Sonhos D'ouro/XXVII

Wikisource, a biblioteca livre
< Sonhos D'ouro
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Sonhos D'ouro por José de Alencar
Capítulo XXVII

Logo depois que Ricardo saiu, mandou Guida preparar o carro para voltar à sua casa.

— Então está decidido? perguntou a velha ao ouvido da menina.

— Ainda não, avozinha. Ficou para outro dia.

— Ora! fez a velha com um gesto displicente.

No carro Mrs. Trowshy, que também era curiosa, indagou nestes termos do êxito da conferência a que assistira de parte.

— Que disse o advogado? Ganha o processo?

— Está perdido, respondeu Guida a rir.

— Não é possível.

— Completamente.

— Oh! que pena!

Chegando a Botafogo às três e meia, esperou Guida na saleta que seu pai voltasse do escritório, para receber o beijo que lhe costumava dar na face, em retribuição das festas e carinhos com que era acolhido.

— Que milagre; está-me nascendo uma rosa entre os meus jasmins! exclamou o Soares reparando no vislumbre de púrpura que roseava a face da moça.

— Há de ser do calor; cheguei do Andaraí.

— Ah! e como vai a avozinha?

— Na mesma.

Subiu o Soares ao sobrado brincando com a filha, que ria-se das pilhérias do pai, e tornava-lhe os folguedos e as meiguices com o mesmo contentamento.

No topo da escada separaram-se.

Foi ao entrar no seu toucador, que o esto d'alma rompeu, como a onda por muito tempo comprimida. A moça levou as mãos ao seio que arfava a estalar com a ânsia, e caiu sobre o leito, escondendo o rosto nas fronhas de cambraia, comprimindo nas almofadas os crebros soluços.

No seu desespero, espedaçou o vestido que a estringia como uma fôrma de bronze, e arremessou para longe de si os trapos da seda. Sobre as espáduas nuas desdobraram-se as cascatas dos opulentos cabelos negros, com que ela envolveu o colo e os seios, conchegando-se com um gesto pudico.

Afinal saltaram-lhe as lágrimas ardentes dos olhos, que logo debulharam-se em pranto abundante. Foi serenando a violenta comoção, que subvertera os seios dessa alma; e Guida ergueu-se a custo, abatida pelo abalo que sofrera, mas surpresa e atônita da crise que de repente a acometera.

Apoiando sobre a almofada a curva do braço mimoso, reclinou a face na mão, e ficou pensativa:

— Será isso o amor? perguntou a si mesma.

E entrando de novo em si, penetrando nos refolhos d'alma, sentindo vibrarem novas cordas no seu coração, e derramar-se no íntimo uma luz que nunca até aquele dia resplandecera em seus sonhos de menina e moça, Guida compreendeu que era realmente amor, essa agitação indefinível que perturbara sua vida serena e tranquila.

A alegria inefável, o júbilo que teve, não os podem conceber aqueles que nunca duvidaram de si, nem jamais em horas de desânimo se tiveram por deserdados do coração. Parecia à moça que outra vida, não essa de flor ou de passarinho que vivera, mas a da poesia e da paixão, a vida da mulher, acabava de surgir para ela naquele instante.

Estas lágrimas aljofradas, que seus dedos mimosos estalavam nas faces, eram os orvalhos de uma aurora. Raiasse ela embora entre os abalos de uma tormenta, era bem-vinda; era a luz criadora, o raio celeste, que afinal luzia em sua alma.

O espírito de Guida não se demorou na ideia da impossibilidade de seu amor. Que valia isso na história de sua existência, senão um pequeno acidente material? O grande acontecimento era o despertar de seu coração virgem e indiferente, era a revolução que se acabava de consumar em seu organismo, selando enfim a infância.

A magia das novas e deliciosas sensações que iam acordando em seu ser, o infindo prazer de se lhe povoarem de flores, de magnificências, de harmonias e perfumes, o ermo ingrato e sáfaro que poucos momentos antes assolava sua alma, a possuíam tanto e tão intimamente, que não bastavam as forças de sua natureza para essa ventura suprema de sentir-se outra e saciar-se dessa nova existência, ainda não vivida.

Eram horas do jantar.

Vestiu-se a moça rapidamente, com a costumada simplicidade, mas sem o esmero costumado, para o qual não havia tempo. Entretanto nunca o seu bom-gosto combinou melhor o traje, nem este realçou-lhe tanto a beleza nativa, como naquela tarde.

Mas o encanto desse vestuário não estava no delicado padrão do simples vestido de organdi, e na forma elegante e original do penteado. O que a ornava era sobretudo o brilho suave dos olhos, a meiga auréola da fronte, o sorriso delicioso dos lábios, e a graça inefável do gesto.

Essa beleza até agora mimosa, gentil e garrida, tinha trocado o seu lirismo pela brilhante epopeia do coração. Já não é o colibri borboleteando entre as flores, ou o raio de luz irisando-se na gota de orvalho. Agora é a mulher; é o anjo, que agita as asas de fogo, com os olhos no céu e a voragem a seus pés.

— Como estás bonita! exclamou Soares vendo a filha.

— Ela sempre foi! disse D. Paulina.

— Sempre; mas hoje!...

— Foi o passeio! disse Guida com um sorriso, que era um enlevo de graça.

— O passeio... repetiu o banqueiro. Não duvido.

E fitou o olhar vivo e perscrutador na filha, cujo enleio velou-a com uma encantadora expressão de melindre que lhe dava um encanto irresistível.

