Uma lôa do Natal/Estrophe II

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Uma lôa do Natal por Charles Dickens
Estrophe II - O primeiro dos tres espiritos
Tradução de A. C., publicada separadamente n’O Jornal do Porto entre 1863 e 1864.



ESTROPHE II


O primeiro dos tres espiritos


Quando Scrooge acordou, fazia tão escuro, que olhando para fóra do leito, a custo podia distinguir a janella transparente, das paredes opacas do quarto, Esforçava-se em trespassar a escuridade com o seus olhos de furão, quando o carrilhão d'um relogio visinho bateu quatro quartos. Poz-se á escuta.

Com grande pasmo seu o pesado sino caminhou das seis ás sete, e das sete ás oito, e assim regularmente até completar doze toques; então parou. Meia noite!

Já passavam de duas horas quando Scrooge se deitára. O relogio por força estava estonteado. Algum pedaço de gelo se tinha introduzido no machinismo! Meia noite!

Scrooge tocou na molla d'um relogio de repetição que tinha á cabeceira do leito para corrigir aquelle relogio prepostero da terra. O rapido martelinho do relogio bateu na campainha doze vezes... e parou.

— Como! não é possivel! disse Scrooge. Terei eu dormido um dia inteiro, e ainda em cima parte da noite seguinte! Será possivel que tenha acontecido alguma coisa ao sol e que seja meia noite ao meio dia?

Sendo esta ideia bastante assustadora, o nosso heroe saltou abaixo da cama, e ás apalpadellas foi dirigindo-se para a janella. Viu-se na necessidade de limpar o gelo da vidraça, com a manga do roupão, para poder vêr alguma coisa; ainda assim muito pouco pôde distinguir. Percebeu tão somente, que ainda havia muito nevoeiro e muito frio, e que se não ouvia rumor de gente correndo para cima e para baixo, como tal seria inquestionavelmente o caso, se a noite tivesse expulsado o dia, e este se tivesse apossado do mundo. Foi isto um grande allivio para o bom do homem, porque verificando-se os seus pensamentos que valeriam as suas letras rezando «a tres dias vista pagará por esta minha primeira de cambio, ao sr. Ebenezer Scrooge ou á sua ordem» etc. etc.? Valeriam tanto como hypothecas feitas sobre as montanhas da lua.

Scrooge voltou para a cama, e pensou, pensou, pensou uma, duas, cem vezes no que lhe succedia, sem poder achar a chave do enygma.

Quanto mais pensava, tanto mais perplexo ficava; e quanto mais se esforçava em não pensar, tanto mais depressa os pensamentos lhe acudiam á mente.

O espectro de Marley incommodava-o horrivelmente.

Todas as vezes que resolvia interiormente, depois de maduro exame, não ser tudo aquillo mais que um sonho, o seu espirito, similhante á mola que cessa de ser comprimida, voltava á sua primeira posição, e apresentava o mesmo problema, para de novo ser resolvido.

«Tudo aquillo era um sonho, ou realidade?»

Scrooge jazeu neste estado até que os carrilhões soaram tres quartos mais; recordou-se então subitamente do espectro lhe ter prophetisado uma visita que devia receber quando o relogio da torre marcasse uma hora. Resolveu conservar-se acordado até que fosse passado esse tempo, e attendendo a que não lhe seria mais facil dormir do que ir para o ceu, foi indubitavelmente aquella a melhor resolução que podia tomar.

O quarto de hora durou tanto, que Scrooge chegou a convencer-se de que forçosamente tinha dormitado o seu bocado sem ter dado por isso, e de que não ouvira o relogio.

Este por fim feriu-lhe o ouvido attento.

— Dlin, dlon!

— Um quarto, disse Scrooge contando.

— Dlin, dlon!

— Meia hora.

— Dlin, dlon!

— Tres quartos!

— Dlin, dlon!

— Soou a hora, disse Scrooge com ar de triumpho; e nada apparece!

Scrooge fallou antes de bater a pancada que marcava a hora, e que se seguiu soando profunda e melancolicamente — UMA HORA!

No mesmo instante brilhou uma luz no quarto e os cortinados da cama foram puxados para o lado.

Os cortinados foram puxados para o lado. — como lhes digo, por uma mão. Não os cortinados aos pés nem á cabeceira, mas sim aquelles para onde Scrooge estava olhando. Os cortinados do leito ficaram abertos, e Scrooge erguendo-se na attitude d'uma pessoa meia deitada, achou-se face a face com o ente sobrenatural que os tinha puxado; tão perto d'elle como eu agora estou de vós, minhas amaveis leitoras e caros leitores, e notem que eu estou em espirito junto das vossas meninas dos olhos.

