Uma lôa do Natal/Estrophe I

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Uma lôa do Natal por Charles Dickens
Estrophe I - O espectro de Marley
Tradução de A. C., publicada separadamente n’O Jornal do Porto entre 1863 e 1864.



ESTROPHE I


O espectro de Marley


Para começarmos, — Marley tinha morrido. Não havia a menor duvida sobre tal acontecimento. A sua certidão d'obito fôra assignada pelo parocho, pelo sachristão, pelo armador, e pelo testamenteiro. Scrooge tambem a assignou; e o nome de Scrooge era de bastante peso sobre uma letra de cambio para deixar de o ser em outro qualquer papel onde o quizesse firmar.

Por conseguinte o pobre Marley estava tão morto, como um prego de porta[1].

Entendam bem, que não quero dizer com isto que sei alguma coisa, por experiencia propria, sobre o caso d'um prego d'uma porta estar morto ou não. Eu por mim antes me inclinaria a crêr que o objecto do officio de ferreiro, mais morto é um prego d'um esquife. Mas a sabedoria dos nossos antigos é a que dá força á comparação, e não serei eu, pobre diabo, quem venha pôr pecha a uma coisa tão santa; e se fosse assim onde iria parar o nosso paiz?

Portanto hão de conceder-me licença para repetir, com emphasis, que Marley estava morto como um prego d'uma porta.

Sabia acaso Scrooge que elle morrêra? Certamente que sabia. Como poderia ser d'outra forma? Scrooge e elle eram socios, nem eu sei bem já ha quantos annos. Scrooge era o seu unico administrador, o seu unico socio, o seu unico legatario universal, o seu unico amigo, e o seu unico testamenteiro. E até Scrooge não ficou tão ralado de saudade, que deixasse, no proprio dia do funeral de fazer um magnifico negocio. Se elle era um excellente commerciante!

A menção do funeral de Marley traz-me á ideia o ponto d'onde me apartei. Não havia duvida alguma que Marley tinha morrido. Devem ter isto bem na lembrança, ou então deixemo-nos da historia porque nada de maravilhoso poderá sahir do que vou narrar. Se não estivessemos bem convencidos de que o pae de Hamlet morrera antes de começar a tragedia, não haveria nada de mais notavel em elle vir dar um passeio nocturno bafejado pelo vento suão, sobre as ameias do seu castello, do que em qualquer sugeito de meia idade, vir collocar-se n'um sitio sombrio e triste — por exemplo no adro de S. Paulo — para metter medo a um seu filho ainda creança.

Scrooge nunca riscou o nome do velho Marley da firma da sociedade. Ainda por muitos annos ficou gravado por cima da porta do escriptorio — Scrooge & Marley, firma porque era conhecida aquella casa commercial. Algumas vezes pessoas pouco ao facto dos negocios, chamavam-o Scrooge, outras vezes simplesmente Marley; mas elle respondia igualmente a um e outro nome — para elle era tudo a mesma coisa.

Oh! mas o tal snr. Scrooge era um muito grande patife!... avaro como elle nunca allumiou a luz do sol. Duro como a pederneira, de que o aço ainda não extrahiu a generosa scentelha; concentrado e solitario, como a ostra! O frio que o circundava gelava-lhe as feições, aguçava-lhe o nariz ponteagudo, enrugava-lhe as faces, diminuia-lhe o abdomen, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os labios, e, finalmente, tornava-lhe a voz aspera como o vento de janeiro. Uma camada de alva neve cobria-lhe a cabeça, as sobrancelhas e a barba fina.

Para toda a parte aonde se dirigisse acarretava comsigo a sua temperatura propria, abaixo de zero; durante as caniculares fazia gelar o escriptorio, e nem mesmo durante o natal mudava sequer um grau á temperatura.

O frio ou o calor intenso pouca influencia produziam sobre Scrooge. Os ardores do estio não o podiam aquecer, nem o mais rigoroso frio conseguia gelal-o.

Nunca o vento soprando foi mais aspero do que elle, nem a neve cahindo conseguiu mais depressa o seu fim, nem a chuva a torrentes se tornou mais inexoravel.

O mau tempo não o incommodava na menor cousa. A chuva mais pesada, a neve, o graniso, e o gelo só a um respeito lhe levavam vantagem; cahiam em profusão e Scrooge ignorava completamente esse termo.

Nunca pessoa alguma o fez parar na rua para lhe dizer com ar prasenteiro: — «Como está, meu caro snr. Scrooge? quando ha de ir fazer-me uma visita?»

Nunca um mendigo lhe pediu uma esmolinha, nem creança lhe perguntou as horas, nem homem ou mulher lhe pediu informações sobre o caminho melhor para tal ou tal logar. Até os cães dos cegos pareciam conhecel-o, e quando o viam aproximar, puxavam seus amos para as portas das cocheiras ou viellas lateraes, mexendo com o rabo como querendo dizer: «Meu pobre amo, mais vale não vêr nada do que ter mau olhar.»

Mas que se importava Scrooge com tudo isso? Era exactamente do que elle gostava. Caminhar atravez da povoada estrada da vida avisando a sympathia humana para que se conservasse em distancia, era para Scrooge o seu pratinho favorito.

Certo dia — o melhor de todos os dias do anno, a vespera de Natal — o velho Scrooge estava sentado no seu escriptorio, muito atarefado. Fazia um frio de trespassar a mais pesada roupa, e o tempo estava chuvoso; fóra da porta estava um nevoeiro espesso. Scrooge podia ouvir a gente que passava na rua para cima e para baixo batendo as mãos nos peitos, tiritando de frio, e estampando os pés com furia sobre a calçada, para os aquecer. Os relogios da cidade tinham ha pouco soado as tres, mas já era quasi escuro.

