que ela os tentava.

— Estes peixes agora a divertem; disse Fernando. Se amanhã a aborrecerem, mandará que os deitem fora, e que os deixem morrer à fome?

A moça ergueu para o marido os olhos cheios de surpresa.

— Talvez nunca lhe acontecesse refletir sobre este problema social, continuou Fernando. O senhor tem o direito de despedir o cativo, quando lhe aprouver?

— Creio que ninguém porá isso em dúvida, respondeu Aurélia.

— Então entende que depois de privar-se um homem de sua liberdade, de o rebaixar ante a própria consciência, de o haver transformado em um instrumento, é lícito, a pretexto de alforria, abandonar essa criatura a quem seqüestraram da sociedade? Eu penso o contrário.

— Mas que relação tem isso?...

— Toda. A senhora fez-me seu marido; não me resta outra missão neste mundo; desde que impôs-me esse destino sacrificou meu futuro, não tem o direito de negar-me o que paguei tão caro, pois o paguei a preço de minha liberdade.

— Essa liberdade, eu a restituo.

— E pode restituir-me com ela o que perdi alienando-a?

— Receia talvez o escândalo que produzirá o divórcio. Não há necessidade de publicarmos nossa resolução; podemos viver inteiramente estranhos um ao outro na mesma cidade, e até na mesma casa. Se for preciso, temos o pretexto das viagens por moléstia, da mudança de clima, do passeio à Europa.

— A senhora fará o que for de sua vontade. A minha obrigação é obedecer-lhe, como seu servo, contanto que não lhe falte com o marido que a senhora comprou.

Aurélia fitou no semblante de Seixas um olhar soberano:

— Acredita que eu possa mudar de sentimentos para com o senhor?

— Não tenha esse receio. Se eu não estivesse convencido que o amor entre nós é impossível, não estaria aqui neste momento.

Estranho sorriso iluminou a fronte de Aurélia, que vibrou com um gesto de sublime altivez.

— Qual é então o motivo por que não aceita o que lhe ofereço?

— O que a senhora me oferece custou-lhe cem contos de réis, e receber esmolas desse valor é roubar ao pródigo que as deita fora.

— Como quiser! disse Aurélia desdenhosamente. O senhor pensa decerto que sua presença me incomoda, e por isso lhe sorri a idéia de impô-la como uma contrariedade. Engana-se; pode ficar; não era por mim, mas por si mesmo que oferecia-lhe a separação. Rejeita-a? Melhor; não poderá queixar-se pelo que venha a acontecer.

Apesar da recusa de Seixas, suas relações com Aurélia tornaram-se desde aquela tarde mais esquivas. A moça já não caprichava como nas primeiras semanas em passar a maior parte do tempo na companhia do marido. Este de seu lado, receando tornar-se importuno, conservava-se arredio enquanto a mulher não manifestava o desejo de tê-lo perto de si.

Dias houve em que não se viram. Seixas saía muito cedo para a repartição; Aurélia ia jantar com alguma amiga; só no outro dia às 4 horas da tarde se encontravam de novo.

Essas tardes em que Fernando ficava sozinho em casa, pois D. Firmina acompanhava Aurélia, ele as aproveitava para ir ver a mãe, que ainda habitava na mesma casa da Rua do Hospício.

Excitava reparo entre os conhecidos de D. Camila, que o filho a deixasse na vida obscura e necessitada, em vez de chamá-la para sua companhia, ou pelo menos de ajudá-la a passar com outra decência e abastança.

D. Camila não se queixava; mas apesar de seus extremos por aquele filho, e da abnegação de sua ternura, tinha estranhado consigo, que Fernando depois de casado, não pensasse em dar às irmãs uma lembrança qualquer.

Mui raras vezes aparecia Fernando em casa da mãe, e de passagem. Nisso não reparava D. Camila; embora lamentasse que a posição do filho e seus deveres sociais não lhe permitissem possuí-lo por mais tempo.

