Uma Campanha Alegre/II/X

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume II, Capítulo X: O enterro dos ímpios


Janeiro 1872.

Fazer recolher ao cemitério cadáveres que o clero quereria afastar para as estrumeiras, é já um progresso de bom senso, uma aquisição para a dignidade civil, um lucro para a higiene.

A câmara municipal não vê almas, vê corpos Ora depois da morte nem todas as almas se salvam, mas o que sabemos de positivo, é que todos os corpos apodrecem; e os cemitérios são a supressão administrativa desta infecção fatal. Portanto cumpre à câmara vigiar que o transeunte, o eleitor, o contribuinte não seja prejudicado pelos miasmas - nem do ateu nem do devoto. E a sua obrigação civil é enterrar a putrefacção

— sem indagar quais sejam as suas crenças religiosas ou as suas opiniões filosóficas. A

Deus o que é de Deus, à câmara o que é da câmara. Deus escolherá e distinguirá as almas: a câmara deve dar igualmente aos corpos ateus e aos corpos beatos uma cova higiénica. Isto é o legítimo bom senso.

A portaria no entanto não é completa, porque, por uma concessão espiritualista, faz colocar num sítio separado, longe dos túmulos católicos, o jazigo dos irreligiosos ou dos dissidentes. E não podendo a portaria referir-se nem aos protestantes nem aos israelitas que têm o seu cemitério privativo - é decerto para os ímpios que reserva, a um canto, aquele lugar de desdém.

Mas quem decidirá que o cidadão morto foi um ateu? A autoridade eclesiástica? É entregar ao clero a polícia do cemitério, que é toda civil. - A autoridade administrativa?

É entregar ao Estado uma averiguação que é toda da filosofia.

A portaria teria evitado este embaraço decidindo, com uma simplicidade antiga, que todo o cidadão morto será sepultado no cemitério público.

No entanto, pelo progresso que estabelece, a portaria é excelente. Aos racionalistas não deve importar que o seu cadáver seja enterrado na parte do cemitério onde só há cruzes negras, ou naquela parte onde só há árvores verdes. (Têm mesmo a perspectiva de gozarem neste caso um fresco tecto de folhagens, que o vento e os pássaros encherão de doces murmúrios).

E à higiene, à polícia, à dignidade civil, o que importa é que os corpos sejam enterrados nos cemitérios, e não atirados para os cantos dos quintais - o que era uma degradação para o morto e uma infecção para o vivo!

Agradecemos ao sr. ministro do Reino a sua portaria, resolvendo o enterro dos ímpios nos cemitérios públicos. E - agradecemos - porque foram as Farpas que se insurgiram contra os escrúpulos e as resistências dos srs. eclesiásticos, perante o cadáver dos inbeatos e dos indevotos. A portaria estatui que haja no cemitério público, jazigo civil dos cidadãos mortos, um lugar para os corpos daqueles que, ou por dissidência de igreja como os protestantes, ou por diferença de religião como os israelitas, ou por princípios filosóficos como os racionalistas - sejam não-católicos. 0