Uma lôa do Natal/Estrophe IV

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Uma lôa do Natal por Charles Dickens
Estrophe IV - O ultimo dos espiritos
Tradução de A. C., publicada separadamente n’O Jornal do Porto entre 1863 e 1864.


ESTROPHE IV


O ultimo dos Espiritos


O Phantasma approximou-se devagar, com ar grave e silencioso.

Quando chegou junto de Scrooge, este ajoelhou porque o Espirito parecia espalhar pela atmosphera que cruzava, o terror e o mysterio.

Uma comprida tunica escura cobria-o de cima a baixo, occultando-lhe a cabeça, o rosto e a forma, e deixando unicamente visivel um braço estendido, sem o que teria sido difficil differenciar esta figura das sombras da noite, e distinguil-a entre a escuridão que a cercava.

Scrooge conheceu bem que o Espectro quando se approximou era de estatura elevada e magestosa, e que a sua mysteriosa presença o enchia de um terror solemne.

Nada mais sabia porque o Espirito nem fallou nem se moveu.

— Estarei acaso na presença do Espirito do Natal futuro, disse Scrooge.

O Espirito não respondeu e continuou a apontar a mão.

— Deveis mostrar-me as sombras das coisas que ainda não aconteceram, mas deverão acontecer no tempo futuro, proseguiu Scrooge; não é verdade Espirito?

A parte superior da tunica contrahiu-se por um momento, nas suas dobras, como se o Espirito tivesse inclinado a cabeça. Foi a unica resposta que Scrooge obteve.

Supposto que já acostumado á sociedade dos Espiritos, Scrooge, n'esta occasião receiou tanto o silencio que as suas pernas principiaram a tremer, e conheceu ser-lhe custoso suster-se em pé quando se preparou a seguir o Phantasma.

Este parou um momento, como observando o estado de Scrooge, e dando-lhe tempo para recuperar as forças.

Mas nem por isso Scrooge conservou mais sangue frio; um terror vago e desusual lhe fazia estremecer os membros, ao lembrar-se que detraz d'aquella sombria mortalha dois olhos de phantasma estavam attentamente fixados sobre elle, e que, apezar de todos os seus exforços, nada mais podia vêr do que uma mão d'espectro e um vulto escuro.

— Espirito do futuro! exclamou elle, temo-vos mais do que qualquer dos outros espectros que vi. Mas como eu sei que a minha felicidade é a vossa mira, e como espero viver para ser um homem totalmente differente do que fui, estou prompto a acompanhar-vos com o maior reconhecimento no coração.

Dar-se-ha caso que me não queiraes dirigir uma unica palavra?

O espectro não lhe deu palavra. A mão continuou a estar estendida para a frente.

— Guiai-me! disse Scrooge. Guiai-me, a noite vai-se adiantando, e o tempo torna-se-me precioso, bem o sei. Guiai-me Espirito.

O phantasma affastou-se do mesmo modo que tinha chegado. Scrooge seguiu-lhe a sombra da tunica, que parecia levantal-o e leval-o longe.

Não se póde dizer propriamente que entraram na city[1] porque parecia antes que se via a city surgir e rodeal-os com o seu bulicio e movimento contrario. Acharam-se no coração d'aquelle bairro commercial, na Bolsa, no meio dos negociantes que corriam apressados d'um lado para o outro, ou faziam tinir o dinheiro nas algibeiras, ou conversavam em grupos, ou olhavam para os relogios, ou brincavam pensativos com os sinetes d'oiro, etc., etc., etc., como Scrooge tivera occasião de vêr antes.

O Espirito parou junto d'um pequeno grupo de negociantes. Observando que a mão do seu companheiro estava apontada para o grupo, Scrooge approximou-se para ouvir a conversação.

— Não… dizia um sugeiro gordo com um monstruoso queixo, não sei mais nada. Só sei que elle morreu.

— Quando morreu ele? inquiriu um outro.

— A noite passada, segundo me parece.

— Como!.. de que morreria elle? perguntou um terceiro, tirando uma grande pitada de rapé d'uma immensa caixa de prata. Julguei que o homem não morria…

— Só Deus o sabe! disse o primeiro, com um bocejo.

— Que faria elle ao dinheiro? perguntou um outro de caraça avermelhada, e com uma excrescencia de carne pendente do nariz e bambaleando-se como as cristas dos perús.

— Eu sei lá, disse o sugeito do queixo grande bocejando novamente. Talvez o deixasse ao seu socio. O que eu sei é que a mim não me deixou nem um penny.

Este gracejo foi recebido com universal gargalhada.

