Sonhos D'ouro/X

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Sonhos D'ouro por José de Alencar
Capítulo X

Enquanto sucediam estes fatos, Ricardo, a causa involuntária deles, estava bem tranquilo em casa de D. Joaquina.

De volta do passeio, saboreou com o amigo o frugal almoço da boa senhora. Ainda estavam à mesa galhofando e rindo, quando ouviram o som do búzio, e pouco depois apareceu-lhes o Simão pescador, alegre, corado e bem disposto.

Trazia várias celhas de cipó cheias de peixe; uma delas era destinada a D. Joaquina, a quem a Gertrudes a mandava de presente.

— Oh! já está bom? perguntou-lhe Ricardo.

— Ora, senhor; para bem dizer, não tinha moléstia; andava banzeiro; mas a moça me trouxe felicidade. Depois daquele dia em que ela ralhou comigo, o senhor bem viu, não há mãos a medir. É peixe tanto, que a rede quase não aguenta.

— Está bom; estimo muito!

Depois de algumas palavras trocadas com a velha, o pescador despediu-se:

— Adeus, sinhá dona. Ainda vou levar este peixe à casa do comendador, o pai da moça. Bom freguês!

Este fato deixou alguma impressão no espírito de Ricardo, que lembrou-se da cena a que assistira domingo passado. Haverá criaturas abençoadas, que tenham o dom de comunicar aos outros sua influência propícia? pensou o moço.

Tendo a presença do pescador despertado a lembrança de Guida, Ricardo contou a Fábio o seu encontro pela manhã e o incidente da flor.

— Bem, creio que sempre tomamos a praça de assalto! exclamou Fábio.

— Não abandonas tua ideia!

— Ora, se fosse comigo o encontro desta manhã, agora estaria eu almoçando em casa do Soares.

— E de que te servia isto?

— De quê?... É bom que o dinheiro vá-se acostumando conosco, e o meio é chegarmo-nos àqueles que o têm.

— Receio ao contrário que nossa pobreza o importune, indo procurá-lo no meio do luxo.

A discussão prolongou-se. Os dois amigos ainda estavam empenhados nela quando chegou o Daniel com a incumbência que sabemos. Ricardo, a princípio surpreso pelo convite que não esperava, não hesitou na resposta que o português transmitiu a Guida. Fábio tomando o amigo de parte instou com ele para aceitar a fineza do capitalista; mas nada obteve.

— Decididamente, assim não iremos para diante; é desenganar, disse Fábio muito contrariado.

— Não tens razão; é justamente assim que podemos merecer consideração, não aceitando uma posição menos digna. Reflete bem: que figura ridícula não havíamos de fazer naquela sociedade?

— A mesma que fazem os outros. Nem todos que frequentam a casa do Soares, são ricos.

— Decerto; mas os que não têm um tratamento correspondente ou são amigos ou parasitas. Nenhum destes papéis nos cabe.

Fábio levantou os ombros. Tornou-lhe Ricardo:

— Não sou desses homens que ostentam um desprezo fingido pelo dinheiro e odeiam os favoritos da fortuna. Ao contrário, quando a riqueza é honestamente adquirida, eu a respeito e estimo, porque representa a meus olhos o fruto, tão legítimo como brilhante, do trabalho; mas em caso algum lhe sacrificarei minha dignidade; não me farei cortesão dessa como de qualquer outra grandeza da terra. O lisonjeiro para mim é um eunuco moral.

— Então um pobre não pode sem bajulação ter relação com pessoas ricas? Que doutrina!

— Sem dúvida que pode, quando se estabelece uma certa igualdade social por virtude de alguma causa, como, por exemplo, a amizade, o parentesco, uma posição elevada, a consideração pública, etc. Um escritor notável, embora nada tenha de seu, pode aceitar a hospitalidade do milionário, porque trata de igual a igual: se este é rei na praça, ele é rei na imprensa. Sua presença, assim como a de todas as outras pessoas distintas, é honra que os ricos solicitam.

— Nesse caso, tu que tens talento e escreves bem, devias aceitar o convite; era uma honra que fazias ao Soares.

— Obrigado pela ironia.

— Onde está a ironia?