Mariquinhas a princípio excitava a mãe para irem à casa de Seixas nas Laranjeiras e até para lá passarem um dia. A mãe desabituada à sociedade receava-se da crítica de Aurélia. Todavia essa razão não a demoveria se Fernando insistisse; porém ele ao contrário fez-se desentendido e desconversou aos primeiros rodeios da irmã.

Não passou desapercebida a Aurélia essa esquivança da família do marido. Uma tarde em que Seixas recebeu à sua vista um bilhete de Nicota, ela o interpelou:

— Sua família depois da noite de nosso casamento nunca mais voltou a esta casa? Será por meu respeito?

— Não; o culpado sou eu que nunca lhes falei nisso.

— E por quê?

— Julgam-me feliz. Não quero roubar-lhes essa doce ilusão.

— Aqueles que nos visitam e que freqüentamos não andam iludidos?

— São indiferentes. Olhos de mãe lêem n’alma do filho como em livro aberto; aquilo o que não vêem, adivinham.

— Quer fazer uma aposta?

— Sobre?

— Sou capaz de enganá-la como tenho enganado a todos.

— É possível; ela não é sua mãe.

O bilhete de Nicota comunicava a Fernando o dia que fora marcado para seu casamento, o qual celebrou-se na seguinte semana, em um sábado conforme o uso geral.

Seixas ocultou da mulher essa particularidade. Na tarde em que devia ter lugar o casamento, saiu de casa a pretexto de fazer uma visita a um ministro, e assistiu à cerimônia. Levara à irmã uma jóia; mas de valor insignificante para sua riqueza.

Essa mesquinheza junta à circunstância de apresentar-se a pé, fizeram suspeitar às pessoas presentes que a imprevista opulência abalara o caráter de Seixas a ponto de transformá-lo de perdulário que era, em refinado avarento.

Outro casamento efetuou-se por esse tempo! Foi o do Dr. Torquato Ribeiro com Adelaide Amaral.

Dias antes, o noivo recebeu por intermédio de Lemos um recado de Aurélia, que pedia-lhe o seu recibo de cinqüenta mil-réis, pois chegara a ocasião de pagá-lo. Foi Ribeiro às Laranjeiras, cogitando na surpresa que a moça lhe preparava.

— Aqui tem o que lhe devo; as três cifras são o presente de Adelaide.

Ribeiro abriu o papel; era uma letra ao portador de cinqüenta contos passada pelo Banco do Brasil. Ele fez um gesto de recusa; a moça atalhou-o.

— Não tem o direito de rejeitar. Foi o preço da minha felicidade. Meu tio garantiu ao Amaral que o senhor possuía este dinheiro, sem o que ele não consentiria em desfazer o casamento da filha com Fernando, e este não seria meu marido.

— Como lhe havemos de pagar nunca tamanho benefício? disse o moço comovido.

— Sendo feliz, respondeu Aurélia.

— Basta-me ser tanto como a senhora.

— Como eu?

— Sim; não é tão feliz?

— Muito; como não pode imaginar!

Aurélia serviu de madrinha a Adelaide, e Seixas foi obrigado a assistir a esse casamento, que desdobrava-lhe por assim dizer diante dos olhos um passado a que ele em vão tentava subtrair-se. Ali estavam juntas, diante do altar, duas mulheres a quem ele traíra sucessivamente, e não arrebatado da paixão, mas seduzido pelo interesse.

Quando absorto em suas cogitações, abandonava-se à melancolia daquelas reminiscências, Aurélia que se aproximara, murmurou-lhe ao ouvido:

— Mostre-se alegre. Quero que todos, mas principalmente esta mulher, acreditem que sou feliz e muito. O senhor deve-me ao menos esta ridícula satisfação em troca do que roubou-me.

Tomando o braço de Seixas, e reclinando-se com esse voluptuoso orgulho da mulher que se rende a um imenso amor, dirigiu-se à porta da igreja onde a esperava o seu carro.

Nesse momento, como durante a noite em casa do Amaral, não houve quem não invejasse a felicidade do par formoso que Deus havia acumulado de todos os dons, de formosura, de graça, de mocidade, de amor, de saúde e de riqueza.

