Uma Campanha Alegre/II/XV

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume II, Capítulo XV: A mala de um príncipe


Fevereiro 1872.

Confusas opiniões se erguem em torno dessa mala fechada. Que continha ela? -

Uns querem que ela tivesse no seu seio os tesouros imperiais: outros afirmam que ela encerrava os imperiais manuscritos. Alguns, mais profundos, sustentam que dentro havia peúgas: outros, mais discretos, afiançam que dentro não havia nada!

Tal se nos afigura a verdade - a mala não guardava nada!

A mala era uma insígnia - a insígnia do seu incógnito. S. M. trazia em vagão a mala, pela mesma razão que usa no trono o ceptro. Como a coroa é o sinal da sua realeza no Brasil, a mala era o sinal da sua democracia na Europa. A mala formava o seu ceptro de viagem - como o perpétuo chapéu baixo constitui a sua coroa de caminho de ferro. Se S. M. trouxesse as mãos vazias, isso indicaria apenas que Sua Majestade não trouxera o ceptro, porque o incomodava para dormir no beliche do paquete: mas não daria a ninguém o direito de afirmar que ele não era o Príncipe, o Imperante! Com a mala, não! A mala significa que não só não tem na mão o ceptro, mas traz na mão a bagagem; que não só deixou a realeza no Brasil, mas tomou-a sem cerimónia na

Europa! A mala é a tabuleta do seu incógnito! A mala diz: - "apertem-me a mão, tratem-me por Pedro, e não me toquem o hino!" A Europa olhava-lhe para as mãos, via-lhe a mala, e dizia logo: - "Ó aquele, que tal te dás por cá?" O Senhor Pedro trazia a mala para que o não confundissem com Sua Majestade. Aquilo significava: - "reparem que não sou Ele". À entrada das cidades, aproximavam-se deste Príncipe ilustre os cortejos oficiais; mas Sua Majestade mostrava a mala -e imediatamente as autoridades desabotoavam os coletes! Os camaristas dos outros reis iam beijar-lhe a mão; mas Sua

Majestade descobria a mala - e os cortesãos davam-lhe logo, alegremente, palmadas doces no ventre.

Se Sua Majestade percebesse que uma só mala não bastava para mostrar o seu desejo de sem-cerimónia, Sua Majestade era homem para tomar - duas malas! Se a etiqueta insistisse, Sua Majestade deitaria ao ombro - um baú! Em Portugal, como receasse recepções aparatosas à entrada - Sua Majestade acrescentou à sua mala um guarda-sol, e ao seu guarda-sol um embrulho! Foi assim que o viram descer do vagão os povos perplexos! E se não tivesse havido a precaução de retirar apressadamente todo o cerimonial, sabe-se que Sua Majestade estava disposto a mostrar - as suas chinelas de mouro! Mas as autoridades, em toda a parte, mal viam Sua Majestade começar a

Falemos da mala deste príncipe ilustre! Todos a conhecem. Ela deixa na Europa uma lenda soberba. Durante meses, viu-o o Velho Mundo absorto sulcar os mares, atravessar as capitais, medir os monumentos, costear os montes, visitar os reis, ensinar os sábios - com a sua mala na mão! É uma mala pequena, de couro escuro, com duas asas que se unem. É por ali que ele a segura. Ma outra mão trazia às vezes o guarda-sol, debaixo do braço entalava a espaços um embrulho de papel. Muitas vezes depôs o guarda-sol, outras alheou de si o embrulho; - a mala nunca! Paris, Londres, Berlim,

Viena, Florença, Roma, Madrid, o Cairo - conhecem-na. Ela ficou popular na Europa - como o pequeno chapéu de Napoleão o Grande, ou a grande cobardia de Napoleão o

Pequeno! Mesmo a celebridade da mala, encobre um pouco a glória do príncipe. Como disse o bom Beranger da batalha de Austerlitz - "muito tempo se falará dela sob os lustres dos palácios e sob o tecto das cabanas". Dele - menos! demonstrar, por meio de objectos familiares, que não era o príncipe - apressavam-se a recolher toda a gala, receosas que Sua Majestade levasse a sua demonstração até ao excesso de despir as calças.

Foi graças a estas precauções que Sua Majestade conseguiu atravessar a Europa - disfarçado na sua mala. Por isso ela vinha vazia. Sua Majestade não a usava como bagagem - punha-a como disfarce. Sua Majestade trazia a mala - como outros trazem um nariz postiço.

No entanto - disfarce ou bagagem - a mala é profundamente simpática. Dá a esta corte em viagem uma nota nobre de simplicidade e de sinceridade. Uma mala pequena não pode chegar para tudo: tapa por um lado o Imperador do Brasil - descobre por outro o homem de bem.