Era uma figura extraordinaria — assim a modo d'uma creança. E no entanto assemelhava-se menos a uma creança do que a um velho, visto através d'algum prisma sobrenatural, que lhe dava um ar de se ter affastado a distancia, e de ter ido diminuindo até ás proporções d'uma creança. O seus cabellos, que lhe cahiam pelas costas abaixo, eram brancos, como por effeito da idade; e todavia o rosto não apresentava uma só ruga, e na pelle brilhava o mais suave rosado. Os braços eram muito compridos e musculares; e as mãos igualmente, como se fosse dotado de uma força pouco commum. Os pés, formados mui delicadamente, estavam descalços e as pernas nuas como os membros superiores. O espectro trazia uma tunica do mais puro branco, prendendo-a um cinto luminoso brilhando admiravelmente. Na mão trazia um ramo d'azevinho cortado de fresco; e em singular contraste com aquelle emblema do inverno trazia o vestido adornado de flores do estio. Mas o mais extraordinario n'aquelle personagem era que da corôa da cabeça se espargia um jacto de luz brilhante e claro, que tornava tudo visivel: d'onde provinha sem duvida o uso que fazia, nos momentos de tristeza, em lugar de chapeu, d'um apagador que trazia debaixo do braço.

No entanto não era este o attributo mais extraordinario da apparição aos olhos de Scrooge, que a contemplava attentamente. Porque da mesma forma que o cinto ora brilhava e reluzia n'um lado ora n'outro, e o que era luz n'um momento, tornava-se trevas immediatamente; assim tambem a figura do espectro fluctuava diversamente, ora apparecendo um ente com um só braço, depois com uma só perna, ou com vinte; agora um par de pernas sem cabeça, mais tarde um corpo sem pernas; não deixando os membros, que desappareciam, ficar visivel na obscuridade um só contorno. Em seguida, por singular prodigio tornava-se de novo tão visivel e distincta como sempre.

— Sois acaso, o Espirito cuja vinda me foi profetisada? perguntou Scrooge.

— Sou!

A voz era suave e agradavel. Singularmente baixa, como se em logar de lhe sahir da garganta viesse de distancia.

— Quem sois vós? perguntou Scrooge.

— Sou o Espirito do Natal passado.

— Passado ha muito? inquiriu Scrooge notando a sua estatura d'anão.

— Não; o ultimo.

Talvez Scrooge não tivesse sabido dizer, se alguem lhe perguntasse, a razão porque tinha um desejo especial de ver o Espirito pôr o barreta na cabeça; e para satisfazer o seu capricho rogou-lhe que se cobrisse.

— Que! exclamou o Espirito, quererieis acaso extinguir com mão mundana a luz que espalho? Não será bastante já que vós sejaes um daquelles cujas paixões egoistas me obrigam a usar d'este chapéo e me forçam a travez dos seculos a trazel-o na cabeça.

Scrooge negou ter tido intenção de offender o Espirito, e ousou perguntar-lhe que negocio o trazia alli.

— A vossa felicidade.

Scrooge mostrou-se muito reconhecido, mas não pôde deixar de pensar que uma noite de repouso não perturbado, alcançaria aquelle fim mais depressa. De certo o Espirito lhe adivinhou o pensamento, porque lhe disse immediatamente:

— A vossa conversão então. Acautelai-vos.

Ao tempo que passava estendeu-lhe a sua possante mão e segurou-o por um braço.

— Levantai-vos e segui-me.

Debalde Scrooge teria allegado que o tempo e a hora não eram proprias para passeios a pé; que a cama estava quente e o thermometro alguma coisa abaixo do gelo; que estava vestido ligeiramente, apenas com as meias, roupão, e barrete de dormir; e que naquelle momento o incommodava um terrivel defluxo. O aperto do braço, ainda que ligeiro, como se fosse causado por uma mulher, não era todavia muito para se lhe resistir. Scrooge levantou-se; mas percebendo que o Espirito se dirigia para a janella, segurou-lhe a tunica em attitude supplicante.

— Sou um mortal, observou-lhe Scrooge, e por tanto posso cahir.

— Permitte sómente que eu ponha a mão ahi, disse o Espirito collocando-lha sobre o coração, e vencereis provações maiores do que esta.

Ao dizer estas palavras, passaram ambos atravez da parede e acharam-se n'uma estrada d'aldeia com campos d'um lado e d'outro.

A cidade tinha desapparecido completamente; não se via nem o menor vestigio d'ella. A obscuridade e o nevoeiro tinham desapparecido conjunctamente porque era um dia claro, e frio de hinverno, com neve por toda a parte.

— Deus do ceu! disse Scrooge, batendo ambas as mãos, e olhando em redor de si. Fui aqui creado. Passeo neste logar a minha infancia!

O Espirito olhou-o com bondade. O leve contacto ainda que instantaneo, tinha despertado a sensibilidade do velho. Este tinha a consciencia d'uma suave fragrancia na athmosphera, associada com milhares de pensamentos, d'esperanças, d'alegrias, de preoccupações olvidadas de ha muito.

— Tremem os vossos labios, disse o Espirito. E que é o que tendes sobre a face?

Scrooge, com a voz algum tanto tremula, disse que era um cravo; e pediu ao Espirito para que o levasse onde queria.

— Recordais-vos do caminho?

— Se me recordo! disse Scrooge calorosamente... Podia andal-o com os olhos fechados.

— É exquesito que o tivesseis, esquecido por tantos annos! observou o espirito. Caminhemos.

