Uma Tragédia no Amazonas/XI

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A natureza no norte do Brasil e, em geral, nessa zona ardente que afronta os dardos de fogo, caídos verticalmente de um sol intertropical, é esplêndida.

Por ai corre o Amazonas. As suas náiades e as dos seus numerosos tributários, deslizando serenas, beijam com indolência os ramos floridos das seculares árvores que se debruçam sobre elas. Tocando apenas às duas margens deixam-nas impregnadas de fertilidade; e realizam os belos sonhos de Orelíana, enchendo-as de riquezas que só esperam o braço diligente e ativo para se transformarem em ouro.

Entretanto só rasgam-nas esses rios, correndo-as lentamente para tirarem por único fruto os belos madeiros que são vomitados no Oceano, e todas essas magnificências naturais são contempladas somente pelos olhos luminosos da onça, rainha dessas matas, ou pelo selvagem feroz e altivo, que as despreza.

A uma sossegada baía cavada na margem setentrional do Amazonas encostara-se uma pesada embarcação.

Sem conceder um só olhar ao belo docel de verdejantes ramagens que se recurvava sobre elas, desembarcaram dez ou doze pessoas. Sob a direção de um homem branco, as outras, que eram escravos, entregaram-se ao trabalho de descarregamento da sua barcaça. Grandes volumes foram depositados nas ribas até o amanhecer do dia seguinte.

Durante a noute repousaram os viajantes da penosa navegação pelo rio e, despertando-se com os passarinhos, começaram uma arrojada travessia pelas avenidas agrestes de uma floresta onde pela primeira vez penetrava o homem da civilização.

Avançaram diretamente para o norte e, só depois de avistarem através do arvoredo as lisas águas do lago Aiamá rutilando à luz solar, modificaram a direção, seguindo para o oeste. Foram-se muitos dias antes de findar-se essa viagem que parecia sem rumo.

Afinal, chegando a um montículo rodeado de elegantes palmeiras e vicejantes árvores, o homem branco ordenou que aí se fixasse residência.

Tinham lugar estes fatos dous anos antes dos que narramos nos primeiros capítulos deste livrinho.

O aventureiro, coadjuvado pelos escravos, fez edificações e, sem dar satisfações senão a si próprio, principiou com ardor a cultivar o solo. Os progressos da fazendola foram rápidos.

Os trabalhos, presididos pelo senhor, eram admiráveis e havia a mais completa harmonia entre este e os seus escravos. Assim correram as cousas durante um ano.

Entrou novo ano. As insofríveis agruras do clima decidiram o fazendeiro a abandonar a direção dos trabalhos. Ele quis escolher um feitor entre os lavradores pobres que vagueavam pelas imediações da pequena fazenda. Esse homem devia vigiar os negros obtendo por isso uma remuneração, mas o fazendeiro para evitar despesas tomou a resolução de entregar o cargo de feitor ao seu mais fiel escravo.

Os ciúmes nasceram logo entre os outros escravos, a inveja rebentou furiosa e nuvens negras começaram a encobrir o horizonte da concórdia.

Estava armada a tormenta. O raio não podia tardar.

De fato, depois de freqüentes desobediências, precursoras de uma insurreição, as quais foram justamente punidas, teve lugar um horroroso crime, cuja imediata conseqüência foi a destruição da fazenda, em outro tempo tão esperançosa.

Havia quase uma hora que o sol se pusera. Nuvenzinhas muito altas e estratos cor de fogo, no meio de uma claridade que, como um leque, se irradiava pelo firmamento, desmaiando gradualmente, lembravam apenas o facho diurno. Os grilos e as rãs, já gritando nas matas que rodeavam a fazendola, marcavam o momento de cessar-se a lida do campo.

Os escravos, que costumavam, a essa hora, tomar ao ombro as ferramentas agrárias e seguir para seus domicílios, conservavam-se imóveis e encaravam o feitor, em tácita provocação.

