Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XV

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


Retrato de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra Santa, nem consta que esteja na Academia das Belas Artes. — Vê-se que a lógica de Frei Dinis se não parecia nada coma de Condilac. — Suas opiniões sobre o liberalismo e os liberais. — Que o poder vem de Deus, mas como e para quê. — Que os liberais não entendem o que é liberdade e igualdade; e o para que eram os frades, se fossem.— Prova-se, pelo texto, que o homem não vive só de pão, e pergunta-se o de que vivia então Frei Dinis.

Quem era Frei Dinis?

Disse-o ele: — um homem que se fizera frade, já velho e cansado do mundo, que vestira o hábito num tempo em que a mofa, o escárnio e o desprezo seguiam aquela profissão; que o sabia, que o conhecia e por isso mesmo o afrontara.

Destes raros e fortes caracteres aparece sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, para que de nenhum pensamento durável e consagrado pelo0 tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espírito do homem: — que o homem é uma grande e sublime criatura por mais que digam filósofos.

Tal era frei Dinis, homem de princípios austeros, de crenças rígidas, e de uma lógica inflexível e teimosa: lógica porém que rejeitava toda a análise, e que, forte nas grandes verdades intelectuais e morais em que fixara o seu espírito, descia delas com o tremendo peso de uma síntese aspérrima e opressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocínio que se lhe punha diante.

Condilac chamou à síntese método de trevas: Frei Dinis ria-se de Condilac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o aborrecer; mas as teorias filosóficas dos liberais, escarnecia-as como absurdas, rejeitava-as como perversoras de toda a idéia sã, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticável. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer forma não havia mais leis que as do Decálogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia ele. Reforça-las é supérfluo, melhorá-las impossível, desviar delas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangélica, que é o estado monástico, há regras para todos ali; e não falta senão observá-las.

Não sei se esta doutrina não tem o que quer que seja de um sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto à confiança herética dos reformistas evangélicos. O que sei é que Frei Dinis a professava de boa fé, que era católico sincero , e frade no coração.

Segundo os seus princípios, poder de homem sobre homem era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituído. Todo poder estava em Deus — que o delegava ao pai sobre o filho, daí ao chefe da família sobre a família, daí a um desses sobre todo o Estado, mas para reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos princípios cristãos.

Assim fora ungido Saul, e nele todos os reis da terra — sem o que não eram reis.

Tudo o mais, anarquia, usurpação, tirania, pecado, — absurdo insustentável e impossível.

E sobre isto também não disputava, que não concebia como: era dogma.

Nas aplicações, sim, questionava ou, antes, argüía com sua lógica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tirania dos reis, a cobiça e a soberba dos grandes, a corrupção e a ignorância dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.

O princípio porém da monarquia antiga, defendia-o, já se vê, por verdadeira, embora fossem mentirosos e hipócritas os que o invocavam.

Quanto às doutrinas constitucionais, não as entendia, e protestava que os seus mais zelosos apóstolos as não entediam tampouco: não tinham senso comum, eram abstrações de escola.

Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse entendia ele: “Reduz-se, dizia, a duas coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim; é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito serve; tem muita força para o mal; bem verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas as forças vão-se e a morte é a mais certa.”

Dos grandes princípios da Igualdade e da Liberdade dizia: “Em eles os praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal também. Mas não há perigo: se os não entendem! Para entender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na igualdade é preciso ter o Evangelho no coração.”

As instituições monásticas eram, no seu entender e no seu sistema, condição essencial de existência para a sociedade civil — para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cobria os defeitos dos monges, acusava mais severamente que ninguém a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquele tipo da perfeição evangélica, toda a vida cristã ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio, precipitar-se no golfão do materialismo estúpido e brutal em que todos os vínculos sociais apodreciam e caíam e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoísta — última fase da civilização exagerada que vai tocar no outro extremo da vida selvagem.

Tais eram os princípios deste homem extraordinário, que juntava a uma erudição imensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a idade de cinqüenta anos.

Como e por que deixara ele o mundo? Como e por que um espírito tão ativo e superior se ocupava apenas do obscuro encargo de guardião do seu convento — cargo que aceitara por obediência — e quase que limitava as suas relações fora do claustro àquela casa do vale onde não havia senão aquela velha e aquela criança?

Apesar de sua rigidez ascética, prendia esse espírito por alguma coisa a este mundo? Aquele coração macerado do cilício dos pensamentos austeros e terríveis do eterno futuro, consumindo na abstinência de todo o gozo, de todo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento ele não tinha senão uma cela nua com um crucifixo por todo adorno, um breviário por único livro. Naquela só família que conversava, havia, já o disse, a velha cega e decrépita, Joaninha com quem apenas falava, e um ausente, um rapaz que quem há dous anos quase que se não sabia. Em intrigas políticas, em negócios eclesiásticos, em coisa mais nenhuma deste mundo não tinha parte. De que vivia pois aquele homem — homem que certo não era daqueles que viviam só e pão?

E este era um dos poucos textos latinos que ele repetia, este o tema predileto dos raros sermões que pregava: Non in solo pane vivit homo. Nem só de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque ele saía do seu convento e não ia pregar nem rezar... todas às sextas feiras era certo na casa do vale à mesma hora, do mesmo modo...

Ali estava pois alguma parte da vida do frade que de todo se não desprendera da terra, e que, por mais que ele diga, lhe faltava castrar ainda por amor do céu.

É que meio século de viver no mundo deixa muita raiz, que não morre assim. E talvez é uma só a raiz, mas funda, e rija de fevra e de selva, que as folhas morrem, os ramos secam, o tronco apodrece, e ela teima a viver.

Saibamos alguma coisa desta vida.