Uma Tragédia no Amazonas/X

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Achando-se em terra, os exploradores tomaram apressadamente o caminho de S. João do Príncipe.

Esta povoação estava mais próxima que a casa de Eustáquio e portanto era mais fácil de alcançar.

Conquanto já fossem três horas, a escuridão na mata ainda era absoluta, o que forçava os engajados de Eustáquio a seguirem tropeçando e ganhando terreno com dificuldade.

Doze passos não eram dados quando ouviram um barulho. Julgando ser ilusão, pararam e escutaram... Alguém os seguia. Não havia dúvida... Subitamente luziram archotes. Os malfeitores os perseguiam.

— Depressa! depressa! disse Eustáquio.

Foi inútil a incitação. Os caboclos continuavam ligeiros através do mato.

O negrume da noute retardava-lhes um pouco a marcha todavia os escondia dos perseguidores, que alumiados pelos archotes se aproximavam rapidamente.

Pequena distância separava um grupo do outro. A cada instante Eustáquio esperava uma luta. Em uma ocasião chegou a parar com os caboclos, e mandou aprontar armas, mas também nesse momento os malfeitores pararam e os exploradores ouviram a voz arrogante do mesmo homem branco da clareira:

— O patife, disse ele, vai entrar no povoado... e está livre. Vai nos fugir como tem fugido sempre.

"Voltemos!"

O marido de Branca não compreendeu de quem falavam os seus inimigos, e somente conheceu que tomavam os exploradores por uma só pessoa e renunciavam a persegui-la.

— Isto é melhor, falou ele consigo mesmo, ao ver os malfeitores se afastando pouco a pouco.

Instantes depois saíam, Eustáquio e os seus companheiros, da floresta. Sentiram o rumor vago e sereno que durante a noite parece pairar na superfície sossegada dos grandes rios. Estavam à margem do Iapurá. O lado oposto do rio aparecia como uma sombra horizontal e se confundia com as águas. A esquerda os exploradores tinham o povoado. Nenhuma luz brilhava nas janelas, dos seus casebres.

Tudo dormia.

Entraram na povoação possuídos desse respeito irresistível que se apodera de que vagueia a horas mortas.

O silêncio da noute nenhum dos homens teve ousadia de quebrar.

Costearam o rio e algumas casinhas. Chegaram ao largo principal. Nessa ocasião um paraense divisou através das frestas de uma porta mal fechada a chama sangüínea de uma candeia.

Era na morada do padre Jorge.

Eustáquio bateu com as unhas nas tábuas carunchosas da porta. A porta cedeu, apresentando-se logo o sacerdote.

Ambos, sem outros cumprimentos, abraçaram-se com efusão.

— Donde vens, querido Eustáquio, perguntou o padre, coberto de lama, coberto de rasgões, e coberto de armas?... E acompanhado dos meus paraenses? Quase não te conhecia!

"Assenta-te ao meu lado e me conta o que houve...

"Vós todos estais sinistros!"

— As circunstâncias o exigem, respondeu Eustáquio.

"Vós sabeis dos tristes acontecimentos que tem havido em minha casa, mas não sabeis que na manhã de ontem... pois que são três horas da manhã de sexta-feira..."

— Oh! interrompeu o padre Jorge, julgava que ainda fossem dez horas da noute de quinta-feira... estava tão entretido na leitura da história de Napoleão Bonaparte...

E apontou para um alfarrábio que estava aberto sobre uma velha mesa junto da lâmpada.

— Como dizia, continuou Eustáquio, na manhã de ontem recebi por um modo extraordinário aviso de que ia ser atacado pelos meus velhos perseguidores.

"Ora, isto assustou-me, e decidi-me a empreender uma viagem de reconhecimento, que teve os melhores resultados, como ides ver:

"Depois de percorrer a mata encontrei os tratantes.

"Uma árvore serviu-me de observatório e dela me foi possível ouvir dizer que a minha morada, hoje, ao romper do dia vai ser assaltada pelos miseráveis, que são em numero de nove ou dez."

— É medonho! balbuciou o padre.

— Não é só isto. Os bandidos pretendem roubar para o chefe... Quem?! a minha pobre Rosalina... Infeliz criança!

— Eustáquio, acreditas que eles ousem?

— Acredito, sim! Nunca pensei que eles se atrevessem a escalar-me grades em pleno dia e entretanto a coitada da Rosalina, na janela da casa, escapou de ser morta... por milagre!

"Morreria, se não fosse a intervenção de um salvador misterioso."

O sacerdote prendeu melhor os óculos e continuou atento.

