Viagens de Gulliver/Parte IV/VII

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte IV - Capítulo VII


[O grande amor do autor pelo país onde nasceu. As observações de seu amo sobre a constituição e a administração da Inglaterra, segundo descrições do autor, com casos e comparações paralelas. As observações de seu amo sobre a natureza humana.]

O leitor pode estar curioso em saber como é que eu tomei a liberdade de fazer uma representação tão liberal sobre a minha própria espécie, entre uma raça de mortais com habilidade o bastante para inventar as piores coisas sobre a nossa humanidade, partindo da completa congruência que havia entre mim e os Yahoos. Mas devo confessar sinceramente, que as inúmeras qualidades daqueles inteligentes quadrúpedes, quando confrontadas diretamente com as corrupções humanas, abriram de tal maneira os meus olhos, e ampliaram o meu entendimento de tal forma, que eu comecei a ver as ações e as paixões do homem por um perfil muito diferente, e pensar na honra da minha raça sem o valor que sempre atribuí a ela, sendo que, além disso, me era impossível continuar agindo dessa maneira, diante de uma pessoa com um poder de avaliação tão apurado como o meu amo, que diariamente me convencia das milhares de falhas cometidas por mim mesmo, e das quais eu não fazia antes a menor ideia, e as quais, em nosso país, jamais seriam catalogadas nem mesmo como falhas humanas. Tinha também aprendido, com o exemplo dele, a me colocar abertamente contra qualquer mentira ou falsidade, e a verdade me pareceu um sentimento tão nobre, que eu havia decidido a sacrificar tudo para defendê-la.

Permita-me o leitor a franqueza de admitir que havia ainda uma razão mais profunda para a liberdade que tomara para representação dos fatos. Eu não havia completado ainda um ano naquele país quando me vi conquistado pelo amor e pela veneração daqueles habitantes, até que tomei a firme resolução de jamais retornar para a humanidade, e passar o resto da minha vida entre aqueles admiráveis HOUYHNHNMS, na contemplação e na prática de toda virtude, onde jamais poderia ter um exemplo de incitamento ao vício.

Mas o destino, meu eterno inimigo, me decretou, que uma felicidade tão grande jamais seria minha eterna companheira. No entanto, sinto agora algum conforto em refletir, que tudo o que disse a respeito dos meus compatriotas, lhes atenuei suas falhas com total ousadia diante de um crítico tão rigoroso, e para a cada assunto criei uma imagem tão favorável quanto o tema poderia oferecer. Pois, na verdade, haverá algum ser vivo que não seja arrastado por suas tendências, e que não tenha inclinações pela terra onde nasceu? Já relatei a essência de várias conversações que tive com o meu amo durante a maior parte do tempo que tive a honra de estar a seu serviço, porém, por causa da brevidade do tempo, a omissão foi muito maior do que os fatos que foram aqui narrados.

Depois de ter respondido a todas as suas perguntas, e ter aparentemente saciado toda a curiosidade dele, um dia de manhã, ele mandou me buscar, e pediu para que me sentasse a alguma distância dele (uma honra que ele nunca havia me dispensado até aquele momento). E disse, “que ele havia pensado seriamente sobre tudo aquilo que eu havia contado a ele, tanto no que se referia a mim como aos fatos contados sobre o meu país, e que ele nos via como uma espécie de animais, cujo valor, ele não conseguia entender por alguma razão, porém, acreditava que houvessem alguns resquícios de inteligência, da qual não fazíamos uso, exceto quando éramos auxiliados, agravando a nossa corrupção natural, e adquirindo outras tendências, que a natureza não nos havia oferecido; e que havíamos nos afastado das muitas habilidades que ele nos tinha oferecido,

“e que havíamos conseguido, com muito sucesso, multiplicar as nossas necessidade naturais, e aparentemente passávamos a nossa vida inteira esforçando-nos inutilmente para suprí-las com nossas invenções, e que, no tocante a mim, tornava-se evidente, que eu não tinha nem a força, nem a agilidade de um Yahoo comum, e que eu caminhava de modo vacilante sobre as minhas patas traseiras, tinha descoberto maneiras de tornar as minhas garras inúteis ou inservíveis para a defesa, e de ter removido o pelo do rosto, que fora criado para me proteger do sol e das intempéries: e por último, que eu não conseguia nem correr com velocidade, nem subir em árvores como os meus irmãos,” como ele dizia “que eram, os Yahoos de seu país”.

