Uma lôa do Natal/Estrophe V

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Uma lôa do Natal por Charles Dickens
Estrophe V - Fim da historia
Tradução de A. C., publicada separadamente n’O Jornal do Porto entre 1863 e 1864.


Sim senhores! n'uma columna do leito!

O leito era ainda o seu, e o quarto o seu tambem sem tirar nem pôr! E o que era melhor que tudo era Scrooge ter ainda diante de si o mesmo espaço de tempo para poder reformar a sua vida.

— Quero viver no passado, no presente e no futuro, repetiu Scrooge saltando d'um pulo abaixo do leito. Viverão comigo as licções dos tres Espiritos. Oh Jacob Marley! Que o Céo e a festa do Natal sejam bemdictas pelos seus beneficios. De joelhos digo isto, velho Jacob, de joelhos o digo!

Estava tão animado e tão orgulhoso com as suas boas intenções, que a sua voz já gasta, a custo correspondia aos seus sentimentos. No seu debate com o Espirito as lagrimas tinham-lhe saltado dos olhos e a sua physionomia estava humedecida.

— Não estão rasgados, exclamou Scrooge, abraçando um dos cortinados, não foram arrancados; ainda aqui estão as argolla, e tudo!

Estão ainda aqui, eu tambem aqui estou; as sombras das coisas que pódem acontecer, pódem desvanecer-se. Desvanecer-se-hão, estou certo.

Durante todo este tempo as suas mãos estavam a contas com a sua roupa; ora vestia o cazaco do avesso, ora o voltava; agora calçava as meias ás vessas e depois tornava-as a tirar; finalmente entregava-se a toda a casta d'extravagancias.

— Não sei o que faço! exclamou Scrooge rindo e chorando ao mesmo tempo, collocando-se com as meias na posição da estatua de Laoconte com as serpentes enroscadas. Acho-me tão leve como uma penna, tão feliz como um anjo, tão alegre como um rapaz d'eschola, e atordoado como um beberrão. Boas festas e toda a gente, a todos um bom e feliz anno novo! Hola! hola!

Em seguida passou do quarto para a salla de visitas aos saltinhos, e agora achava-se alli quasi sem poder tomar a respiração.

— Ainda alli está a chocolateira com a agoa de cevada! exclamou Scrooge, começando de novo a andar aos saltinhos em frente do fogão. Acolá está a porta por onde entrou Jacob Marley! acolá está o canto aonde se assentou o Espirito do Natal presente! acolá está a janella por onde vi as almas errantes! tudo está no seu logar, tudo é verdade, tudo aconteceu... Ah! ah! ah!

Realmente, para um homem que não fizera uso do riso durante tantos annos, era uma gargalhada excellente, e atrevo-me a dizer magnifica! a mãe d'uma mui longa serie d'illustres gargalhadas!

— Não sei em que dia do mez estamos! disse Scrooge, nem quanto tempo estive com os Espiritos. Não sei nada. Sou quasi uma creança! não importa; seja como fôr. Desejaria bem ser uma creancinha! É, holá, holá.

Os seus transportes d'alegria foram interrompidos pelos sinos das igrejas que repicavam tão alegremente como elle jámais ouvira.

Dlin! dlin! dlon! dlon! don! dlin! dlin! dlon! don! don! dlin! dlin!

— Magnifico! magnifico!

Correndo á janella abriu-a e deitou a cabeça de fóra. Já não havia nevoeiro, nem orvalho; estava um tempo frio mas claro e alegre; o frio era d'esses que fazem dançar o sangue no nosso corpo; um sol d'oiro; um céo divino; a atmosphera fresca e agradavel; os sinos eram tangidos com alegria! Magnifico! magnifico!

— Que dia é hoje? exclamou Scrooge, dirigindo-se a um rapaz com vestia domingueira, e que parara talvez para olhar para elle.

— Heim! respondeu o rapaz de bocca aberta.