— Deve ser um funeral de pouco custo, continuou o mesmo, porque, palavra de honra, estou certo que não vai lá ninguem. Vamos nós lá para vermos, sem convite?

— Não se me dava de ir se houvesse lunch, observou o sugeito da excrescencia no nariz. Quero ser pago do meu trabalho.

Nova gargalhada.

— Pois bem, no meio de tudo vejo que sou eu o mais desinteressado, disse o que primeiro fallou, porque não ia lá nem por umas luvas pretas, nem por o lunch, mas offereço-me a ir ao enterro se alguem me quer acompanhar. Quando me ponho a pensar bem, não posso deixar de reconhecer que talvez fosse eu o seu maior amigo, porque costumavamos trocar duas ou tres palavras quando nos encontravamos. Meus senhores, até logo.

Foram-se afastando uns e outros e juntando-se a outros grupos. Scrooge conhecia aquellas pessoas, e por esse motivo olhou para o Espirito a fim de lhe pedir explicação do que ouvira.

O Phantasma introduziu-se por uma rua e mostrou com o dedo dois individuos que se encontravam. Scrooge novamente exitou, julgando poder agora encontrar a explicação do que antes ouvira.

Conhecia perfeitamente os dois sugeitos; eram ambos ricos capitalistas, e muito considerados. Scrooge tratara sempre de mereceer a estima de elles… no ponto de vista dos negocios, entenda-se; estrictamente no ponto de vista dos negocios.

— Como está? disse um.

— Bem obrigado, e o meu amigo? retorquio o outro.

— Bom, disse o primeiro. Então o velho Sovina lá foi marchando! heim?..

— Assim me disseram, replicou o segundo… Faz frio não é verdade?

— Não ha esperar outro tempo agora por o Natal. O meu amigo não gosta de patinhar, supponho eu.

— Não, não gosto. Tenho mais em que cuidar. Até á vista.

Nem uma palavra mais. Assim se encontraram, conversaram e partiram.

Scrooge a principio estava um pouco tentado a mostrar-se surpreso por o Espirito ligar importancia a conversas na apparencia tão triviaes; mas intimamente convencido de que deviam ter algum fim occulto, principiou a perguntar a si mesmo a que se refeririam. Não era natural suppor que tivessem a minima relação com a morte de Jacob, seu antigo socio, porque tal acontecimento pertencia ao passado, e o Espirito só estava encarregade do Futuro. Nem podia recordar-se de ninguem do seu conhecimento a quem aquellas palavras se podessem applicar.

Todavia, não duvidando, que a quem quer que fosse que se applicassem, tinham algum fim occulto de moralidade em beneficio seu, resolveu conservar bem presente na memoria não só todas as palavras que ouvisse, como tudo o que presenceasse; e especialmente observar a sua sombra quando apparecesse, persuadido como estava de que a coducta no seu futuro lhe daria a chave do enigma indecifravel até alli, e lhe tornaria a solução facil.

Olhou em redor de si para ver se encontrava a sua imagem n'aquelle logar; mas outro homem occupava o seu cantinho favorito, e apezar do relogio marcar a hora preciza a que costumava apparecer na Bolsa, não viu ninguem que se assemelhasse comsigo em toda gente que se agglomerava no portico para entrar. Este facto, todavia, pouca surpreza lhe causou, porque desde que os Espiritos o principiaram a visitar, Scrooge tinha meditado uma mudança de vida, e pensou, e teve a esperança de que já aquillo era signal de que as suas resoluções estavam em pratica.

Sombrio e immovel conservava-se o Phantasma a seu lado com o braço estendido. Quando Scrooge voltou a si das suas meditações, imaginou pelo movimento da mão, e pela posição do espectro em referencia a si, que este o estava contemplando physicamente com os seus olhos invisiveis.

Tal pensamento fel-o estremecer e arrefecer muito.

Deixaram esta scena buliçosa dos negocios, e dirigiram-se a um bairro obscuro da cidade, onde Scrooge nunca penetrara antes, apezar de reconhecer a sua situação e a sua má reputação.

As ruas eram immundas e estreitas, as casas e as lojas despreziveis, os moradores meios nus e esfarrapados, mizeraveis e embriagados. Os beccos e as viellas, como outros tantos esgotos, vomitavam a sua repellente immundicie, e os seus asquerosos habitantes, n'este labirintho de ruas; em todo o bairro respirava-se o crime, a porcaria e a mizeria.