Continuaram a marchar na estrada, reconhecendo Scrooge cada poste, e cada arvore, até que appareceu em distancia uma pequena aldêa com a sua ponte, sua igreja, e com um ribeiro sinuoso. Naquelle momento viram-se trotando em direcção a elles alguns garranos de comprido pello, montados por buliçosos rapazes, que chamavam outross vindo em carros, governados por aldeões. Todos estes rapazes estavam muito alegres, e gritavam uns pelos outros, até que os campos ficaram tão cheios desta alegre muzica, que o ar em vibração ria de os ouvir.

— São apenas sombras do que foram, disse o espirito, nenhum desconfia da nossa presença aqui.

Os viajantes alegres adiantaram-se; e á medida que se approximaram, Scrooge reconheceu-os e pronunciou o nome de cada um d'elles.

Porque se alegrava elle, vendo-os? Porque lhe fulguravam os olhos, de ordinario sem movimento, e lhe batia o coração, quando elles passaram? Porque ficou elle saltando de jubilo, quando os ouviu desejar uns aos outros boas-festas, ao separarem-se nas encruzilhadas que os levavam cada um a sua casa? Que eram boas-festas para Scrooge? Fóra com o bom Natal! Que bem lhe fizera elle algum dia?

— A escolla ainda não está de todo deserta, disse o phantasma. Ainda alli está um pequeno solitario, esquecido pelos seus amigos.

Scrooge disse que reconhecia o logar, e suspirou.

Deixaram a estrada real, seguindo por um atalho bem conhecido de Scrooge, e dentro em pouco se aproximaram de uma construcção de tijollos vermelhos d'apparencia triste, com uma pequena cupola terminada por um catavento; sobre o tecto estava suspensa uma sineta.

Era uma vasta habitação, mas mostrando as vicissitudes da sorte, porque as suas espaçosas salas estavam pouco usadas, os muros estavam humidos e cobertos de musgo, as vidraças partidas e as portas despedaçadas. As galinhas cacarejavam e espanejavam-se nas cavallarices, e as cocheiras e os telheiros estavam sobrepejados de herva.

Nem no interior mostrava mais vestigios do seu antigo estado; porque ao entrar no sombrio vestibulo, e deitando um olhar atravez de varias portas abertas de differentes quartos. Scrooge e o Espirito encontraram-nos pobremente mobilados, frios e solitarios.

No ar sentia-se grande cheiro a mofo, e em toda a casa reinava uma mudez glacial, que deixara perceber as vigilias dos moradores, que se levantavam com lua para trabalhar, e não tinham que comer em abundancia.

Scrooge e o Espirito dirigiram-se atravez do vestibulo a uma porta situada nas trazeiras da casa; abriu-se a porta diante delles e deixou vêr uma sala comprida, melancholica e deserta, e tornada mais deserta ainda por uma fileira de bancos de pinho, e escrivaninhas da mesma madeira.

N'uma dellas, junto d'um fogo quasi extincto, estava lendo um rapaz que ficara só. Scrooge sentou-se sobre um banco e chorou, reconhecendo-se esquecido e abandonado como costumava ficar no tempo de rapaz.

Nem um unico ecco occulto na casa, nem o menor ruido dos ratos pelejando sobre o forro, nem o som da gota d'agua meia-gelada cahindo da torneira no pateo da casa, nem o suspiro do vento por entre os ramos do choupo desfolhado, nem o bater surdo da porta do vasio armazem, nem o ligeiro crepitar do fogo — deixavam de fazer sentir sua soce influencia no coração de Scrooge, que deu um mais livre curso ás suas lagrimas.

O Espirito tocou-lhe no braço e apontou-lhe para a creança — imagem representando Scrooge d'outr'ora lendo attentamente.

Subitamente um homem vestido exquisitamente, real e distincto á vista, appareceu em pé por detraz da porta de vidraça com uma machadinha á cinta, e conduzindo pelo freio um burro carregado de lenha.

— Aquelle é Ali-Baba! exclamou Scrooge extasiado; é o bom velho Ali-Babá. É elle — reconheço-o perfeitamente. N'um dia de Natal, em que eu quando era rapaz fiquei abandonado aqui só, veio elle justamente como agora. Pobre creança! E Valentim, e aquelle patife de seu irmão Orson; ahi vem tambem! E como se chama aquelle, que foi posto adormecido sem calças á porta de Damasco; não o vedes? É o lacaio do sultão deitado por terra pelos genios; alli está de cabeça para baixo. Tratem-no como merece. Para que precisava elle d'esposar uma princeza!

Grande surpreza teria sido para os collegas da City, se tivessem ouvido Scrooge despender todo o seu ardor natural em taes assumptos, n'uma voz exquisita, mixto de riso e lagrimas, e mais se admirariam vendo a animação que se lhe estampava no rosto.

— Ali está o papagaio! exclamou Scrooge, corpo verde, e rabo amarello, com uma coisa similhante a uma leituga sahindo-lhe da poupa. Pobre Robinson Crusoe, como elle o chamava, quando voltou a casa depois de ter navegado em volta da ilha.