— Somos dois pobretões obscuros; eu podia acrescentar de minha parte, e desconhecido, porque realmente o sou nesta grande cidade. Em casa de um milionário, no meio de uma sociedade habituada ao luxo e às grandezas, qual seria nossa posição? Creio que a classifico bem dizendo que faríamos o ponto de transição entre o parasita e o criado; formaríamos o elo desses dois anéis da cadeia.

— Com efeito! Modéstia tão requintada degenera em orgulho. Entendes que não sendo dos primeiros, te rebaixas?

— É outra fragilidade que eu não tenho, Fábio, esse fofo orgulho da pobreza, que serve de forro a um fingido desprezo da riqueza. Não me envergonho de ser pobre, de parecê-lo e confessar em qualquer ocasião; mas estou longe de fazer da minha pobreza uma espécie de dorna de Diógenes. A falta de dinheiro pesa-me, sem contudo me acabrunhar; e justamente porque ela me pesa, me elevo mais em minha consciência, sentindo-me incapaz de cobiçar a fortuna adquirida por meios ilícitos. Estás portanto enganado, meu amigo; não tenho orgulho, mas dignidade.

— É a mesma cousa com diverso nome.

— Não: o orgulho é um impulso para elevar-se acima dos outros; a dignidade é a firmeza, que não consente descer da posição que nos compete. Ora, cada degrau que eu subisse da escada do Soares, era um passo que descia do meu nível. Isolado no meio de tantos convidados, desconhecido naquela sociedade habitual, perguntariam: “Que veio aqui fazer este sujeito? — Prestou um pequeno serviço à filha do comendador, responderia algum íntimo; se fosse um criado, dava-se uma gorjeta; mas como é um pobre bacharel, convidaram-no a jantar.”

— Tu não conheces a sociedade do Rio de Janeiro; nunca a frequentaste. Julgas por São Paulo, ou por informações falsas.

— Conheço-a melhor do que tu, pela razão do provérbio “que no olho dos outros vê-se o argueiro, e não se enxerga no nosso o cavaleiro”. Bem sei que esses intrusos de que falo muitas vezes, não só obtêm a tolerância, como se tornam necessários; tocam quadrilhas, fazem dançar as feias, ou exaltam as virtudes dos donos da casa. São os criados de galão amarelo dos ricaços e banqueiros, ou um móvel de palácio, necessário à comodidade e ao bem-estar, como um sofá de estofo, um tapete aveludado, uma cadeira de balanço. Um traste, bem vês, que não tem consciência do papel que representa; sai dali o tocador de quadrilhas, por exemplo, acreditando que é um amigo da casa, e dos mais estimados.

— Se todos pensassem como tu, não haveria sociedade possível.

— Se todos pensassem como eu, a sociedade não seria o que é hoje, uma floresta negra, onde o salteador de luva de pelica assalta o homem honesto; onde o assassinato e o roubo tomam tantas vezes o nome de casamento por amor e de aliança por amizade.

Já se vê pois quanto era difícil a missão de que estava incumbido o Guimarães. Segundo todas as probabilidades, o filho do procurador não escaparia naquele domingo ao recrutamento a que a Guida o condenara no caso de não apresentar substituto idôneo. Tinha de sentar praça de cavaleiro servente de Mrs. Trowshy, pelo resto do dia.

Para destruir os escrúpulos porventura exagerados de Ricardo, e demovê-lo de sua primeira resolução, fora preciso um espírito hábil e atilado, que sondasse os motivos de sua recusa e os abalasse. Ora, o Guimarães era a mais positiva denegação dessas qualidades; só tinha viveza para as frioleiras; incapaz de sentir, como de compreender as nobres suscetibilidades da alma do colega, nunca poderia desvanecer-lhe a repugnância.

Ao contrário, nenhum tipo tão próprio para arredar cada vez mais o jovem advogado da casa do Soares! O enfatuamento da riqueza, a impertinência do herdeiro a quem a vida do pai retarda o gozo da legítima, a ambiguidade dessa posição no meio de um passado de dívidas e de um futuro de dissipação faziam daquele moço o contraste vivo de quanto há de delicado no coração e de sensato no espírito.