Pouco claro estivera durante todo o dia, e agora as luzes nas vidraças dos escriptorios visinhos similhavam-se a nodoas de graxa vermelha n'um fundo escuro.

O nevoeiro foi penetrando no interior das casas por todas as fendas e buracos das fechaduras, e era tão denso na rua, que apesar d'esta ser estreita, as casas fronteiras divisavam-se como phantasmas. Ao verem-se as sombrias nuvens virem descendo cada vez mais, e espalharem sobre todos os objectos profunda obscuridade, dir-se-hia que a natureza viera alli estabelecer perto uma fabrica de cerveja em larga escala.

A porta do escriptorio de Scrooge estava aberta afim de poder vigiar o caixeiro, que no seu triste cubiculo, que mais parecia uma cisterna, estava copiando cartas. Scrooge tinha junto de si um fogo quasi extincto, mas o do caixeiro ainda estava em peores condições porque parecia simplesmente um carvão escandecido. O desgraçado não o podia renovar porque Scrooge guardava a caixa do carvão, e de todas as vezes que o caixeiro se preparava a trazer algum na pá, o patrão prégava-lhe um comprido sermão em que lhe predizia que não estava longe o dia de se separarem. Era por isso que o caixeiro puxava acima o seu abafador de lã, e fazia todos os exforços por se aquecer á luz do candieiro, mas em vão, por que o pobre diabo não era dotado d'imaginação viva.

— Boas festas! meu tio. Deus o salve, gritou uma voz alegre.

Era a voz do sobrinho de Scrooge, entrando com tal rapidez que foi este o primeiro signal que deu de si.

— Ora, ora! disse Scrooge. Asneiras!

Tanto se aquecera com o passeio rapido pelo nevoeiro e frio, o sobrinho de Scrooge, que estava todo n'uma chamma; a sua physionomia era rosada e bella, os olhos scintillavam, e a sua respiração ainda fumegava.

— O tio chama ás Boas festas asneiras! disse o sobrinho de Scrooge; o tio não falla serio, bem vejo.

— Fallo muito serio, sim, disse Scrooge! Boas festas... Festas alegres... é insupportavel. Que direito ou que razão tens tu para estares alegre? Não és tu demasiado pobre!

— Ora vamos, vamos! replicou o sobrinho alegremente. E que razão tem o tio para estar triste? e que razão tem para se demorar no dia de hoje a fazer contas? Não é rico bastante?

Scrooge não tendo no momento resposta alguma convincente, resmoneou um «Ora», que foi seguido da sua favorita expressão «Asneiras».

— Não esteja de mau humor, meu tio, disse o sobrinho.

— E como não hei de estar, disse o tio, se vivo n'um mundo de loucos como este! Boas festas!? Malditas Festas digo eu! Que é o tempo de Natal, senão uma epocha de pagarmos as nossas letras, muitas vezes sem termos dinheiro; tempo de nos acharmos com um anno mais de idade, e nem por isso com uma hora mais de riqueza; tempo de darmos balanço aos nossos livros, e vermos que todas as transacções alli mencionadas, feitas atravez dos doze mezes do anno, não deixaram o menor proveito? Se eu podesse fazer a minha vontade, continuou Scrooge com indignação, todo o pateta que percorre as ruas dando as Boas festas, havia de ser cozido no seu proprio pudding[2] e ser sepultado com uma frecha d'azevinho trespassando-lhe o coração. Digo o que penso!

— Meu tio! exclamou o sobrinho, tornando-se advogado officioso do Natal.

— Sobrinho, replicou o tio severamente, festeja o Natal como te parecer, e deixa-m'o festejar cá a meu modo.

— Festejal-o! replicou o sobrinho de Scrooge, mas o tio não o festeja!

— Ora deixa-me em paz com o teu Natal, disse Scrooge. Ha-de-te dar muito proveito, não tem duvida! E muito bem te ha de ter feito já... ah! ah!

— Ha milhares de coisas, confesso, exclamou o pobre sobrinho, de que poderia tirar algum bem, e que pouco ou nada me tem aproveitado; e o Natal é uma dellas. Mas tenho a ceteza de ter contemplado o dia de Natal, quando apparece — pondo de parte a veneração devida ao seu nome e origem sagrada, se taes cousas se podem pôr de parte fallando-se do Natal — como um dia de felicidade, de perdão para todos os nossos erros, dia de caridade para com os nossos similhantes; o unico dia, que eu saiba, do longo kalendario do anno em que homens e mulheres parecem, por unanime consentimento, patentear os arcanos dos seus corações, e reconhecer nas outras creaturas de condição inferior verdadeiros companheiros de viagem na estrada do tumulo, e não viandantes dirigindo-se a differente logar. É por isso, meu tio, que apesar do Natal não me ter mettido no bolso a mais pequena moeda de ouro ou prata, acredito que me faz bem, e ainda me fará; e repito do fundo do coração: Viva o santo Natal!

O caixeiro lá no seu cantinho applaudiu involuntariamente, mas reconhecendo no mesmo instante que commettera uma inconveniencia, principiou a atiçar o fogo, não fazendo mais do que apagar a ultima faisca que existia ainda.

— Que eu ouça o menor ruido desse lado, e você vai festejar o Natal para o meio da rua. Vocemecê, snr. meu sobrinho, disse Scrooge, disse Scrooge voltando-se para elle, está-se tornando um orador de mão chêa. Não sei como não vai fazer discursos para o parlamento!...

