Viagens de Gulliver/Parte III/VIII

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte III - Capítulo VIII


[Mais histórias sobre Glubbdubdrib. Correção das histórias antiga e moderna.]

Desejando conhecer aquelas personagens antigas que haviam se notabilizado pela inteligência e pela erudição, dediquei um dia inteiro para essa finalidade. Propus então que Homero [1] e Aristóteles [2] aparecessem diante de todos os seus comentadores, estes, porém, eram em número tão elevado, que centenas deles foram obrigados a esperar na corte, e nas salas externas do palácio. Logo de vista conheci e pude distinguir estes dois heróis, não só dentre a multidão, mas também um do outro.

Homero era o mais alto e a pessoa mais simpática dentre os dois, caminhava de forma bastante correta para uma pessoa da sua idade, e o seus olhos eram os mais vivos e penetrantes dentre os que já havia visto. Aristóteles andava muito curvado, e usava uma bengala. Seu rosto era magro, seus cabelos eram lisos e finos, e sua voz cavernosa. Logo notei que os dois eram verdadeiros estranhos em relação aos demais que ali compareciam, e que nunca tinham visto ou ouvido falar deles; e um fantasma de cujo nome declinarei, me sussurrou: "que estes comentadores sempre se mantinham nos lugares mais afastados dos seus comentados, no mundo inferior, devido ao sentimento de vergonha e culpa, porque haviam representado de forma tão adulterada o pensamento dos autores para a posteridade."

Eu apresentei Dídimo[3] e Eustácio à Homero, e os convenci para que fossem tratados melhor talvez do que merecessem, pois ele logo notou que eles queriam que um gênio assumisse o comando do espírito do poeta. Aristóteles, porém, perdeu toda sua paciência devido ao relato que lhe fiz de Escoto e de Ramus, quando lhes apresentei a ele, e perguntou-lhes, "se os outros membros daquela tribo eram tão ignorantes como eles próprios?"

Em seguida, solicitei ao governador para que evocasse Descartes e Gassendi, com quem insisti para que explicassem seus sistemas a Aristóteles. Este grande filósofo espontâneamente reconheceu seus próprios equívocos com relação à filosofia natural, alegando que muitas vezes fizera uso da imaginação, como fazem todas as pessoas, e ele achou que Gassendi, que havia tornado a doutrina de Epicuro tão aceitável quanto possível, bem como os vórtices de Descartes, haveriam de ser desmascarados. Ele prognosticou a tão conhecida teoria da atração, de quem os sábios em questão são seus zelosos divulgadores. Disse ele, "que os novos sistemas da natureza eram apenas novos modismos, que poderiam variar em todas as épocas, e mesmo aqueles, que fingem demonstrar essas teorias a partir de princípios matemáticos, teriam seus momentos de glória somente por um curto período de tempo, perderiam o seu brilho quando isso fosse determinado."

Passei cinco dias conversando com muitos outros dos antigos que conheci. Vi a maioria dos primeiros imperadores romanos. Insisti para que o governador evocasse os cozinheiro de Heliogabalus para que nos preparasse um jantar, mas não lhe foi possível demonstrar muitas das suas habilidades, por falta de material. Um escravo de Agesilaus preparou para nós um prato de sopa espartana, mas não consegui dar uma segunda colherada.

Os dois cavalheiros, que haviam me levado até a ilha, tinham pressa para decidir seus assuntos particulares pois deviam retornar em três dias, tempo esse que utilizei para ver alguns dos mortos modernos, que haviam sido uma das maiores figuras, durante duzentos ou trezentos anos no passado, em nosso próprio e em outros países da Europa, e tendo sido sempre um grande admirador das antigas famílias ilustres, pedi ao governador que evocasse uma ou duas dúzias de reis, acompanhados de seus ancestrais em ordem de suas oito ou nove gerações.

Porém o meu desapontamento foi doloroso e inesperado. Porque, no lugar de uma imensa comitiva desfilando diademas reais, vi em uma família dois violinistas, três elegantes cortesãos, e um prelado italiano. Numa outra, um barbeiro, um abade, e dois cardeais. Eu sentia uma veneração muito grande por cabeças coroadas, para permanecer muito tempo com um tema tão fascinante. Porém, com relação aos condes, marqueses, duques, e outras dignidades honoríficas, não tive tantos escrúpulos. E devo confessar, que não foi sem alguns resquícios de prazer, que eu pude rastrear os aspectos particulares, com os quais se notabilizaram determinadas famílias, desde suas origens.

