Senhora/Quitação/III

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Senhora por José de Alencar
Quitação — Capítulo III


Não tardou que a notícia da menina bonita de Santa Teresa se divulgasse entre certa roda de moços que não se contentam com as rosas e margaridas dos salões, e cultivam também com ardor as violetas e cravinas das rótulas.

A solitária e plácida rua animou-se com um trânsito desusado de tílburis e passeadores a pé, atraídos pela graça da flor modesta e rasteira, que uns ambicionavam colher para a transplantar ao turbilhão do mundo; outros apenas se contentariam de crestar-lhe a pureza, abandonando-a depois à miséria.

Os olhares ardentes e cúpidos dessa multidão de pretendentes, os sorrisos contrafeitos dos tímidos, os gestos fátuos e as palavras insinuantes dos mais afoutos, quebravam-se na fria impassibilidade de Aurélia. Não era a moça que ali estava à janela; mas uma estátua, ou com mais propriedade, a figura de cera do mostrador de um cabeleireiro da moda.

A menina cumpria estritamente a obrigação que se tinha imposto, mostrava-se para ser cobiçada e atrair um noivo. Mas, além dessa tarefa de exibir sua beleza, não passava. Os artifícios de galanteio com que muitas realçam seus encantos; a tática de ratear os sorrisos e carinhos, ou negaceá-los para irritar o desejo, nem os sabia Aurélia, nem teria coragem para usá-los.

Depois de uma hora de estação à janela, recolhia-se para começar o serão da costura; e de todos aqueles homens que haviam passado diante dela com a esperança de cativar-lhe a atenção, não lhe ficava na lembrança uma fisionomia, uma palavra, uma circunstância qualquer.

No primeiro mês a investida dos pretendentes não passou de uma escaramuça. Rondas pela calçada, cortejos de chapéus, suspiros ao passar, gestos simbólicos de lenço, algum elogio à meia voz, e presentes de flores que a menina rejeitava; tais eram os meios de ataque.

Breve, porém, começou o assalto em regra; e quem abriu o exemplo foi pessoa já muito nossa conhecida, e da qual não se podia esperar semelhante desembaraço.

O Lemos, que andava sempre metido na roda dos rapazes, veio a saber do aparecimento da bisca da Rua de Santa Teresa. Entendeu o árdego velhinho, que em sua qualidade de tio, cabia-lhe um certo direito de primazia sobre esse bem de família.

Entrou na fieira, e à tarde fazia volta pela Rua de Santa Teresa para conversar um instante com a sobrinha, a quem desde o primeiro dia se dera a conhecer.

Aurélia teve grande contentamento por ver o tio. A afabilidade com que lhe falara ele, encheu-a da esperança de uma próxima reconciliação com a família.

Temendo a oposição do pundonor ofendido de sua mãe, ocultou dela a ocorrência.

Nos dias seguintes medrou a esperança da menina. A estada à janela deixara de ser-lhe intolerável; já havia um interesse que a demorava ali, a espiar o momento em que apontasse o tio no princípio da rua.

Ela que não tinha para os mais elegantes cavalheiros um pálido sorriso, achou de repente em si para seduzir o velhinho, o segredo da gentileza e faceirice, que é como a fragrância da mulher formosa.

O restabelecimento das relações entre D. Emília e o irmão interessava Aurélia mui intimamente. Assegurando-lhe um arrimo para o futuro, essa conciliação não só restituiria o sossego à mãe, como lhe pouparia a ela essa espera ao casamento, que era para a pobre menina uma humilhação.

Foi para a turba dos apaixonados arruadores grande assombro e maior escândalo, esse de verem todas as tardes, recostado insolentemente à janela de Aurélia, o rolho velhinho, conversando e brincando na maior intimidade com a menina. Ignorantes do parentesco, atribuíam essas liberdades a uma preferência inexplicável; pois o Lemos, notoriamente pobre, se não arrebentado, carecia do condão, que dispensa todas as virtudes, o dinheiro.

O sagaz do velhinho tratou de aproveitar a disposição de ânimo da sobrinha, antes que alguma circunstância fortuita viesse perturbar essas relações íntimas, por ele tecidas com habilidade.

Uma tarde, depois de ter borboleteado com Aurélia, como de costume, fazendo-a rir com suas facécias, despediu-se deixando entre as mãos da sobrinha uma carta, faceira, de capa floreada, com emblema de miosótis no fecho.

Recebeu-a Aurélia ao de leve surpresa; mas logo acudindo-lhe uma idéia, guardou-a no seio palpitante de esperança, que enchia-lhe a alma. Essa carta devia ser a mensageira da conciliação por ela tão ardentemente desejada. Ao fechar da noite correu à alcova para a ler.

