Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)/XXX

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Viagens na Minha Terra (grafia de 1943)
por Almeida Garrett


História de Santa Iria segundo os cronistas e segundo o romance popular.

A milagrosa Santa Iria — Santa Irene — que deu o seu nome a Santarém, donzela nobre, natural da antiga Nabância, e freira no convento duplex beneditino que pastoreava o santo abade Célio, floresceu pelos meados do sétimo século, Namorou-se dela extremosamente o jovem Britaldo, filho do conde ou cônsul Castinaldo que governava aquelas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, caiu enfermo de moléstia que nenhum físico acertava a conhecer, quanto mais a curar.

É sabido que a mais santa lhe não pesa de que estejam a morrer por ela; e, mais ou menos, sempre simpatiza com as vitimas que faz.

Santa Iria resolveu consolar o pobre Britaldo: e já que mais não podia por sua muita virtude, quis ver se lhe tirava aquela louca paixão e o convertia. Saiu, uma bonita manhã, do seu convento — que não guardavam ainda as freiras tão absoluta e estreita clausura — e foi-se á casa do namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como santa, por fim, impondo-lhe na cabeça as lindas e benditas mãos, num instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o da alma também, pelo menos lho adormentou, que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar num corpo humano, parece que não sai dele senão para se ir meter noutro, tão depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi encaixar em não menor personagem do que o monge Remígio, que era o mestre e diretor da bela Iria.

Arde o frade em concupiscência, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou, porém, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ela menos cuidava, uma bebida de sua diabólica preparação, que apenas a santa a havia tomado, lhe apareceram logo e continuaram a crescer todos os sinais da mais aparente maternidade.

Corre a fama do suposto estado da donzela, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se julga escarnecido pela hipocrisia daquela mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprezo — sente reviver-lhe, se não tão pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.

Tão misterioso é o coração do homem! — tão vil! dirão os ascéticos — tão inexplicável! direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A santa resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzela ir todas as noites a uma oculta lapa que jazia no fim da cerca e junto ao rio Nabão, para ali estar mais só com Deus, e desabafar com Ele à sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a ocasião e ali a fez apunhalar por um seu criado, cujo nome a legenda nos conservou para maior testemunho de verdade.. chamava-se Banam.

Banam! é um verdadeiro nome de melodrama.

Morta a inocente, Banam despiu-lhe o habito e lançou o corpo ao rio, que depressa o levou às arrebatadas correntes do Zézere em que deságua; e logo este ao Tejo - que defronte da antiga Escalabiscastro lhe deu sepultura em suas louras areias, para maior glória da santa e perpétua honra da nobilíssima vila que hoje tem o seu nome.

Mas enquanto ia navegando o corpo da santa, teve Célio, o abade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e comunicando-a logo aos monges e ao povo de Nabância, saiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegã fora, até chegar à Ribeira de Santarém. Ai, benzendo as águas do rio, estas se retiraram corteses e deixaram ver o sepulcro que era de fino alabastro, obrado à maravilha pelas mãos dos anjos.

Chegaram ao pé do túmulo, abriram-no, viram e tocaram o corpo da santa, mas não o puderam tirar, por mais diligências que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar relíquias dos cabelos e da túnica, voltaram todos para a sua terra.

As águas tornaram a juntar-se e a correr como dantes, e nunca mais se abriram senão dai a seis séculos e meio, quando a boa rainha Santa Isabel, mulher del-rei D. Dinis, tão fervorosas orações fez ao pé do rio pedindo à santa que lhe aparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho à[1] voz de Moisés, dizem os devotos cronistas, e patenteou o bendito sepulcro.

Entrou a rainha a pé enxuto pelo rio dentro, seguida de seu real esposo e de toda a sua corte; mas por mais que rezasse ela, e que trabalhassem os outros com todas as forças humanas, não puderam abrir o túmulo; quebraram todas as ferramentas, era impossível. Desenganado el-rei de que um poder sobre-humano não permitia que ele se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sobre o mesmo túmulo, e tão alto que o rio na maior enchente o não pudesse cobrir.

O rio esperou com toda a paciência que os pedreiros acabassem e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram-se a juntar as águas e o padrão ficou sobressaindo por cima delas.

Passaram mais três séculos e meio; e no ano de 1644 a Câmara de Santarém mandou refazer de cantaria lavrada o dito marco ou pedestal, que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da santa.

Ainda lá está, assaz mal cuidado contudo; lá o vi com estes olhos pecadores no corrente mês de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em seco, e em seco está todo o ano até começarem as cheias.

Tal é, em fidelíssimo resumo, a história da Santa Iria dos livros.

A das cantigas é, como já disse, muito outra e muito mais simples; conta-se em duas palavras. A santa está em casa de seus pais: um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e inocente donzela, foge a todo o correr de seu cavalo, e chegando a um descampado dali muito longe, pretende fazer-lhe violência... A santa resiste, ele mata-a. Dali a anos passa por ai o indigno cavaleiro, vê uma linda ermida levantada no próprio sítio onde cometeu o crime, pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.

E acabou a história.

Seria o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que aumentaram nas suas escrituras? Pois a legenda monástica é realmente bela e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma desprezar.

É difícil de explicar-se este fenômeno, interessantíssimo para qualquer observador não vulgar, que nestas crenças do comum, nestas antigualhas, desprezadas pela soberba filosofia dos néscios, quer estudar os homens e as nações e as idades onde eles mais sinceramente se mostram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xácara de Santa Iria, o ser ele, dentre todos os que andam na memória do nosso povo, o mais geralmente sabido e mais uniformemente repetido em todos os distritos do reino, e com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que esta seja das mais antigas composições não só da nossa língua, mas de toda a península. A frase tem pouco sabor antigo: este é um daqueles poemas quase aborígines que a tradição tem vindo entregando, e ao mesmo tempo traduzindo, de pais a filhos insensivelmente; e também não é por certo dos que desceram do palácio às choupanas e fugiram da cidade para as aldeias, como em muitos outros se conhece; este visivelmente nasceu nos arraiais, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até agora.

A forma métrica da composição é a que a frase didática das Espanhas chamou romance em endechas. Eu, adotando para ele, mais que para a forma ordinária do metro octossílabo, a teoria do engenhoso filólogo alemão, Deepping, tão benemérito da nossa literatura peninsular, creio que estes são verdadeiros versos de doze sílabas[2], e que as copias não constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da palavra. O povo cantando não separa os hemistíquios destes versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais comum, o canto popular reparte distintamente cada membro de oito sílabas[3] sobre si.

Não sei se me engano, mas desconfio que as quatro copias últimas, em que muda completamente a rima, sejam aditamento posterior feito à cantiga original. Todavia estes oito versos aparecem, com ligeiras variantes, em toda a parte

Notas[editar]

  1. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "á", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.
  2. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "silabas", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.
  3. Na fonte <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1720> aparece "silabas", corrigido ao disponibilizar no Wikisource por se tratar de um óbvio erro.