Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XVI

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


Saibamos da vida do frade.— Era franciscano por quê?— Dos antigos e dos novos mártires. — Alguns particulares do frei Dinis antes e depois de ser frade. — Emigração. — Explicação incompleta. — De como a velha tinha perdido a vista e Joaninha o riso. — Sexta feira de aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, na sua vida no século, porque a do claustro era nua e nula, monótona e singela como a temos visto.

Chamava-se ele no século Dinis de Ataíde, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das letras. Com distinção, e quase com paixão, tomara parte na campanha da Península e a fizera quase toda; mas desgostoso do serviço ou despreocupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do lugar de corregedor do Ribatejo, em que já fora reconduzido, devia passar à casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão à el-rei, e dai tomou um dia o caminho de Santarém, chegou àquela vila, deixou criados e cavalos na estalagem, e foi tocar à campa da portaria de S. Francisco.

Os criados esperaram em vão muitos dias e ele não voltou.

Desapareceu do mundo Dinis de Ataíde, e dali a dois anos apareceu Frei Dinis da Cruz, o frade mais austero e o pregador mais eloqüente daquele tempo. Raro pregava, e só de doutrina; mas era uma torrente de veemência, uma unção, uma força...

Dos institutos monásticos já então bem decaídos todos de esplendor e reputação, a Ordem de S. Francisco era talvez a que mais descera no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Eles eram tantos por toda a parte, e tão conversantes com todas as classes, familiarizara-se por tal modo o povo com aquelas mortalhas negras — aspecto já não severo, e apenas deixou de o ser... ridículo — e elas apareciam em tais lugares, a tais horas, por tal modo...que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração, se lhe perdera. Escritores, já os não tinham, pregadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadência das Ordens.

Frei Dinis procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do século dezenove.

Em certos ânimos é preciso muito mais valor e entusiasmo para afrontar este martírio, do que fora nos antigos tempos para ir ao encontro das nobres perseguições do sangue e do fogo.

Lutava-se com honra então, cala-se com glória, vencia-se muitas vezes morrendo...

Agora é sofrer só.

O mundo aplaudia aqueles grandes sacrifícios, e assistia com interesse, com admiração, com espanto àqueles combates gigantescos. E o tirano tremia diante de sua vitima... quando não lhe caía aos pés, vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Igreja não sabe que tem mártires.

— Pois tem-nos — dizia Frei Dinis — e precisa mais deles para a regenerar, do que já precisou para fundar-se.

Eis aqui porque Frei Dinis de Ataíde não quis ser bento, nem jerônimo, nem cartuxo, e se foi meter padre franciscano.

De todos os seus bem, que eram consideráveis, tirou apenas módica soma de dinheiro que era necessária para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joana — a velha hoje cega e decrépita, que no princípio desta história encontramos dobrando à sua porta na casa do vale.

A velha não tinha mais família que um neto e uma neta.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão, e já órfã de pai e de mãe.

O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha.

Antes a esplêndida doação de Frei Dinis a família, que era de boa e honrada descendência, podia dizer-se pobre; depois, viviam remediadamente. Mas a velha não quis nunca sair do modesto estado em que até ali vivera. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras, corria-lhe com elas um criado velho de confiança, trajavam e tratavam-se como gente meã mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dois filhos de D. Francisca, Frei Dinis, então Dinis de Ataíde e corregedor da comarca, freqüentara bastante aquela casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente num dia cruzando o Tejo num saveiro em ocasião de grande cheia, ele nunca mais lá tornara.

Até que se meteu frade, e que passaram anos e que o fizeram guardião do seu convento.

Já a nora e a filha da velha tinham morrido também.

E foi notável que na mesma hora em que Frei Dinis professava em S. Francisco de Santarém, vestia D. Francisca aquela túnica roxa que nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Frei Dinis à porta da casa do vale e disse:

— Deus seja nesta casa!

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sair as crianças que brincavam ao pé dela, fechou-se com o frade, e falaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu, mas o que disseram e conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.

Isto fora numa sexta-feira; daí por diante em todas as sextas-feiras de cada semana, Frei Dinis vinha passar algumas horas com a velha.

Não era seu confessor, mas dirigia-se como se o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava a Joaninha.

Havia no frade uma afetação visível, um sistema premeditado e inalterável de se abster completamente de tudo o que pudesse intervir, por mais remotamente que fosse, com aquela interessante criança.

Joaninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe ele inspirava era misturado de uma aversão instintiva que, por contradição inaudita e inexplicável, a deixava simpatizar com tudo quanto ele dizia e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, menos a pessoa.

Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o único amigo do nossa Joaninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava ele já no último ano de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Frei Dinis da Cruz começou de novo a freqüentar a casa que Dinis de Ataíde tinha abandonado.

Sobre esse a inspeção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os livros que ele lia, os amigos com quem vivia, as idéias que abraçava, as inclinações para que pendia — de tudo se ocupava Frei Dinis, tudo lhe dava cuidado. A ele diretamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha longas conferências a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o jeito que o mancebo indicava tomar.

— É temente a Deus, não tem o ânimo cobiçoso e servil, não é hipócrita, a mania do liberalismo não o mordeu ainda... há de ser um homem de préstimo — dizia o frade a D. Francisca com verdadeira satisfação e interesse.

