Viagens de Gulliver/Parte IV/XII

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Viagens de Gulliver
por Jonathan Swift
Parte IV - Capítulo XII


[A veracidade do autor. O seu objetivo ao publicar esta obra. Sua censura aos viajantes que se desviam da verdade. O autor, ao escrever, se exime de qualquer resultado sinistro. Resposta a uma objeção. O método de se criar colônias. Louvor ao seu país natal. Justificação pelo direito à coroa daqueles países descritos pelo autor. A dificuldade de conquistá-los. O autor se despede do leitor pela última vez, expõe seu modo de viver para o futuro, oferece bons conselhos e tira suas conclusões.]

De modo que, gentil leitor, dei-te a conhecer a fiel história das minhas viagens durante dezesseis anos e mais de sete meses: onde não me preocupei tanto com os efeitos decorativos mais do que com a verdade. Eu poderia, talvez, assim como outros, ter enchido os olhos do leitor com histórias incríveis e improváveis, mas eu preferi relatar claramente todos os fatos, da maneira e com o estilo mais simples possível, porque o meu objetivo principal era informar, e não divertir o leitor.

É fácil para nós que viajamos para países distantes, e que raramente são visitados por ingleses ou por europeus de outros países, criar descrições de animais maravilhosos tanto do mar como da terra. De modo que os principais objetivos de um viajante deveria ser se tornar mais sábio e melhor, e melhorar seus próprios pontos de vista com os exemplos maus e também com os bons do que relatam eles a respeito dos lugares exóticos que visitaram.

Desejaria de coração que uma lei fosse prescrita, para que todo viajante, antes que lhe fosse permitido publicar suas viagens, se visse obrigado a prestar juramento diante do Senhor e Grande Chanceler, de que tudo que ele teve o propósito de registrar seja corroborado pela mais pura verdade de tudo o que ele aprendeu, pois, assim, o mundo não poderia se decepcionar, como normalmente acontece, pois, alguns escritores, para que suas obras tenham total aprovação do público, impõe ao incauto leitor as fantasias mais absurdas.

Na minha juventude, compulsei diversos livros de viagens com grande satisfação, porém, tendo percorrido, desde então, as mais diversas partes do globo, e tendo podido contradizer muitos relatos fabulosos por observação própria, acabei adquirindo um profundo desgosto por este tipo de leitura, e um pouco de indignação ao ver a credulidade humana ser abusada com tanto descaramento. Assim, dado que o meu círculo de amizades tivesse orgulho em pensar que os meus minguados esforços tivessem boa aceitação por parte do meu país, impus a mim mesmo, o firme propósito de jamais me desviar, e de me submeter rigorosamente à verdade, nem, de fato, poderia eu sentir o menor impulso de oscilar em torno desse objetivo, enquanto fosse possível reter em mente os diálogos e o exemplo do meu nobre amo e de outros ilustres HOUYHNHNMS de quem, durante longo tempo, tive a honra de ser um ouvinte humilde.

Nec el miserum Fortuna Sinonem Finxit;vanum etiam; inendacemque improba finget.
[1][2]

Sei muito bem, que pouca notoriedade pode ser adquirida com escritos que não exigem criatividade nem qualquer estudo, nem na verdade, qualquer outro talento, exceto uma boa memória, ou um registro preciso. Sei também, que escritores de viagens, assim como os dicionaristas, estão mergulhados no esquecimento sob o peso e impacto daqueles que vieram depois, e que portanto, estão mais em evidência. E é altamente provável que estes viajantes, que a partir de agora visitem os países descritos nesta obra, possam, — ao detectar os meus erros (caso haja algum) — adicionar muitas outras descobertas que eles mesmos fizerem, e me relegarem a segundo plano, para ocuparem o meu lugar, fazendo com que o mundo esqueça que fui eu o autor.

Esta, sem dúvida, me seria uma cruel mortificação, se eu escrevesse por causa da fama: porém, como o meu único objetivo é o bem geral, não ficarei nem um pouquinho desapontado. Pois, quem é capaz de ler sobre as virtudes que eu mencionei dos gloriosos HOUYHNHNMS, sem se envergonhar de seus próprios vícios, ao se considerar a si próprio um animal racional como governante de seu próprio país? Nada direi sobre aquelas nações remotas onde governam os Yahoos, dentre os quais os menos corruptos são os habitantes de BROBDINGNAG, cujos expoentes máximos de moralidade e administração seria para nós uma felicidade observar. Porém, deixo de me estender sobre este assunto, e prefiro deixar ao judicioso leitor que faça suas próprias análises e uso de tudo o que relatei.

Eu não ficaria satisfeito se este meu trabalho não fosse encontrar possíveis censuradores: pois quais objeções se poderiam fazer contra um escritor, que relata apenas fatos conhecidos, ocorridos em países tão distantes, onde não temos o menor interesse, nem com relação ao comércio nem com qualquer outro tipo de negociação? Tive o cuidado de evitar qualquer falha de que mais habitualmente são inculpados os escritores de viagens. Além disso, não me intrometo em qualquer partido, mas, escrevo sem paixão, preconceito, ou má-vontade contra qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, seja lá quem forem.

