Sonhos D'ouro/XXV

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Trila o piano. As notas frescas, brilhantes e vivazes de um romance de Schubert se escapam em enxames pelas janelas, voluteando, como os coleiros que esvoaçam pelo jardim, entre os ramos floridos dos resedás.

Eram onze horas.

Mrs. Trowshy, sentada junto à mesa carregada de livros, mapas e outros objetos, espera gravemente que Guida se resolva a começar a lição; mas a menina inteiramente embebida na execução da música, nem se lembra da mestra.

Allons, Guida.

Afinal conhecendo, depois de três advertências inúteis, que perdia seu tempo, aproximou-se do piano, e abriu o livro da música sobre a estante, para evitar que a discípula tocasse de cor.

Guida levantou-se logo do tamborete; e a mestra pensando que ela cedia-lhe o lugar para vê-la tocar a peça e corrigir algum engano, sentou-se ao piano e executou, com o maior escrúpulo, a linda composição de Schubert.

Mas Guida que ela supunha à sua beira, acompanhando atenta sua lição, estava bem sentada à mesa, onde abrira a sua caixa de tintas e coloria uma aquarela, mas a seu modo, pintando a folhagem de encarnado, os bois e carneiros de verde, e a água de amarelo.

Dando a mestra por falta da discípula a seu lado, tornou à mesa para observar a pintura da moça:

What horror!... exclamou ela espantada com o disparate das cores.

— A senhora não tem bom gosto, Mrs. Trowshy, disse Guida. Não sabe apreciar a originalidade!

A inglesa disparou a rir, passando com extrema volubilidade do horror à gargalhada:

How funny!... How funny!...

— Não se ria, Mrs. Trowshy! Isto que a senhora está vendo é uma obra-prima! Que vigor de colorido! Que tons brilhantes!... Os versos de certos poetas, se fosse possível pintá-los, saíam assim.

A mestra divertida com a travessura da menina, tomou tão vivo interesse, que segundo o seu costume entrou logo em colaboração. Mas Guida não estava de veia nesse dia, pois abandonando-lhe o pincel e a cadeira, esqueceu aquele divertimento e foi à cata de outro.

Deu duas voltas pela saleta, sem lembrar-se de cousa em que esperdiçasse o tempo, porque de lição, não queria ela saber naquele dia, e tinha resolvido na sua fantasia um sueto.

No fim de contas foi Sofia quem deu o tema para a nova travessura. Sentou-a Guida em uma cadeira defronte de si, com as patas dianteiras erguidas; e abrindo seu costureiro de pau-cetim embutido de ébano, dispôs-se a cortar para a felpuda cachorrinha um vestido de cauda à Pompadour, com dois tremendos pufos.

— Que está fazendo, Guida?

— O enxoval para Sofia. É verdade: ainda não lhe comuniquei o seu próximo casamento com um gentledog que está apaixonadíssimo do seu dote!

Nesse momento Soares apareceu à porta e chamou:

— Guida!

— Papai ainda não foi para o escritório?...

— Chegaram visitas, quando ia sair, e trouxeram umas novidades que te hão de interessar!

— Ah! são figurinos? perguntou Guida ocultando sob um remoque a súbita emoção.

— É outra espécie de novidade.

Travando-lhe da mão, Soares levou-a até o gabinete, e aí fê-la sentar perto dele na sua secretária.

— Lembras-te da conversa que tivemos aqui neste mesmo lugar há perto de quatro anos?

— Era tão criança então!... Se ainda hoje sou! atalhou Guida gentilmente.

— Esperta! acudiu Soares beliscando-lhe o beiço; já estás preparando a retirada!

— Ah! então é um ataque? Foi bom prevenir-me!

— Pois defende-te! Essa conversa, que tivemos há quatro anos, veio, recordo-me bem, por causa do susto que te causaram, com a invenção de que eu ia te casar antes de um mês com o Bastos.

— Susto que ainda me faz estremecer, observou em aparte Guida.

— Então eu te prometi duas cousas: primeira, que antes de completares dezoito anos, eu não te falaria nem por sombras em casamento; segunda, que tu mesma, de tua livre vontade e a teu gosto, escolherias um marido.

— Disso me lembro perfeitamente, e o trago bem guardado; pois é a maior prova do bem que me quer e da confiança que tem em sua filha.