No fim d'este infame covil via-se uma loja baixa, tendo na frente um alpendre, na qual se compravam ferros, garrafas, roupa usada, ossos, e os restos dos jantares dos dias antecedentes. No chão, dentro da loja, estavam amontoadas pilhas de chaves enferrujadas, pregos, cadeiados, dobradiças, limas, balanças, pezos, e toda a especie de objectos de ferro. Segredos que poucos teriam a curiosidade de devassar estavam talvez occultos n'esses montes de nojentos farrapos, sob esses montões de comida em corrupção, e sob esses enormes sepulchros de ossos. Sentado no meio dos objectos do seu trafego, junto a um velho fogão, encontrava-se um bregeiro de cabellos ruivos, com perto de sessenta annos de idade, abrigando-se do ar frio do exterior por meio d'uma suja cortina feita de farrapos de variegadas côres, suspensa n'uma corda. O personagem em questão estava fumando n'um cachimbo, e saboreando as fumaças com todo o socego d'espirito.

Scrooge e o Phantasma acharam-se na presença d'este homem exactamente na occasião em que uma mulher, com um volumoso embrulho, se introduzia rapidamente no estabelecimento. Apenas ella tinha entrado quando uma outra mulher, com fardo igual, tambem appareceu, e a esta ultima seguiu-se um homem vestido de preto, com roupa já usada, que não ficou menos surprehendido com a vista das duas mulheres do que ellas tinham ficado quando ambas se reconheceram mutuamente.

Depois d'alguns segundos de mudo pasmo partilhado igualmente pelo homem do cachimbo, todos tres desataram em gargalhada geral.

— Licença primeiro á jornaleira, exclamou a mulher que entrara primeiro. A lavadeira será a segunda; e em terceiro logar virá o armador. Olha lá, velho Joe, parece isto um acaso! Não parece que nos combinamos todos tres para aqui nos encontrarmos?

— Não se podiam juntar em melhor logar, disse o velho Joe, retirando o cachimbo da bocca. Entrem para a salla. Ha muito que você entra aqui como em sua casa, e os dois outros tambem não são estranhos. Esperem que vou fechar a porta da loja! Como ella range!

Em todo o meu estabelecimento não ha pedaço de ferro tão ferrugento como as dobradiças d'esta porta, assim como não ha ossos tão velhos como os meus! ah ah! Estamos todos em harmonia com o nosso officio! Entrem na salla, entrem na salla.

A sala era o espaço que se estendia atraz da cortina de farrapos.

O velho, dono do estabelecimento, atiçou o fogo com o rabo d'uma vassoura velha, e depois de ter avivado com o bocal do cachimbo a torcida da candeia cheia de fumo, levou-o de novo á bocca.

Em quanto o dono da casa fazia esta operação, a mulher que já fallara antes atirou o embrulho ao chão e sentou-se n'um banco em posição sem ceremonia, collocando os cotovellos nos joelhos e deitando sobre os outros um olhar de desafio.

— E então que maravilha é, mistress Dilber? disse a mulher. Todos tem direito de cuidar de si proprios. E elle durante a vida, fez outra coisa?

— Lá isso é verdade! disse a lavadeira. Ninguem cuidou mais de si do que o tal bargante.

— Então, mulher do mafarrico, não esteja a abrir os olhos como quem tem medo. Ladrão que rouba a ladrão tem cem annos de perdrão.

— Oh! Deus queira que se verifique o dictado, disseram mistress Dilber e o homem ao mesmo tempo.

— Ora então estamos conformes, exclamou a mulher.

E estejam bem certos que ao defuncto não hão de fazer falta estas bagatellas.

— Com certeza que não, disse mistress Dilber sorrindo-se.

— Se o bargante as queria conseavar depois de morto, proseguiu a mulher, porque não fez como toda a gente? Se não fosse tão miseravel teria um guarda para estar junto do leito quando a morte o levou, em logar de se afinar ahi para um canto como o mais miseravel animalejo.

— Falla a pura verdade, disse mistress Dilber. Aquillo foi castigo do céo. Altos juizos do Senhor!

— Queria que fosse mais pesadinho um bocado, disse a mulher apontando para o embrulho, e teria sido, podem estar certos, se eu tivesse podido por as mãos em alguma coisa mais. Abre esse sacco, velho Joe, e diz-me, o valor do contheudo. Falla com franqueza homem. Não tenho medo de ser a primeira nem receio que elles o vejam. Julgo que sabiamos perfeitamente antes de nos encontrarmos aqui que cada um de nós tractava da sua vida. Não ha mal por isso. Abre o embrulho Joe.

Seguiu-se um debate causado pela delicadeza.

