Uma Lágrima de Mulher/II/IX

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo IX


E no cogitar doloroso da saudade, decorreram dois anos de desesperança, sem que fosse dado ao artista ter notícia da sua amada.

Já não parecia o mesmo - tornara-se trabalhador e grave. A vigília e o estudo avivaram-lhe na fisionomia os clarões da inteligência, com a mesma intensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviavam no olhar a mocidade e o riso.

Bela e pensadora cabeça, quem te burilou tão sublime; a arte divina do homem ou a mão humana de Deus?

Muitas vezes o viam passar sombrio e automático, seguido dos seus discípulos e do cão; em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabeça, como quem procura um canto onde descanse o último sono. E as pobres criancinhas, coitadas! olhavam para o mestre com os pequeninos corações estremecidos; as louras sensitivas choravam porque o viam chorar.

Num desses passeios, chegaram às ruínas da casinha branca; massa informe de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincara Rosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente eles, para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho se lembrara de construir a sua choupana.

Derramava-se a hora do crepúsculo e da tristeza; os últimos clarões do dia abraçavam as primeiras sombras da noite - carícia contraditória da luz e da sombra.

Nada enternece tanto como, depois de algum tempo, voltar ao berço de nossa primeira felicidade; também não há decepção comparável à que experimentamos ao topar arrasado esse ninho de recordações e saudades. — Procurar um abrigo e tropeçar em ruínas, procurar um berço e despenhar-se na cova! Todo aquele nada respirava aniquilamento e tristeza; contudo, parecia haver uma voz mágica e sobrenatural que, semelhante aos fogos fátuos dos cemitérios, se sobreerguia trêmula e duvidosa das ruínas.

Miguel, hirto e arrebatado pela influência do fluído que exalavam os restos carbonizados da casinha branca, pascia neles o olhar ansioso, procurando compreender a voz misteriosa das ruínas, com a atenção de um septuagenário que procurasse soletrar na confusa inscrição de uma lápide, gasta pelo tempo, o nome do seu primeiro afeto.

E o seu olhas investigador, e o seu gosto cheio de interesse e ternura, e o som trêmulo das suas palavras quase inarticuladas, parecia dizerem:

— Que é feito de ti, minha ventura?... Coração que por mim palpitaste teu primeiro amor; lábios que me falastes com a primeira mocidade; olhos que me seguistes com o primeiro cuidado! aonde fugistes vós?!... — Sorrir! Como te deixaste esmagar pelas ruínas? Lágrimas! Como vos beberam, as línguas do incêndio? — Crença, foge! Coração, cala-te! E o teu? O teu coração, minha Rosalina? Estará em ruínas como o teu berço, ou brilhará porventura mais feliz e mais virtuoso, ao clarão tranqüilo e honesto do lar e da fortuna?! Se assim não for, se te não prendeste a uma sorte invencível, volve! que de muito te aguardo impaciente; se não te esqueceu a nossa passada ventura, pensa em mim, que to retribuirei com amor de escravo; e se eu morrer, esquecido e abandonado de todos, sem que aos meus olhos seja dado refletir a ternura dos teus, no momento extremo - chora meu amor, chora que Deus recolhe as lágrimas que os anjos cá da terra derramam nas sepulturas.

E assim cismava Miguel - imóvel, chumbado às ruínas da casinha branca, pasmando as quatro criancinhas, que sobre ele passeavam admiradas os seus olhares de auroras.

O artista cobriu o rosto com as palmas das mãos e rompeu a chorar soluçadamente.