Sonhos D'ouro/XI

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Tinham dado três horas da tarde.

Guida recolhera a seu aposento; era o momento de vestir-se para o jantar.

Sentada defronte do toucador, percorria com os olhos os dois guarda-roupas, cheios de vestidos de vários gostos e padrões. Conhecia-se que estava embaraçada na escolha, e esperava alguma inspiração para improvisar a ode de gaze, seda e rendas, que escrevem cada dia as senhoras elegantes.

Há duas espécies de faceirice.

Uma é a inocente e pura expansão da beleza. A mulher bonita obedece a uma lei da natureza, revelando-se na plenitude de sua graça; enfeita-se, como a flor desabrocha, como a estrela cintila, como o céu se anila. Deus criou tais primores para serem admirados.

Esta faceirice é casta, simples, sem afetação; seu desejo resume-se em ser natural, em revelar a gentileza própria no maior brilho. É a poesia de Horácio, a música de Bellini, a pintura de Rafael, copiadas no traje da mulher formosa.

A outra faceirice consiste em uma orgulhosa ostentação da beleza. A mulher não cede à força espontânea de seu organismo, mas ao estímulo da vaidade. Adorna-se como o cristal que imita o diamante, ou como a centelha que se afigura uma estrela na treva da noite. É linda, mas pretende ser esplêndida.

Esta faceirice vive da afetação, que transforma uma criatura humana em um aleijão da moda. Não se contenta com ser admirada; exige a adoração, o culto ardente de todos que a contemplam, embora tenha de pagar com olhares e sorrisos o incenso que lhe queimam aos pés.

Guida não tinha decerto esta faceirice de mau cunho, espécie de ouropel da beleza; mas sentia, como toda a moça bonita, o desejo inato de ser castamente admirada. Naquele dia esse desejo adquiria a intensidade que costuma em ocasiões de espetáculos, festas e bailes.

Entretanto nada disso havia em casa do Comendador Soares. Era o jantar habitual dos domingos, talvez menos concorrido do que em semanas anteriores. Afora as pessoas que tinham assistido ao almoço, ninguém mais se esperava além dos dois bacharéis; mas a presença destes não dava decerto o caráter de uma festa àquela simples reunião campestre.

Quem pudesse acompanhar o pensamento de Guida, nessa ocasião, conheceria sem dúvida a causa de seu embaraço na escolha do vestuário. A menina, recostada na cadeira, tinha começado a calçar um par de botinas cor de pérola; mas de repente se distraíra, permanecendo na mesma posição, com o pezinho mimoso cruzado sobre o joelho e os olhos fitos no espelho, onde parecia rastrear a sombra das cogitações que lhe perpassavam na fronte pura.

Guida lembrava-se de seu primeiro encontro com Ricardo, e da série de impressões que se tinham gravado em seu espírito desde aquele momento.

Rindo-se da atitude de namorado em que vira o moço, e aproveitando o pretexto para brincar com sua mestra, a menina pouca importância deu àquele pequeno incidente; e já o tinha completamente esquecido, quando, na volta do passeio, ouvira casualmente um trecho da conversa dos dois amigos.

Como todas as pessoas que vivem na alta sociedade e em posição superior, Guida estava acostumada à maledicência. Já não estranhava, quando via uma ação ou uma palavra acremente censurada pela mordacidade e pela inveja. Ela própria na sua qualidade de dote milionário, disputado por tantos adoradores, não era um altar onde se queimavam como incenso tantos despeitos e ciúmes?

Entretanto a palavra grave de Ricardo, a opinião severa desse desconhecido, pronunciada com a calma e a firmeza da razão, traspassou a alma da moça de uma sensação desagradável. O olhar que ela deixou cair sobre os dois moços, foi de desdenhosa altivez; mas a eletricidade do lampejo bem indicava que o coração se confrangera, e o céu dessa alma pura se toldara.

— Ora! dizia Guida interiormente ao chegar à casa, que me importa a opinião desse moço a meu respeito! Não tenho juízo?... Mas não ando aos beijos com as flores que encontro! Não pareço uma criança, apesar de ter dezesseis anos?... Se há homens que, mesmo de cabelos brancos, ainda são meninos... Não é de admirar...

Durante o resto do dia não se lembrou do incidente; mas à tarde, a cena provocada por Sofia avivou as impressões da manhã, dando-lhes porém novo aspecto. O mancebo, que lhe aparecera de manhã como um pensador grave, mostrava-se agora elegante cavaleiro; por outro lado, ela, que se queixara interiormente da censura do desconhecido, não acabava de a justificar arriscando a vida de um homem com um de seus caprichos, a posse da cachorrinha mal-educada?

Quando Ricardo desapareceu na volta do caminho, uma voz murmurou num cantinho da consciência:

— Ele tinha razão!...