— Não se afflija, meu tio, exclamou o sobrinho de Scrooge, amanhã ha de ir jantar comnosco.

Scrooge resmoneou palavras sem nexo e depois soltou a praga mais horrenda, mandando-o ah! nem quero dizer o resto!

— Mas porque? meu tio, porque?

— Para que te casaste? perguntou Scrooge.

— Porque estava namorado.

— Namorado! namorado! resmoneou Scrooge, como se fosse o amor a coisa mais ridicula deste mundo — mais do que as festas do Natal — Boas noites!

— Mas o tio nunca me foi vêr antes de eu casar, e para que dá agora esse motivo como razão de não ir a minha casa?

— Boas noites! disse Scrooge.

— Eu não quero nada do tio; não lhe peço nada; porque não seremos amigos?

— Boas noites! disse Scrooge.

— Acredite que estou bem penalisado pelo vêr com tal resolução. Nunca disputamos um com outro, pelo menos que eu fosse a causa! Fiz esta tentativa para honrar o Natal, e guardarei o meu bom humor até ao fim. Tenha festas alegres, meu tio.

— Boas noites! disse Scrooge.

— Desejo-lhe um anno feliz!

— Boas noites! exclamou Scrooge fóra de si.

Não obstante a má recepção, o sobrinho sahiu do escriptorio sem soltar uma palavra de descontentamento. Parou á porta da entrada para dar as boas festas ao caixeiro que, apesar de gelado, tinha mais calor do que Scrooge, porque retribuiu o cumprimento cordialmente.

— Alli está um outro pateta, murmurou Scrooge, que o ouvira do logar em que estava; o meu caixeiro tem quinze shillings por semana, está sobrecarregado de mulher e familia e falla de festas alegres. Isto é de um homem dar em doido!

O pateta do caixeiro, como lhe chamava o patrão, tendo deixado sahir o sobrinho de Scrooge, mandou entrar dois sugeitos. Eram dois cavalheiros na apparencia, com physionomias insinuantes, que com os chapéos na mão se conservavam agora de pé no escriptorio de Scrooge. Traziam nas mãos livros e papeis, e cumprimentaram.

— Scrooge & Marley, julgo eu? disse um delles procurando na lista. Tenho a honra de fallar com o snr. Scrooge, ou com o snr. Marley?

— O snr. Marley morreu ha sete annos, disse Scrooge. Falleceu faz esta noite exactamente sete annos.

— Não temos duvida alguma em que a sua generosidade estará bem representada pelo socio sobrevivente, disse o cavalheiro apresentando as suas credenciaes.

Certamente que estava; porque os dois socios pareciam sempre professar as mesmas ideias. Á palavra de mau agouro «generosidade» Scrooge carregou o sobrolho, meneou a cabeça, e tornou a restituir o papel.

— N'esta festiva estação do anno, Mr. Scrooge, disse o cavaleiro, pegando n'uma penna, é mais necessario do que no tempo usual, fazermos algumas parcas provisões para os pobres, e infelizes, que soffrem immenso n'esta quadra em que estamos. Quantos milhares de desgraçados não carecem do necessario para a vida? ah! senhor, milhares de pessoas não conhecem o minimo conforto.

— Não ha cadeias então? perguntou Scrooge.

— Ha immensas, retorquiu o outro deixando cahir a penna.

— E as casas de trabalho, perguntou Scrooge, já acabaram?

— Oxala que tivessem acabado!

— Então não está em vigor a lei dos pobres? perguntou Scrooge.

— Está, está; e tem que fazer de sobra.

— Oh! eu tinha bem receio, pelo que o senhor me disse a principio, de que alguma coisa tivesse feito parar o curso d'essas uteis instituições; estimo bem ouvir o contrario.

— Sob a impressão de que essas insituições escassamente poderão fornecer uma satisfação christã corporea, e espiritual ás multidões, replicou o cavalheiro, alguns de nos tratamos d'arranjar donativos para comprarmos para os necessitados alguma carne e cerveja, e darmos-lhes os meios de se aquecerem. Escolhemos esta occasião, porque é o tempo, de todo o anno, em que a necessidade se faz mais sentir, e a abundancia mais alegra o espirito. Quanto deverei marcar na lista?

— Nada! replicou Scrooge.

— Não deseja vêr o seu nome; quer que ponha anonymo?

— O que eu queria era que me deixassem em paz. Visto que os senhores me perguntam o que eu quero, é esta a minha resposta. Eu proprio não festejo o Natal, e por tal motivo não quero servir d'instrumento para que os vadios se divirtam. Gosto d'auxiliar os estabelecimentos que ha pouco mencionei; custam bastante; e aquelles a quem lhe não servir, que vão para o meio da rua.

— Muitos não podem alli ser admittidos; e outros antes prefeririam morrer.

— Se querem morrer, disse Scrooge, muito bem fariam em pôr essa ideia em execução quanto antes, e diminuir assim a população que é em demasia. — Demais, queiram desculpar-me, nada sei com relação ao objecto de que me fallam.

— Mas ser-lhe-ia facil informar-se, observou um dos cavalheiros.

— Não tenho nada com isso, retorquiu Scrooge. Já não é pouco para um homem estar em dia com os seus negocios, e não interferir com os dos outros. Boas noites, meus senhores.

Vendo claramente que debalde proseguiriam nos seus pedidos os dois sugeitos retiraram-se.

Scrooge entregou-se de novo ao trabalho mais contente comsigo, e com o espirito mais alegre do que d'ordinario.