— Que dia é hoje, meu pequeno? disse Scrooge.

— Como! hoje?... replicou o rapaz, que pergunta! Hoje é — Dia de Natal.

— É dia de Natal, disse Scrooge comsigo; não o passei em claro. Os Espiritos fizeram toda a sua obra n'uma noite. Pódem fazer tudo o que lhes aprouver — não ha a menor duvida — não ha... Holá, meu rapazinho!

— Que quer? retorquiu o garoto.

— Sabes onde é a loja do gallinheiro, na rua adiante d'esta, á esquina? perguntou Scrooge.

— Ora se não havia de saber! replicou o meliante.

— Rapaz intelligente! disse Scrooge, fino como o coral! Sabes se já venderiam o perú do premio, que hontem estava na loja em exposição? Olha que não é o perú do premio mais pequeno; fallo do grande?

— O que?... aquelle perú que é do meu tamanho?... redarguiu o rapaz.

— Que bello rapaz! Disse Scrooge, é um gosto fallar com elle. Sim esse mesmo, meu lindinho!

— Ainda lá está.

— Sim? Vai comprar-m'o.

— Está a mangar! exclamou o garoto.

— Não, não, disse Scrooge, fallo serio. Vai compral-o e diz na loja para m'o trazerem aqui, para eu lhes dizer onde o devem levar. Volta com o caixeiro e dar-te-hei um schilling. Está de volta com elle antes de cinco minutos e dar-te-hei meia coroa.

O rapaz partiu rapido como uma flecha. Devia ter a mão bem firme aquelle que tivesse soltado uma flecha com metade da rapidez com que elle partiu.

— Vou envial-o a Bob Cratchit, disse Scrooge baixinho, esfregando as mãos, e sobrevindo-lhe a tosse com o riso. Não sabe quem lh'o manda. É duas vezes do tamanho de Tiny Tim. Brincadeira assim nunca se fez!

A mão com que escreveu a direcção da morada não era das mais firmes — mas d'uma forma ou d'outra, melhor ou peior, sempre escreveu, e desceu as escadas para abrir a porta da rua, prompto para receber o caixeiro do gallinheiro.

Em quanto estava esperando deu-lhe na vista o martello.

— Hei de te amar toda a minha vida, disse Scrooge acariciando-o com a mão. Julgo que raras vezes olhei para ti antes d'agora. Que expressão honesta n'aquelle rosto! É um martello maravilhoso!

Ahi vem o perú! Não era possivel que aquella ave se tivesse conservado alguma vez de pé! Teria indubitavelmente com o pezo partido as pernas como se fossem paus de lacre.

— Não podes leval-o até Cadem Town, disse Scrooge: deves ir em carro.

As risadas que acompanharam estas palavras, e as risadas que sotou quando pagou o perú, e o carreto, e quando recompensou o rapaz, só foram excedidas pelas que deu quando sem poder respirar se veio sentar de novo na sua cadeira, e riu, riu até as lagrimas lhe virem aos olhos.

Barbear-se não era tarefa facil, porque a mão continuava-lhe a tremer; e o barbear requer attenção, mesmo quando a gente não dança em quanto está occupada com aquella operação.

Mas se Scrooge tivesse cortado fóra a ponta do nariz, ter-lhe-hia pousado em cima um pedacinho d'emplastro e nem por isso se acharia menos satisfeito.

Vestiu o seu melhor fato, e finalmente sahiu para a rua, accumulada de povo como antes vira com o Espirito do Natal presente; e caminhando com as mãos crusadas atrás das costas, olhava para cada pessoa com um sorriso prasenteiro.

N'uma palavra, Scrooge apresentara-se com tão jovial apparencia que tres ou quatro patuscos de bom gosto disseram-lhe:

Bom dias, meu caro! Boas festas, meu amigo!