A presença, a simples presença daquele boneco, a torcer constantemente o bigodinho, e a mirar-se todo em si mesmo, quando não encontrava um espelho, produzia em um homem sério o efeito de uma lixa moral: erriçava a epiderme d'alma. Essa fora a impressão que pela manhã, na ocasião do passeio, o Guimarães deixara no ânimo do colega, apesar de trocarem apenas algumas palavras.

Guida, pois, tinha errado. Querendo apressar a apresentação de Ricardo, talvez a tivesse impedido. Se o Guimarães não fosse à procura do moço, porventura um concurso de circunstâncias levaria o jovem advogado à casa do comendador. Entretanto, agora, quem sabe se a situação não se agravou, e a dificuldade mudou-se em impossibilidade? A moça não podia prever todos os escrúpulos de Ricardo; supunha que o obstáculo provinha apenas de uma questão de forma. Entretanto, cumpre confessá-lo, não tinha ela plena confiança na intervenção de Guimarães; o que até então lhe parecera tão usual, uma simples apresentação, agora se afigurava a seu espírito como um acontecimento, e quase tomava as proporções de um lance dramático.

O Dr. Nogueira, sentando-se perto dela, tomara sobre a mesa um álbum de paisagens da Suíça.

— Não tem vontade de passear à Europa, D. Guida? disse ele folheando o álbum.

— Muita; por meu gosto já teria ido; mas papai prometeu-me que nestes três anos me levaria.

— Há de ir antes, disse uma senhora sorrindo.

— É verdade! acudiu outra que tinha compreendido a malícia da observação. E sem o comendador!

O futuro deputado abaixara a cabeça, e parecia completamente absorvido em ver as estampas. Recordava-se do incidente da flor, e não queria provocar segundo motejo, quando procurava apagar a impressão do primeiro.

— Não entendo! dissera Guida fitando seu límpido olhar no semblante da senhora.

— Casando-se, Guida. Agora é moda; as moças que podem vão passar a lua de mel em Paris.

— É bem possível que me case antes de três anos, D. Guilhermina; mas asseguro-lhe que não me lembro disso.

Guida pronunciou estas palavras com a maior calma. As contínuas alusões a este assunto, banalidades com que de ordinário se entretêm as moças, a tinham habituado. Longe de corar ou perturbar-se, como aquelas que sofrem desse fraco, ficava tão serena como se lhe falassem do baile que havia de festejar os seus dezoito anos.

Altorf!... disse o Dr. Nogueira em meio solilóquio observando a vista da cidade suíça. É a pátria do libertador: de Guilherme Tell!

Guida lançara os olhos à estampa.

— A senhora recorda-se do fato? É o assunto de uma das mais belas óperas do grande maestro, do imortal Rossini. Um elegante escritor francês, Méry, observa com muito chiste, que esse primor de harmonia, a música tão sublime do autor da Semíramis, foi escrito sobre um libreto indigesto, sem merecimento e até sem gramática. Isto prova, minhas senhoras, que o coração não precisa para ser eloquente nem de sintaxe, nem de retórica.

— Já se representou aqui no Rio de Janeiro essa ópera? perguntou D. Guilhermina.

Guilherme Tell? Sim, minha senhora; há muitos anos.

— Qual é o enredo?

— É com alguns episódios o fato histórico. Sabe que Gessler, governador da Suíça e homem cruel, aborrecido com a fama de bom archeiro que tinha um camponês, chamado Wilhelm, teve o bárbaro capricho de obrigá-lo a atirar ao alvo em uma maçã colocada sobre a cabeça do filho. Embora tivesse o archeiro plena confiança em sua destreza, a ideia de que uma linha podia fazer dele o assassino de seu próprio filho, o enchia de terror. Mas o que não pode a vontade do homem? A flecha arrebatou a maçã da cabeça do menino incólume. Contudo o pai já tinha outra embebida no arco. “Para que esta segunda flecha? perguntou o tirano. — Para ti, se eu tivesse a desgraça de ferir meu filho.”

— Bonito, não é, Guida?

— É com efeito admirável, continuou o doutor; entretanto a perícia do alemão nada é à vista da destreza dos selvagens do Brasil. Estes faziam cousas incríveis.

— Deveras?

— Furavam os olhos de um pássaro a voar; e flechavam o peixe dentro d'água.

— Que vista! acudiu D. Guilhermina.