Pude descobrir claramente de onde provêm numa família um queixo pronunciado, porque uma outra era repleta de patifes durante duas gerações, e de tolos por mais duas; porque uma terceira família era constituída por pessoas fracas de cabeça, e uma quarta de criaturas mais perspicazes; sendo decorrente desse fato, o que Polidoro Virgílio dizia a respeito de uma certa casa de renome, NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA[4]; o modo como a crueldade, a falsidade, e a covardia, começaram a se tornar as características pelas quais determinadas famílias se distinguiam, bem como pelos seus brasões de armas; quem pela primeira vez trouxe a varíola para uma casa nobre, o que acabou se transformando em tumores escrofulosos para a posteridade. Nem poderia eu ficar surpreso diante de tudo isso, quando eu conheci uma certa interrupção de linhagem de constituída por escudeiros, lacaios, valetes, cocheiros, jogadores, violinistas, atores, capitães e ladrões de carteira.

Fiquei, principalmente, decepcionado com a história moderna. Pois, tendo examinado rigorosamente todas as pessoas de maior distinção nas cortes dos príncipes, durante cem anos no passado, descobri como o mundo havia sido mal conduzido por escritores corruptos, que atribuiram as maiores façanhas de guerra, a homens covardes; os conselhos mais sábios, a néscios; a sinceridade, a aduladores; a virtude romana, a traidores de suas pátrias; a piedade, a ateus, a castidade, a sodomitas; a verdade, a espiões: quantas pessoas inocentes e de grande mérito foram condenadas a morte ou ao exílio devido à influência de grandes ministros mediante a corrupção dos juízes, e a maldade de determinadas facções: quantos vilões foram exaltados aos píncaros da verdade, do poder, da dignidade e da vantagem: como era intensa a participação nos movimentos e nos acontecimentos das cortes, conselhos, e senados que foram desafiados por cafetinas, prostitutas, alcoviteiros, parasitas e bufões.

Como era pouco o respeito que eu tinha com relação à sabedoria e à integridade humana, quando fui verdadeiramente informado a respeito dos recursos e das razões das grandes iniciativas e revoluções existentes no mundo, e dos fatos desprezíveis que resultaram na sua vitória.

Foi aí que eu descobri a malandragem e a ignorância daqueles que fingem escrever fatos engraçados, ou uma história secreta; que mandaram tantos reis para suas sepulturas com uma taça de veneno; irão repetir o debate entre um príncipe e um primeiro ministro, não havendo nenhuma testemunha por perto; desvendam os pensamentos e os gabinetes de embaixadores e secretários de estado, e possuem o eterno infortúnio de se equivocarem permanentemente. Aqui eu descobri as verdadeiras causas de muitos grandes eventos que causaram assombro para o mundo; como uma prostituta podia governar dos bastidores, os bastidores de um conselho, e o conselho de um senado.

Um general confessou, em minha presença, "que ele havia sido vitorioso simplesmente devido à força da covardia e da ausência de comando;" e um almirante, "que, por não dispor de inteligência própria, derrotara o inimigo, cuja frota ele pretendia trair." Três reis reclamaram para mim, "que durante todo o reinado deles jamais tiveram preferência por qualquer pessoa de valor, a menos que por engano, ou deslealdade de algum ministro em quem depositavam confiança, nem o fariam se tivessem de viver novamente: "e que o trono real não poderia se sustentar sem corrupção, porque o caráter positivo, seguro, e determinado, que a virtude impõe ao homem, era um permanente obstáculo aos negócios públicos."

Tive a curiosidade de perguntar, de maneira particular, quais teriam sido os métodos usados por muitos para reivindicarem para si mesmos altos títulos de nobreza, e grandes propriedades; tendo restringido minha pergunta a um período bastante recente: todavia, sem tocar no tempo presente, porque eu queria ter certeza de não ofender nenhum estrangeiro (pois eu espero não seja necessário dizer ao leitor que no mínimo não desejo fazer críticas ao meu país, com os fatos que estou mencionando agora); um número considerável de pessoas foram evocadas, e depois de um exame bastante rápido, descobri uma cena de tamanha infâmia, que não posso refletir sobre ela sem uma certa crítica.

O perjúrio, a opressão, o suborno, a fraude, a alcoviteirice, e outros males do mesmo gênero, foram os artifícios mais desculpáveis que eles tinham para mencionar, e com relação a isso, como era razoável, fui extremamente condescendente. Mas quando alguns deles me confessaram que deviam o poder e a riqueza à sodomia, ou ao incesto, outros, à prostituição de suas próprias esposas e filhas; outros, por terem sido objetos de traição de seu país ou de seu príncipe; alguns, por causa de envenenamento; e muitos à perversão da justiça, com vistas a destruição de pessoas inocentes, espero ser perdoado, caso estas descobertas tenham diluído em mim os sentimentos daquela profunda veneração, que eu naturalmente consagrava à pessoas daquela estatura, e que deveriam ter sido tratadas com o mais devido respeito por nós, criaturas inferiores, em razão de sua dignidade sublime.