Todos a um tempo queriam mostrar o resultado das suas campanhas, e o homem de casaco preto subindo primeiro á brecha apresentou o producto da sua rapina. Não era consideravel — um sinete ou dois, uma lapiseira, um par de botões dos punhos, e um alfinete de pouco valo, eis no que se resumia tudo. Cada objecto foi examinado e avaliado pelo velho Joe, que notou a giz na parede as quantidades que estava resolvido a dar, e sommou o total quando viu que não tinha mais nenhum objecto que receber.

— Esta é a sua conta, disse elle, e não dou six-pence mais, ainda que me fritassem. Quem se segue?

Era a vez de mistress Dilber, que apresentou lençoes e toalhas, um vestido, duas colheres de prata de chá, uma tenaz do mesmo metal para assucar e dois pares de botas.

A sua conta foi organisada na parede, como a antecedente.

— Eu pago sempre demais ás senhoras. É uma das minhas fraquezas, e a causa da minha ruina, disse o velho Joe. Ahi vai a sua conta. Não me peça nem um penny mais… porque se faz grande questão dessas bagatellas, arrependo-me de ter sido tão generoso, e abato-lhe meia coroa.

— E agora, Joe, desata o meu embrulho, disse a primeira mulher.

Joe ajoelhou-se para com mais facilidade abrir o embrulho, e tendo desatado muitos nós, tirou para fóra um grande e pesado rolo d'um objecto escuro.

— Como se chama isto? disse Joe. São cortinados de cama?

— Ah! replicou a mulher soltando uma risada, e debruçando-se sobre os joelhos. Cortinados de cama!…

— Atrever-te-hias a tiral-os com as argolas e o mais, estando alguem a dormir na cama? disse Joe.

— Atrevi-me, sim, replicou a mulher. E por que não?

— Tu nascestes para fazer a tua fortuna, disse Joe, e com certeza a farás.

— Com certeza não escondo as minhas mãos, por amor d'um homem como elle foi, quando estendendo-as e posso trazer alguma coisa; convence-te disto, replicou a mulher friamente. Não entornes o azeite sobre os cobertores. Cautela!

— São os cobertores d'elle? perguntou Joe.

— Então de quem julgas que haviam de ser? replicou a mulher. Não é provavel que agora se constipe com a falta d'elles.

— Morreria o patife d'alguma molestia contagiosa? que dizes, hein? perguntou o velho Joe, parando na sua tarefa, e erguendo os olhos.

— Não tenhas receio d'isso, respondeu a mulher, não preso tanto a sua companhia, que, por bagatellas como esta, tivesse ficado junto d'elle, se houvesse o menor perigo… Oh! podes olhar para essa camisa até te arrebentarem os olhos, mas não achas um buraco, nem sequer uma rede tomada. Era a melhor que tinha, e effectivamente é soffrivel. Se não fosse eu, tinham-n'a roubado.

— Que queres tu dizer com isso? perguntou Joe.

— Sepultavam-no com ella… é como te digo, replicou a mulher rindo. Já um pateta, não sei quem, o tinha feito, mas eu tirei-a outra vez. Se o algodão não serve para esse fim, não sei então que prestimo tenha. Fica-lhe muito bem ao defuncto, e o pobre diabo não ficara menos aceiado com a camisa d'algodão que troquei pela sua de linho.

Scrooge escutava este dialogo com horror.

Esta gente agrupada em redor da presa, vista á luz amorroada da candeia do velho Joe, causava-lhe tamanho horror e desgosto, que não seriam maiores se estivesse vendo os demonios, mercadejando o proprio cadaver.

— Ah! ah! continuou a mesma mulher rindo, quando o velho Joe, sacando uma bolsa de baeta com algum dinheiro, contou a cada um a parte dos lucros que lhe tocava. Este é o melhor fim da obra. O sovina, em vida, fazia fugir toda a gente de junto de si, para nos dar um lucro depois de morto, ah! ah! ah!

— Espirito! disse Scrooge estremecendo todo da cabeça aos pés, comprehendo, comprehendo. A sorte d'este infeliz podia muito bem ser a minha. É aquelle o fim de uma vida como a minha! Deus misericordioso, que vejo!

Recuou aterrado porque a scena mudára, e agora quazi que tocava em um leito, mas um leito nu, sem cortina, sobre o qual, soberto com um lençol em farrapos, jazia um objecto, cujo silencio revelava a sua natureza em muda mas terrivel linguagem.

A salla estava bastante escura e tanto que se não podia observar com exactidão que objecto era o que estava sobre o leito; mas Scrooge, obedecendo a um impulso secreto, relanceou a vista em redor, ancioso por conhecer que salla era aquella. Uma luz pallida, vindo de fóra, dava de chapa sobre o leito onde jazia o cadaver d'esse homem, despojado e abandonado, e sem merecer as vigilias, as lagrimas, e os carinhos de ninguem!