E Scrooge muitas vezes, em epocha posterior, affirmou que sem duvida eram aquelles os sons mais agradaveis que lhe tinham soado ao ouvido.

Não tinha dado muitos passos quando viu dirigindo-se a elle aquelle cavalheiro de maneiras distintas, que no dia antecedente lhe entrara no escriptorio e lhe dissera: «Scrooge & Marley, julgo eu?» Sentiu uma dor pungente ferir-lhe o coração ao pensar no modo como aquelle le sugeito o olharia quando se vissem; mas comprehendeu a vereda que devia trilhar, e não se affastou d'ella.

— Meu caro senhor, disse Scrooge apressando o passo, e agarrando em ambas as mãos do cavalheiro. Como passa? Estimo que hontem fosse bem succedido? Faz-lhe muita honra o seu proceder. Alegres festas, caro snr.!

— Fallo com o snr. Scrooge?

— Sim senhor. — É esse o meu nome, e receio bem que lhe não seja agradavel. Permitta-me que lhe peça perdão pelo meu comportamento de hontem. Quer ter a bondade de — (aqui Scrooge segredou-lhe ao ouvido).

— Será possivel, meu Deus! exclamou o outro quasi sem poder tomar folego. Falla serio, meu caro snr. Scrooge?

— Muito serio, respondeu este; nem um farthing menos. Esteja certo que não faço mais que saldar dividas atrazadas. Quer-me fazer esse obsequio?

— Meu caro senhor, disse o outro apertando-lhe a mão, não sei como elogiar tal munifi...

— Não pronuncie mais palavra a tal respeito, interrompeu Scrooge. Vá a minha casa. Quer ir?

— Se quero! exclamou o cavalheiro. E na verdade tencionava fazer o que dizia.

— Obrigado, disse Scrooge, fico-lhe muito obrigado, agradeço-lhe mil vezes. Adeus.

Scrooge entrou nas igrejas, passeou nas ruas, contemplava o povo caminhando para cima e para baixo, ameigava as creanças, questionava os mendigos, e deitava olhares de satisfação para as cosinhas e para as janellas das salas; e tudo o que via lhe causava prazer.

Nunca sonhara que um passeio — que coisa alguma, para melhor dizer — o podesse tornar tão satisfeito.

No fim da tarde dirigiu os passos para casa de seu sobrinho. Passou á porta uma duzia de vezes antes de ter a coragem de levantar a aldrava. Refez-se de coragem e bateu:

— O amo está em cada, minha linda, disse Scrooge á creada. Bella creatura!

— Está, sim senhor.

— Onde está elle, meu amor? disse Scrooge.

— Está na sala do jantar com a senhora. Queira entrar para a sala de visitas.

— Obrigado. Elle conhece-me, disse Scrooge com a mão já pousada no trinco da sala do jantar. Eu entro, menina.

Levantou o trinco devagarinho, e metteu a cabeça pela porta entreaberta.

Os dois esposos estavam contemplando a mesa, lindamente adornada, porque os recem-casados são pechosos na elegancia do serviço, e gostam de vêr cada coisa no seu logar.

— Fred! disse Scrooge.

Valha-nos Deus! como elle fez estremecer a sobrinha por afinidade! Scrooge esquecera-se momentaneamente de que aquella senhora estava sentada a um canto sobre um tamborete, ou de certo não appareceria assim de subito.

— Que vejo!... exclamou Fred! ou estou louco ou é...

— Sou eu mesmo. É o teu tio Scrooge. Venho jantar comtigo. Deixas-me entrar, meu Fred?

— Deixal-o entrar!...

Foi uma felicidade o sobrinho não deslocar o braço do tio, á força de cumprimetos.

Em menos de cinco minutos Scrooge estava como em sua casa. Nada podia ser mais cordial. A esposa de Scrooge não se constrangeu; nem Topper, nem a menina do enfeite quando chegaram. Todos estavam á vontade.

Passou-se uma noite magnificamente.

