Uma Família Ingleza/XXX

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Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo XXX


PESO QUE PÓDE TER UMA LEVIANDADE

Com a saída dos amigos, não se dissipou immediatamente em Carlos a má impressão que lhe deixára aquella visita.

Não sei que haja alguem tão indifferente e sobranceiro á opinião alheia, que possa ouvir, sem se commover e revoltar, o nome só que seja de qualquer pessoa estimada, pronunciado menos reverentemente por labios estranhos e de mistura com as phrases e palavras de uma conversa leviana.

Um delicado pudor de coração sobresalta-se, quando assim exposto a olhares profanos o idolo do seu mais puro e secreto culto.

Desgostoso com os outros, não estava Carlos mais satisfeito comsigo. Soltára inconsideradamente da mão a carta escripta a Cecilia, e só agora reflectia na pouca delicadeza com que o fizera, e na inconveniente escolha de emissario. Um outro motivo de inquietação o perturbava ainda. No momento de expedir o criado com a mensagem, esquecera-lhe que, sendo dia santo, Manoel Quentino estaria provavelmente em casa; e como poderia Cecilia occultar-lhe o conteúdo da carta, ainda quando lhe dissesse que era de Jenny?

Todas estas considerações foram, a pouco e pouco, levando Carlos a um d'esses estados de impaciencia e de agitação de espirito, inconciliaveis com o repouso do corpo, o qual provocam a acção, ao movimento.

As indefinidas aspirações que, em taes estados, sentimos, sendo superiores aos meios de que dispomos para satisfazel-as, accumulam em nós excessos de energia, que se revelam por uma actividade sem plano, sem fim, á qual cedemos como a necessidade organica, não tentando, nem conseguindo regulal-a ou conduzil-a.

Por isso, como se no limitado espaço do quarto abafasse, Carlos levantou-se para saír.

Transpunha já a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima, lhe fez desviar a cabeça.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamação de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada apparição vinha tão completamente realisar os secretos e vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso effeito das evocações do proprio coração, que—illusões só concebidas por quem já assim as sentiu alguma vez—Carlos quasi acreditou ser verdadeiro milagre de amor a presença de Cecilia, alli, n'aquelle momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appêllo, que elle lhe dirigira, de que a leitura da carta bastára para a determinar, de que, cheia de confiança, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rirá sómente o leitor, que tenha já passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mão tremula para a pobre rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

—Oh! obrigado, Cecília; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; não comprehendia ou receiava comprehender demasiado o sentido d'aquellas palavras.

—Agora ouça-me, ouça-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei; ouça...

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mão de Cecilia, e esta, como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem tentava retirar-se.

Carlos proseguiu:

—Cecilia, se veio, foi porque acreditou que havia sinceridade nas palavras que eu lhe disse, não é verdade? Não é verdade que não suspeitará nunca mais que seja um simples galanteio, indigno de si, o que me leva a repetir-lhe uma, e mil vezes, que a amo?

Estas palavras restituiram a Cecilia a consciencia que perdera quasi. O sangue abandonou-lhe subitamente as faces, para cêdo affluir com mais violencia a ellas; saiu-lhe dos labios um grito que mal pôde reprimir, e tentou retirar a mão, que Carlos continuava a segurar nas suas.

—Snr. Carlos!—disse ella, com a voz agitada de sobresalto e confusão.

—Não se retire assim, Cecilia. Nada receie. Amo-a muito, mas respeito-a tanto, quanto a amo; e mais depressa...

Não pôde continuar; um rumor de passos e de vozes, que se ouviu na rua, e já proximo ao portão do jardim, fel-o estremecer.

Teve um presentimento; obedecendo-lhe attrahiu rapidamente Cecilia para dentro do quarto, em cujo limiar se passára esta curta scena, e fechou sobre si a porta com precipitação.

Cecilia olhava-o assustada.

Ia a bradar, quando Carlos lhe pôz a mão na bôca, dizendo:

—Silencio por piedade!