Scrooge olhou para o Phantasma cuja mão fatal estava apontada para a cabeça do morto. A mortalha estava lançada com tanta negligencia que bastaria a Scrooge o mais ligeiro movimento de um dedo para descobrir o rosto do morto. Pensou n'isso, conheceu com que facilidade o faria desejou fazel-o; mas teve forças para desviar a mortalha ainda menos a sentiu para senão fugir ao espectro que tinha junto a si.

Ó fria fria, horrida e terrivel morte! ergue aqui o teu altar, e cinge-o de todos os horrores de que dispõe, porque estás no teu dominio! Quando se trata d'uma cabeça amada, respeitada e honrada, não pódes conseguir que um só de seus cabellos sirva a teus fins abominaveis fins, nem tornar odiosa uma só das suas feições.

Não é porque a mão deixe de se tornar inerte, e não decaia quando abandonada; não é porque o pulso e o coração deixem de bater; mas essa mão foi outr'ora franca, generosa, e leal, esse coração foi bravo, sensivel, e terno; e era um verdadeiro coração de homem o que batia dentro daquelle peito. Fere, fere, de balde morte inexoravel! Vais vêr as acções boas d'esse ente renascerem da ferida que lhe abriste e viverem eternamente neste miseravel mundo.»

Nenhuma voz pronunciou estas palavras ao ouvido de Scrooge, e todavia elle ouviu-as quando estava olhando para o leito. — «Se este homem podesse ressuscitar, pensava elle, que diria dos seus pensamentos de outr'ora? A avareza, a cubiça, e a dureza do seu coração, conduzirão-no na verdade a um fim magnifico! Esta aqui jazendo nesta caza sombria e abandonada, sem um homem, mulher ou creança, que lhe possa dizer: «Foi meu amigo em tal ou tal circumstancia, e em memoria dos beneficios que me prestou ser-lhe-hei grato agora».

Unicamente um gato estava arranhando a porta, e atraz da pedra do lar ouvia-se o rumor dos ratos que roiam o quer que fosse. Que queriam elles d'este azylo da morte? Porque se mostravam tão insoffridos e turbulentos? Scrooge nem ousou cogitar sobre o caso.

— Espirito, disse elle, este logar é horrivel! Ao abandonal-o não esquecerei a lição que me dá, acreditai-me. Partamos.

O Phantasma conservava o dedo apontado para a cabeça do cadaver.

— Comprehendo-te, replicou Scrooge, e fal-o-hia se podesse. Mas não tenho coragem, Espirito, não tenho coragem.

O Phantasma pareceu contemplal-o com mais attenção.

— Se ha alguem na cidade que sentisse uma emoção dolorosa cauzada pela morte d'esse homem, mostra-me essa pessoa, Espirito, eu t'o rogo, disse Scrooge angustiado.

O Phantasma estendeu por um instante a sua escura tunica diante de Scrooge, como uma aza, e tirando-a fez-lhe ver um quarto, allumiado pela luz do dia, onde estavam uma mãe e seus filhos.

A senhora estava esperando por alguem com viva anciedade, porque passeiava com impaciencia d'um para o outro lado da salla, estremecia ao menor ruido, olhava amiudadas vezes ora para a ajanella ora para o relogio, tentava, mas debalde, recorrer á agulha, e a custo podia supportar as vozes das creanças quando brincavam.

Por fim retumbou o som por tanto tempo esperando do martello batendo na porta. A senhora correu apressada á porta, a sahir ao encontro da marido, que apezar de moço, tinha a physionomia sulcada de rugas produzidas pelos cuidados. Via-se-lhe impressa uma expressão notavel, uma especie de prazer triste de que tinha vergonha e se exforçava por não demonstrar.

Sentou-se para comer o jantar, que lhe fora guardado junto do lume, e quando sua esposa lhe perguntou o que havia de novo (pergunta que foi feita só depois de longo silencio) elle pareceu embaraçado na resposta.

— Trazes boas ou más noticias? disse ella para o incitar a fallar.

— Más, respondeu elle.

— Estamos de todo arruinados?

— Não, Carolina, ainda ha esperança.

— Se elle se compadecer, disse ella surprehendida, ainda ha! Se tal milagre se désse, nada seria impossivel n'este mundo.

— A compaixão já não está ao seu alcance, disse o marido; o homem morreu!