«Pobre Robinson Crusoe, onde estiveste Robinson Crusoe?

O homem persuadiu-se que sonhava — mas não, não sonhava.

Era o papagaio que sabeis.

Eis-alli Sexta-feira correndo á bahia para salvar a vida.

Vamos, coragem, upa!

Então, com rapida tranzição, muito differente do seu caracter usual, disse, levado de piedade por aquelle outro elle:

— Pobre rapaz!

E exclamou de novo:

— Desejava... murmurou Scrooge mettendo a mão no bolso, e olhando em redor de si, depois de ter enxugado os olhos com a manga do casaco; mas é tarde agora.

— Que temos? perguntou o Espirito.

— Nada, disse Scrooge, nada. Na noite passada veio um rapaz cantar as lôas do Natal á minha porta.


«Desejaria ter-lhe dado alguma coisa; é isto unicamente.

O Espirito sorriu pensativamente e moveu a mão, dizendo:

— Veremos para o Natal seguinte.

A estas palavras, Scrooge viu a figura que o representava quando creança, a luz crescendo, e a salla tornar-se mais escura e mais suja.

Os caixilhos appareceram com fendas, as vidraças quebradas, fragmentos do estuque cahiram do tecto, e apresentavam-se despidas as ripas do travejamento; mas como se faziam estas transformações, era coisa que Scrooge sabia tanto como vós, estimaveis leitores.

Sabia tão sómente que tudo aquillo era exacto, que se passara tudo d'aquella forma; e que alli estava elle novamente só, quando todos os seus condiscipulos tinham ido passar as ferias com a familia.

Já não lia agora, mas passeiava desesperadamente de um para outro lado. Scrooge olhou para o Espirito, e com um movimento triste de cabeça, olhou anciosamente para a porta.

Abriu-se esta; e uma menina, mais nova que o rapaz, entrou para a salla rapida como uma seta, e enroscando os braços em volta do pescoço d'elle, disse: Meu irmãosinho, meu caro irmãosinho.

— Venho buscar-te para te conduzir a casa, meu irmãosinho, disse a menina batendo as mãosinhas uma contra a outra, e inclinando-se com a força do riso. Venho acompanhar-te para casa.

— Para casa Francisquinha? perguntou o rapaz.

— Sim, disse ella radiante d'alegria, para casa, para sempre, para sempre. O papá está tão differente do que era, que em casa agora está-se como no céo. Fallou-me com tão bom modo uma noite quando me ia deitar, que não tive medo de lhe pedir mais uma vez para te deixar vir a casa; e elle disse que sim, que virias; e mandou-me de carroagem para te levar. E tu vais ser um homem, acrescentou ella abrindo os olhos, e nunca mais voltarás aqui; mas primeiro vamos passar juntos a festa do Natal, e havemos de divertir-nos como ninguem.

— Tu estás quasi uma senhora, Francisquinha! exclamou o rapaz.

Ella bateu as mãos e riu-se; e procurou fazer-lhe meiguices na cabeça; mas sendo pequenina ainda, riu-se de novo, e poz-se em bicos de pés para abraçar o irmãosinho. Então com o afan proprio de creança, começou a empurral-o para a porta, e o rapaz sem se fazer muito rogado, acompanhou-a.

Uma voz terrivel no vestibulo, mesmo no vestibulo, exclamou: «Tragam para baixo o bahu do snr. Scrooge», e appareceu no vestibulo o mestre-escóla, que deitou sobre o pobre rapaz um olhar de condescendencia feroz, e fez-lhe perturbar o espirito com um aperto de mãos que lhe deu.

Introduzio-o em seguida, assim como a irmã na salla do rez do chão, a mais fria que existia, em que os mappas das paredes, e os globos celestes e terrestres nos vãos das janellas pareciam gelados de frio. Apresentou então aos dois irmãos uma garrafa de vinho muito ordinario, e um pedaço de cake já bastante rijo, e ao mesmo tempo mandou um creado d'apparencia despresivel offerecer um copo de «qualquer coisa» ao postilhão, que respondeu que ficava muito obrigado, mas que se o vinho era da mesma especie do que bebera antes, preferiria não beber nenhum. N'este meio tempo o bahu do menino Scrooge tinha sido collocado no tejadilho da carroagem; o menino e a irmã disseram adeos do fundo do coração ao mestre, e tendo entrado para o vehiculo atravessaram alegremente o jardim do collegio; as ligeiras rodas faziam saltar, como espuma, os pedaços de neve que cobriam o caminho.

— Foi sempre uma delicada creatura aquella menina, que o mais leve sopro poderia curvar, disse o Espirito; mas tinha uma magnanimo coração!

— Oh! se tinha!... exclamou Scrooge melancholicamente. Tendes razão. Não direi o contrario, Espirito. Deus me defenda.

— Morreu casada, disse o Espirito, e deixou duas creanças.

— Uma só, retorquio Scrooge.

— É verdade, disse o Espirito. É o vosso sobrinho.

Scrooge parecia constrangido, e apenas respondeu brevemente — «Sim».