Passara porém do seu meio o memorável ano de 1830, e Carlos, que se formara no princípio daquele verão, tinha ficado por Coimbra e Lisboa, e só por fins de agosto voltara para a sua família. E veio triste, melancólico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fora, porque era de gênio alegre e naturalmente amigo de folgar o mancebo.

O dia em que ele chegou era uma sexta feira, dia de Frei Dinis vir ao vale.

Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sós os dois.

— Não gosto de te ver — disse o frade.
— Pois quê? que tenho eu?
— Tens que vens outro do que foste, Carlos.
— Outro venho, é verdade; mas não se enfadem de me ver, que o enfado há de durar pouco.
— Que queres tu dizer?
— Que estou resolvido a emigrar.
— A emigrar, tu!... Por que? para quê? Que loucura é essa?
— Nunca estive tanto em meu juízo.
— Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a semelhante respeito. Em que más companhias andaste tu, que maus livros leste, tu que eras um rapaz?... Carlos, proíbo-te de pensar nestes desvarios.
— Proíbe-me ... a mim... de pensar!... Ora, senhor...
— Proíbo-te de pensar, sim. Lê no seu Horácio se estás cansado das pandectas . Vai para a eira com o teu Vírgilio... ou passeia, caça, monta a cavalo, faze o que quiseres, mas não penses. Cá estou eu para pensar por ti.
—Por quê? eu hei de ser sempre criança? A minha vida há de ser esta? Horácio! Tenho bom ânimo para ler Horácio agora... e é bela ocupação para um homem de vinte e um anos, escandar jambos e troqueus!
— Pois lê na tua Bíblia, que é poesia medida na alma e que renasce o espírito e o coração..
— Eu não quero ser frade, sabe?
— Nem te quero para frade.
— Graças a Deus. Cuidei que... Mas enfim no século em que estamos...
— O século em que estamos é o da presunção e o da imoralidade, e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe das minhas intenções a teu respeito. aprova-as.
— Minha avó... aprova muita coisa que eu reprovo.
— Como assim, Carlos? Que queres tu dizer?
— Isto esmo, Senhor, e que amanhã vou para Lisboa, embarcar para Inglaterra.
— Carlos!
— É uma resolução meditada e inalterável. Não quero nada com esta terra nem com esta...
— Com esta o quê, Carlos?
— Pois quer ouvi-lo, digo-lho: com esta casa.

O frade sufocava, e balbuciou entre colérico e irritado:

— Dir-me-ás por quê
— Porque me aborrece e me humilha este mando de um estranho aqui... porque sempre desconfiei, porque sei enfim...
— Sabes o quê?
— Sei padre Frei Dinis, ,as não me pergunte o que eu sei.

Amarelo, roxo, pálido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brasas, fez um esforço sobre si para falar e disse com uma voz cavernosa como de sepulcro:

— Pois pergunto, sim; e permita Deus!...
— Padre, não jure nem pragueje — interrompeu Carlos com firmeza e serenidade — as suas intenções serão boas talvez, creio que são boas, filhas de um remorso salutar...
— Que dizes tu, Carlos... que disseste?... Ó meu Deus!

As cenas tinham mudado: Frei Dinis parecia o pupilo, a sua voz tinha o tom da súplica, já não tremia de ira, mas de ansiedade; Carlos, pelo contrário, falava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua ofensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que ele o sentia e que procurava adoça-las na inflexão, que lhes dava.

— O que eu digo, Padre Frei Dinis, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que há nesta casa não é... não é meu; o pão que aqui se come... é comprado por um preço... Padre! já vê que não podemos mais falar neste assunto. Eu parto amanhã para Lisboa. Minha avó! — acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro — minha avó!

A velha acudiu, ele disse-lhe sua tenção, motivou-a em opiniões políticas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se entusiasta da causa liberal, e protestou que, naquele ano, de tal modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa que só uma pronta fuga o podia salvar.

A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.

Frei Dinis assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquela tarde voltou cedo para o convento.

No outro dia de manhã muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha que se desfaziam em lágrimas, Carlos dizia o último adeus àquela querida casa, àquele amado vale em que fora criado... nessa noite estava em Lisboa, daí a poucos dias em Inglaterra, e daí a alguns meses na ilha Terceira.

Na sexta feira depois da partida de Carlos, Frei Dinis veio ao vale teve larga conferência com a avó.

Os três dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia estava cega.

Joaninha era uma criança a esse tempo, parecia não entender nada do que se passava. Mas quem a observasse com atenção veria que ela dobrou de carinho e de amo com a avó, e que se não tornou a rir para o frade.

Ele, o frade, envelheceu de dez anos naquele dia. Os olhos sumidos, que era a feição dominante daquele rosto ascético, sumiram-se mais e mais, a estatura alta e ereta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o tomava por acessos, tornou-se-lhe habitual, os tendões enrijaram-lhe, os músculos da cara descarnaram-se, e a pele, já sulcada de fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como que se lha tornassem uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no vale. A sexta-feira porém era o dia fatal e aziago. Frei Dinis já não vinha senão no fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquela hora e tremia-se dela. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a esperar.

E assim se tinham passados dois anos até a sexta feira em que primeiro vimos juntos à porta da casa aquelas três criaturas, assim se passou até daí a oito dias que a nossa história volta a encontrá-los.