A mulher de quem fallamos era uma creatura suave e paciente, se o rosto lhe não mentia, mas ao ouvir aquellas palavras não pôde deixar de agradecer ao céo do fundo da sua alma, e até chegou a render graças em alta voz com as mãos erguidas. Passados poucos momentos pediu perdão a Deus de taes pensamentos e palavras; mas o primeiro impulso brotara-lhe sincero no coração.

— Tornou-se em pura verdade o que me disse a mulher meia embriagada, de que te fallei a noite passada, quando o fui procurar para me conceder mais alguma espera ao pagamento, e como elle me não appareceu julguei que tinha sido desculpa para me evitar. Não só elle estava muito mal, mas até n'aquelle momento estava expirando.

— A quem será transferida a nossa divida?

— Não sei. Mas antes d'esse tempo teremos o dinheiro, e quando por acaso o não tivessemos, seria um bem pungente sarcasmo da sorte, se o nosso futuro credor fosse tão inexoravel como o passado. Podemos hoje dormir com mais socego, Carolina!

Sim, apesar das suas indoles bondosas, tirara-lhes aquella noticia um peso horrivel de sobre os corações.

Os rostos das creanças, agrupadas em redor d'elles para ouvir uma conversa de que tão pouco comprehendiam, animaram-se de uma viva alegria; a morte de um homem trouxera a felicidade a uma familia!

Foi uma verdadeira emoção de prazer causada pelo fallecimento do credor, e que o Espectro pode mostrar a Scrooge.

— Espirito, disse Scrooge, faz-me ver alguma scena de ternura ligada á ideia da morte, ou então não me sahirá da memoria aquelle quarto escuro que agora deixamos.

O Espirito conduziu-o atravez de varias ruas que lhe eram familiares, e á medida que caminhavam olhava Scrooge em todas as direcções, esperançoso de reencontrar a sua imagem, mas em parte alguma a via. Entraram na casa do pobre Bob Cratchit, a mesma que elle já visitára, e encontraram a mulher e os filhos em volta do fogão.

Todos estavam socegados, muito socegados. Os pequenos Cratchits, d'ordinario muito traquinas, conservavam-se tão quietos a um canto como estatuas, estavam sentados olhando para Pedrinho, que tinha um livro diante de si. A mãe e as filhas occupavam-se a coser. — Todos conservavam um profundo silencio.

E elle arrebatou uma creança e sentou-a no meio d'elles.

Onde ouvira Scrooge estas palavras? Não as tinha sonhado. Forçosamente o rapaz devia tel-as lido em alta voz quando elle e o Espirito chagaram ao limiar da porta. Porque não continuava elle a leitura?

A mãi pousou a costura sobre a meza, e cobriu o rosto com as mãos.

— A côr d'esta fazenda faz-me mal á vista disse ela.

A côr!... pobre Tiny Tim!

— Estou melhor agora, disse a mulher de Cratchit. Os olhos fatigam-se-me sem duvida em trabalhar com luz; no entanto, por cousa nenhuma d'este mundo desejaria mostrar os olhos fatigados a teu pae quando entrasse. Não deve tardar muito, são horas de elle chegar.

— Já elle vem um pouco mais tarde que o costume, respondeu Pedrinho fechando o livro. Parece-me que o pai tem-se demorado mais estas ultimas tardes.

Do novo ficaram todos silenciosos. Por fim a mãe disse com voz firme e risonha, deixando este tom uma unica vez:

— Havia tempo em que elle caminhava depressa, muito depressa com... com Tiny Tim aos hombros; recordo-me bem.

— E eu tambem me recordo; muitas vezes os vi assim.

— E eu tambem, exclamou um outro.

Todos repetiam, «e eu tambem»».

— Mas Teny Tim pouco encommodava, continuou a mãi olhando attenta para a costura, e o pae tanto o estimava, que não lhe era penoso... não. — Sinto bater á porta, disse de repente mistress Cratchit; é vosso pae.

A infeliz senhora correu ao encontro de seu marido, e o pequeno Bob com a sua manta de lã — coitado, bem necessidade tinha d'ella! — entrou na salla. O chá estava prompto, e aquecendo no fogão; todos á porfia queriam servil-o ao recem-chegado. Os dois pequenos Cratchits treparam-lhe acima dos joelhos, e cada um delles encostou a sua meiga e mimosa face á do pae como querendo dizer: Não pense n'isso papá. Não esteja afflicto!

Bob mostrou-se muito alegre e para todos teve palavras affectuosas. Olhou para a costura sobre a meza, e elogiou a habilidade e industria de sua mulher e filhas.

— Ha-de-se acabar esta tarefa antes de domingo, disse elle.

— Domingo! Fosteis então hoje...? Roberto, disse sua mulher.