Às primeiras palavras foi-lhe congelando nos lábios o sorriso que os floria, até que se crispou em um ofego de ânsia. Quando terminou, jaspeava-lhe a fisionomia essa lividez marmórea, que tantas vezes depois a empanava, como um eclipse de sua alma esplêndida.

Dobrou friamente o papel, que fechou em seu cofrezinho de buxo, e foi ajoelhar-se à beira da cama, diante do crucifixo suspenso à cabeceira.

Como a andorinha, que não consente lhe manche as penas a poeira levantada pelo vento, e revoando molha constantemente as asas na onda do lago, assim a alma de Aurélia sentiu a necessidade de banhar-se na oração, e purificar-se do contacto em que se achara com essa voragem de torpeza e infâmia.

A carta do Lemos era escrita no estilo banal do namoro realista, em que o vocabulário comezinho da paixão tem um sentido figurado, e exprime à maneira de gíria, não os impulsos do sentimento, mas as seduções do interesse.

O velho acreditou que a sobrinha, como tantas infelizes arrebatadas pelo turbilhão, estava à espera do primeiro desabusado, que tivesse a coragem de arrancá-la da obscuridade onde a consumiam os desejos famintos, e transportá-la ao seio do luxo e do escândalo. Apresentou-se pois francamente como o empresário dessa metamorfose, lucrativa para ambos; e acreditou que Aurélia tinha bastante juízo para compreendê-lo.

Quando, no dia seguinte à entrega da carta, notou que a rótula fechava-se obstinadamente à sua passagem, conheceu o Lemos que tinha errado o primeiro tiro; mas nem por isso desacoroçoou do projeto.

— Ainda não chegou a ocasião! pensou ele.

O velho rapaz arranjara para seu uso, como todos os homens positivos, uma filosofia prática de extrema simplicidade. Tudo para ele tinha um momento fatal, a ocasião; a grande ciência da vida portanto resumia-se nisto: espiar a ocasião e aproveitá-la.

Entendeu lá para si que o moral da sobrinha não se achava preparado para a resolução que devia decidir de seu destino. Esse coração de mulher ainda estava passarinho implume; quando lhe acabassem de crescer as asas, tomaria o vôo e remontaria aos ares.

O que lhe cumpria, a ele Lemos, era espreitá-la durante a transformação, para intervir oportunamente; e dessa vez tinha certeza de que não falharia o alvo.

O exemplo do velho estimulou os mais animosos. Um deles, confiando na audácia, pôs em sítio a rótula, especialmente à noite, quando Aurélia cosia à claridade do lampião, junto ao aparador.

Pelas grades ia o conquistador insinuando súplicas e protestos de amor, com que perseguia a moça, insistindo para que lhe acudisse à rótula ou lhe recebesse mimos e cartinhas. Após este seguiam-se outros.

Conservava-se Aurélia impassível, e tão alheia a essas competências, que parecia nem ao menos aperceber-se delas. Algumas vezes assim era. Distraía-se com suas preocupações de modo que ficava estranha aos rumores da rua.

Todavia aquelas importunações a incomodavam, e sobretudo a insultavam; como não cessassem, acabaram por inspirar-lhe uma resolução em que já se revelavam os impulsos do seu caráter.

Certa noite, em que um dos mais assíduos namorados a impacientou, ergueu-se Aurélia mui senhora de si e dirigiu-se à rótula, que abriu, convidando o conquistador a entrar. Este, tomado de surpresa e indeciso, não sabia o que fizesse, mas acabou por aceder ao oferecimento da moça.

— Tenha a bondade de sentar-se, disse Aurélia mostrando-lhe o velho sofá encostado à parede do fundo. Eu vou chamar minha mãe.

O leão quis impedi-la, e não o conseguindo, começava a deliberar sobre a conveniência de eclipsar-se, quando voltou Aurélia com a mãe.

A moça tornou à sua costura, e D. Emília sentando-se no sofá travou conversa com sua visita.

As palavras singelas e modestas da viúva deixaram no conquistador, apesar da película de ceticismo que forra essa casca de bípedes, a convicção da inutilidade de seus esforços. A beleza de Aurélia só era acessível aos simplórios, que ainda usam do meio trivial e anacrônico do casamento.

Este incidente foi o sinal de uma deserção que operou-se em menos de um mês. Toda aquela turba de namoradores debandou em roda batida, desde que pressentiu os perigos e escândalos de uma paixão matrimonial.

Assim recobrou Aurélia sua tranqüilidade, livrando-se do suplício, que lhe infligiam aquelas homenagens insultantes.

Agora, quando ficava na janela para satisfazer aos desejos de sua mãe, já não lhe custava essa condescendência tão amargo sacrifício. Sua natural esquivança era bastante para afastar as veleidades dos refratários. Esses ainda não se tinham desquitado ao todo da esperança de inspirar alguma paixão irresistível, das que domam a mais austera virtude.