Apezar de terem deixado a eschola n'aquelle momento, achavam-se já no centro agitado de uma cidade, onde passavam e repassavam sombras humanas; onde percorriam as ruas sombras de carros e carroagens, e havia o arruido real d'uma verdadeira cidade. Por objectos que se viam patentes nas differentes lojas, bem demonstrado ficava que aqui tambem se celebrava o natal n'aquelle momento. Era de noite e as ruas estavam illuminadas.

O Espirito parou á porta d'um armazem e perguntou a Scrooge se reconhecia aquelle logar?

— Se conheço! respondeu Scrooge. Foi aqui que eu dei o meu tempo de rapaz.

Entraram. Á vista d'um sugeito com grande cabelleira, sentado atraz d'uma escrivaninha tão alta, que se elle tivesse duas pollegadas mais de estatura bateria com a cabeça contra o tecto, Scrooge exclamou muito enthusiasmado:

— É o velho Fezziwig! Deus me perdoe; é Fezziwig ressuscitado.

O velho Fezziwig pousou a penna, e olhou para o relogio que marcava sete horas. Esfregou as mãos; apertou o casacão; riu-se todo desde os calcanhares até ás pontas dos cabellos, e chamou com voz forte, sonora, rica, cheia e jovial:

— Olá! Ebenezzer! Dick!

A figura do outro Scrooge, tornado agora já rapaz, entrou vagarosamente acompanhado do seu companheiro nas lides do negocio.

— É Dick Williams, não ha duvida! disse Scrooge ao Espectro. É elle, é elle, meu Deus! Era-me muito affeiçoado aquelle Dick! Pobre Dick, coitado!

— Olá meus rapazes, disse Fezziwig, nada mais de trabalho por hoje. É a vespera de Natal Dick. Boas festas Ebenezzer. Vá, fechem-se as portas n'um momento, accrescentou o velho Fezziwig batendo as mãos alegremente.

Ninguem acredita como n'um abrir e fechar d'olhos pozeram mãos á obra os dois rapazes. Carregaram com as portadas até á rua — uma, duas, tres, — collocaram-nas nos seus logares — quatro, cinco, seis — pozeram os ferrolhos, e as chavetas — sete, oito, e nove — e voltaram, antes que chegasseis e contar até doze, offegantes como cavallos de corridas.

— Olá! gritou o velho Fezziwig, deixando-se escorregar de junto da alta escrivaninha, com maravilhosa agilidade. Vamos a arrumar isto, e deixemos a sala livre aqui. Vamos Dick; anda depressa Ebenezzer.

Arrumar! Não havia nada que elles não fizessem ou que não podessem fazer estando presente o velho Fezziwig. Tudo se fez n'um minuto. Todos os objectos transportaveis foram tirados do seu lugar para não impedirem a passagem foi varrido; e burrifado o soalho, arranjados os lampiões; no fogão foi lançado um montão de carvão; e o armazem ficou transformado n'uma salla de baile tão linda, quente, commoda e aceiada, como os meus leitores desejariam ver em noite de inverno.

Entrou um tocador de rebeca com um livro de musica; subiu á alta escrivaninha, e arranjou uma orchestra, improvisando sons similhantes aos vagidos produzidos por incommodos do estomago. Entrou em seguida Mistress Fezziwig, toda ella um sorriso substancial. Vieram depois as tres meninas Fezziwigs radiantes e amaveis, e a traz d'ellas seis pretendentes cujos corações as ingratas espedaçavam, e depois entraram todos os rapazes e raparigas empregadas no trafêgo commercial da casa; depois a creada grave com o seu primo padeiro; depois o cosinheiro, com o amigo intimo de seu irmão, o fornecedor de leite; depois o aprendiz da loja fronteira, com apparencia de não ter bastante que comer em casa de seu amo, e procurando esconder-se atraz da creadinha da casa, duas portas abaixo, á qual estava mais que provado, que a ama puxára as orelhas. Assim entraram uns atraz dos outros; este com modos d'envergonhado, aquelle com ademanes de corajoso, e aquelle outro empurrando os convivas; finalmente entraram todos d'um modo ou d'outro, não importa como.

Romperam a dança vinte pares ao mesmo tempo dando as mãos e formando circulo; metade avançam, e metade retrogradam; ora estes se balanceam em cadencia, ora aquelles seguem o movimento geral; os pares velhos, não atinam com a dança, e continuamente se enganam; os rapazes e raparigas tratam de os desconcertar completamente e afinal termina tudo em confusão geral. Quando se chegou a este bello resultado, o velho Fezziwig bateu as palmas para fazer cessar a quadrilha e gritou «Bravo! muito bem!» e o da rebeca introduziu a sua avermelhada caraça dentro d'um cangirão de porter[1], alli collocado para esse mesmo fim. Mas tendo em pouca conta o repouso, quando reappareceu sahido do cangirão, apezar de ainda não estarem formados os pares, começou a tocar com tal furia, que fazia acreditar que o primeiro muzico fora levado para casa em padiola exhausto de forças, e elle viera para o desbancar ou então terminar com a vida.