— Sim minha querida, replicou Bob. Desejaria que tivesseis alli hido. Far-te-hei bem vêr como estava verdinho o logar. Ha-des ir vel-o a miudadas vezes. Prometti-lhe que iria alli passeiar aos domingos... Meu pobre filhinho, exclamou Bob! meu pobre filhinho!...

E saltaram-lhe dos olhos abundantes lagrimas sem que lhe podesse obstar. Para isso era necessario que maior distancia de tempo o separasse de seu filho.

Deixou o quarto e subiu para a salla de cima, que estava bem illuminada, e adornada de flores e grinaldas como no Natal. Havia uma cadeira junto do leito da creança, e tambem signaes evidentes d'alguem alli ter estado recentemente.

O pobre Bob sentou-se na devoluta cadeira e depois de ter meditado algum tempo, e quando estava mais socegado, beijou o rosto da creancinha no berço. Resignou-se então com o que acontecera, e tornou a descer mais alliviado... na apparencia.

Todos se approximaram do fogão e principiaram a conversar; a mãe e as filhas continuavam com os olhos pregados na costura. Bob fallou-lhes da extraordinaria affabibilidade do sobrinho de Scrooge, que apenas vira uma unica vez e que encontrando-o na rua n'aquelle dia e vendo-o «um pouco... um pouco triste, disse Bob, informou-se com interesse do que me succedera de mau».

«E eu, preseguiu Bob, porque elle é o cavalheiro mais amavel que tenho visto, narrei-lhe tudo.

«— Sinto do coração o que me conta senhor Cratchit, disse elle, não só por si como por sua excellente esposa.

— A proposito como é que elle saberia isso?

Isso, o que?

— Que tu eras uma excellente mulher, replicou Bob.

— Toda a gente sabe isso, disse Pedrinho.

— Sim senhor!... muito bem dito, meu rapaz, replicou Bob. Espero que toda a gente conheça as boas qualidades de minha mulher.

«— Sinto muito por causa de sua excellente mulher, disse elle; se lhe posso ser d'utilidade para alguma coisa, continuou dando-me o seu bilhete de visita, aqui tem a indicação da minha morada. Peço-lhe que me venha fazer uma visita.

— Pois bem, exclamou Bob, fiquei encantado com aquelle moço, não tanto pelos serviços que nos poderia prestar, como pelas suas palavras affaveis e maneiras attenciosas!

Parecia realmente que tinha conhecido o Tiny Tim, e que o carpia como nós.

— Estou certa que esse rapaz é dotado d'uma boa alma, disse mistress Cratchit.

— Mais certa ficarias, minha cara amiga, replicou Bob, se o tivesses ouvido e lhe tivesses fallado. Não ficaria muito surprehendido, toma bem nota, se elle arranjasse um melhor logar para Pedrinho.

— Olha o que diz teu pai, Pedrinho! disse mistress Cratchit.

— E então, exclamou uma das meninas, Pedrinho arranjará uma esposa, e ha de estabelecer-se.

— Vai-te pessear, patetinha, retorquiu Pedrinho fazendo uma careta.

— Quem sabe se isso poderá ou não acontecer qualquer dia, quando menos o esperarmos? todavia ha muito tempo para pensar no caso. Mas de qualquer modo, e em qualquer tempo que nos separemos uns dos outros, estou certo que nenhum de nós esquecerá o pobre Tiny Tim... não é verdade que nunca esqueceremos esta primeira separação?

— Nunca, meu pai, nunca, exclamaram todos.

— Eu bem sei, disse Bob, eu bem sei meus filhinhos, que quando nos recordarmos da extrema bondade e resignação de Tiny Tim — apesar d'elle ser uma creancinha — não será facil altercarmos uns com os outros, porque seria então esquecermo-nos d'aquelle pobre menino.

— Juramos que nunca altercaremos, meu pai, repetiram todos.

— Sou muito feliz! disse o pequeno Bob, muito feliz!

Mistress Cratchit abraçou-o, as filhinhas beijaram-no, os dois pequenos beijaram-no igualmente e Pedrinho apertou-lhe cordialmente a mão. Alma de Tiny Tim a tua essencia infantil era uma emanação da Providencia!...

— Espectro, disse Scrooge, alguma coisa me diz que o momento da nossa separação não está longe. Sei isso, sem saber como terá lugar. Dize-me antes, que homem era o que estava jazendo no leito?

O Espirito do Natal futuro transportou-o, como antes — ainda que a epocha differente, segundo Scrooge julgava; na verdade pareceia não haver ordem nas ultimas visões, a não ser que todas se referiam ao futuro — transportou-o aos lugares onde se reuniam os negociantes, mas não lhe mostrou a sua imagem, como fizera primeiramente.

