Uma Tragédia no Amazonas/VIII

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Estava-se a 14 de setembro de 186...

Reinava imensa alegria em casa de Eustáquio.

Branca dera à luz oito dias antes, isto é na véspera da maior festa nacional do Brasil, o aniversário da sua independência do jugo português, uma criancinha bela como um cupido que, passando de mão em mão, recebia afagos de toda a sorte da família inteira, sem excetuar uma mocinha de S. João do Príncipe, dedicada e constante veladora da esposa do ex-subdelegado, durante os incômodos que precederam o parto.

Por todos esses dias a família se entregara exclusivamente ao prazer e também no povoado todos estavam contentes.

Durante a noite, melodias campestres se elevavam das habitações da vila, cujas cúpulas de palha, servindo de pedestal a um mocho sombrio, brilhavam docemente aos ósculos luminosos do luar.

Lá dentro, entre suas pobres paredes de barro, mãos de rústico, lassas do ferro agrícola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados, de um encanto que só pode avaliar quem já os ouviu, os quais mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas.

Estava-se, já o dissemos, a 14 de setembro.

A julgar pela força com que os raios de sol enchiam a atmosfera, sob o azul puro e claro do céu americano deviam ser nove horas, quando menos.

O leitor colocado no meio dessa planície que se desdobrava ao poente da habitação havia de presenciar o seguinte:

Rosalina, alegre como sempre, chegou risonha à janela, cantarolando a delicada poesia de Dirceu:

Como alegre vem nascendo

A serena madrugada!

Já d'aurora a luz dourada

Duvidosa vem raiando.

E tu descansando

Marilia formosa,

Escutar, etc.

Toda a sua atenção estava pregada em uma rosa pendente dos últimos ramos de uma esguia roseira que chegava a altura da janela. Estendeu o bracinho mimoso, coberto apenas por uma manga que nem lhe chegava ao cotovelo, tomando cuidadosamente entre dois dedos a flor, menos linda que ela e, depois de saborear os seus perfumes, entrou a contemplá-la conversando talvez em muda linguagem. As flores e as crianças se compreendem. Na mesma ocasião uma pessoa descendo sorrateiramente da colina escalou ousadamente a alta cerca de traves novamente construída, penetrando no roseiral. Esgueirou-se pela parede até pouca distância da janela ocupada pela menina, apontando-lhe uma pistola, depois de olhar várias vezes para trás e para um lugar onde poderia distinguir alguns olhos à espreita por entre as tábuas do cercado.

Que quadro! A candura e a inocência de um lado, de outro a perversidade e o crime.

Ia ressoar o tiro e Rosalina estava morta, mas a Providência velava.

Antes de cair o cão da pistola do assassino, uma fumaça tênue alvejou a folhagem de uma magnífica árvore da margem do rio; e soltando um gemido o bandido rolou, afogado em ondas de sangue.

Um tiro, providencial e certeiro como a faca que, dias antes, ferira um dos perseguidores de Eustáquio na picada, acabava de defender Rosalina contra a mão infame de outro celerado.

A orfãzinha estremeceu ao tiro, e soltando a rosa por um movimento instintivo gritou vivamente:

— Papai!

O esposo de Branca acudiu logo, porém dando com a vista de um corpo ensangüentado que jazia sob a janela conheceu que o tiro partira de braço amigo e não se assustou com ele. Correu ao lugar onde se via o corpo e pôs-se a examinar o seu estado. Era já cadáver, mas o que ele estranhou foi verificar que longe de ser um negro era um homem de cor branca (o que não obstava que fosse de meter medo) com a tez morena, cabelos ligeiramente cacheados e imundos a cair sobre a testa onde rugas profundas estampavam a ferocidade, parecendo um espanhol.

E o ex-subdelegado que supunha ter somente negros por inimigos não sabia o que pensar.

— Então enganei-me, dizia ele consigo. Bem pode ser.

— Como são atrevidos os tratantes, já querem entrar-me em casa. Ah! e não poder eu acabar com eles!

Cumpre notar que os paraenses estavam no povoado nessa ocasião, e disso deviam ter ciência os bandidos que se aventuravam a aproximar-se do roseiral, cousa que nunca tinham praticado em pleno dia. Contudo um sentimento de covardia fez com que, entrando, apenas um, ficassem outros espiando da parte de fora para prevenir as eventualidades.

Estes, cujos olhos o leitor percebeu entre as traves do cercado, correram para a montanha logo depois do tiro, arreceando-se da volta dos caboclos paraenses.

O ex-subdelegado não podia fazer mais que esperar pelos engajados. Deixou pois Ruperto de espingarda ao ombro passeando pelo roseiral e entrou em casa pela porta da cozinha, conversando com Branca enquanto não voltavam os seus soldados.

— Ainda, você não se convenceu dizia a mulher, de que não nos achamos em segurança? Não viu já que o novo cercado não suspende o braço dos nossos inimigos?

Eustáquio não tinha resposta e emudecia diante de Branca sem ter ânimo de encontrar com os seus os olhos da esposa, que aliás falava com a maior brandura. Parecia mais uma mãe repreendendo o filho, do que uma mulher que desejava arredar o esposo de um capricho o qual talvez acarretasse conseqüências funestas, máxime para ela.

Eustáquio rompeu o silêncio que conservava, falando:

— Dou-lhe, Branca, o conselho de fazer os arranjos necessários porque vamos definitivamente partir.

— Os preparativos já estão feitos há muito tempo, replicou a moça.

Eustáquio perturbou-se, todavia continuou decidido:

— Se assim é...

Antes de terminada a frase entraram os paraenses, e o protetor de Rosalina que não tinha vontade de continuar a conversar foi ter com eles guiando-os até o cadáver, que estava ainda perto das janelas de uma saleta próxima à cozinha, no lugar onde caíra.

— Quem matou este homem? perguntou um deles.

— A mesma pessoa que matou, noutro dia, o negro da estrada, respondeu Ruperto que apresentou-se então.

— Você a viu? interrogou de novo o caboclo.

— Não, porque o tiro partiu dali, disse o escravo indicando com o dedo o cimo da árvore que, à margem do Iapurá, oferecia sua folhagem ao sopro das brisas.

— Que bom atirador! exclamaram todos.

— É verdade, disse Eustáquio, porém o que eu admiro é o modo porque ele se oculta, e a constância com que permanece pronto a defender a minha causa em qualquer momento.

Depois deste colóquio o marido de Branca tirou da cinta que cingia o cadáver um saco repleto de cartuchos e guardou também uma pistola de dois canos com que o malvado tentara assassinar a menina.

Relativamente ao morto procedeu-se como se devia e voltou-se a atenção para os preparativos da partida para Manaus.

O batismo do recém-nascido, que se devia realizar então, foi adiado para uma época mais conveniente ao mesmo tempo que o esposo de Branca tomava outras disposições necessárias a uma mudança.