“E que as nossas instituições governamentais e de direito foram criadas devido aos nossos flagrantes desvios da razão, e por conseguinte, da virtude; porque somente a razão é capaz de governar uma criatura racional, a qual, no entanto, era uma característica que não tínhamos pretensão de reclamar, nem mesmo partindo dos relatos que havia feito sobre o meu próprio povo, embora ele tivesse percebido claramente, que, para favorecer os meus compatriotas, eu havia ocultado muitos detalhes, e mencionado muitas vezes coisas que não eram verdades.”

“Ele estava muito convencido desta opinião, porque, observara ele, que como eu tinha semelhanças, em todos os aspectos do meu corpo, com outros Yahoos, exceto naquilo que se constituía em desvantagens verdadeiras com relação à força, velocidade e agilidade, além das minhas garras que eram curtas demais, e de alguns outros detalhes dos quais a natureza não fazia parte, portanto, partindo da representação que lhe havia dado sobre as nossas vidas, os nossos modos, e as nossas ações, ele descobrira uma semelhança muito próxima com relação à tendência de nossos espíritos.”

Ele disse, “que os Yahoos eram conhecidos por se odiarem uns aos outros, mais do que odiavam outras diferentes espécies de animais, e a razão a que eles atribuíam normalmente era, o horror que sentiam por suas próprias formas, e que tudo podia ser visto nos outros, mas não em si mesmos. De modo que, ele achava tolice quando cobríamos os nossos corpos, e que com essa invenção cobríamos muitas das nossas deformidades uns dos outros, que de outro modo dificilmente seriam suportadas”.

“Mas agora ele achava que havia se enganado, e que as diferenças encontradas nos animais que havia em seu país, eram devido às mesmas causas que as nossas, como eu as havia descrito. Pois, se” disse ele, “você jogasse para cinco Yahoos alimento o suficiente para alimentar cinquenta deles, ao invés de comerem pacificamente, começariam a dar cabeçadas uns nos outros, todos eles impacientes por comerem tudo o que puderem, e portanto, um criado normalmente era usado para esperar o tempo que eles estivessem se alimentando lá fora, e aqueles que ficavam em casa eram amarrados à distância uns dos outros: porque se uma vaca morresse por velhice ou por acidente, e não houvesse um HOUYHNHNM que pudesse protegê-la de seus próprios Yahoos, aqueles que estivessem próximos viriam em bandos para capturá-la, e então ocorreriam lutas como as que eu descrevi, com ferimentos terríveis causados pelo uso das garras de ambos os lados, embora raramente fossem capazes de aniquilar-se uns aos outros, por falta de instrumentos adequados para matar conforme havíamos inventados.”

Em outras ocasiões, batalhas da mesma proporção eram travadas entre os Yahoos de várias vizinhanças, sem qualquer causa aparente; aqueles que pertenciam a um determinado distrito vigiavam todas as chances de supreender o outro, antes que estivessem preparados. Mas se eles achassem que o plano deles houvesse falhado, voltariam para casa, e, na falta de inimigos, empreenderiam uma guerra civil entre si mesmos.

“E que em alguns campos daquele país existiam algumas pedras brilhantes de diversas cores, e as quais eram muito apreciadas pelos Yahoos: e quando parte dessas pedras eram encontradas na terra, como frequentemente acontece, eles cavavam com suas garras dias inteiros para encontrá-las, e depois levá-las para longe, e ocultá-las aos montões em seus esconderijos, temendo que seus compatriotas encontrassem seus tesouros.”

Meu amo disse, “que ele jamais conseguiu entender o motivo deste apetite nada natural, ou para que serviriam estas pedras a um Yahoo, mas, agora, acreditava ele que provavelmente isso teria a mesma origem no princípio da avareza que eu havia descrito com relação à humanidade. Que ele havia, em certa ocasião, por meio de experimentos, removido secretamente um monte dessas pedras do lugar onde um de seus Yahoos as haviam escondido; e tendo o sórdido animal percebido a falta de seu tesouro, com gritos e urros atraiu todo o bando para o lugar, e depois de bramir como um miserável, começou a morder e a despedaçar os demais, e depois foi definhando, não queria comer nada, nem dormir, nem trabalhar, até que ordenou a um criado em particular para que transportasse as pedras para o mesmo buraco, e as escondesse como antes, e depois que o Yahoo as encontrou, recuperou suas energias e o seu bom humor, mas teve grande cuidado de removê-las para um esconderijo melhor, e desde então tornou-se um animal muito dócil.” Meu amo mais tarde me confirmou, e que eu mesmo pude observar, “que nos campos onde havia aquelas pedras em abundância, os combates mais renhidos e mais frequentes eram travados, e que eram ocasionados devido às contínuas incursões dos Yahoos vizinhos.”