O Espirito não parou em parte nenhuma, mas continuou a sua marcha directamente para chegar mais depressa onde desejava, até que Scrooge lhe supplicou que parasse um momento.

— Este largo, disse Scrooge, que atravessamos com tanta pressa, é o lugar das minhas occupações desde muito. Acolá vejo o meu escriptorio: deixai-me ver o que eu serei um dia.

O Espirito parou; a sua mão desiguava differente direcção.

— A casa é alli, disse Scrooge; porque apontaes para differente lugar.

O dedo inexoravel não mudava de direcção. Scrooge correu apressado á janella do seu escriptorio, e olhou para dentro. Era um escriptorio ainda, mas não o seu. A mobilia já não era a mesma, nem a pessoa assentada á escrivaninha era a sua imagem. O phantasma continuava a apontar como antes.

Scrooge aproxiou-se do Espirito, e perguntando a si mesmo porque não veria a sua imagem no escriptorio, e onde teria ido, acompanhou o seu guia até chegarem a uma grade de ferro. Scrooge, antes de entrar, parou para olhar em redor de si; achavam-se n'um cemiterio.

Aqui indubitavelmente jazia sob algumas pás de terra o desgraçado cujo nome lhe ia agora ser revelado. Era um bello lugar na verdade!... cercado de muros das casas visinhas, invadido pela herva e pelas silvas, antes a morte da vegetação do que a vida; amontoado com innumeras sepulturas, e cheio a mais não pode ser. Bello lugar, na verdade!...

O Espirito conservou-se em pé entre os tumulos e apontou para um. Scrooge aproximou-se a tremer. O Phantasma era sempre o mesmo, mas Scrooge receiou ver na sua apparencia solemne algum novo agouro de que teve medo.

— Antes de eu me aproximar d'essa lapide, para a qual apontaes, disse Scrooge, repondei-me a uma pergunta. São estas as sombras de acontecimentos futuros, ou de acontecimentos que se poderão realisar?

Por unica resposta o Espirito apontou para o tumulo junto do qual se achavam.

— As resoluções dos homens não podem obstar a certos resultados inevitaveis, se elles perseverarem em caminhar na mesma via, dissse Scrooge. Mas se mudam de caminho, os resultados são differentes. Dar-se-ha esse caso com as sombras que mostraes?

O Espirito conservava-se immovel como antes.

Scrooge arrastou-se até ao tumulo, tremendo cada vez mais á maneira que caminhava; e seguindo a direcção do dedo leu sobre a lapide de uma sepultura abandonada:

AQUI JAZ

EBENEZZER SCROOGE

— Sou então o homem que estava jazendo no leito?! exclamou elle cahindo de joelhos.

O dedo do Phantasma dirigia-se alternativamente do tumulo para elle e d'elle para o tumulo.

— Não, Espirito. Oh! não, não...

O dedo continuava sempre nas mesmas evoluções.

— Espirito! exclamou elle segurando-se-lhe á tunica, ouvi-me! Já não sou o homem que fui. Não serei o homem que viria a ser, se não tivesse a felicidade da vossa interferencia na minha vida. Porque me mostraes essas coisas se já me não é concedida a esperança de me regerar?

Pela primeira vez a mão pareceu fazer um movimento

— Bom Espirito, proseguiu Scrooge, prostando-se a seus pés como antes, vós intercedereis por mim e tereis compaixão de mim. Certificae-me que eu poderei ainda mudar essas sombras que mostrateis, mudando de vida!

O último dos espíritos, ilustração de John Leech na primeira edição de A Christmas Carol

A mão estremeceu com um gesto de benevolencia.

— Honrarei o Natal, do fundo do meu coração, e esforçar-me-hei por guardar o seu culto durante todo o anno. Viverei no passado, no presente e no futuro: não me abandonarão os tres espiritos porque não quero olvidar as boas lições que me deram. Oh! dizei-me que posso apagar a inscripção d'esta lapide!

Na sua agonia agarrou a mão do Espectro. Este procurou libertar-se, mas Scrooge deteve-o com força. O Espirito, mais forte do que elle, repelliu-o ainda d'esta vez.

Segurando-lhe nas mãos a ver se conseguia a mudança do seu fado, viu uma alteração no vestido e na forma do Phantasma, que foi diminuindo, encolhendo-se, e desapparecendo até que se transformou n'uma columna de leito.

Notas do Traductor[editar]

  1. City, o bairro de Londres onde se encontram todos os escriptorios, a praça, alfandega, etc.