Foi prudente. O jardim era já de novo invadido por a mesma turba de estouvados que, momentos antes, abandonára o campo. Chegaram ainda a tempo de verem fechar a porta do quarto e saudaram a descoberta com gargalhadas.

Passados momentos, escutavam-se-lhes as vozes de fóra.

—Abre a porta, abre a porta; agora é inutil a dissimulação, Carlos. Seguimol-a, tivemos um presentimento; vimol-a entrar. Ha de ser ella. Não o negues. Abre!

Cecilia, ao escutar estas palavras, sentia-se desfallecer.

—Oh! meu Deus!—exclamou, erguendo assustada as mãos para o céo.

Carlos parecia fulminado.

—Então, Carlos, então? Abre, que maneiras novas são essas? Tu não eras assim.

—Isso fica-te mal.

—Só queremos vel-a e retiramo-nos.

—Vel-a e apresentar-lhe os nossos respeitos.

—Então, então?

Carlos teve um momento de desespêro. Sem bem attender no que fazia, sem calcular consequencias, deu um passo em direcção da porta, com o olhar inflammado e os labios tremulos de cólera.

Impediu-lhe porém a passagem Cecilia, que quasi lhe caiu de joelhos aos pés.

—Quer-me perder, snr. Carlos!—dizia ella com a voz tomada de afflicção—Quer-me perder?!

Carlos parou, e tentando erguel-a disse, não menos commovido:

—Cecilia; juro-lhe pelo que ha de mais sagrado que...

N'este momento uma das vozes dizia:

—Então, avarento, não nos queres mostrar essa tua Cecilia?...

Estas palavras fizeram estremecer a filha de Manoel Quentino.

Ao ouvir assim o seu nome pronunciado, e d'aquella maneira, por labios estranhos, ergueu-se com um movimento energico, cheio de orgulho e de dignidade revoltada, e, cobrindo-se-lhe as faces do rubor da indignação, disse, voltando para Carlos o olhar cheio de amargura:

—Em que lhe tinha merecido eu isto, senhor?

—Cecilia!...—balbuciou Carlos, empallidecendo.

Foi ella a que d'esta vez, afastando-o com soberana altivez, caminhou para a porta em passo firme e seguro.

Carlos collocou-se diante d'ella.

—Que vae fazer?—exclamou com voz supplicante.

—Deixe-me! Menos de receiar para mim é, alli fóra, a presença d'essa gente, do que aqui a sua protecção generosa.

Esta ultima palavra saiu-lhe dos labios quasi expressiva de despreso.

—Cecilia, pois julga?...

—Alli póde haver crueldade, que nem as minhas lagrimas commovam, mas aqui... ha peior... ha a infamia... que me feriu no coração.

E o tom commovido, com que disse isto, mostrava começar a dissipar-se já a energia, de que se inspirára ao principio.

Á palavra «infamia» Carlos deixou tambem o irresoluto embaraço, que o enleiára até então; tomando as mãos de Cecilia e olhando-a em face, disse-lhe, tendo na voz toda a eloquencia da sinceridade:

—Cecilia, não ha tempo agora para me justificar. Mas aceite-me um juramento. Pela memoria de minha mãe, pela vida de meu pae, pela felicidade de minha irmã lhe juro que não mereço essas suspeitas.

Um hypocrita poderia pronunciar este mesmo juramento, mas não com o tom de persuasão e de verdade que a voz de Carlos possuia n'aquelle instante.

Não se mente assim.

Cecilia acreditou-o; todas as suspeitas, que por momentos lhe haviam assombrado o espirito, se desvaneceram.

Extincta a indignação, com a força ficticia que emprestára áquella natureza feminina, readquiriu o imperio perdido á brandura propria do sexo, que com razão n'ella confia, como na mais irresistivel arma.

Assomaram-lhe por isso, e abundantes, as lagrimas aos olhos, e, cortada de soluços, só pôde murmurar, apertando convulsivamente a mão de Carlos:

—Salve-me! Salve-me então, snr. Carlos; que estou perdida!