Scrooge, no dia seguinte, appareceu muito cedo no seu escriptorio; muito cedo, muito cedo.

Se elle tivesse podido ser o primeiro a chegar, e ter pilhado Bob Cratchit sem ter vindo e com demora! Era isso exactamente o que premeditara.

E pilhou-o, pilhou-o! O relogio bateu as nove; — e Bob sem vir. Um quarto mais — e nada de Bob.

O desgraçado chegava atrazado os seus dezoito minutos e meio.

Scrooge sentou-se á escrivaninha do gabinete com a porta aberta, para o vêr entrar na cisterna.

Bob antes d'abrir a porta descobriu-se e tirou a manta d'agasalho do pescoço. N'um amen sentou-se no tamborete, movendo a penna apressadamente, como se desejasse alcançar as nove horas.

— Olá, grunhiu Scrooge com a sua voz costumada, tanto quanto a podia fingir. Então isto são horas d'apparecer no escriptorio?

— Não sabe v. s.ª quanto sinto ter chegado mais tarde, disse Bob.

— Mais tarde! com effeito, parece-me que não veio muito cedo! Chegue aqui, faz favor.

— É somente uma vez por anno, disse Bob timidamente sahindo da cisterna. Não repetirei. Diverti-me hontem um pouco!...

— Pois bem, meu amigo, disse Scrooge, permitta-me que lhe diga que não deixarei caminhar as coisas como caminham. Portanto, continuou elle saltando d'um pulo abaixo do tamborete, e applicando um soffrivel piparote no collete de Bob a ponto de o fazer recuar até á cisterna, portanto vou-lhe augmentar o ordenado!

Bob julgou-o doudo, estremeceu e chegou-se o mais perto possivel da regoa. A primeira ideia que lhe atravessou a mente foi de desancar Scrooge com ella, depois segural-o, e chamar gente para o ajudar a vestir-lhe a camizola de força.

— Boas festas Bob, disse Scrooge, com serenidade que não podia ser tomada e sentido contrario, e batendo-lhe no hombro. Festas alegres, Bob, e mais alegres do que te tenho desejado por muitos annos! Hei-de augmentar-lhe o ordenado, e auxiliar a sua pobre familia; havemos de discutir os seus negocios esta noite, com a ajuda d'um bom copo de fumegante bishop[1]. Acende ambos os fogões, Bob Cratchit, mas antes d'escreveres mais uma letra, vai comprar um balde novo para o carvão.

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Ilustração de John Leech na primeira edição de A Christmas Carol

Scrooge não só cumpriu a sua palavra, mas foi muito alem, — muito alem, e para Tiny Tim, que realmente não morreu, foi um segundo pai.

Tornou-se tão bom amigo, tão bom amo, e tão bom homem, como o burguez reconhecido por melhor na boa e antiga cidade de Londres, ou em outra qualquer boa e antiga cidade, villa ou aldeia, de qualquer parte do bom e antigo mundo.

Algumas pessoas riam-se da mudança de Scrooge, mas elle deixava-os rir, e pouco se importava, porque não era tão ignorante que não soubesse que as melhores coisas desta mundo começam sempre por fazer rir alguem. Conhecendo que essas pessoas inevitavelmente se mostrariam cegas, pensou comsigo que melhor era que a enfermidade dellas se exhibisse pelas rugas que lhes fazia contrahir á força das risadas, do que de qualquer modo mais repellente.

Elle proprio rio do fundo d'alma, e era essa toda toda a sua vingança.

Não teve mais relações com os Espiritos, mas em compensação contrahiu mais os laços d'amisade com os seus similhantes, e disse-se delle, que ninguem melhor sabia festejar o bom tempo do Natal.

Possa dizer-se outro tanto com verdade de nós todos!

E como muito bem disse Tiny Tim:

«Deus nos abençoe em quanto existimos.»

Notas do Traductor[editar]

  1. Especie de ponche.