Havia muitas vezes lido a respeito de grandes serviços prestados a príncipes e a estados, e desejei ver as pessoas para quem esses serviços foram oferecidos. Diante da pergunta eles me disseram "que os seus nomes não constavam de nenhum registro, com exceção de alguns deles, de quem a história tem apresentado como os malandros e traidores mais abjetos." Todos eles tinham o aspecto de depressivos, e estavam miseravelmente apresentados, e a maioria deles me dizia, "que haviam morrido na pobreza e na miséria, e os demais no patíbulo ou na forca."

Dentre outros, havia uma pessoa, cujo caso me pareceu um pouco incomum. Estava acompanhado de um jovem que estava do lado dele e que tinha aproximadamente dezoito anos de idade. Ele me contou que, "durante muitos anos tinha sido comandante de um navio, e que na Batalha naval do Áccio[5] ele tivera muita sorte de romper a grande linha de combate do inimigo, afundara três de seus navios mais importantes, e apreendera um quarto, o qual tinha sido a única razão para a fuga de Marco Antonio, e da conquista da vitória; e que o jovem que estava ao seu lado, e que era seu único filho, havia sido morto em combate."

Acrescentou ele, "devido à confiança que depositava no caráter do filho, que a guerra havia acabado, e tendo ele tomado o caminho de Roma, solicitou à corte de Augusto para que um grande navio fosse colocado sob seu comando, cujo comandante havia sido morto, mas, com todo o desrespeito às suas pretensões, o posto foi oferecido a um garoto, o qual jamais havia visto o mar, era filho de Libertina, que era dama de companhia de uma das amantes do imperador. Ao retornar para sua embarcação, foi acusado de negligência do dever, e o navio foi posto sob o comando do escudeiro favorito de Publicola, o vice-almirante; diante disso, ele se retirou para um pequeno sítio que ficava a uma considerável distância de Roma, e ali viveu até o fim de seus dias." Eu estava tão curioso para conhecer a verdade sobre esta história, que eu pedi para que Agrippa fosse evocado, porque ele havia sido almirante naquele combate. Ele compareceu, e confirmou toda a história: porém com detalhes muito mais vantajosos para o capitão, cuja modéstia havia atenuado ou ocultado grande parte de seu valor.

Eu fiquei surpreso de ver que a corrupção havia atingido voos tão altos e de maneira tão rápida naquele império, por culpa da imposição dos excessos que haviam sido introduzidos nos últimos tempos, o que me fez me surpreender menos ainda diante de muitos casos paralelos que ocorrem em outros países, onde vícios de toda espécie haviam se multiplicado durante tanto tempo, e onde todo louvor, assim como toda pilhagem, havia sido monopolizada pelo comandante chefe, que talvez não tivesse direito nem a uma coisa, nem a outra.

Como toda pessoa evocada tivesse a mesma aparência que quando vivia no mundo, foi com grande tristeza que observei como a raça humana havia se degenerado nos últimos cem anos; como a varíola, com todas as suas decorrências e denominações, havia modificado todos os contornos da expressão de um britânico; como havia reduzido o tamanho dos corpos, contraído os nervos, relaxado os tendões e os músculos, oferecendo uma aparência pálida, e dando à carne um aspecto de flacidez e deformação.

Rebaixei-me a ponto de pedir que algum soldado inglês com uma figura do passado fosse convidado a estar presente, outrora tão conhecido por causa da simplicidade de suas maneiras, dieta, ou forma de se vestir, pela sua forma de tratar a justiça, pelo seu espírito de liberdade, pelo valor e pelo amor que devotava ao país. Nem poderia eu ficar totalmente indiferente, ao comparar os vivos com os mortos, quando refleti que todas aquelas virtudes puras e simples foram corrompidas pela riqueza de seus netos, os quais, ao venderem seus votos e envolvendo-se em eleições, adquiriram todos aqueles vícios e corrupção de talvez pudessem ser aprendidos na corte.

Notas do Tradutor[editar]

Todos os termos grifados em verde ou constantes desta referência não constam da obra original e foram colocadas pelo tradutor para melhor entendimento do texto.

  1. Homero:viveu por volta do ano 850 a.C, foi poeta épico da Grécia Antiga, ao qual tradicionalmente se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia.
  2. Aristóteles:(em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande.
  3. Dídimo Calcenteros ou Dídimo de Alexandria (em grego:Δίδυμος χαλκέντερος; ca. 63 a.C. — 10) foi gramático grego que viveu em Alexandria. Junto a outros quatro gramáticos de Alexandria, nomeadamente Aristônicos, Seleucos e Filoxenos, dedicou-se Dídimo ao estudo dos textos de Homero.
  4. NEC VIR FORTIS, NEC FŒMINA CASTA:Expressão em latim que significa: [Esta casa não possui]] nem um homem forte, nem uma mulher virtuosa.
  5. Batalha de Áccio: ocorrida em 2 de setembro do ano 31 a.C., perto de Actium, na Grécia. Vitória decisiva de Otaviano (futuro imperador Augusto) sobre Marco Antonio.

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