Seguiram-se mais danças e joguinhos de prendas, e mais danças e um grande cake, e serviu-se vinho quente com noz muscada, e uma grande peça de roast-beef frio, e tortas de picado, e cerveja em abundancia. Mas o melhor do sarau ou da festa, foi depois de servido o roast-beef quando o da rebecca (fino mastim! palavra de honra, — homem dos diabos que sabia do seu officio melhor do que os senhores todos, ou eu!) começou a tocar o «Sir Roger de Coverley»! Agora o vereis! Ahi me salta para a frente o velho Fezziwig afim de dançar com a esposa. Collocaram-se na cabeceira da salla, e então é que foi o bonito! Tinham a dirigir vinte trez ou vinte quatro pares, com quem não se podia brincar; gente que queria dançar, e não sabia que coisa fosse o dar um passo!

Mas ainda que o numero dos pares fosse duplicado ou quadruplicado, o velho Fezziwig e sua cara metade haveriam-se bem com elles.

Se este não é um elogio de polpa, forneçam-me um melhor, que eu o usarei convenientemente. As canellas de Fezziwig refulgiam uma luz positiva; e brilhavam no meio da dança como duas luas. Appareciam e desappareciam como os fogos fatuos.

Quando o relogio bateu as onze, desfez-se este baile domestico. Os dois esposos Fezziwig foram tomar os seus logares, cada um encostado á hombreira da porta, e á medida que cada convidado masculino ou feminino se retirava, apertavam-lhe a mão com inequivocos signaes de agradecimento, e desejando-lhes boas festas. Quando todos se tinham retirado, á excepção dos dois apprendizes, a esses mesmos fizeram a mesma cerimonia. As vozes alegres foram-se extinguido pouco a pouco e os dois rapazes metteram-se na cama que era n'uma alcova do armazem.

Durante todo o tempo que durara a funcção Scrooge parecia um homem que perdera o juizo. A sua alma e o seu coração estavam n'aquelle lugar com o seu primeiro elle.

Reconhecia tudo, recordava-se de tudo, gosava tudo, e soffria a mais extraordinaria agitação. Foi tão somente quando os rostos radiantes de satisfação, do seu outro elle e de Dick tinham desapparecido de diante de seus olhos, que se recordou do Phantasma, e que teve a consciencia de que este ultimo o considerava attentamente, emquanto a aureola de luz refulgindo-lhe da cabeça, brilhava cada vez mais.

— Pouco basta, disse o Phantasma, para obrigar á gratidão desta pobre gente.

— Pouco! echoou Scrooge.

O Phantasma fez-lhe signal para que escutasse os dois apprendizes que soltavam enthusiasticos hurrahs! em louvor de Fezziwig, e acrescentou quando Scrooge prestou attenção:

— Pois não é assim? Não basta pouco? Fezziwig despendeu poucas libras do vosso dinheiro mortal; tres ou quatro talvez. É isto o que merece tantos elogios?

— Não é tanto assim, disse Scrooge tomando calor com a observação, e fallando como o Scrooge d'outr'ora, e não como o Scrooge de hoje. Não é assim, Espirito. Fezziwig tem o poder de nos tornar felizes ou infelizes, de tornar o nosso serviço ligeiro ou pesado, — um prazer ou uma tarefa.

Dizei muito embora que o seu poder consiste em palavras e olhares, em coisas tão ligeiras e insignificantes que é impossivel addicional-as e contal-as, mas que se segue então? A felicidade que nos faz gozar é tamanha, como se fosse á custa d'uma fortuna.

Sentiu o olhar do Espirito e fez pausa.

— Que tendes? perguntou o Espirito.


— Nada.

— Pareceis ter alguma coisa? insistiu o Espirito.

— Nada, disse Scrooge, nada. Desejava dizer agora uma palavra ou duas ao meu caixeiro. Nada mais.

O seu primeiro elle apagou as luzes á medida que elle reprimia este seu desejo; e Scrooge e o Espirito de novo se encontraram ao lado um do outro ao ar livre.

— O meu tempo está a findar, observou o Espirito. Depressa!

Estas palavras não eram dirigidas a Scrooge nem a alguem que elle podesse vêr, mas produziram um effeito immediato, porque de novo Scrooge viu-se a si proprio. Era mais velho agora; um homem na flor da idade. O seu rosto não tinha as feições duras e severas da maturidade; mas principiava a exhibir signaes dos cuidados e da avareza.

Havia no seu olhar um movimento avido, ardente e inquieto, demonstrando a paixão que n'elle ganhara raizes; e advinhava-se já onde iria projectar-se a sombra da arvore que ia crescendo.

Não estava só; achava-se sentado ao lado de uma linda menina trajando de luto, e em cujos olhos brotavam lagrimas, scintillando á luz projectada pelo Espirito do Natal passado.

— Pouco importa, dizia ella suavemente, pelo menos a ti. Um outro idolo veio substituir-me e se elle te poder alegrar e acarinhar no porvir como eu tentaria fazer, não tenho tanta razão para me affligir.

— Que idolo te substituiu? perguntou elle.