Disse, “que era comum, quando dois Yahoos descobriam tais pedras em um campo, e brigavam sobre qual deles devia ser o proprietário, um terceiro se aproveitava do momento, e as levava embora de ambos,” e com isto o meu amo afirmou que havia alguma semelhança em relação aos nossos processos judiciais; e considerando isso um crédito em relação a nós, não desejei decepcioná-lo, já que a decisão citada por ele fosse muito mais justa do que muitos decretos que eram decididos em nosso país, porque ali o queixoso e o reclamante perderam nada mais do que a pedra que era a causa da disputa entre eles: ao passo que as cortes de justiça jamais abandonariam uma causa, enquanto uma das partes não houvesse deixado alguma coisa.

Meu amo, continuando o seu discurso, disse que, “não havia nada que enfurecesse mais os Yahoos, do que o seu insopitável apetite de devorar tudo que estivesse no caminho deles, desde ervas, raízes, grãos, a carne podre de alguns animais, ou tudo junto: e isso era um comportamento peculiar ao temperamento deles, e que tivessem mais preferência por coisas que pudessem conseguir através da rapina ou do furto a uma distância maior, do que muita comida de melhor qualidade que lhes fosse fornecida em casa. E que se a presa deles lhes oferecesse alguma resistência, eles a comeriam até explodirem de satisfação, pois que a natureza lhes havia provido de uma certa raiz que lhes provocava uma evacuação geral.

“Havia também um outro tipo de raiz, muito suculenta, mas um tanto rara e difícil de ser encontrada, que os Yahoos buscavam com certa euforia, e a saboreavam deliciosamente; ela produzia neles os mesmos efeitos como o vinho atua sobre nós. Ela fazia com que eles algumas vezes se abraçassem, e outras vezes se mordiam uns aos outros; eles rugiam, se alegravam, tagarelavam, cambaleavam e levavam tombos, e depois dormiam na lama.”

Observei de fato, que os Yahoos eram os únicos animais deste país sujeitos a determinadas enfermidades, as quais, no entanto, eram muito menores do que entre os cavalos que vivem entre nós, e que eram contraídas, não devido aos maus tratos que lhe eram devidos, mas, à imundície e a ganância daqueles animais sórdidos. Nem tinha o idioma deles uma denominação geral para essas enfermidades, a qual era emprestada do nome desse animal, e chamada de hnea-yahoo, que quer dizer, o mal dos Yahoos, e a cura prescrita era uma mistura de esterco e de urina, ingeridos a força pelas goelas do Yahoo. E isso eu soube que era frequentemente tomado com sucesso, e aproveito o momento para recomendá-lo aos meus compatriotas, para o bem da comunidade, como um formidável antídoto contra todas as doenças produzidas pelo estado da saciedade.

“Com relação ao conhecimento, ao governo, as artes, as manufaturas e as coisas do mesmo gênero,” meu amo confessou, “que ele não conseguia encontrar pouca ou nenhuma semelhança entre os Yahoos daquele país e os nossos, pois só tinha ele intenção de observar as igualdades que haviam em nossas naturezas. Ele tinha ouvido quando alguns HOUYHNHNMS curiosos observaram, que na maioria dos bandos havia uma espécie de comandante Yahoo (como entre nós existe geralmente, nos parques, alguns veados que exercem o papel de líderes ou de chefias), que tinham quase sempre o corpo deformado e eram mais mal comportados do que qualquer outro do bando, e que este líder normalmente tinha um favorito, tão parecido com ele quanto possível, cuja função era lamber as patas e o traseiro do seu amo, e atrair as Yahoos fêmeas até o estábulo dele, sendo, de vez em quando, recompensado com um pedaço de carne de burro.”

“Este favorito era odiado por toda a manada, e portanto, para se proteger, ele precisava ficar sempre perto da pessoa do seu líder. Ele normalmente continuava prestando serviços até que um pior que ele pudesse ser encontrado, e no mesmo instante em que ele era descartado, o seu sucessor, na liderança de todos os Yahoos daquele distrito, jovens e velhos, machos e fêmeas, formando um só corpo, descarregavam seus excrementos sobre ele, da cabeça aos pés. Porém, se semelhante comportamento pudesse ser aplicado em nossas cortes, aos favoritos e aos ministros de estado, o meu amo disse que eu deveria pensar melhor.”