Entretanto o nevoeiro, e a escuridão de tal modo tinham augmentado, que se viam aqui e alli pessoas com archotes acesos, offerecendo os seus serviços aos cocheiros, para levarem os cavallos dos carros á mão, e guial-os no caminho. A antiga torre d'uma igreja, cujo velho sino roufenho parecia estar sempre espreitando Scrooge atravez d'uma fenda da sua janella gothica aberta no muro, tornou-se invisivel; e o sino começou a soar as horas e os quartos nas nuvens, com tremulas vibrações prolongadas, co se os dentes lhe rangessem na sua cabeça gelada lá em cima. O frio tornou-se intenso.

Na rua principal, ao canto do pateo, varios operarios estavam reparando os canos do gaz, e tinham accendido uma grande fogueira em volta da qual estavam reunidos alguns homens e rapazes esfarrapados, aquecendo as mãos e empiscando os olhos de contentamento. Esqueceram-se de fechar a torneira e esta começou de deixar correr a agua, que se transformou em gelo misanthropico.

As luzes brilhantes das lojas, onde se viam deslumbrantes os puddings e outros acepipes, lançavam um reflexo avermelhado sobre os transeuntes.

As lojas dos vendilhões d'aves e dos tendeiros tinham-se de tal forma transformado que parecia impossivel ser simplesmente o desejo de fazer bom negocio a causa d'este luxo desusado. O Lord Mayor no seu palacio de Mansion-House dava ordens aos seus cincoenta cosinheiros e dispenseiros para que o Natal fosse festejado como deve ser na casa d'um Lord-Mayor; e até o pobre remendão que elle multara na segunda feira antecedente por ter sido encontrado em estado de embriaguez, e commettendo desordens na rua, até esse preparava o pudding do dia seguinte na sua trapeira, em quanto que a magra esposa com os filhinhos, sahia para ir comprar a carne necessaria.

Cada vez mais nevoeiro e mais frio! Frio aspero, penetrante! Se o bom S. Dunstan[3] tivesse beliscado o nariz do Espirito das Trevas, com um poucochinho d'um tempo como este, em lugar de usar as suas armas familiares, não ha a menor duvida de que o diabo teria soltado uivos infernaes. O possuidor d'um narisito novo, roido e chupado pelo esfomeado frio do mesmo modo que os ossos são roidos pelos cães, abaixou-se em frente do buraco da fechadura de Scrooge para o regalar com uma cantiga do Natal; mas ás primeiras palavras de

Boas festas meu senhor

Boas festas Deus lhe dê

Scrooge agarrou na regra com um gesto tão energico, que o cantozinho fugiu assustado, deixando a fechadura á mercê do nevoeiro e do gelo.

Chegou emfim a hora de se fechar o escriptorio.

Scrooge desceu do seu tamborete com ar de mau humor, concedendo assim tacita licença, para se ir embora, ao caixeiro que a aguardava no seu becco.

Este immediatamente apagou a vella e poz o chapeu.

— Supponho que quer todo o dia d'ámanhã para si? disse Scrooge.

— Se assim convem a v. s.ª...

— Não me é conveniente, disse Scrooge, e não é bonito. Aposto que se lhe descontasse meia corôa por esse dia, vmc.e havia de julgar-se lesado?

O caixeiro sorriu-se levemente.

— E no entanto, continuou Scrooge, vmc.e não me julga lesado por eu lhe pagar um dia para não fazer nada?

O caixeiro observou que era um caso extraordinario e que se dava tão sómente uma vez por anno.

— É uma desculpa muito fraca para limpar a algibeira de um homem todos os dias 25 de dezembro, disse Scrooge abotoando o casacão até acima.

— Mas emfim, continuou elle, fique lá com o dia inteiro; tracte comtudo de me desforrar vindo depois d'ámanhã mais cedo.

O caixeiro prometteu que sim e Scrooge sahiu resmoneando.

Fechou-se o escriptorio n'um momento, e o caixeiro com as duas pontas da manta de lã do pescoço chegando até á cinta (porque o misero não professava o uso do paletot) principiou a escorregar no gelo, no passeio de Cornhil, umas vinte vezes, atraz de uma malta de gamenhos em honra da vespera do Natal, e em seguida dirigiu-se de uma corrida a sua casa em Camdem-Town, para jogar á cabra-cega.

Scrooge enguliu o seu o seu melancholico jantar na usual casa de pasto; e, depois de ter lido todos os jornaes, e se ter entretido o resto da noite com o livro das letras, foi para casa deitar-se.

Vivia no alojamento occupado outr'ora pelo seu fallecido socio.

Era uma serie de quartos escuros, fazendo parte de um sombrio edificio na extremidade de uma rua, onde estava tão fora de proposito, a ponto da gente não podêr deixar de imaginar, que aquella casa veio para alli algum dia que, na sua mocidade, jogou ás escondidas com as outras casas visinhas, e não pôde tornar a encontrar o caminho.

o edificio era agora bastante idoso, e assaz triste, porque ninguem vivia n'elle, á excepção de Scrooge; os outros quartos estavam todos alugados para escriptorios.

O pateo estava tão escuro que o proprio Scrooge, conhecendo-o palmo a palmo, viu-se obrigado a entrar ás apalpadellas.

O nevoeiro e o gelo de tal modo envolviam a sombria e velha porta da casa, que parecia que o genio da estação estava sentado no limiar em profunda meditação.

Diga-se agora em abono da verdade que nada havia de particular no martello da porta senão que era muito grande.

É um facto tambem muito veridico que Scrooge o tinha visto de dia e de noite durante toda a sua residencia n'aquelle logar; e tambem Scrooge tinha tão pouco do que se chama força d'imaginação como qualquer homem na City, incluindo mesmo — o que é uma temeridade da minha parte dizel-o — a corporação, os aldermen, e os notaveis.