Depois estas preocupações se afogaram de novo no entretenimento da conversa e da música. Só ressurgiram um momento, antes de adormecer, nesse crepúsculo da alma entre a vigília e o sono, quando as impressões do dia flutuam vagamente diante do espírito como objetos que se imergem na sombra.

A imagem de Ricardo beijando a flor perpassou no meio da visão. Nessa hora em que a travessura do gênio alegre já estava sopitada, o coração expandiu-se. Guida pensou que devia ser ardente e sincero aquele amor que se exalava, no ermo, à face de Deus; talvez fosse um amor infeliz.

— Se eu pudesse saber a sua história!

Adormeceu; e sonhou que encontrara a florinha agreste cor de ouro, e que esta lhe contara a razão por que o moço a beijava. Mas de manhã não se lembrava mais da história; só lhe ficara a imagem fugitiva do sonho.

As moças afagam muito os sonhos, quase tanto como costumam as mães aos primeiros filhos. A razão é porque os sonhos são os primeiros filhos da imaginação da menina que chega à adolescência. Os desejos vagos, as tímidas esperanças, os perfumes do coração, que não se animam a exalar-se durante o dia, recendem à noite, no abandono do sono, como o aroma de certas flores que só abrem com o orvalho.

Guida ocupou-se durante o dia com o seu sonho; e passando pelo mesmo lugar onde na véspera encontrara Ricardo, desejou ver a flor e conhecê-la. Viu com efeito; achou-a muito linda; desde esse dia ficaram amigas. Sempre que vinha desses lados quebrava alguns ramos, que levava consigo.

A lembrança de Ricardo se apagara completamente do espírito de Guida, e do primeiro encontro não restava outro vestígio senão a afeição à linda florzinha agreste, quando o encontro na Cascatinha veio debuxar outra vez a reminiscência fugitiva. Guida, que já havia notado o garbo e a beleza do Galgo, pôde então contemplá-lo a seu gosto; e a estampa do lindo cavalo foi a recordação que lhe ficou desse domingo.

Mais tarde o acaso lhe deparou a ocasião de ver a aquarela do álbum de Ricardo. A suspeita ou pressentimento de que o desenho representava seu vulto a cavalo, excitou-lhe vivamente a curiosidade. Ela daria sem hesitar o mais querido dos seus caprichos, Edgard ou Sofia, para ver aquela paisagem.

A imagem de Ricardo, passada a primeira impressão, desmaiava a pouco e pouco. Os últimos encontros já não lhe destacavam os contornos: o vulto do desconhecido permanecia vago, indistinto, no fundo das reminiscências da moça. Fora um homem, um homem qualquer, que passara um momento no horizonte de sua existência, e só lhe aparecia agora como uma sombra.

O que estava bem gravado na alma de Guida, o que ela afagava em algum momento de cisma, não era o moço, não; mas cousa muito diversa. Era a linda flor agreste, a quem amava; era o formoso cavalo, que desejava ardentemente possuir; era finalmente a aquarela do álbum, que ansiava por ver. Ricardo não figurava nas recordações da menina, senão como um amigo da flor amada, como o dono do cavalo cobiçado, e o autor do desenho misterioso.

Sem dúvida era agradável ao espírito de Guida que a pessoa ligada a ela por essas relações, fosse um moço distinto pela inteligência e educação. Nas poucas vezes que de relance vira o advogado, a moça tinha reconhecido ou antes pressentido nele com o tato da mulher os dotes do espírito e do coração. Por isso consentia que a lembrança do desconhecido se associasse em sua memória aos objetos de seu desvelo.

O encontro daquela manhã não mudara a situação do espírito de Guida. Ricardo dera novamente provas de delicadeza e galanteria; deixara de ser um desconhecido, para assumir a posição digna que lhe davam um grau científico e uma profissão nobre; mas seus títulos ao interesse especial da menina continuavam os mesmos. Se não fosse a flor, o cavalo e o desenho, passaria desapercebido aos olhos da filha do milionário, ante a qual se curvavam diariamente tantas distinções do talento, da posição e da riqueza.

Guida estimou bastante que Ricardo estivesse nas condições de ser apresentado em sua casa, e que as circunstâncias facilitassem essa apresentação. Mas por quê? Seja embora desconsolador para o romance o motivo que influía no coração da menina, não podemos ocultá-lo.

Desde que se estabelecessem relações com o moço, podia ela satisfazer sua curiosidade de ver a aquarela, preparava a aquisição do lindo animal, e teria um cavaleiro destro para dirigi-la no caso de ser o Galgo fogoso demais para montaria de senhora; finalmente conversaria sobre a flor querida, com alguém que também a amava. Mais tarde, quem sabe? Saberia a história daqueles beijo ardentes; mas isso era menos importante; já pertencia à imaginação e não ao coração.

Realmente não há poesia que resista a essa fria autópsia da alma e dissecação do sentimento.

