Sonhos D'ouro/XV

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Em uma aberta do mato que borda o caminho, avistaram os passeantes ao longe a barra da Tijuca, ao longo da qual estendia-se o cordão de espuma das vagas, como uma franja de arminho, guarnecendo o manto de cetim do oceano, a embeber o azul do céu.

Os passeantes saudaram com uma exclamação de prazer o quadro encantador daquela marinha, tocada pelos raios do sol nascente, que aveludava as cores mimosas da palheta americana.

Com pouco, dobraram o Canto da Saudade, e os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho, se desdobraram ávidos pelos horizontes abertos, recreando-se com a paisagem de várias chácaras, derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas.

Entre estas notam-se principalmente duas, a do Moke, por ser das residências mais antigas que se estabeleceram nesse aprazível sítio; e a do Dr. Cócrane, arranjada à feição de um modesto parque inglês, o que lhe atraía outrora grande número de visitantes.

Aqueles dos passeantes, que mais conheciam o prédio por tê-lo percorrido frequentes vezes, apontavam de longe os vários pontos de recreio:

— Olhe, lá está o lago!

— E a ilha!

— Ali, por aquele caminho vai sair-se na Cascatinha.

— Lá naquele morro é a Vista do Mar.

— Como se chama a ilha?

— Malacoff.

E outras exclamações.

Talvez nessa ocasião percorria o escritor destas páginas as bordas do lago sereno, em seu passeio matinal, bem longe de imaginar que teria de referir a comédia, cujas figuras principais passavam ao longe, sem que ele as percebesse.

Entre todos os alegres companheiros, só Ricardo mostrava-se reservado, como já era naturalmente fora da intimidade, e ainda mais quando tinha preso o espírito de uma constante preocupação.

Seu olhar inquieto se repartia entre Guida, que ia perto, mas pouco adiante, e Fábio, que o seguia a pequena distância, do lado oposto.

Percebendo o desejo de Guida, o moço insistira em satisfazer-lhe inocente capricho, com o oferecimento do Galgo para aquele passeio.

Causava-lhe tão íntimo prazer a circunstância de poder ele, um pobretão, prestar um obséquio no meio daquela sociedade cosida a ouro, que os primeiros receios sobre o animal se desvaneceram com a segurança da gentil amazona.

A caminho, porém, conheceu Ricardo que embora Guida se mostrasse tão destra, como era elegante cavaleira, todavia o seu pulso delicado, que cerrava o canhão da luva de camurça amarela como a corola de um jacinto a desabrochar, teria o vigor necessário para domar as impetuosidades do generoso corcel?

E o Galgo nessa manhã estava nem de propósito em um de seus momentos de fogo. A presença dos outros animais excitava-lhe os brios generosos; e o ar puro da manhã, que ele hauria às golfadas para lançar das narinas em fumo ardente, parecia repassá-lo da ligeireza e mobilidade do vento.

Ricardo, sabedor das travessuras e floretas com que nessas ocasiões costumava o Galgo divertir-se, e lembrando-se de quanta firmeza de rédea e agilidade carecia para evitar que estes folguedos se transformassem em revoltas sérias e cóleras indomáveis, Ricardo estava em constante sobressalto e arrependido de haver consentido na troca.

Acompanhando a garbosa inflexão da mão esquerda de Guida, a cada instante passava-lhe prudentes avisos sobre o manejo do animal, advertindo-a dos sestros e modo de os corrigir ou abrandar. Guida ouvia-o com indiferença, quase distraída, e apesar de sua afabilidade com o advogado, bem se conhecia que essa solicitude beliscavalhe o amor-próprio; pois a moça tinha presunção de ser perfeita cavaleira.

Não escapava a Ricardo essa contrariedade; mas, ainda com risco de desagradar, não poupava as observações, toda a vez que as julgava necessárias, embora por último já procurasse um disfarce para as dissimular.