— O idolo do ouro!

— O mundo é assim, disse elle. Não ha nada que trate com mais dureza do que a indigencia; e não ha nada que tenha o poder de condemnar com tanta severidade, como o desejo das riquezas.

— Receias demasiado a opinião do mundo, respondeu com doçura a menina. Sacrificaste todas as tuas esperanças ao desejo de te collocares a coberto do despreso sordido do mundo. Tenho visto todas as tuas nobres aspirações desfolharem-se uma a uma até seres absorvido pela paixão dominante, o lucro. Não tenho razão no que digo?

— E d'ahi que se segue? Quando mesmo com o andar dos annos, eu cobrasse mais tino, que se seguia d'ahi? Não mudava com referencia a ti.

A menina meneou a cabeça.

— Pois estarei mudado a tal respeito?

— O nosso contracto é muito antigo. Firmamol-o quando ambos eramos pobres, e estavamos satisfeitos com a nossa sorte, aguardando o dia em que podessemos melhorar a nossa fortuna d'este mundo pela nossa paciente industria. Tu tens mudado demasiado. Quando juramos o nosso amor eras um outro homem.

— Eu então era uma creança, disse elle com impaciencia.

— A tua propria consciencia te diz que não eras o que és hoje. Eu sou a mesma. O que nos promettia felicidade quando tinhamos um só coração, é a fonte de todas as desgraças agora que possuimos dois. Não te direi quantas vezes e com quanta amargura tenho pensado n'isto! Basta que me recorde, para agora te restituir a tua palavra.

— Procurei eu alguma vez desquitar-me d'ella?...

— De palavras, não, nunca.

— Então, como?

— Mudando completamente; o teu genio já não é o mesmo; já não possues o espirito jovial d'outr'ora; a athmosphera que te rodeia é totalmente outra; a esperança, alvo da tua vida, é tambem outra. Finalmente, mudou tudo o que poderia tornar o meu amor d'algum valor a teus olhos. Se não existisse entre nós um contracto, disse a menina olhando-o com suavidade, mas com firmeza ao mesmo tempo, dize-me, virias hoje procurar a minha mão?... oh não!

A imagem de Scrooge, mau grado seu, pareceu curvar-se ante a justiça de tal supposição.

No entanto não quiz dar o seu braço a torcer e disse:

— Essa não é a tua opinião.

— Bem me aprouvera pensar d'outra forma, se podesse, respondeu ella. Deus o sabe! Para eu me haver convencido d'uma tal verdade, era necessario que ella fosse bem patente e irresistivel.

Mas se hoje ou amanhã fosses tão livre como hontem, poderia eu acreditar que escolheses para esposa uma rapariga sem dote — tu que nos teus momentos de confidencia para comigo, pesavas tudo na balança do interesse? ou, se me escolhesses, prevalecendo sobre os teus ruins principios a amisade para comigo, não tenho eu a convicção de que em breve se seguira o arrependimento por assim teres obrado? Restituo-te a tua palavra, de todo o coração, em nome do nosso antigo amor.

A imagem de Scrooge ia a falar, mas a menina com a cabeça voltada para o lado continuou:

— Talvez, quem sabe — a recordação do passado, faz-me quasi esperar que assim ha de ser — soffrerás por tal motivo. Mas em breve tempo, varrer-se-ha da tua memoria essa recordação, como um sonho, de que tiveste a felicidade de acordar a tempo. Oxalá que sejas feliz na vida que escolhete!

A menina deixou-o, e elles partiram.

— Espirito, disse Scrooge, não me faças vêr mais nada! Conduz-me a casa. Porque te deleitas em me atormentar?

— Uma sombra mais, exclamou o phantasma.

— Nada mais, exclamou Scrooge, nada mais. Não desejo vêr mais nada. Não me mostres mais.

Mas o inexoravel phantasma cingia-o entre os braços, e forçava-o a assistir á marcha dos acontecimentos.

Achavam-se agora em outro logar e nova scena se lhe apresentava á vista; encontravam-se n'uma sala, não mui larga ou bella, mas cheia de commodidades.

Junto ao fogão estava sentada uma linda menina, de tal forma similhante á de que ainda agora fallamos, que Scrooge julgou ser a mesma, até que a reconheceu já mãe de familia, sentada defronte de sua filha.

O rumor n'esta salla quasi se tornava tumultuoso, porque havia alli mais creanças do que poderia contar Scrooge, com o espirito agitado como tinha, e bem differente do rebanho de que resa o poema, não eram quarenta creanças, conduzindo-se como uma só, mas sim cada creança conduzindo-se como quarenta.

Era consequencia necessaria um alarido difficil de se imaginar, mas com que ninguem parecia inquietar-se; pelo contrario, a mãe e a filha riam-se do intimo do coração, e pareciam saborear a scena.

Esta ultima, a filha, tendo-se intromettido nos brinquedos infantis, foi de subito assaltada pelos pequenos, que a tractaram sem mercê.