Quando se devia esperar que os encontros românticos de uma moça rica e bonita com um mancebo pobre, mas de grande talento e nobre caráter, gerassem no coração virgem uma paixão poética e generosa; quando se podia contar com um idílio gracioso bafejado pelas auras suaves da Tijuca, perfumado pela fragrância das flores agrestes, embalado pelo canto das aves de envolta com o murmúrio das águas, e aljofrado pelos orvalhos daquele céu azul, o romancista não acha mais do que um capricho de criança, uma curiosidade infantil, um desejo de menina travessa!

Felizmente Ricardo não amava Guida, nem sentia por ela a vaga inquietação, que anuncia crises do coração. Felizmente: porque do contrário teria de sofrer a angústia de uma cruel decepção.

Depois de repassar estas reminiscências, o pensamento da menina voltou ao objeto que as tinha provocado, à escolha do traje para aquele dia. Precisava, queria agradar a Ricardo, e por isso estudava o meio, não de excitar-lhe a admiração, deslumbrando-o com o brilho da beleza ou da opulência, mas sim de atraí-lo pela simpatia.

O resultado de sua cogitação foi repelir o par de botinas que tinha na mão, um primor de arte: duas joias de camurça trabalhadas pelo Guilherme. As persianas da alcova cerraram-se, derramando no aposento um doce crepúsculo. A beleza casta é violeta, que só abre na sombra.

Ainda não eram quatro horas quando Guida apareceu na sala.

Tinha um vestido branco de extrema simplicidade, fitas no cinto e no cabelo, botinas de duraque preto, e uma gargantilha de veludo da mesma cor, com um medalhão de jaspe. Era de jaspe também a pulseira, ofuscada pela alvura do braço mimoso, que surgia dos folhos da manga, como uma magnólia dentre frocos de neve.

Só no andar se revelava a deusa, disfarçada com esse traje modesto e comum. Apenas assomou na porta da sala, todos os olhares se fitaram nela, e a alma de cada um de seus apaixonados desdobrou-se sobre o tapete, para ter o sumo gozo de ser pisada por aquele passo airoso, que se desenvolvia como a ascensão de um astro.

As senhoras porém não puderam conter a surpresa. Onde a filha de um milionário, a moça mais elegante do Rio de Janeiro, conhecida pelo seu luxo e bom gosto, onde fora buscar aquele traje comum, que uma menina pobre aceitaria para chegar à tarde à janela, mas não traria por certo em um domingo, quando houvesse visitas em casa? Algumas não acreditariam uma hora antes que a filha do Soares possuísse em seu guarda-roupa os acessórios precisos para criar um adereço tão vulgar e rococó.

Guida conseguira portanto realizar seu pensamento. Achando em suas recordações a imagem de Ricardo, como a de um moço pobre e de um caráter austero, compreendeu, com a admirável intuição da sensibilidade feminina, que o meio de atrair essa alma não era decerto a ostentação de sua formosura e opulência: ao contrário, por esse modo aumentaria a repugnância que levara o advogado a declinar o primeiro convite, e sem dúvida o afastaria de sua casa.

Era preciso não magoar o pudor da pobreza, não irritar as suscetibilidades de um espírito severo, para conciliar sua benevolência e obter a sua estima. Bem quisera Guida eliminar em torno dela, da casa, das salas, do jantar, dos convidados, o aparato da riqueza a que estava habituada; mas, não sendo isso possível, desejou ao menos que sua pessoa fosse um protesto contra o luxo que a cercava, e uma delicada fineza ao hóspede esperado.

As fitas que ela trazia no cinto e no cabelo eram da cor do traje com que andava ordinariamente o jovem advogado. Eu que descrevi esse traje no primeiro encontro, já não me lembrava dele; mas Guida o achara no fundo de suas reminiscências quando pouco antes estivera cismando. Não há como as mulheres para guardarem estas arestas sutis no coração.

No seio, onde as bandas do corpinho se cruzavam, formando o níveo regaço, brilhavam algumas das flores e botões de ouro, colhidos pelo advogado no passeio daquela manhã. Havia também nisso uma fineza a Ricardo, um agradecimento à delicadeza com que satisfizera o seu capricho de menina.

Inocente criança! Não pensava no mal que podia resultar desses galanteios infantis.

Dentro em pouco devia chegar à sua casa um mancebo, a quem ela encontrara por diversas vezes, e afinal abrira as portas de sua casa. Esse coração jovem, ardente, podia notar as identificações da alma da moça com a sua, expressas por uma combinação de cor ou pelo gosto de uma flor: aí estava a centelha da paixão, a faísca do incêndio que ela ia atear sem querer.

Guida descera antes de quatro horas; queria assistir à chegada de Ricardo, não só para evitar a solenidade de uma apresentação em plena sala, como porque sentia que sua presença era indispensável para desvanecer o acanhamento natural de quem pela primeira vez é introduzido em uma sociedade desconhecida.

Davam quatro horas, quando Ricardo e Fábio com pontualidade escrupulosa entravam a casa de Soares.