Uma Lágrima de Mulher/II/XI

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo XI


Miguel voltou incontinenti.

A viagem foi demorada em virtude do caminhar incômodo da carroça. Mal chegado à cocheira, montou, sem tomar fôlego, um cavalo que lhe pareceu melhor e galopou para o lugar da entrevista.

Daí a pouco, atravessava de vertiginosa carreira todos aqueles barrancos, impregnados para ele de saudade e tristeza, de amor e de fadigas.

Parecia mais galopar na impaciência de chegar do que no seu cavalo.

A solidão, o marulhar da costa, a hora adiantada da noite, erguiam-se com enorme fantasma de neblina e espuma, que lhe vinha avivar a cólera de Maffei; o luzir vermelho e colérico dos olhos da fera, ainda o sentia ele dentro de si, como duas brasa a lhe queimarem os osso do crânio. Esses olhos, que Miguel viu pela última vez antes de cair no precipício, procurava desde então esconder com o manto claro das suas idéias; entanto, eles sentia-os a queimá-las, a esburacá-las e, depois de encardi-las, reaparecem ameaçadores e vivos, a espreitar de dentro os seus movimentos, palavras e mais íntimas intenções, como se fosse o próprio olhar da consciência, mas de uma consciência ébria.

Sim, porque a consciência também se embriaga, e nesse estado diz as coisas sem nexo e às vezes obscenas.

Ela, como toda mulher que se embriaga, fica nojenta - arregaça as mangas e as saias, fuma, cospe-se toda, ri-se como os marujos e bebe como os soldados; perde, enfim, a vergonha e o pudor.

As grandes crises podem divinizar ou prostituir uma consciência do mesmo feitio que um grande amor pode divinizar ou prostituir uma mulher.

A casta, a pudica, a terna consciência do artista dava nessa ocasião gargalhadas; contudo, lá ia ele a galopar com ela na garupa. Levava consigo a bêbada e pelo caminho abraçavam-se e beijavam-se como dois amantes doidos.

De fato, é loucura o amor sem conforto que passa de cinco anos; o cérebro e o coração também concebem e os seres, às vezes, saem alucinados, extravagantes e incoerentes.

A idéia fixa, que acompanhava Miguel há quatro anos, era um ser desse gênero, fecundado pelo amor e pela desgraça e endoidecido pelos próprios pais; crescera, crescera ainda mais e quando nasceu mamou nas tetas de uma fera.

— Uma fera doida, eis a idéia fixa de Miguel nessa noite; presa, era horrível; solta, deveria ser fatal.

Nesse estado, chegou ele à cabana do desconhecido; apeou-se e empurrou com um murro a porta.

Sombra da Noite dormia tranqüilamente sobre umas palhas no chão; a claridade amortecida das estrelas, que se introduzia pela greta da porta, iluminava frouxamente o interior miserável da casinha.

Miguel arquejava; dir-se-ia o ressonar da sua consciência ébria; à vista, porém, da tranqüilidade rústica com que dormia o pescador, fugiram envergonhadas as suas suspeitas e foi cheio de confiança que se chegou para o acordar.

Sombra da Noite espichou uma perna, abriu duas vezes a boca e levantou-se finalmente, fazendo o sinal da cruz.

— Espere, homem! disse ele a Miguel, não vá dar com as pernas por aí!

E recolheu-se ao fundo da casa, donde voltou pouco depois com um rolo de cera de abelha torcido e encerado.

— Sente-se por aí! Olhe, tenho só este madeiro; não faz lá muito bom assento, mas serve.

E empurrou para Miguel um tronco de nogueira, única mobília da casa.

Miguel sentou-se, ardendo de impaciência.

O homem foi ao outro quarto, bebeu água de um púcaro de barro, acendeu o cachimbo e fechou a porta com uma tranca de madeira pesada; depois, encostou-se à parede, com as pernas cruzadas e o indicador da mão esquerda engatilhado no cachimbo, e disse entre uma baforada de fumo e um bocejo:

— Agora vamos ao que serve!