— Este ponto indica o lugar donde Guilherme Tell atirou. Aqui ele pronunciou aquela palavra que foi o primeiro grito de liberdade de sua pátria.

— É então o Ipiranga da Suíça? disse Guida sorrindo.

— Justamente; mas o nosso Ipiranga não tem uma fonte, nem sequer uma lápida, que comemore o dia 7 de Setembro. Bajulam-se os reis e os grandes; mas não se honra a nação. Quando eu for deputado, hei de advogar esta causa, que é a dos brios nacionais.

O doutor voltou a página:

— Esta é Friburgo, célebre por sua ermida, que um homem só, cavou na rocha viva trabalhando 25 anos; verdadeiro milagre de fé e paciência. Já ouvi contar um fato análogo, sucedido em Minas; mas esse, a ser verdadeiro, é mais para admirar porque foi um aleijado dos braços que trabalhava com os pés, e assim construiu uma capela. Desta cidade de Friburgo vieram os primeiros colonos que fundaram a nossa cidade do mesmo nome.

— Ah! Nova Friburgo. O ano passado lá estivemos! exclamou uma travessa menina.

— Eis Genebra e o seu belo lago: é a pátria de Rousseau, de Calvino, de Staël e outros personagens ilustres.

Continuou Nogueira por algum tempo essa viagem a voo de pensamento pelas montanhas da pitoresca Helvécia, que ele tinha visitado havia três anos. Descreveu o aspecto dos campos e bosques durante o inverno, e aquela natureza áspera e desabrida, que educa o homem para os grandes cometimentos, ensinando-lhe o trabalho, como uma defesa contra o frio e a fome.

Guida e as senhoras o escutavam embebidas, quando o Guimarães passou defronte da janela.

— Onde iria o Guimarães? perguntou o doutor com indiferença.

— Foi convidar a pessoa que ele ficou de nos apresentar, respondeu Guida com a maior naturalidade.

A moça ergueu-se para saber o resultado da comissão. O Guimarães vinha nadando em satisfação; de ordinário o porte do moço e a sua compostura manifestavam o enlevo que ele sentia da própria pessoa. Naquele momento, porém, era uma aleluia viva.

A filha do comendador e o Nogueira conjeturaram que o Guimarães fora bem sucedido, mas cada um a seu modo.

— Vem, pensou a moça.

— Não vem, felizmente! cogitou o doutor.

O Nogueira não sabia da penitência que estava reservada ao Guimarães; por isso entendia que o motivo de sua satisfação era ver-se livre do novo e temível competidor, depois de haver delicadamente condescendido com o desejo da moça.

— Então? perguntou Guida ao filho do procurador.

— Às quatro horas cá está.

— Obrigada, disse a menina apertando-lhe a mão.

Estava satisfeito seu capricho; não pensou mais nisso. Poucos instantes depois, Nogueira encontrou-se com Guimarães:

— Já sei que foi infeliz em sua embaixada.

— Nada. Fiz como Napoleão; foi só ir, ver e vencer.

— Tenho ouvido atribuir estas palavras a César, replicou o doutor; mas naturalmente há erro nos historiadores.

— César ou Napoleão, é a mesma cousa, com a diferença de falar um o latim e o outro o francês.

— Neste caso as palavras que citou devem ser de algum César em português. Mas então o sujeito vem? E o senhor chama a isto vencer? acrescentou Nogueira chasqueando.

O Guimarães tinha com efeito vencido; mas não como ele dizia, à maneira de César, em três tempos — veni, vidi, vici. Havia nisso modéstia de sua parte. Fora mais do que César; mais do que Alexandre: cortara o nó górdio com um revés da língua. Não tivera tempo de chegar, nem de ver, e já tinha vencido; bastou-lhe abrir a boca.

A cousa se passara deste modo. Próximo à casa de D. Joaquina, Guimarães encontrou Fábio; este o desenganou. Atordoado, saiu-se o Guimarães com uma pachouchada:

— Quem sabe se o Nunes não pregou algum calote no comendador e...

— Boa ideia! atalhou Fábio a rir. Sabe que mais! Lá vamos comer o jantar do homem.

— Olhe lá!

— Com certeza!... Eu me incumbo do negócio.

— Então às quatro horas?...

— Sem falta.