Escrevo com o objetivo mais nobre de informar e instruir as pessoas, por meio das quais eu posso, sem qualquer rasgo de vaidade, presumir alguma superioridade, de quem recebi grandes vantagens conversando durante muito tempo com os HOUYHNHNMS mais eminentes. Escrevo sem qualquer perspectiva de lucro ou de auto promoção. Jamais permiti que uma só palavra fosse enunciada sem antes refletir muito, ou possivelmente cometer a menor ofensa, mesmo para aqueles que estejam dispostos a aceitá-la. De modo que eu espero poder com justiça me declarar autor perfeitamente impecável, contra quem os grupos de replicadores, examinadores, observadores, pensadores, detectores, e fiscalizadores jamais conseguirão motivo para exercitarem os seus talentos.

Me foi ensinado, devo confessar, “que eu estava comprometido com o dever, na qualidade de súdito da Inglaterra, de apresentar um livro de memórias a um secretário de estado assim que retornei pela primeira vez, porque, qualquer terra descoberta por um súdito pertence à coroa.” Mas eu duvido que as conquistas dos países aos quais me refiro fossem tão fáceis como as de Hernán Cortéz sobre os americanos nus. Os liliputianos, acho eu, que mal valem o custo de uma frota ou de um exército para serem aniquilados, e eu questiono, se seria prudente ou seguro atacar os habitantes de BROBDINGNAG, ou se um exército inglês ficaria muito tranquilo com a Ilha Voadora sobre suas cabeças.

Os HOUYHNHNMS de fato parecem não estar muito bem preparados para a guerra, uma ciência para a qual eles são totalmente estranhos, e principalmente contra armas poderosas. Todavia, supondo que eu fosse um ministro de estado, jamais poderia optar pela invasão desse países. A prudência, a unanimidade, a ausência de medo, e o amor que eles têm por seu país, compensariam de longe todos os seus defeitos com relação à arte militar.

Imaginem vinte mil deles avançando no meio de um exército europeu, desordenando as filas, derrubando os comboios, transformando em múmias as faces do guerreiros por meio de coices terríveis causados por suas patas traseiras; merecendo então o epíteto dado a Augusto, Recalcitrat undique tutus[3]. Porém, ao invés de planos para conquistar tão magnífica nação, eu preferiria que eles tivessem a capacidade ou disposição para enviarem um número suficiente de seus habitantes para a Europa civilizada, que nos ensinaria os primeiros princípios da honra, da justiça, da verdade, da moderação, do espírito público, da força, da castidade, da amizade, da benevolência, e da fidelidade. As denominações de todas essas virtudes estão ainda retidas entre nós, na maioria dos idiomas, e podem ser encontradas tanto nos autores modernos como nos antigos, e isso posso afirmar devido as minhas escassas leituras.

Mas eu tinha outro motivo, que me deixou menos propenso a ampliar os domínios de sua majestade com as minhas descobertas. Para dizer a verdade, eu havia criado alguns escrúpulos com relação à justiça distributiva dos príncipes nessas ocasiões. Por exemplo: uma tripulação de piratas é arrastada por uma tempestade para lugares desconhecidos, depois, um garoto descobre terras do mastaréu de um barco, eles vão para a praia para roubar e saquear, encontram um povo indefeso, são tratados com educação, dão ao país um novo nome, tomam formalmente a posse em nome do rei, fazem a demarcação por meio de uma tabuleta velha ou de uma pedra, como um memorial, matam duas ou três dúzias de nativos, aprisionam outros mais, a força, como amostra, voltam para casa, e são perdoados.

É assim que se inicia um novo domínio adquirido sob o título de direito divino. Navios são enviados na primeira oportunidade, os nativos são expulsos ou exterminados, seus príncipes são torturados até descobrirem o seu ouro, conseguem permissão total para todos os atos de desumanidade e de abuso, toda a terra é manchada com o sangue de seus habitantes e este execrável bando de carniceiros, utilizados em expedições tão piedosas, torna-se uma colônia moderna, e são enviados para converter e civilizar um povo idólatra e bárbaro!

Mas esta descrição, confesso, de modo algum afeta a nação britânica, que pode ser um exemplo para o mundo todo em termos de sabedoria, cuidado, e justiça no estabelecimento de colônias, pelo seu talento no avanço da religião e do conhecimento, pela escolha de pastores devotados e hábeis na propagação do Cristianismo, pela cautela no povoamento de suas províncias com pessoas de vida sóbria e de conversação moderada enviadas pela mãe pátria, seu zelo rigoroso na distribuição da justiça, no cumprimento da administração civil através de todas as suas colônias com oficiais da maior competência, e para o coroamento de todos, enviando os governadores mais vigilantes e mais virtuosos, que não tem outras aspirações além da felicidade do povo sobre o qual presidem, e para honra do rei, mestre da nação.