— Ela merece tudo e mais, tornou Soares; mas a essas duas obrigações contraídas por mim correspondiam duas cláusulas a que de teu lado te submeteste.

— Vamos a ver.

— De tua parte, me prometeste que em completando os dezoito anos farias logo tua escolha; e no caso de não concordar eu, por estar um de nós enganado, te sujeitarias durante um ano às provas a que eu submetesse o escolhido, para conhecer-lhe o caráter e arrancar a minha ou a tua ilusão. Foi isto?

— Literalmente.

— Bem. Os dezoito anos se completaram há perto de três meses: e a escolha?... Está feita?

— Não, papai!

— E quando se faz?

— Quando aparecer aquele a quem eu devo escolher. Não posso inventar um noivo, papai! Tenho eu culpa se todos esses que me cercam nos bailes, e me perseguem com sua corte, me são indiferentes? Se nenhum desperta em mim a menor emoção, que se pareça com a afeição terna e pura da mulher por seu marido? Se os acho banais e ridículos, e me fazem rir, quando não me aborrecem?

— Eis aí, replicou Soares; tu dizes que não podes inventar um noivo, no que eu plenamente concordo; e entretanto não cuidas de outra cousa senão desse invento. Fantasiaste como toda a moça um homem à tua ideia, como não se encontra neste mundo; e cotejando os outros de carne e osso com o teu exemplar, os achas a todos uns bonecos sem graça.

— Não é isto, papai; não sou romântica; bem ao contrário; se há cousa ridícula para mim, é o ideal desses heróis de romance que sabem tudo, podem tudo, e tudo adivinham. Para uma pobre moça como eu, seria um traste bem incômodo. O que desejo é um homem de caráter nobre, que me ame, e por quem eu sinta verdadeira estima e afeição, para desculpar seus defeitos e não ver suas fraquezas. Parece que não peço muito!

— Mas, Guida, até agora não pudeste encontrar este homem? Em nossa casa vem a flor do Rio de Janeiro; e se falta alguém, é porque assim o queres. Bastava uma palavra tua. Tu frequentas os melhores bailes, conheces toda a sociedade escolhida da corte.

— Ainda é cedo! disse Guida.

— Cedo!... Agora vive-se depressa, minha filha; essa palavra quase que está eliminada do vocabulário da época. Dezoito anos é a mocidade da mulher, como os cinquenta e cinco que já estão cá, são a velhice do homem. Amanhã pode ser tarde para nós ambos.

— Deixe-se dessas ideias, papai!

— Há quinze dias, me pediste para romper com o visconde por andar ele especulando com teu nome. Não me quiseste dizer de quem se tratava. Ontem me avisaram de um infame ajuste feito entre ele e o Nogueira, sob a garantia de teu dote.

— Eu já sabia, disse Guida.

— Tu sabias, sim; mas pensa qual deve ser a minha tristeza lembrando-me que te posso deixar só no mundo, à mercê de semelhantes infâmias. Se fosses pobre, a tua virtude bastava para defender-te; mas rica!... Serias o prêmio da especulação, a vítima das trapaças, o alvo de todas as ambições, que te disputariam como um privilégio de bondes, ou um monopólio d'água. Não te horroriza esta ideia, e não avalias das inquietações de teu pai?

Guida reclinou sobre a mão a fronte pensativa e Soares ergueu-se ao impulso da comoção que o abalava:

— Essa imensa riqueza, que me invejam, de que me serve, pois em vez de garantir, compromete o futuro de minha filha? Se com um milhão, dois, tudo quanto possuo, pudesse criar um homem digno de ti...

— Não se aflija! disse Guida meigamente passando-lhe a mão ao pescoço. Prometo escolher.

— Sério?... E quando?...

— Em um mês.

— Deus te abençoe, como eu, e te inspire.

O pai estreitou a filha ao coração.

— Mas, tornou Soares de súbito, é por tua vontade!

— Inteiramente!

— Sem constrangimento!

— Nenhum.

— Vou descansado.

Guida acompanhou o pai até o portão, onde o esperava o carro para levá-lo ao escritório. Pelo caminho folgavam os dois como camaradas de colégio ao sair da aula em véspera de feriado.

Ficando só, a moça foi esconder-se a um recanto do jardim, em um nicho de trepadeiras; e aí ficou cismando cerca de uma hora. A mágoa que disfarçara em presença do pai, derramava-lhe agora no lindo semblante uma doce tinta de melancolia.