Se tirava os olhos do Galgo e da elegante amazona, era para relanceá-los ao lado oposto, onde Fábio brincava com D. Guilhermina. Já no domingo anterior notara a assiduidade do amigo junto à mulher do conselheiro; mas supôs que não passava de um galanteio sem consequência.

O noivo de sua irmã, bem o sabia o advogado, era dos tais de coração andejo e buliçoso, que não podem ficar quietos, como crianças que são; mas estão sempre a bisbilhotar quanta boneca lhes cai no goto. E o pior é impedi-los de traquinar, pois são capazes então de estripulias diabólicas.

Na manhã do passeio, contudo, entendia Ricardo que o galanteio já ia entrando demais pelo recato de uma senhora casada.

Fábio não só tinha servido de escudeiro a D. Guilhermina para suspendê-la do banco, meter-lhe no estribo o pé elegante, e arranjar-lhe as dobras da saia de montaria, como continuara pelo caminho a exercer o mesmo agradável mister.

Era ele quem levava o chapeuzinho de sol, o lenço, as flores, o leque e até o chicotinho de madrepérola da senhora, que lhe confiara de boa vontade todos esses objetos, não só pela comodidade de os trazer à mão em um cabide ambulante, como para dar ao moço o prazer de os guardar.

Se precisava do lenço para enxugar os lábios úmidos do sorriso, como um lilás ressumando orvalhos; se tinha fome, como o colibri dos perfumes de seu ramo de violetas; se os dedos cativos na luva de pelica bronzeada sentiam ímpetos de se agitarem, como os passarinhos de voar, e queriam divertir-se a cortar os talos das folhas com a vergasta do chicotinho, Fábio prontamente lhe passava o objeto desejado, e nessa troca, repetida de instante a instante, as mãos se tocavam uma e muitas vezes no meio dos risos causados pelos desencontros.

Quando o sol montando as assomadas fronteiras começou a castigar o caminho, Fábio apressou-se em abrir o chapelinho de sol para resguardar o rosto da formosa senhora, que de bom grado prestou-se a essa fineza oriental como uma sultana a receberia de seu escravo.

Assim, tendo necessidade de conchegar o animal para melhor interceptar o sol, sentia Fábio roçar-lhe pelo braço a linda espádua, cujo tépido conchego o trespassava. Nestas ocasiões um ligeiro rubor repontava na face aveludada da moça; mas desfolhava-se logo em um riso desdenhoso, como uma rosa a que a chuva arranca as pétalas.

Esse jogo mútuo de ademanes e brincos, Ricardo o considerava não mais simples amabilidade, porém namoro formal e já escandaloso para uma senhora casada.

Nisso mostrava Ricardo o seu atraso nas regras da boa sociedade. Ainda estava pelo antigo rojão, quando se reparava em tais bagatelas, e fazia-se mau juízo da senhora que desse a qualquer moço, ainda mesmo um íntimo, tanta liberdade.

Atualmente é a moda: a moça solteira ou casada, que não tiver essas maneiras distintas, certamente não passa por elegante.

Outra circunstância muito incomodava a Ricardo: era a facilidade com que Fábio insinuava-se nessa sociedade, onde ambos se deviam considerar apenas como hóspedes de arribação, prontos a deixá-la ao cabo de algumas horas. Ao contrário, o amigo já começava a desfrutar os favores com tal desembaraço, que pouco faltava para entrar no rol dos íntimos, espécie de parasitas da pior casta, porque não só devoram os jantares e ceias, estragam os cavalos, carruagens e móveis, mas babujam a reputação, quando não a honra.

Eis os motivos que traziam tão preocupado o jovem advogado durante o passeio.

Outra pessoa porém perseguia a Fábio com olhares furibundos; era o Benício, que por vezes tentara aproximar-se, mas tivera de ceder à baia, rebelde ao freio, e mais teimosa que ele.

Estaria o Benício também apaixonado por D. Guilhermina?

E por que não? Apesar das compridas pernas, do longo talhe em abóbada, e da cabeça a três quinas, pode um homem ter o coração sensível.