Uma Lágrima de Mulher/I/XIII

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo XIII


Por volta das dez da noite, um barco costeava a ilha pelo lado da praia.

De vez em quando o vento, caprichoso e vadio, trazia de rastro alguns fragmentos de uma bela barcarola, que necessariamente vinha do barco. Eram as noites de uma chorosa rabeca, espécie de harmonia chorada, ou melhor, de pranto harmonioso. O certo é que, música ou pranto, doía à gente ouvir soluçar daquele modo. Se fosse possível fazer do coração um instrumento e tangê-lo, com certeza havia o som de ser o mesmo que então se ouvia.

O barco vinha-se aproximando lentamente da praia, e lentamente ia-se calando o instrumento; daí a pouco paravam ambos, e um vulto de homem, com ares de pescador, soltando o ferro, pojava na areia.

O barqueiro depositou a rabeca sobre um dos bancos de seu barco, conchegou melhor o capote de pescador e, dando alguns passos pela praia, encarou a silenciosa ladeira, frouxamente clareada pelo luar.

Miguel não faltara à entrevista, porém. Temendo vir pela estrada e ter que passar pela porta de Maffei, resolvera entrar pelo fundo, disfarçado em pescador; precauções necessárias para não ser descoberto pelo pai de Rosalina O mar sempre era mais seguro.

Posto em terra, atravessou o espaço, compreendido entre a água e a ladeira, e deitou a subir cautelosamente.

Subiu sempre até encontrar a primeira árvore; aí parou e ficou a escutar.

Era tudo absolutamente silencioso.

Miguel encostou-se ao tronco da árvore e esperou.

Sentia-se mal, o pobre moço! Desde que recebera o bilhete de Rosalina, meditava um meio de salvar a situação, e, por mais que desse voltas à cabeça, nada descobrira.

Agora, prestes a vê-la, encostado à oliveira, com o cotovelo direito na mão esquerda e com a outra escondendo o rosto, fazia castelos magníficos e desfazia-os, com a mesma facilidade. Imaginava as coisas mais absurdas, os projetos mais irrealizáveis.

Lembrava-se de raptar Rosalina, fugir com ela para qualquer parte; ou empregar-se em Rezina, como operário, e especular, como fizera Maffei; ou deixar-se morrer; ou matá-la.

Enfim, mil outras idéias deste gênero encontravam-se, debatiam-se, a morderem-se sangrentas, no cérebro molesto do pobre rapaz, como, na mesma pátria, irmãos se devoram e matam em tempo de guerra intestina.

Assim permanecia ele estático, com o rosto escondido na mão esquerda, invejando interiormente a tranqüilidade feliz da natureza, que parecia adormecida a sonhar amores.

— A terra, essa boa mãe - pensava ele - também tem um coração: às vezes parece sofrer, porque geme; sentir alegrias, porque ri; amar, porque soluça; enfim, não podia deixar de ter um coração, porque é mãe.