Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XXIX

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


Doçuras do vida. — Imaginação e sentimento. — Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos. — Como são escritas estas viagens. — Livro de pedra. Criança que brinca com ele. — Ruínas e reparações. — Idéia fixa do A. em coisas de arte e literárias. — Santa fria ou Irene, e Santarém. — Romance de Santa Iria. — Quantas santas há em Pontu9al deste nome?

Este sonhar acordado, este cismar poético diante dos sublimes espetáculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu às almas de certa têmpera. Doce é gozar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o ácido poderoso que estimula! Tirai-lho, fica a insipidez: deixai-lho, ulcera por fim os órgãos: o gozo é mais vivo, porque a ação do estimulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne viva... agora o prazer é martírio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bem-aventurado o que pode graduar, como Goethe, a dose de anfião que quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potências de sua alma! Nesses porém é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe, Sófocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.

Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto: sentir é viver ativamente, cansa-a e consome-a,

Isto é o que eu pensava — porque não pensava em nada, divagava enquanto aqueles versos do Fausto me estavam na memória, e aquela saudosa vista do Tejo e das suas margens diante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo; isto tinha n'alma: isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever.

Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edifícios? algarismo por algarismo, as datas da sua fundação? que te resumisse a história de cada pedra. de cada ruína?...

Vai-te ao Padre Vasconcelos; e quanto há de Santarém, peta e verdade, ai o acharás em amplo fólio e gorda letra. eu não sei compor desses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

Só tenho pena de uma coisa, é de ser tão desastrado com o lápis na mão, porque em dois traços dele te dizia muito mais e melhor do que em tanta palavra que por fim tão pouco diz e tão mal pinta.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crônicas esta escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal. Encadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas góticas, o magnífico[1] livro devia durar sempre enquanto a mão do Criador se não estendesse para apagar as memórias da criatura,

Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompéia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo, de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com elas.

Não se descreve por outro modo o que esta gente chamada governo, chamada administração, esta fazendo e deixando fazer há mais de século em Santarém.

As ruínas do tempo são tristes mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos concertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio.

Tal é a geral impressão que me faz esta terra. Almocemos, que já oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me enganei.

Ao almoço a conversação veio naturalmente a cair no seu objeto mais óbvio, Santarém. D. Afonso Henriques e os seus bravos, S. Frei Gil e o Santo Milagre, o Alfageme e o Condestável, el-rei D. Fernando e a Rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luís de Sousa aqui nascido, Pedro Álvares Cabral, os Docems, quase todas as grandes figuras da nossa história passaram em revista. Por fim veio Santa Iria também, a madrinha e padroeira desta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.

Quem tem uma idéia fixa, em tudo a mete. A minha idéia fixa em coisas de arte e literárias da nossa península são xácaras e romances populares. Há um de Santa Iria.

Por que é a Santa Iria da trova popular tão diferente da Santa Iria das legendas monásticas?

A trova é esta, segundo agora a retifiquei e apurei pela colação de muitas e várias versões provinciais com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.

Estando eu à[2] janela coa minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prato;
Passa um cavaleiro, pedia pousada:
Meu pai. lho negou: quanto me custava!
— Já vem vindo a noite, é tão só a estrada...
Senhor pai, não digam tal de nossa casa
Que um cavaleira que pede pousada
Se fecha esta porta à noite cerrada.
Roguei e pedi — muito lhe pesava
Mas eu tanto fiz, que por fim deixava
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
As mãos lhe dei água, ele se lavava:
Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.
Poucas as palavras, que mal me falava,
Mas eu bem senti que ele me mirava.
Fui o erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a ceia, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, nela se deitava.
Dei-lhe as boas-noites, não me replicava:
Tão má cortesia nunca a vi usada!
Lá por meia-noite, que me eu sufocava,
Sinto que me levam coa boca tapada...
Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre à desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
Calei-me e chorei — ele não falava.
Dali muito longe que me perguntava:
Eu na minha tenra como me chamava.
— Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a cansada.
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me atentava...
Horas esquecidas comigo lutava;
Nem força nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange... ali me matava,
Abriu uma cova onde me enterrava.
No fim de sete anos passo o cavaleiro,
Uma linda ermida viu naquele outeiro,
—"Que ermida é aquela, de tanto romeiro?"
—“ É de Santo Iria, que sofreu marteiro."
— 'Minha Santo Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.”
—"Perdoar não te hei de, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um cordeiro."

Ou houve duas santas deste nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memória de sua beleza e martírio — o de que não tenho a menor idéia, — ou nos escritos dos frades há muita fábula[3] de sua única invenção deles que o povo não quis acreditar: aliás é inexplicável a singeleza desta tradição oral.

Tão simples, tão natural é a narração poética do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se autoriza nas recordações eclesiásticas.

O caso é grave, fique para novo capitulo.

Notas[editar]

  1. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "magnifico", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.
  2. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "á", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.
  3. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "fabula", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.