Devemos tambem estar bem possuidos da ideia de que Scrooge não tinha pensado mais em Marley, desde aquella occasião, de tarde, em que mencionara a morte do seu antigo socio havia sete annos.

E agora explique-se alguem, se pode, como succedeu que Scrooge, tendo mettido a chave na fechadura da porta, viu no martello, sem fazer uso d'alguma formula magica, não um martello, mas a cara de Marley?

A cara de Marley, sim senhores! Não era uma sombra impenetravel como os outros objectos no pateo, mas cercava-a uma luz sombria, do mesmo modo que uma lagosta pôdre n'uma adega escura. A expressão da physionomia não dava signaes d'ira ou de ferocidade, mas contemplava Scrooge como Marley costumava, com oculos d'espectro erguidos na sua testa de defuncto. O cabello de Marley estava exquisitamente levantado como se fôra por effeito d'um sopro ou vapor quente; e os olhos apesar de estarem abertos, não tinham movimento algum. Esta circumstancia e a sua côr livida tornavam-no horrivel; mas o horror que se sentia ao contemplal-o, parecia provir antes da expressão da physionomia, do que da figura do morto.

Á medida que Scrooge olhava fixamente para este phenomeno, nada mais vida do que um martello.

Seria faltar á verdade, se dissesse que elle não estremeceu, ou que o seu sangue não persentiu uma terrivel sensação que lhe fôra estranha desde a infancia.

Novamente poz a mão sobre a chave que a principio, largara, deu-lhe volta estouvadamente, deu um passo á frente, e accendeu a vella.

Pausou com irresolução momentanea antes de fechar a porta; e olhou para traz com cautella, primeiramente, como se esperasse vêr a figura de Marley apparecer no vestibulo. Mas nada havia atraz da porta, excepto os pregos e as dobradiças que seguravam o martello; de sorte que Scrooge disse «Puff! puff!» e fechou a porta com um arremesso. O barulho resoou em toda a casa como um trovão. Cada salla no andar de cima, e cada pipa nos armazens debaixo, do negociante de vinhos, pareciam formar um ecco separado. Scrooge não era homem que se assustasse com eccos; deu volta á chave, atravessou o pateo, e subiu as escadas devagarinho, arranjando e espevitando a vella á medida que caminhava.

Estão continuamente fallando das velhas escadarias que se construiam outr'ora, por onde podia subir á vontade um coche puchado a seis, ou o cortejo do parlamento; mas eu digo-lhes que a escadaria da casa onde residia Scrooge era maior que essas de que fallam; podia-se fazer subir á vontade uma diligencia com a lança para um lado do muro, e a porta do carro para o outro lado, e muito facilmente. Havia immenso lugar para essa operação, e ainda crescia espaço. Meia duzia de bicos de gaz do tamanho dos da rua, não teriam sido sufficientes para illuminarem o vestibulo; imaginem por isto a claridade que lhe daria a froixa luz da vella de Scrooge!

Scrooge continuava a subir sem dar a essas coisas a mais pequena importancia; a escuridão é barata, e Scrooge estimava-a por essa razão. Mas antes de se decidir a fechar a pesada porta, passeiou atravez das sallas a fim de vêr se tudo estaria no seu lugar, em consequencia talvez de se recordar da mysteriosa figura.

A salla de visitas, o quarto de dormir e a sala d'espera, estavam como deviam estar. Ninguem estava debaixo da mesa, nem do sophá; no fogão alguns carvões accesos; colher e chavena promptos; e sobre a trempe uma chocolateira com agua de cevada (porque Scrooge achava-se endefluxado). Ninguem appareceu debaixo da cama, na cozinha não viu ninguem, nem tão pouco dentro do roupão, que estava dependurado na parede, em attitude suspeita.

A salla de vestir tinha a apparencia ordinaria. Uma grade de fogão velha, sapatos velhos, lavatorio sobre tres pernas e um atiçador.

Scrooge completamente satisfeito com as suas pesquizas cerrou a porta e fechou-se por dentro, a duas chaves contra o seu costume. Julgando-se assim a salvo de qualquer surpreza, tirou a gravata, enfiou o roupão, calçou os chinellos, e sentou-se em frente do fogão para tomar o cozimento de cevada;

O fogo estava quazi extincto; pouco ou nada era para noite tão fria. Foi obrigado a conchegar-se, e quazi acocorinhar-se sobre elle, para poder extrahir a mais diminuta sensação de calor, daquella pitada de carvão. O fogão era muito velho, naturalmente mandado fazer ha muito tempo por algum negociante hollandez, e guarnecido em volta com exquizitos ladrilhos hollandezes, reprezentando scenas da Escriptura. Havia alli Cains e Abeis; filhos de Pharaó, Rainhas de Sabá, Mensageiros angelicos descendo atravez do ar sobre nuvens, como sobre camas de pennas, Abrahões, Balthasares, Apostolos embarcando-se em bateis com forma de manteigueiras centos de figurinhas, para attrahir as ideias de Scrooge; e não obstante a physionomia de Marley, morto ha sete annos, vinha como a antiga vara do Propheta absorver o resto. Se cada um dos ladrilhos começasse por estar em branco e tivesse o poder de formar na superficie uma figura com os varios pensamentos de Scrooge, não haveria duvida que em cada ladrilho se veria uma copia da cabeça de Marley.

— Asneiras! disse Scrooge; e principiou a passear d'um lado para outro da salla.

Depois de varios passeios a todo o comprimento da salla, sentou-se de novo. Na occasião em que recostava a cabeça na cadeira, o seu olhar fixou-se casualmente sobre uma campainha, uma campainha desusada suspensa na salla, e communicando, para algum fim agora esquecido, com o quarto no ultimo andar da casa.