Não me atrevi a responder a esta maldosa insinuação, que humilhava o entendimento humano abaixo da sagacidade de um cão viralata, o qual possui inteligência o suficiente para distinguir e obedecer o comando do cachorro mais hábil da matilha, sem nunca se enganar.

Meu amo me disse, “que havia algumas qualidades notáveis nos Yahoos, e que ele não havia observado ter eu mencionado, ainda que superficialmente, nas histórias que havia contado sobre o gênero humano.” Ele disse, que “aqueles animais, como os outros animais irracionais, tinham suas fêmeas em comum, porém, nisto eles se diferenciavam, que a Yahoo fêmea aceitaria os machos enquanto estivesse grávida, e que os machos discutiam e lutavam com as fêmeas, tão ferozmente como se lutassem uns com os outros, sendo as duas práticas nada mais do que graus da vergonhosa brutalidade, a que nenhuma outra criatura sensível jamais havia chegado.”

“Uma outra coisa que ele achava estranho nos Yahoos, era a singular inclinação deles para sujeira e à imundície, ao passo que os outros animais parecem ter um amor natural pela higiene.” Com relação às primeira acusações, fiz questão de ignorá-las, porque não havia nada que pudesse dizer em defesa da minha espécie, o que de outro modo teria feito de acordo com minhas próprias inclinações. Mas eu poderia facilmente ter vingado a raça humana partindo da imputação da peculiaridade deste último atributo, caso houvesse um suíno naquele país (mas que não havia para minha desgraça), o qual, embora pudesse ser um quadrúpede mais dócil do que um Yahoo, não podia pretextar ser mais higiênico, segundo meus padrões de humildade, e desse modo, a sua senhoria mesmo poderia comprovar, se ele tivesso visto o jeito imundo de se alimentarem, e o hábito que eles tinham de se chafurdar e de dormir no lodo.”

Meu mestre também mencionou outra qualidade que os seus criados haviam descobertos em vários Yahoos, e que para ele era totalmente inaceitável. Ele disse, “que um Yahoo algumas vezes era tomado por um capricho e se afastava para um cantinho, deitava-se, rugia, gemia, e parecia indiferente a tudo o que se aproximasse dele, embora fosse jovem e gordo, não queria nem comida e nem água, nem nada, assim pensava o criado, que pudesse talvez ajudá-lo. E o único remédio que eles encontraram era, fazê-lo trabalhar duramente, e assim ele se recuperava com toda certeza.” Com relação a isto eu guardei silêncio devido ao apoio natural que dava à minha espécie, mesmo assim eu poderia esclarecer completamente as verdadeiras sementes da indolência, da qual sofrem somente os ociosos, os opulentos e os ricos, que se fossem constrangidos a passar pelo mesmo regime, eu poderia ajudá-los com relação à cura.

Sua senhoria continuou a observar, “que uma Yahoo fêmea frequentemente se escondia atrás de um morro ou de algum arbusto, para daí observar os machos que passavam, e depois, aparecer e se esconder, usando inúmeros gestos e carantonhas bizarras, e nesses momentos observou-se que elas exalavam um cheiro bastante ofensivo, e quando algum dos machos avançava, ela se retirava lentamente, olhando para trás muitas vezes, com uma falsa demonstração de medo, e corria para algum lugar conveniente, onde ela sabia que o macho a seguiria.”

“Outras vezes, se uma fêmea que não pertencia ao bando se aproximava deles, três ou quatro do mesmo sexo se aproximavam dela, a olhavam, e rangiam entre si, e rilhavam umas para as outras, e cheiravam-na totalmente, e depois voltavam a se comunicar através de gestos, que aparentemente expressavam desdém e menosprezo.”

Talvez o meu amo exagerasse um pouco com relação a essas reflexões, que ele havia extraído das observações feitas por ele mesmo, ou que outros lhe houvessem contado, todavia, não posso refletir sem um certo espanto, e com muito pesar, que os rudimentos da lascívia, do ódio, da censura e do escândalo, tivessem cavado seus ninhos nos instintos femininos.

Esperava a todo momento que meu amo fosse acusar os Yahoos por apetites incomuns em ambos os sexos, tão frequentes entre nós. Mas a natureza, pelo que aparenta, parece não ter sido uma mestra tão habilidosa, e que estes delicados prazeres sejam inteiramente produções da arte e da razão do nosso lado do mundo.

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