Uma Família Ingleza/IV

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Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo 4


UM ANJO FAMILIAR

Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.

Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer aventura incompleta do baile da vespera?

A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para sonhos e repouso.

O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.

Esta nossa cidade—seja dito para aquellas pessoas, que porventura a conhecem menos—divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por physionomias particulares.

A região oriental, a central e a occidental.

O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brazileiro; o occidental, o inglez.

No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias modernas que revestiu.

O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo—azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi sempre algum capitalista ocioso.

O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o habitat d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto… até de preto!—Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.—Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças de cabellos louros e de babeiros brancos.

Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas, e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em 1855.

É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr. Richard, e sua familia.

O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.

A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.

Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos, retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.

A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão, ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.

Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.

Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo confortable, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.

Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio, tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.

Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo depois do meio dia.

Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão, circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse constrangimento prevía utilidade.

Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias novas.

Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.

No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.

Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a denunciar-lhe o acordar.

Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía inspeccionar e dirigir os preparativos do lunch de Mr. Richard, cujas horas se aproximavam já.

N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão, encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.

A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle perguntou-lhe:

—Como está sua mãe, José?

O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:

—Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.

—Hoje não sabe?!—exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do corredor, que marcava onze horas e meia—Não sabe, e é perto de meio dia!

—Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde…

—Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!… Sabe lá a falta que lhe estará fazendo?

—Mas, se…

—Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.

—Então muito agradecido, minha senhora,—disse o rapaz, sensibilisado com a bondade da sua joven ama.

Jenny continuou passeiando.

Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.

O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.

—Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?—perguntou ella a um criado, com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.

—Varreram, sim, minha senhora—respondeu este.

—Repare—acrescentou Jenny.—A fallar verdade são bem pouco cuidadosos. Veja esse corrimão cheio de pó. —É que se tornou a sujar. O vento…

—Seria; mas não tira que se limpe outra vez.

—De certo; eu vou já.

—E olhe—continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o jardim—passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços e dê lustro aos metaes dos fechos.

—Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim; depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso—lembrou o criado, como todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos outros do que em cumprir as suas.

Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala de jantar.

Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha, brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.

Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.

—Pedro—chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira, destinada a Mr. Richard.

O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.

—Então onde pôz a mostarda?

—Ai! é verdade.

O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da cozinha britannica.

—Veja como dobrou esse guardanapo.

O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.

—Aquelle pão não é o que o pae quer para os lunchs. Bem sabe.

—Tem razão, minha senhora.

O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.

—Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não; chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou. Ficou peior agora. Assim. Ponha o Times ahi ao lado. Está bom. Póde ir.

Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo, attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e voltou de novo ao corredor.

Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos baixos e maneiras enleiadas.

—Que tem, Luiza?—perguntou-lhe Jenny.

—Venho dizer adeus a miss Jenny, porque me vou hoje embora.

—Como vae embora! Quem a mandou?

—Ninguem, mas…

—Não está bem?

—Se estou, mas…

—Então?

—A miss Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega? Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á enfermeira?… Quem pensa n'isso? Assim vou eu… e, quando ella se achar melhor, se a miss Jenny me quizer outra vez…

—A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.

—Mas…

—Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.

—Ó minha senhora…

—Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.

—Seja por amor de Deus…

—Olhe, Luiza—apressou-se a interrompel-a Jenny—vá ver se me aprompta aquelles punhos que eu lhe disse, vá.

—Vou já fazel-o, minha querida senhora—disse a rapariga, a quem palpitava o coração alvoroçado de contentamento.

N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza. Vinham do andar superior aquelles gritos.

O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a sorrir:

—É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!

—Pobre Kate!—murmurou Jenny, suspirando—e subiu com ligeireza as escadas, que conduziam ao mirante.

Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora, paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.

—Cães!—bradava ella agora, n'aquelle estranho imbroglio linguistico, impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a seguravam—Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas deixem estar que em vindo Dick… Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me! Dick! Dick!—Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr. Richard.—Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer? Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu… Olha que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios, que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer? Larguem-me!

E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no rosto encarquilhado e contrahido.

N'isto entrou Jenny no quarto.

A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao alcance da mão.

Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e aproximou-se d'elle.

—Cuidado, miss Jenny!—disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.

—Cautela, menina!—repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos arredores da Maia—Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.

Jenny não as attendeu.

Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos, delicadas e debeis.

A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.

—Bons dias, Kate—disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto, risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.

Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.

—Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?

A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não desviava de Jenny os olhos espantados.

—Não me conheces, ama?—continuou esta, em tom mais affectuoso—Kate, então? Já nem queres conhecer a Jenny?

O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo, que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão soltou a faca que ainda segurava.

—Eu logo vi que me conhecias—dizia Jenny, afastando-lhe compassivamente os cabellos da fronte enrugada.—E has de estar quieta, não has de?

—Sim, sim—dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.

—Sim, sim, poor thing; sim—repetia muitas vezes, cingindo-a a cada momento mais a si.

—Ai, miss Jenny, miss Jenny!—dizia a despenseira aterrada.

Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a saír.

A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente Mr. Richard Whitestone.

Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:

  Dorme, filho, que eu vigio,
  E emquanto dormes, sorri;
  Que a tua porção de lagrimas
  Eu as chorarei por ti.

Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do caracter do somno final, que não vem longe.

Adormeceu entoando em voz já mal percebida:

  A tua porção de lagrimas…
  Eu as chorarei… por ti…

Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.

No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto entre as mãos e soluçando.

—Que é isso, Manoel?

O velho ergueu-se com sobresalto.

—Ai, menina Jenny, é que… veja.

E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso de porcelana com uma preciosa begonia.

—Como foi isto?—perguntou Jenny.

—O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e tanto cuidado me recommendou! e vae eu… veja a minha desgraça, logo ao descer a escada escorrego… Valha-me Deus, valha!

—Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito…

—Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.

Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para apresentar-se diante de Mr. Richard.

A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.

—Onde vae, menina?—dizia o jardineiro admirado.

Jenny não lhe respondeu.

O velho seguiu-a.

Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:

—Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque… Ai!

Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á entrada da estufa.

—Oh!—disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.

—Vêem, vêem!—dizia Jenny, fingindo-se consternada—como Deus me castiga a presumpção!

—É verdade—disse Mr. Richard agachado—um vaso tão bonito! Creança! Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!

—Está vingado, Manoel—continuou Jenny.—Eu a desconfiar de si, e vae…

O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde retiral-a a tempo.

Era meio dia.

—Vamos,—disse Jenny a Mr. Whitestone—perdôe-me a culpa e venha ao seu lunch.

Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando, a sorrir:

—Estouvada! buliçosa!

No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra, que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.

—Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra…

—Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.

—Agora não, que são horas do seu lunch.

Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos preparativos d'esta refeição matinal.