Foi com grande pasmo, e com susto extraordinario e inexplicavel que viu a campainha principiar a bambaliar-se. A principio tão devagarinho se movia, que nem sequer dava o menor som; mas não tardou muito que principiasse a soar alto, sendo correspondida por cada campainha na casa.

Não durou isto mais que meio minuto ou quando muito um minuto, mas esse tempo pareceu a Scrooge uma hora. As campainhas cessaram ao mesmo tempo, exactamente como tinham principiado. Succedeu-lhe um tinido de ferros, procedendo das partes subterraneas da caza, assim a modo d'alguma pessoa que estivesse arrastando uma pesada cadeia sobre as pipas da adega do negociante de vinhos. Scrooge recordou-se então de ouvir dizer que as almas do outro mundo nas casas onde appareciam, costumavam sempre arrastar cadeias.

O Espectro de Marley, ilustração de John Leech na primeira edição de A Christmas Carol

Ouviu-se abrir a porta d'adega com grande barulho, e depois seguiu-se ruido nas escadas do fundo, em seguida mais acima, e finalmente proximo á porta do quarto.

— Asneiras! murmurou Scrooge; eu não acredito n'essas coisas!

Mudou todavia de côr quando n'um momento, sem a menor pausa, o phantasma passou atravez da pesada porta, e veio collocar-se-lhe no quarto mesmo em frente dos seus olhos. No momento em que elle entrou a chamma amortecida fulgurou, como para dizer: «Conheço-o bem: é o expectro de Marley!» e extinguiu-se de todo.

Aquelle era o mesmo rosto d'elle, exactamente o mesmo.

Era Marley com o rabicho da cabelleira, collete usual, calções e botas; n'estas ultimas as borlas estavam hirtas como o rabicho, as abas do cazaco e o cabello na cabeça. A cadeia que o phantasma arrastava prendia-o no meio da cinta. Era comprida e affastava-se d'elle como se fôra um rabo; e era feita (porque Scrooge observou-a de perto) de cofres, de chaves, de fechaduras, de livros d'escripturação, d'acções de Bancos e de pesadas bolsas d'aço. O corpo do phantasma era de tal forma transparente, que Scrooge observando-o e olhando-o atravez do collete, podia ver os dois botões na parte posterior do casaco.

Scrooge ouvira muitas vezes dizer que Marley não tinha entranhas, mas até aquelle momento nunca acreditara tal asserção.

Nem mesmo agora acreditava. Apesar de poder ver o phantasma d'um lado ao outro, e de o ver alli de pé diante de si; apesar de sentir a influencia glacial dos seus olhos gelados pela morte, e de notar o proprio tecido do lenço que lhe cobria a cabeça e lhe passava debaixo do queixo, do que a principio não dera fé; convervava-se incredulo, e recusava o testemunho da propria vista.

— Então que temos! disse Scrooge caustico, e frio como sempre. Que quereis de mim?

— Muita coisa!

Era a voz de Marley; nenhuma duvida se lhe offereceu a tal respeito.

— Quem sois vós?

— Perguntai-me antes quem eu era.

— Quem ereis vós então, disse Scrooge alteando a voz. Sois muito preciso nos termos para uma sombra.

— Em vida era o vosso socio, Jacob Marley.

— Podeis... podeis sentar-vos? perguntou Scrooge olhando para elle com desconfiança.

— Posso.

— Então sentai-vos.

Scrooge fez esta pergunta, porque não sabia se um phantasma tão transparente se acharia em estado de pegar n'uma cadeira; e pensava que no caso de isso lhe ser impossivel, o obrigaria a entrar em explicações que lhe não causariam pouco embaraço. Mas o phantasma sentou-se no lado opposto do fogão como se estivesse a isso muito costumado.

— Não acreditaes em mim? perguntou o phantasma.

— Não... não acredito, disse Scrooge.

— Que mais provas quererieis ter da minha realidade além da que vos dão os vossos sentidos?

— Não sei, disse Scrooge.

— Porque duvidaes dos vossos sentidos?

— Porque, disse Scrooge, basta a menor coisa para os affectar. Uma pequena desordem no estomago torna-os mentirosos. Podieis muito bem ser um pedaço de roastbeef mal digerido, uma pequena colher de mostarda, um bocadinho de queijo, ou um fragmento d'uma batata mal cozida. Quem quer que sejaes cheiraes mais a aguardente, do que a agua benta.

Scrooge não tinha por costume fazer trocadilhos de palavras, e n'aquelle momento fracas disposições sentia no fundo do coração para se tornar espirituoso. Procurava todavia fazer-se engraçado afim de distrahir os seus pensamentos, e de afogar o seu terror, porque a voz do espectro gelava-o até á medulla dos ossos.

Ficar sentado olhando de frente para aquelles olhos fixos e envidraçados, ainda mesmo por um instante, era uma experiencia diabolica para Scrooge. Havia o quer que fosse de horrivel, na athmosphera infernal que rodeava o espectro; Scrooge não a podia sentir por si proprio, mas nem por isso deixava ella de ser menos real; porque apezar do espectro ficar sentado e immovel, o cabello, as abas do casaco e as borlas das botas ainda estavam agitadas como pelo vapor que se exhala d'um forno.

— Vêdes este palito? disse Scrooge voltando de repente á carga, pela razão emittida; e desejando, ainda que fosse por um unico segundo, desviar o olhar do espectro, frio como o marmore.

— Vejo.

— Mas não olhaes para elle, disse Scrooge.