— Eles, que têm a coragem de penetrar quase nas minhas salas, podem facilmente assaltar-me... Mas, meu padre, vai se fazendo dia, e eu quero receber convenientemente os meus inimigos, por isso adeus. Entrei aqui para descansar e já estou pronto.

O padre tomou a mão de Eustáquio, não tanto para saudá-lo como para prendê-lo e não o deixar sair.

— Eustáquio, disse ele, tu não irás sem que eu vá também.

"Tens somente seis contra nove ou dez. É pouca gente. Eu serei mais um dos teus. E talvez não seja ainda suficiente."

— Oh! Sois um sacerdote e não contais a Providência, que deve estar do meu lado?!

— Sim,... mas quero ir. Quero morrer contigo, ou contigo me salvar.

"Partamos! Não há tempo a perder."

— Que! bradou Eustáquio, padre Jorge, ficai!

Qual, amigo! Que tenho a recear? A morte? Ora! A morte já não me pode causar dano. Deste meu lugar eu já a avisto. Que importa que ela me alcance aqui ou ali?... Questão de lugar.

— Não! não haveis de ir!

— Hei de ir certamente, replicou o padre com firmeza.

— Padre Jorge, sejamos razoáveis. Lembrai-vos que há almas por quem tendes de responder a Deus.

"E se morrerdes..."

— Outros me hão de substituir com muito mais aptidão para o meu mister. Além disso, a tua e a dos teus não serão dessas almas por quem sou responsável? Não tenho eu até o dever de estar ao vosso lado pronto a confortar-vos em vosso último momento, se ele chegar?

O ex-subdelegado viu que era impotente diante da vontade inabalável daquele velho, curvou-se e beijou as costas da mão rugosa e magra que segurava nas suas.

— Bem, disse comovido, sois o mais bravo dos sacerdotes e o mais dedicado dos amigos, vinde! Iremos juntos, e morreremos juntos, se for da divina vontade.

E os dois se abraçaram.

Os paraenses, de pé, assistiam, calmos, mas enternecidos, as peripécias belas dessa cena de amizade.

Passados alguns momentos, o velho sacerdote dirigiu-se à mesa e fechou o alfarrábio. Aos pés do seu pobre leito havia um crucifixo de madeira negra. Beijou-o respeitosamente e veio reunir-se aos companheiros de Eustáquio.

Deixaram todos a casinha do padre, que talvez a ela não volvesse.

Ainda os lampejos alvacentos da madrugada não se irradiavam pelo nascente. Era noute ainda.

Antes de sair da povoação, um grupo de trabalhadores passou por diante de Eustáquio e dos seus, saudando respeitosamente com os chapéus ao padre Jorge e ao esposo de Branca. Eram quatro rústicos, em trajos grosseiros, que levavam ao ombro instrumentos de lavoura.

O padre Jorge aconselhou a Eustáquio que engajasse mais aqueles homens. Eustáquio não trepidou. Tratou-se, sem regateio, a recompensa, seguindo os exploradores com o novo reforço pela picada acima.

Avizinhava-se o roseiral de Eustáquio.

A lua, vermelha como a lanterna sangrenta de algum gemo das trevas, avançava tristonha pelos céus além. A atmosfera, tristemente nublada, mal coava uma frouxa claridade que dava a tudo uma feição fantástica. À base da montanha que parecia envolta em um manto de gaze cinzenta, repousava silenciosa a casa branca do ex-subdelegado como uma tímida pomba abrigada nas fendas de algum penhasco.

Por sobre ela, em certos lugares escalvados da encosta da montanha, escorregavam filetes d'água brilhando como prata.

Este quadro lúgubre veio encher de ligeiro pavor o ânimo atribulado de Eustáquio.

A lâmpada das noutes parecia-lhe um presságio de sangue, e ao entrar em sua habitação, sentiu apertar-se-lhe o coração.

Nenhuma novidade havia, felizmente; e a ansiedade com que todos esperavam pela volta do ex-subdelegado foi traduzida pelo acolhimento que teve ele.

Logo que o dia tornou-se claro, a cozinha de Branca forneceu um almoço restaurador, em que todos tomaram parte.

Foram carregadas cuidadosamente as armas de fogo e afiadas as de corte.

Todos estavam prontos.

Os oito engajados estavam postados, de espaço a espaço, por toda a extensão da paliçada exterior. Ruperto com uma ótima espingarda de dous canos, passeava sossegadamente no roseiral, preparado para socorrer as sentinelas de fora. E finalmente Eustáquio com sua família e o padre Jorge estavam dentro da habitação, transformada em casamata, tendo a sua disposição quatro pistolas e dous rewolvers.

Reinava tranqüilidade, porque a casa era fortemente defendida, mas ninguém conversava.

Tudo estava pronto. Só se esperava o ataque.