Porém, com relação a aqueles países que foram descritos por mim, não parecem ter qualquer vontade de serem conquistados e escravizados, assassinados ou expulsos de suas colônias, nem tem ouro, prata, açúcar, ou tabaco em abundância, julguei humildemente, não terem sido eles de modo nenhum, objetos de nossos cuidados, valor, ou de nosso interesse. Todavia, se aqueles a quem mais importa ser possível uma opinião contrária, estou pronto a declarar, quando for legalmente convocado para isso, de que nenhum europeu jamais visitou esses países antes de mim. Quero dizer que os habitantes podem ser dignos de crédito, a menos que uma disputa possa acontecer entre dois Yahoos, tendo isso já ocorrido há muitos anos perto de uma montanha na terra dos HOUYHNHNMS.

Mas, com relação à formalidade da tomada de posse em nome do meu soberano, isso jamais ocorreu em meus pensamentos, e se nisso tivesse pensado, no patamar em que as coisas se encontravam, eu teria, talvez, aguardado uma oportunidade melhor, por uma questão de prudência ou de auto-preservação.

Tendo, pois, respondido à única objeção que pode ser levantada contra mim na condição de viajante, concluo, pedindo permissão ao meu gentil leitor, para retornar a desfrutar de minhas próprias meditações no meu jardim de Redriff, para aplicar as excelentes lições da virtude que eu aprendi entre os HOUYHNHNMS, para ensinar os Yahoos de minha família, até a ponto de considerá-los como animais dóceis, de modo a contemplar frequentemente a minha figura no espelho, e assim, se possível, habituar-me com o tempo a tolerar a visão de uma criatura humana, e lamentar a brutalidade dos HOUYHNHNMS de meu país, mas tratar sempre as pessoas com respeito, em nome do meu nobre amo, de sua família, e de seus amigos, e de toda a raça dos HOUYHNHNMS, com os quais alguns dos nossos tem a honra de se assemelhar em todos os seus aspectos, não obstante a degeneração de seus intelectos.

Comecei na semana passada a permitir que minha esposa se sentasse para jantar comigo, na ponta mais distante da longa mesa, e me respondesse (porém, com a maior brevidade possível) as poucas perguntas que eu fazia a ela. No entanto, o cheiro dos Yahoos continuava muito forte, e eu sempre mantinha o meu nariz tapado com folhas de arruda, lavanda ou de tabaco. E, embora fosse difícil para um homem avançado nos anos desfazer-se de velhos hábitos, não havia perdido totalmente as esperanças de algum dia, poder suportar a companhia de um Yahoo próximo, sem as preocupações que eu tinha ainda com seus dentes ou suas garras.

A minha reconciliação com a espécie dos Yahoos em geral não teria sido tão difícil, se eles estivessem satisfeitos somente com os vícios e as loucuras que a natureza os dotou. Não me sinto nem um pouco provocado com a vista de um advogado, de um batedor de carteiras, um coronel, um tolo, um senhor, um jogador, um político, um devasso, um médico, uma pessoa importante, um corrupto, um procurador, um traidor, ou outros do mesmo gênero, tudo isso, porém, dentro do curso natural dos acontecimentos: mas, quando contemplava uma protuberância causada por alguma deformidade ou doença, tanto física como mental, forjada pelo orgulho, isso imediatamente excedia todos os limites da minha paciência, e jamais compreenderei como animais e vícios dessa espécie conseguem existir em conjunto.

Os HOUYHNHNMS mais sábios e mais virtuosos, que são superiores em todas as qualidades que podem se atribuir a um ser racional, não possuem uma denominação para este vício no idioma deles, e não possuem termos para expressar qualquer sentimento mau, exceto aqueles por meio dos quais eles descrevem as detestáveis qualidades do seus Yahoos, dentre os quais não conseguem distinguir o vício do orgulho, por falta de completo entendimento da natureza humana, como se pode ver em outros países governados por esses animais. Mas eu, que tinha mais experiência, podia expressar claramente alguns rudimentos desse vício entre os selvagens Yahoos.

Mas os HOUYHNHNMS, que viviam sob o domínio da razão, não eram mais orgulhosos das boas qualidades de que eram dotados, do que seria eu por não possuir uma perna ou um braço, do qual nenhum homem em perfeito juízo teria motivo para se vangloriar, não obstante a condição miserável em que ele se encontraria caso não os tivesse. Alonguei-me por demais neste assunto devido ao desejo que tinha de tornar a companhia de um Yahoo inglês suportável de alguma maneira, e portanto, insisto agora para que aqueles que tiverem o menor vestígio deste vício absurdo, para que não se atrevam a aparecer diante de mim.

Notas do Tradutor[editar]

  1. A fortuna adversa pode ter feito de Simão um miserável, mas não fez dele nem um vaidoso, nem um trapaceiro.
  2. Simão foi o grego que convenceu os troianos a introduzir em Tróia o cavalo de madeira fabricado pelos gregos.
  3. Ataquem a retaguarda, porém, estejam protegidos por todos os lados. Palavras de Horácio.
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