— Mas apezar d'isso vejo-o, disse o phantasma.

— Pois bem, replicou Scrooge. Não tenho mais que engulil-o e para o resto dos meus dias ser perseguido por uma legião de duendes, todos da minha creação. Asneiras! meu amigo... asneiras!

A estas palavras o espirito soltou um formidavel grito, e abalou as cadeiras com um ruido tão lugubre e terrivel, que Scrooge segurou-se á cadeira com ambas as mãos, para obstar a cahir desfallecido.

Mas quão maior não foi o seu horror, quando o phantasma arrancando o lenço que lhe segurava os queixos, como se fizesse muito calor para o trazer dentro de casa, deixou cahir até ao peito a mandibula inferior!

Scrooge cahiu de joelhos, e occultou o rosto entre as mãos.

— Misericordia! exclamou elle, terrivel apparição, porque vens atormentar-me?

— Alma mundana, replicou o espectro, crês ou não em mim?

— Creio, disse Scrooge; devo crêr. Mas porque andam os espiritos sobre a terra, e porque veem elles procurar-me?

— É obrigação inherente a toda a creatura, retorquiu o phantasma, que a sua alma se misture com os seus similhantes, e que viage por todos os lados; e se tal dever se não cumpre durante a vida, é a alma obrigada a cumpril-o depois da morte. Fica condemnada a errar pelo mundo — oh! quão desgraçada eu sou! — e ser testemunha de prazeres que não pode partilhar, quando na terra podia ter tido o seu quinhão, e tel-os convertido em felicidade das outras creaturas.

De novo o espectro soltou um grito e abalou as cadeiras, torcendo as descarnadas e frias mãos.

— Estaes encadeado, disse Scrooge a tremer, dizei-me por que?

— Arrasto a cadeia que forjei em vida, replicou o espectro. Fabriquei-a élo a élo, e palmo a palmo; fui eu que a prendi á minha livre vontade, e por minha livre vontade a trouxe sempre. Ser-vos-ha estranha a sua forma?

Scrooge temia cada vez mais.

— Ou querereis saber, proseguiu o espectro, o peso e o comprimento do cabo que vós mesmos arrastaes? Era exactamente tão comprido e tão pesado como este, faz agora sete vesperas de Natal. Depois disso tendes trabalhado nelle. Deve agora ser uma bem pesada cadeia!

Scrooge deitou um relancear d'olhos ao soalho, na espectativa de se vêr rodeado por algumas cincoenta ou sessenta jardas de ferro; mas não pôde vêr coisa alguma.

— Jacob, disse elle implorando. Velho Jacob Marley, falla-me mais. Dirige-me palavras de consolação, Jacob.

— Não tenho consolação para ti. As consolações, vem d'outras regiões, Ebenezer Scrooge, e são trazidas por outros ministros, a outra classe de homens.

Nem eu te posso dizer tudo o que queria. Muito pouco tempo me é concedido. Não posso descançar, não posso permanecer, não posso habitar em lugar fixo. Sabes bem, que em vida, a minha alma nunca ultrapassou os limites do nosso escriptorio — toma bem sentido — nunca o meu espirito caminhou além dos limites da nossa casa de desconto; eis a razão porque tenho de cumprir tão angustiosas viagens!

Tinha Scrooge o inveterado costume de metter as mãos nos bolsos quando se tornava meditabundo. Pesando as palavras do espectro, tomou a attitude habitual, mas sem erguer os olhos ou mover os joelhos.

— Deveis então estar muito atrazado, Jacob, observou Scrooge em tom de quem trata negocio, mas com humildade e deferencia.

— Atrazado? repetiu o espectro.

— Sim! murmurou Scrooge, morto ha sete annos, e todo esse tempo a caminhar.

— Todo esse tempo, replicou o espectro... nem descanço nem paz. Tortura incessante do remorso!...

— Viajaes rapidamente? perguntou Scrooge.

— Nas azas do vento, replicou o espectro.

— Deveis ter visto muitas terras n'esses sete annos, disse Scrooge.

O espectro ao ouvir taes palavras, soltou um novo grito, e tão horrivel estrepito produziu com a cadeia, no silencio profundo da noite, que a policia justificar-se-hia se o tivesse prendido por desordeiro e perturbador do socego publico.

— Oh! estou captivo, encadeiado, e carregado de ferros, por ter olvidado que todo o homem se deve associar, pela sua parte, ao grande trabalho da humanidade, prescrito pelo Senhor, e perpetuar o progresso, porque esta terra deve passar á eternidade antes que o bem de que é susceptivel esteja de todo desenvolvido; por não ter sabido que qualquer alma christã trabalhando com energia na sua pequena esphera da vida, qualquer que seja, ainda assim poucas occasiões encontra na sua vida mortal para poder compensar aquellass em que podia fazer o bem. E foi o que eu fiz, desgraçado de mim!

— Mas fosteis sempre um bom negociante, Jacob, balbuciou Scrooge, que agora applicava a si mesmo as palavras do espectro.

— Bom negociante! disse o espectro freneticamente, retorcendo outra vez as mãos. A humanidade devia ser o meu negocio. O bem dos meus semelhantes devia ser o meu negocio; caridade, misericordia, perdão e benevolencia, deviam ser tão sómente o meu negocio. O trafego do meu commercio era apenas uma gota d'agoa no comprehensivo oceano do meu negocio!

O espectro ergueu as cadeias a todo o comprimento do braço, como para mostrar a causa de todos os seus pesares inuteis, e novamente as deixou cahir em todo o peso sobre o sobrado.