O feitor, enfadado por isso, deu uma expressiva gargalhada gutural e perguntou:

— Querem vocês passar a noute aqui?

Um negro de pouca idade atirou-lhe à face irritante injúria. O ofendido agitou o látego em forma de ameaça.

Esse gesto imprudente foi para o malaventurado feitor uma sentença fatal. O negrinho saltou sobre ele de fouce em punho e arrebentou-lhe o crânio.

A vítima ainda com vida foi logo carregada por dous escravos até a beira de um profundo precipício e lá atirada.

Pouco depois de ouvir-se o choque abafado do corpo mergulhado na torrente que estrondava no fundo do grotão, uma voz viril bradou de longe:

— Então! Não se recolhem?

Aparecia o fazendeiro que, achando singular a demora dos escravos no campo, viera verificar o motivo dela.

A sua pergunta foi respondida por um desafio.

Adiantou-se devagar o fazendeiro e correu os olhos pelos escravos.

— O que fizeram do feitor? Respondam, miseráveis! gritou ele sentindo a falta desse negro.

— Venha ver! disseram os escravos, apontando para umas nódoas de sangue na beira do precipício.

O senhor compreendeu então. Havia revolta. O feitor fora morto e lançado num abismo que já se apresentava aos olhos do fazendeiro como uma sepultura cavada também para ele.

Os negros iam se aproximando do senhor em atitudes hostis. As fouces giravam em suas mãos, desejosas de mergulhar no sangue. O lavrador sem tremer engatilhou um rewolver.

Dous negros mais ousados o atacaram, mas rolaram-lhes aos pés. Terceiro foi morto ainda.

Um quarto, porém, com rapidez felina atirou-se a ele e a despeito da sua valentia assassinou-o.

Os mais ferozes e enraivecidos saciaram os seus instintos no cadáver.

Em seguida um montão de carnes sem formas foi arrojado aos borbotões espumantes da torrente, que haviam devorado o feitor.

Estavam livres os cativos!

Com os ferros ainda ensangüentados, correram às habitações. Iam saqueá-las. O roubo seria o primeiro emprego de uma liberdade comprada por dous homicídios.

Algumas horas mais tarde estava o saque terminado e o incêndio rompia de toda a parte.

Tremendo protesto acabava a escravidão de lavrar contra a sua própria permanência num meio civilizado!

Uma escrava, a única que havia na fazendola, horrorizada à vista do cadáver do senhor, fugira dentre os companheiros, que não notaram o seu desaparecimento senão quando, terminado tudo, quiseram abandonar o teatro de seus crimes.

— Fujamos! exclamou então um negro. Mariana (a escrava) foi denunciar-nos!... Eu a vi correr para S. João do Príncipe. Fujamos!

Os escravos, sem perda de tempo, dispersaram-se todos, buscando um refúgio na mata.

Em alguns minutos, porém, viram-se cercados, agarrados e manietados por uma multidão de pessoas.

O subdelegado de polícia, avisado pela escrava, assim os prendia auxiliado por vários paisanos. A prisão não se efetuou sem luta. Houve até ferimentos e a infeliz Mariana foi morta pelas facas dos criminosos.

Deixando os presos sob a vigilância de alguns homens, o subdelegado tomou um caminho que, segundo as indicações da escrava, o levaria até o lugar do crime, e aí chegou de fato e pôde descobrir todos os sinais dos homicídios narrados pela denunciante.

Pouco depois da meia-noute entravam em S. João do Príncipe o subdelegado, os presos e os paisanos, vindo quatro destes com os fardos preparados pelos saqueadores da fazendola de que já nada restava mais que fumegantes cinzas.

Por falta de mais conveniente prisão, foram os criminosos encerrados numa casa, que devia guardá-los provisoriamente.

No dia seguinte foi o subdelegado visitar os presos.

Qual não seria o seu pasmo quando, ao penetrar na prisão, encontrou-a vazia?!...

Os assassinos tinham se evadido. Um buraco no teto de palha e o barro da parede quebrada eram os vestígios da fuga.