Depois do jantar, desceu Guida ao jardim, e percorrendo lentamente as alamedas, seus olhos acariciavam as flores, que dantes a deleitavam apenas como as fitas e outros enfeites.

Lembrou-se da flor rústica da Tijuca, a que Ricardo dera o nome de “Sonhos d'ouro”. Havia o jardineiro trazido mudas, que arranjara em um alegrete, ao lado da casa. Não tivera a moça ainda a curiosidade de ver a planta, depois da sua volta a Botafogo.

Nessa tarde, porém, apertaram-lhe as saudades. Não tinha flores o arbusto, que só em novembro cobre-se de botões; alisou-lhe a moça com a mão as folhas glabras, afagou-as com o olhar; e tamanha era a efusão de ternura, que teve ímpetos de beijá-las, e arrancando uma, colou-a aos lábios ardentes.

Pungiu-lhe o coração uma dor viva e intensa, como o cravar de uma lâmina. Recordou-se da primeira vez que vira Ricardo; e compreendeu então o arroubo e veemência de sua alma na contemplação da florinha agreste.

— Ele amava!... balbuciou Guida. Lembrava-se de Bela!...

E invejou a felicidade de sua rival, sem contudo querer-lhe mal. Ao contrário, sentia curiosidade de conhecê-la; e acreditava que havia de ter-lhe amizade.

Durante alguns dias viveu Guida no embevecimento de sua paixão. Sentava-se ao piano, e escolhia as músicas ternas e sentimentais, que tocava com muita alma e expressão. As notas, que tantas vezes tinham ressoado a seus ouvidos apenas como agradável harmonia, feriam-lhe agora as cordas mais íntimas, e percutiam todo o seu organismo, como uma vibração elétrica.

Outras vezes esquecia-se a cismar, com os olhos engolfados no azul do céu, onde rutilavam as primeiras estrelas; ou enlevada a contemplar uma flor, cujos perfumes derramavam-se dentro d'alma com uma fragrância celeste, e cujo matiz aveludado afagava-lhe a vista, como um beijo da luz.

Não raro se tingiam esses devaneios de uma sombra de melancolia, quando o espírito da moça voltava-se para o futuro e o via tão esplêndido submergir-se em um abismo inexorável, o impossível.

Mas amava, sentia-se viver no seu amor; e o pensamento, recolhendo-se a esse limbo suave de sua nova existência, esquecia o mundo, o tempo, a sorte, para embeber-se de felicidade e exaurir-se nesse gozo supremo da paixão.

Foi Soares quem a arrancou a esse longo êxtase.

Uma tarde que ela cismava no jardim, o pai viu-a da janela, e foi-lhe ao encontro com ar brincão:

— Ai, minha sonsinha!... Temos novidade, hem! E não me queres dizer?

— O que, papai? perguntou Guida arrancada à sua cogitação.

— Como disfarça! Pediste um mês para escolher; mas creio que estes olhinhos andaram mais depressa. Nessa idade eles pulam... Desconfiei logo; quando te vi pelos cantos, toda sorumbática, percebi. O bichinho está fazendo artes lá no coraçãozinho da minha Guida. Não é verdade?

Estas palavras brincadas, e envoltas na ternura risonha do pai, retalharam a alma da moça. No meio do enlevo de seu amor, quando não vivia senão desse afeto, por ele e para ele, vinha surpreendê-la a realidade e reclamar sua existência, para votá-la ao mais atroz dos sacrifícios, que pode sofrer a mulher: para atá-la como a um poste de infâmia, ao homem a quem ela despreza.

— Adivinhei, confessa. Tu já escolheste.

— Já, papai, disse com veemência; infelizmente já; mas aquele a quem amo, não me pode amar.

— Ora! fez o Soares com o sorriso de um homem que sabe quanto pode.

Guida abanou a cabeça:

— Não, é impossível! Todo o dinheiro do mundo não bastaria para comprar-me a felicidade.

— Quem é ele? perguntou Soares, sentindo apoderar-se de si o desânimo da filha.

Contou Guida ao pai a simples história de seu amor, botão que desabrochara recentemente em flor, ainda impregnado de vivos perfumes.

— Estava resolvida a casar-me já para seu sossego e tranquilidade, papai; a saudade, que eu teria de minha vida de solteira, me havia de pagar com usura a felicidade de o ver contente.

— Guida! exclamou o velho enternecendo-se.

— Mas com esta afeição, não posso, papai; o sacrifício excede minhas forças. Parece-me que me insultaria a mim mesma, casando-me com outro homem. Seria uma degradação...

— Não falemos mais disso, minha filha!

— Deixe-me esquecer, deixe-me sufocar esse coração que eu julgava morto, e que reanimou-se por meu mal. Daqui a um ano terá passado.

— Tudo o que tu quiseres, respondeu Soares, contanto que não fiques triste. Brinca, diverte-te bem. Inventa novas travessuras. Ainda que me custem muito dinheiro, muito... Para que prestará ele, se não for para te distrair?

— Há uma cousa que, eu sinto, me havia de fazer muito bem, disse Guida timidamente.

— O que é?

— Ele é pobre... Sua felicidade depende de vinte contos... Eu daria meus alfinetes...

— Criança. Não estou eu aqui? A dificuldade, desconfio que será obter dele que aceite...

— É verdade.

Nesse momento parou um carro ao portão; e com pouco apareceram D. Guilhermina e o marido.

— Havemos de achar um meio; pensa tu de teu lado, que eu não me descuidarei.

O banqueiro foi ao encontro do conselheiro e subiu com ele à varanda, enquanto D. Guilhermina passeava no jardim com Guida.