— Neste epocha do anno, disse o espectro, é quando soffro mais. Porque atravessei os grupos dos meus semelhantes, com olhos sempre postos na terra e nunca os ergui para aquella Bemdita Estrella, que conduziu os Magos a uma pobre choupana!

Não haveria acaso tambem pobres habitações onde a sua luz podesse ter-me conduzido?

Scrooge estava tranzido de susto por ouvir o espectro fallar de tal sorte. Começou a tremer excessivamente.

— Escuta-me, exclamou o espectro; o meu tempo quazi está passado.

— Escuto, disse Scrooge, mas não me masses muito, Jacob; deixa as flôres de rethorica.

— Como é que appareço, deante de ti em forma que podes vêr, não o sei dizer. Muitos e muitos dias tenho estado invisivel a teu lado.

Não era esta uma confidencia agradavel para Scrooge que estremeceu, e limpou o suor escorrendo-lhe da fronte.

— Não é esta a menor parte da minha penitencia, proseguiu o espectro. Estou hoje aqui para te advertir que tens ainda esperança e probabilidade d'escapar ao meu fado. Esperança e probabilidade que eu te procurarei, Ebenezer.

— Sempre fostes muito meu amigo, disse Scrooge. Agradeço-vos.

— Apparecer-te-hão, concluiu o phantasma, tres Espiritos.

A physionomia de Scrooge tornou-se tão pallida como a do proprio phantasma.

— É essa a esperança que me prometteis Jacob? perguntou elle com voz desfallecida.

— É.

— Pois eu... eu pensava que não, disse Scrooge.

— Sem as suas visitas, disse o espectro, não podes esperar o evitar a senda que eu trilho. Aguarda o primeiro ámanhã, quando o relogio soar uma hora.

— Não poderia eu, Jacob, recebel-os todos a um tempo, e acabar depressa com essa tarefa? insinuou Scrooge.

— Espera o segundo na noite seguinte á mesma hora, continuou o phantasma sem lhe prestar attenção. O terceiro na noite seguinte quando a ultima pancada da meia noite tiver cessado de vibrar. Não esperes ver-me mais; e por teu proprio interesse recorda-te do que se passou entre nós.

Apenas ditas estas palavras, o espectro arrebatou o lenço de cima da mesa, e embrulhou a cabeça como antes. Scrooge conheceu isto pelo ruido secco dos dentes quando as maxillas se uniram com a pressão do lenço. Atreveu-se novamente a erguer os olhos, encontrou o visitante sobrenatural contemplando-o em soberba attitude, com a cadeia enrolada em volta do braço.

A apparição affastou-se d'elle recuando; e a cada passo que dava, a janella erguia-se um poucochinho de sorte que quando o espectro se approximou d'ella, estava de todo aberta. O phantasma fez signal a Scrooge para se adiantar; este obedeceu.

Quando estavam distantes dois passos um do outro, o espectro de Marley levantou a mão, fazendo-lhe signal para que se não approximasse mais. Scrooge parou.

Não tanto por obediencia, como suprehendido e receioso; porque quando a sombra levantou o braço, Scrooge ouviu alguns sons confusos no ar; sons incoherentes de lamentos e saudades, queixumes inexprimiveis de tristeza e remorso. O espectro, depois de ter escutado por um momento, juntou-se a esse côro triste, e desappareceu no seio da pallida e escura noite.

Scrooge seguiu-o á janella, com o desespero da curiosidade. Olhou para fóra.

A athmosphera estava repleta de phantasmas errando d'aqui para alli, em incessante movimento, e exhalando queixumes quando passavam. Todos arrastavam cadeias como o espectro de Marley; alguns poucos (talvez ministros culpados) estavam manietados uns aos outros; nenhuns caminhavam livres. Muitos, durante a vida, tinham sido conhecidos pessoaes de Scrooge.

Scrooge fôra muito amigo d'um velho phantasma, de collete branco, com um monstruoso annel de ferro no tornozello, gritando que fazia lastima, por não poder socorrer uma pobre mulher com uma criancinha, que elle via em baixo no limiar d'uma porta. O supplicio de todos elles, via-se bem claro. Procuravam interferir nos negocios humanos, para fazerem algum bem; mas desgraçadamente eram vãos os seus esforços. Era já tarde.

Ilustração de John Leech na primeira edição de A Christmas Carol

Se aquellas mal fadadas creaturas se desfizeram em nevoeiro, ou se o nevoeiro as absorveu, foi cousa que Scrooge nunca poude dizer. Mas elles e as suas vozes phantasticas desappareceram e a noite volveu a ser o que fôra quando elle caminhava para casa.

Scrooge fechou a janella e examinou a porta por onde o phantasma tinha entrado. Estava fechada a duas chaves, como elle a fechara com suas proprias mãos; os ferrolhos estavam intactos. Procurou dizer «...ora asneiras!» mas parou na primeira syllaba. E necessitando muito dormir, ou pela comoção que soffrera, ou pelas fadigas do dia, ou pelo seu relance d'olhos ao mundo invisivel, ou pela triste conversação com o espectro, ou finalmente pela hora adiantada, foi direito para a cama, sem se despir, e cahiu em profundo somno no mesmo instante.

Notas do Traductor[editar]

  1. Locução ingleza.
  2. Todos os puddings de dia de Natal, em Inglaterra, tem no cimo um ramo de azevinho.
  3. S. Dunstan, santo inglez que viveu no oitavo seculo. Contam as lendas, que sendo este santo tentado pelo principe das trevas, e já fatigado com os argumentos de tão ruim visitante, com uma tenaz em braza, segurara o nariz do demonio e o levara para uma janella onde esteve exposto á irrisão do publico. (Nota do Traductor.)