Sol, que estando abreviado

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Soliloquio de Me. Violante do Ceo ao Divinissimo Sacramento: glozado pelo poeta, para testemunho de sua devoção, e credito da veneravel religiosa. por Gregório de Matos
II
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsPessoas Muito Principais
Mote

Sol, que estando abreviado
nesse cândido Oriente,
abonais o mais ardente,

ostentando o mais nevado.

  
1Sendo Sol, que dominais
dos céus a máquina fera,
em tão limitada esfera,
como esse Sol ostentais?
creio, que a entender nos dais,
meu Redentor extremado,
que em lugar tão limitado
só o amor caber se atreve
como num círculo breve
Sol, que estando abreviado

2em nesse lugar tão breve
vemos com tanto arrebol
abrasar-se tanto sol
nos epiciclos da neve:
muito a vosso amor se deve,
pois como Sol no nascente
pelo cristal transparente
divinamente ilustrais,
e todo vos abrasais
Nesse cândido Oriente.

3Todo neve na brancura,
todo sol, no que brilhais,
como sol nos abrasais,
sendo neve na frescura:
mas tanto o divino apura
no cristal o transparente,
que ali fazendo patente
o quanto estais empenhado,
de fino amor abrasado
Abonais o mais ardente.

4Nascem desempenhos tais
desses divinos primores,
que em requintados amores
todo a nós nos dedicais:
mas bem que vos empenhais,
vejo-vos mui bem trajado
nessa gala de encarnado,
que tomastes de Maria,
agora por bizarria
Ostentando o mais nevado.