O ruido que, durante esta rapida scena, mais rapida a passar-se do que a descrever-se, não havia cessado, redobrava agora de vehemencia.

Carlos só achou um meio para sair d'aquella situação. Correu á sala da bibliotheca, e abriu-a. Cecilia fugiu para ella e quasi instinctivamente fechou a porta atraz de si.

O expediente era arriscado ainda, porque os criados podiam ver apparecer Cecilia d'aquella parte da casa, o que não menos a comprometteria. Não occorreu outro porém á lembrança de Carlos.

Depois de procurar por alguns instantes desvanecer todos os vestigios da agitação, que a scena descripta lhe causára, foi abrir finalmente a porta aos seus importunos amigos.

—Então tomaram-me hoje para victima de motejos, meus senhores?

—Deixa-te de ares de tyranno de comedia, que te não vão bem. Vamos a saber que é d'ella?

—Quem?

—Ora, quem! A rapariga?

—Continuam as zombarias?

—Homem, não o negues. Encontramol-a alli acima, á esquina. Não sei qual foi de nós que teve um diabolico presentimento. Seguimol-a de longe. Vimol-a hesitar, ao chegar ao portão. Symptoma infallivel! A final entrou. Corremos. Ainda assistimos ao fechar da porta... e agora esta demora pouco delicada... a tua má vontade... Demais, a alguns pareceu ouvir rumor de vozes aqui dentro. Ora vamos; confessa.

—Não te faças piegas; que sentimentalismos são esses?

—Tu que n'estas cousas foste sempre dos mais exigentes; que sempre pugnaste por os direitos de boa camaradagem!...

—Eu que o diga. Lembras-te, d'aquella vez na Carriça?

—E em Leça commigo? Cheguei a desesperar com as exigentes curiosidades d'este senhor.

—Vê lá se preferes que a procuremos.

—Querem obrigar-me a ser incivil, mandando-os saír?

—Incivil estás tu sendo já.

—E tu a fazeres drama, Carlos! Desconheço-te.

—Está decidido—disse o louro adamado—o homem reage. O remedio é facil. Procuremol-a. Elle por certo que a não confiou á familia para guardar. Deve estar escondida aqui.

—Batamos a mata. A gazella ha de apparecer.

E n'um instante principiou desordenada pesquiza em todo o aposento. Não houve movel nem escondrijo, que não fosse revistado.

—E na bibliotheca?—disse por fim uma voz.

—É verdade! Na bibliotheca!—repetiram os outros. E todos caminharam para lá.

Carlos tremeu por Cecilia.

—Prohibo-lhes que abram essa porta!—exclamou, com voz perturbada.

—Bravo! Acertamos! Ouvem-o?

—Ah! diavolo! Está fechada por dentro.

Carlos respirou.

—É a primeira vez que me lembra achal-a assim. Mysterio! Deixa ver se pela fechadura...

—Carlos, abre ou manda abrir esta porta.

—Escutem. Ha rumor lá dentro.

—Deixa ouvir.

—É ella.

O que espreitava, continuou:

—Pareceu-me que vi agora o vestido de uma mulher.

—Ah!

—Foi ler Paulo e Virginia. Conselho de Carlos, que está dado a leituras brandas.

—Ah! ah! ah!

—Pschiu! Calae-vos.

Carlos levantou-se desesperado.

—E eu exijo silencio. Alguem se aproxima. É ella. Incessu patuit dea... É mais razoavel do que tu; veio ás boas.

Carlos lembrou-se da anterior tentativa de Cecília e receiou que se renovasse.

Agora já elle lhe não poderia impedir os passos. Perdeu com esta ideia toda a força moral; sentiu-se desalentado.

A chave girou na fechadura.

—Desbarretem-se, meus senhores. Eil-a emfim!—disse um dos do rancho.

Carlos fechou os olhos, como se na presença de perigo imminente; a mão apertava-se-lhe convulsamente sobre a caixa de revolvers que tinha perto de si.