Que não daria eu para ser um d'elles! Apesar de que eu não seria tão mau! não! não!... por todas as riquezas do mundo, não teria desmanchado e esgadelhado aquelles tão lindos cabellos penteados com tanta arte; e aquelle seu pequeno sapatinho, não o teria arrancado, quando com isso podesse conseguir, Deus me perdoes, a salvação da minha vida!

Quanto a abraçar a sua flexivel cintura, em brinquedo, como se attreveram a fazer aquelles pequenos patifes, não o teria feito com receio de que o meu braço, em castigo do sacrilegio, ficasse arqueado para sempre e nunca mais se podesse endireitar.

E todavia confesso, que do coração desejaria ter tocado os seus labios, tel-a interrogado a fim d'ella os abrir, ficar o meu olhar sobre as pestanas dos seus olhos baixos e fazer-lhe subir o rubor ás facez; ter soltado os seus cabellos ondeantes, cada um dos quaes seria para mim a lembrança mais grata; em summa, ouso confessal-o, desejaria ter tido a mais ampla liberdade de creança, e ao mesmo tempo ser homem para apreciar o valor d'aquella joia.

Ouve-se agora uma pancada na porta, e segue-se immediatamente tal barulho e tal confusão, que a pobre menina, com a physionomia risonha, e o vestido rasgado, foi levada no centro do grupo desordeiro, e chegou a tempo de receber o pai, que entrava em casa acompanhado de um homem carregado com presentes do Natal.

Figurem-se agora os gritos, os assaltos e os combates contra o carreteiro indefezo.

Era cada qual quem mais depressa o escalaria com cadeiras em forma d'escada, quem o despojaria dos embrulhos; um agarrava-o pela gravata, outro quasi o suffocava, estes apalpavam-lhe os bolsos trazeiros da vestea, aquelles brindavam-n'o com alguns ponta-pés nas barrigas das pernas!

Com que gritos d'admiração e prazer não acompanhavam a abertura de cada embrulho! Que terrivel sobresalto não foi o que teve um dos pequerruchos no acto de levar á bocca a de uma boneca, e as suspeitas com que todos ficaram de que engulira um ficticio peru, feito de massa de papelão! Com que immensa alegria não é acolhida a noticia de que o alarme fôra infundado!

É impossivel descrever-se a alegria, a gratidão, o enthusiasmo!

Finalmente, approximando-se a hora, as creancinhas com as suas emoções, sahiram da sala, e subindo as escadas quatro a quatro, dirigiam-se ao ultimo andar, onde foram para a cama e socegaram.

Scrooge, depois d'isto, olhou com mais attenção do que antes, vendo o dono da casa, com a filha recostada no hombro, sentar-se com ella e a mãe junto do fogão; e quando o accommetteu o pensamento de que uma outra creatura similhante áquella, assim graciosa e cheia de esperanças, poderia ter-lhe chamado pai, e converter em amena primavera o tempestuoso inverno da sua vida, arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

— Bella! disse o marido voltando-se para sua mulher com um sorriso; vi esta tarde um teu antigo conhecido.

— Quem era?

— Adivinha.

— Como posso adivinhar?... ah! já sei, acrescentou ella rindo-se como o marido. Foi Mr. Scrooge.

— Ele mesmo. Passei diante da janella do seu escriptorio; e como não estava fechada, e tinha luz dentro, não pude deixar de espreitar. O seu socio está a expirar, segundo me disseram, e elle estava sentado como de costume. Só no mundo, penso eu!

— Espirito, disse Scrooge com a voz entrecortada pela emoção, affasta-me d'este logar.

— Preveni-vos de que vos mostraria as sombras do passado, respondeu o Phantasma; não é culpa minha se são o que são, e nada mais.

— Affasta-me d'aqui, exclamou Scrooge com impaciencia; já não posso supportar similhante espectaculo!

Voltou-se para o Esirito, e vendo que este o comtemplava com um rosto em que, por uma singularidade extraordinaria, se divisavam fragmentos de todas as physionomias que antes lhe mostrara, agarrou-se-lhe com força, e exclamou:

— Deixa-me! leva-me d'aqui! cessa de me perseguir.

Na luta, se aquillo se pode chamar uma luta, em que o Phantasma sem resistencia visivel da sua parte, anniquilava qualquer esforço do adversario, notou Scrooge que a luz procedente da cabeça do Espirito se tornava cada vez mais scintillante; e approximando esta circumstancia na mente, com a influencia que o Espirito sobre elle exercia, agarrou o apagador, e com um movimento rapido enterrou-lh'o na cabeça.

O Espirito de tal forma se encolheu, que o apagador pôde-o cobrir em toda a sua extensão; mas apezar de Scrooge comprimir o apagador com toda a força, não podia occultar a luz que por debaixo sahia e se derramava pelo soalho.

A final teve a consciencia de estar exhausto de forças, e carregado de somno, e reconheceu estar no seu leito. Fez novo exforço para comprimir o apagador, mas o braço cahiu-lhe sem movimento; e apenas teria tempo de se voltar no leito, quando cahiu em profundo somno.


Ilustração de John Leech na primeira edição de A Christmas Carol

Notas do Traductor[editar]

  1. Cerveja preta.