Tinham tudo isto, e não passavam de dois infelizes! Essa festa alegre e aparatosa, ninguém imaginava que suplício era para essas duas almas, que estavam queimando-se nas luzes da sala e dilacerando-se nos sorrisos que desfolhavam dos lábios.

No dia seguinte, domingo, Aurélia deixou-se ficar em seu aposento, e até quarta-feira não viu o marido.

Nem D. Firmina, nem os fâmulos, desconfiaram do fato, embora suspeitassem de algum estremecimento entre os noivos.

Como nessas ocasiões, o marido e a mulher encerravam-se cada um de seu lado; as pessoas da casa, ignorantes do interdito a que fora condenada a câmara nupcial, presumiam que eles se correspondessem por essa comunicação interior.

Estas esquivanças de Aurélia repetiram-se muitas vezes daí em diante: Seixas percebeu que ela o evitava, e desconfiou que sua presença começasse a importuná-la. Não se enganava. Desde que a moça não achava mais em si a irritação e o sarcasmo, em que a princípio se deleitava seu coração, a aproximação do marido a oprimia.

Seixas não a contrariava. Conservando-se em casa ao alcance da voz e ao aceno da mulher, poupava-lhe o desgosto de o ver.

Entrava isso na resolução que havia tomado, mas não era sem grande esforço e luta acérrima, que obtinha de si permanecer ao lado dessa mulher para a qual se havia tornado, ele o sentia, verdadeiro flagelo.

Uma razão poderosa o retinha, devemos supor, e tão forte que subjugava a todo o instante a revolta de seus brios, magoados pela aversão cheia de desdém da qual era alvo.

Desse tempo data a agitação em que laborou ele à busca de um recurso para subtraí-lo à terrível colisão. Todas as idéias que lhe sugeria seu espírito alvoroçado, ele as aceitava com sofreguidão, para logo as rejeitar com desânimo.

Afinal decidiu-se. Antes de ir à repartição procurou Lemos, com quem só de passagem se encontrara depois do casamento. O velho recebeu-o com o seu modo folgazão:

— Que honraria, meu amigo! Esta pobre casa não o merecia!

— Tinha necessidade de falar-lhe! respondeu Seixas.

O velhinho piscou os olhos. Ele adivinhava que o moço não o tinha procurado àquela hora, para fazer-lhe uma visita de cortesia.

— Desejava consultá-lo, continuou Seixas hesitando. Consta-me que as apólices vão baixar consideravelmente, e que seria um bom negócio vendê-las neste momento para comprá-las mais tarde, talvez daqui a dois meses.

— Não é mau; porém há outro melhor neste momento, disse Lemos.

— Qual?

— Vender libras esterlinas.

— Não as possuo.

— Isso não impede.

— Não entendo.

— Venda a entregar no fim do mês, pelo preço de 12$. Nesse tempo elas baixam a 10$ com certeza, e o senhor ganha em quinze dias sem despender um real, uns contos de réis que não fazem mal a ninguém.

— Agora compreendo. Dez mil libras deixariam...

— Vinte contos.

— E se ao contrário subirem?

— Perde a diferença.

— Aí está o risco.

— Só há um meio de ganhar sem risco; é o de não pagar.

Seixas despediu-se, apesar das instâncias de Lemos, que desejava levá-lo à Praça do Comércio.

Nesse mesmo dia encontrou Abreu que depois de ter esbanjado a herança, dera em jogador, e vivia segundo era fama, da banca. Pela conversa que tiveram os dois ficou o marido de Aurélia sabendo a rua e número de uma casa onde todas as noites havia reunião plena dos amantes da roleta.

Nessa noite Seixas saiu furtivamente de casa, e chamando um tílburi dirigiu-se para a cidade. Quando porém transpunha o limiar da porta, por onde se penetrava na Cova do Caco, tomou tal horror, que deitou a fugir pela rua, e não parou senão em casa.