Em vez porém do tumulto que esperava ouvir, e que Deus sabe a que excesso o arrastaria, seguiu-se tão profundo silencio, que o obrigou a erguer a cabeça surprendido.

Todos os rapazes, havia pouco ainda tão turbulentos, recuavam agora calados e descobertos e como procurando occultar-se uns com os outros.

No lìmiar da porta, que se abria, apparecia a figura candida e serena de Jenny, com o braço passado pela cinta de Cecilia, a cuja cabeça, suavemente animada por um sorriso de melancolia, sustentado a custo, servia o seu hombro de apoio.

Jenny conservou-se por algum tempo assim, olhando-os com gesto composto e admirado, que parecia subjugal-os.

Havia n'esta scena um quadro que impressionava.

As feições angelicas da irmã de Carlos revelavam tanta doçura e tanta nobreza ao mesmo tempo, e as de Cecilia tanta melancolia e tambem tanta confiança na amiga a que se amparava, que os mais levianos do bando curvaram respeitosamente a cabeça diante d'aquellas duas mulheres.

Só um olhar como o de Carlos, exercitado no estudo do rosto da irmã, podia notar-lhe nos labios um leve tremor, a denunciar que áquella apparente placidez não correspondia uma completa serenidade de coração.

Era comtudo affavel e segura a voz com que ella se dirigiu aos amigos de Carlos.

—Peço desculpa de os ter feito esperar. Julgamos que meu irmão tinha já saído e viemos ambas procurar um livro.

E depois, mostrando-lhes Cecilia:

—É minha amiga... ou mais do que amiga... é quasi minha irmã.—E acrescentou, sorrindo para ella:—Cêdo o será, não é verdade?

Cecilia estremeceu e voltou para Jenny o olhar admirado. Ia talvez a fallar.

Jenny reprimiu-a, apertando-lhe occultamente a mão; e proseguiu, sorrindo:

—Perdôe-me a indiscrição, Cecilia; talvez até nem indiscrição fosse já, porque... estes senhores são... os amigos de meu irmão Carlos.

E estas palavras soube dizel-as Jenny com delicada inflexão de ironia na voz, que augmentou o embaraço dos que a escutavam.

Curvando-se ligeiramente para elles, Jenny saíu da sala com Cecilia.

Carlos não ousou erguer os olhos para a irmã.

Vendo-a saír, voltou-se para os seus antigos companheiros, que principiavam a formular desculpas, e disse-lhes com provocadora frieza:

—Espero que estará satisfeita a sua curiosidade. Ordenam mais alguma cousa?

—Desculpa, Carlos; nós julgamos...

—Tu bem vês que não sabiamos...

—Ó menino, acredita que...

—Palavra, que pensei que era a do dóminó.

—Tambem eu.

—Espero que não leves a mal.

—Aquillo era brincadeira.

—Adeus, Carlos; apparece. Faze-te visivel.

—Mil perdões e... e parabens.

E deixaram o quarto.

Na rua diziam:

—E esta!

—Carlos casar-se!

Requiescant in pace!

—Amen.

A porta a fechar-se sobre o ultimo, e Carlos a correr á bibliotheca para ajoelhar aos pés da irmã.

—Jenny! Jenny! O amor que eu te tinha é pouco para o que te devo. É preciso adorar-te, minha irmã.

Jenny ergueu-o, e, olhando-o com expressão triste e meiga, disse:

—Deixa esse excesso de affeição para alguem, que já agora tem mais direito a ella do que eu.

E apontou para Cecilia, que, chorando, escondia o rosto no seio da amiga.

Carlos dirigiu-se a ella commovido:

—Cecilia Cecilia, quererá perdoar-me?

Cecilia estendeu-lhe a mão, sem responder, nem levantar o rosto.

Carlos curvou-se para beijal-a.

Uma lagrima assomou aos olhos de Jenny.

Erguendo-os ao céo, murmurou, dirigindo-se talvez á imagem da mãe, presente á sua imaginação:

—Obrigada! obrigada!

Que lhe agradeceria Jenny? A inspiração que d'ella lhe viera, de certo.