À tarde Guida lembrou-se de ir ver a avó no Andaraí.

Aí vivia D. Leonarda retirada na chácara, onde nascera, no meio de uma récua de crioulas e um bando de moleques de todos os topes e de todas as cores. Aquela criação pululava e crescia à mangalaça, como bezerros do sertão sem freio e sem educação.

D. Leonarda, desde que a serviam nos poucos misteres para os quais bastava uma criada diligente, deixava a troça das mucamas na mais completa liberdade, até nove horas, em que punha-as todas, mães e avós de filhos, debaixo de chave, como donzelas recatadas; e nessa conta tinha-as a todas, crendo realmente enjeitados pelas vizinhanças os moleques que lhe enchiam a casa.

Além da sua perna e das contas do seu procurador, D. Leonarda não se ocupava doutra cousa senão dos moleques, de coser para eles, distribuir-lhes um vintém para cocada, e ensinar-lhes a rezar.

Quando o carro de Guida parou na frente da chácara, correu ao portão o enxame de moleques e a troça das mucamas, gritando e saltando para festejar a chegada da menina.

Era sempre assim.

A entrada de Guida na casa da avó produzia o mesmo efeito que um sol de abril rompendo a bruma depois de uma manhã de chuva, ou para empregar imagem menos rústica e poética, o de uma música de batalhão passando em rua escusa e retirada.

O rancho das raparigas e moleques corria ao portão. D. Leonarda, a coxear, arrastava-se com o arrimo de uma bengala até a porta, onde acabava de aparecer. Não se pinta a expressão de júbilo que afogava o semblante da velhinha, com as alvíssaras da chegada de Guida.

Para a velha, aquela criança era todo o amor, como toda a alegria; ou antes, a criança era ela, que se deixava acalentar pelas carícias e meiguices da neta; e bebia-lhe nos lábios mimosos o doce riso que ainda iluminava-lhe as faces pálidas, e o prazer que lhe orvalhava as tristezas e achaques da velhice.

Subiu Guida ligeiramente os degraus da escada de pedra e apertou nos braços a avó, beijando-lhe os cabelos brancos e amimando-a com a graça que espargia-se em seu menor gesto, mas com uma ternura, que mui rara transpirava, como perfume de flor cerrada, a qual só recende na soledade.

Entretanto Mrs. Trowshy, ao descer do carro, como de costume tapou os ouvidos com as mãos para tornar-se impenetrável à algazarra da molecada, e soltando um esplêndido brrrrrr da genuína escola inglesa, foi acabá-lo numa cadeira de balanço da saleta, onde arreou-se como uma bala de algodão no bojo dum saveiro.

— Há que tempo, ingrata! disse a velha.

— Oh! avozinha! Não tinha com quem vir! Mrs. Trowshy andava com os seus faniquitos.

Depois de ter acarinhado a seu gosto a avozinha, Guida levou-a na sua cadeira de roldanas para o vão da janela que abria sobre o jardim, e aí de joelhos sobre a ponta do banquinho, o busto reclinado ao braço da poltrona, começou a falar baixinho ao ouvido da velha com extrema vivacidade. Dir-se-ia que receava encontrar-se com suas próprias palavras, pois as despedia mui depressa, e às escondidas.

Algumas vezes parava para observar a fisionomia de D. Leonarda, onde através do embevecimento que lhe causava a voz querida, espontava uma leve surpresa.

— Como há de ser? perguntou a velha uma vez.

— Escute, respondeu Guida.

E tomando entre as mãos a cabeça da velha com um gesto gracioso, conchegou-a a seus lábios, no intento de tornar ainda mais íntima e reservada essa confidência, que, se não roseava-lhe a face nívea e imaculada, alvoroçava-lhe os espíritos, a arder nos olhos e a arfar no seio.

— Pois sim! disse a velha dando-lhe um beijo. Arranja tudo.

Guida chamou um pajem:

— Vá à casa do Sr. Benício, sabe?

— É o procurador de sinhá velha?

— Esse mesmo. Dize-lhe que venha falar com avozinha amanhã à noite sem falta.

— Sim, nhanhã Guida.

— Então vens amanhã? perguntou a velha contente.

— Por força!