Uma Lágrima de Mulher/III/IV

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Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo IV


O barco atravessava descuidado o perigoso mar de Sicília, em demanda das praias napolitanas.

Quem o governava? O nordeste? O leme? O braço do pescador? A bússola? Uma estrela? Algum farol? A fé em Deus? O capricho do mar? Nada! Nem o braço mesquinho do homem, nem o dedo poderoso de Deus, nem a vontade de um, nem o querer o outro. Governava-o sim, um coração apaixonado.

O barco estremecia com o pulsar deste coração boêmio; o seu verdadeiro comandante era o amor, esse que não conhece tempestade nem bonanças, esse que é tranqüilo no sofrer e desensofrido na ventura, esse que sempre triunfa! O amor!

Parecia demandar os portos de Nápoles, mas em verdade o que demandava ele era tão somente a mais forte das fragilidades humanas, a mais heróica das fraquezas divinas, o mais diabólico dos anjos terrestres, o mais angélico demônio celeste: a mulher!

Esse conjunto do que há de santo e do que há de tentação, esse amplexo do bom com o mal, esse beijo de Deus no homem, essa lágrima doce e venenosa de piedade e ciúme, esse motivo do inferno, esse mesmo inferno e esse paraíso, essa mocidade, essa riqueza, esse tudo, esse nada: a mulher!

Ia em demanda de uma mulher, isto é, ia naufragado; uma mulher é sempre uma ilha desconhecida.

Entretanto, navegavam; entretanto, o vento e a noite corriam favoráveis e tranqüilos; a natureza é verdadeiramente fidalga, boa e orgulhosa; dá indiferentemente, não olha para quem recebe; favorece e passa distraída.

O barco corria rápido e macio, as enxárcias esticadas, a vela gorda de vento, a proa alta de cortadora, o casco trêmulo de ligeiro.

Miguel, de pé, esbelto, pensativo, com a rabeca em punho, quebrava da noite o silêncio encantado, com as vibrações harmoniosas de seu instrumento; gemia o arco apaixonado e as vagas alevantavam-se, convulsas e encapeladas, para o ouvir e admirar, e logo depois recaíam, deslocando-se magnéticas sobre as suas molas quebradiças.

E o barco embalava-se como um berço de gigante: e a música fugia com o vento, e Nápoles vinha pouco a pouco se aproximando.