Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/CCXII

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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Dos perdões que el-rey pedio, e satisfações e merces que fez, e como foy sua morte e das cousas que fez e disse


Ao domingo pola menhaã cedo el-rey muy devotamente ouvio missa, e con muitas lagrimas e grande contriçam e arrependimento de seus peccados tornou a comungar outra vez. E mandou com muyta pressa a Lagos pollo olleo da sancta unção, com o qual veo o prior da dita villa com todas has cousas necessarias. E loguo com hos bispos e capellães que eram presentes com muyta devaçam e lembrança de Deos tomou a derradeira unção tam inteiro na fee e com tanta acusaçam de si mesmo que a todos fazia enveja. E ao jantar comeo hum meollo de pão molhado em çumo de lombo de vaca assado, e alguns bocados doutras cousas, tendo jaa tamanho salluço que cada vez que lhe vinha parecia que ja lhe saya a alma. E per escripto mandou pedir perdão aa raynha sua molher e aa infanta Dona Breatiz sua sogra e ao cardeal Dom Jorge da Costa com palavras de muita humildade e verdadeira contriçam. E assi per palavra pedio perdão aa clerezia, cavalleiros e povos de Portugual com conhecimento dalgũas cousas que fezera como nam devia. E a muytos homens fez com muita temperança muytas merces de tenças, e quitas, oficios, e beneficios, satisfações em dinheiro segundo cada hum o merecia, e os padrões e alvaraes assinava per sua mão tendo jaa ha alma na boca, e ao duque seu primo como a erdeiro e socessor encomendava jaa que as comprisse inteiramente segundo se nellas continha. E tudo dava e deu com tanta temperança, peso, e medida, e tam justamente, que a nenhũa se pôs duvida. E neste tempo de tam poucas oras de vida, a algũas pessoas se escusou el-rey de cousas que lhe requeriam com tanta rezam e honestas pallavras, que ganhou muyto mais louvor na temperança que teve em as nam dar do que ganhara em as dando. Porque assi repartia as satisfações e merces com tal tento e ygoaldade como se estivera pera viver outros corenta annos. E disse a Dom Martinho veador da Fazenda sendo homem que ele sempre estimou muito e muy aceyto a elle, pedindo-lhe Vila Nova pera seu filho: "Dom Martinho, eu verdadeiramente estou ja tal e de maneira que dando-vos agora ysso pareceria que dava o alheo; porém vós sois tal que nam virá nenhum apos mi, que vos nam faça muita honrra e muyta merce".

E neste tempo de seu falecimento nam quis el-rey que estivesse com elle ho senhor Dom Jorge seu filho nem que viesse ahi. E mandou que quando Deos fosse servido de o levar logo seu testamento fosse aberto, e nelle achariam o que depoys de sua morte aviam de fazer; e que depoys de visto o levassem logo tres do seu conselho ao duque seu primo. E porque nele tinha mandado que ho enterrassem na ygreja de Lagos onde fora soterrado o infante Dom Anrrique seu tio, tornou a mandar que ho levassem aa cidade de Silves e lançassem seu corpo na See, e depois levassem dahi sua ossada ao Moesteiro da Batalha, como levaram depois por el-rey Dom Manoel com muyto grande honrra e muita solenidade, como em seu lugar se dira. E estando el-rey tirando com muyta pena o bispo de Tangere lhe lembrava alto muitas cousas sanctas e muito necessarias em tal tempo, antre as quaes tocou algũas da bribia; elle lhe disse: "Bispo, nam me lembreis nenhũa cousa da ley velha". O bispo do Algarve Dom Joam Camelo que com elle estava sendo muyto bom homem, muy liberal e gastador era avido por mao clerigo e nunca dizia missa nem entendia en oficios divinos, e el-rey o tinha disso reprendido algũas vezes e era delle por ysso descontente; e estando nesta derradeira hora lhe disse: "Bispo, eu vou muy carregado de vós; por amor de mi vivey daqui avante bem e a serviço de Deos e dai-me vossa fee de o fazerdes assi"; e ho bispo lha deu, e elle lhe tomou a mão de ho cumprir. E dando-lhe a assinar hum padrão de certa renda que deyxou a Dona Ana de Mendoça mãy do senhor Dom Jorge seu filho, tendo a pena na mão pera o assinar, a deyxou cayr e começou de chorar muito, e porque o confortavam disse: "Nam me conforteis que eu fuy tam mao bicho que nunca me acenaram que nam mordesse", e com muitas lagrimas o assinou; e porque lhe falavam por alteza como soyam disse: "Nam me chameys alteza que nam sam senam hum saco de terra e de bichos". Hum Francisco da Cunha das Ilhas Terceiras chegou a elle e disse-lhe, que pollas cinco chagas de Jesu Christo lhe fizesse algũa merce que era fidalgo e muito pobre. E el-rey lhe mandou com muita pressa fazer hum padram de trinta mil reaes de tença e o assinou, e disse-lhe que tomasse a prata que na casa estava que nam tinha ja que lhe dar; e em o outro se saindo disse el-rey: "Ja posso agora ysto descubrir, nunca em minha vida me pediram cousa aa honrra das cinco chagas que nam fizesse". Mandou saber em que ponto estava a maree, e dando-lhe a reposta disse: "Daqui duas oras me finarey" e assi foy. E estando assi com muyta pena tirando com grandes e mortaes salluços que lhe acudiam de quando em quando disse: "Tenho tamanho amargoz na boca que se nam pode sofrer". Disse-lhe o bispo de Coimbra: "Senhor, lembre-vos o vinagre e azedo que deram a beber a Nosso Senhor Jesu Christo estando na cruz e nam vos amargará a boca"; e el-rey lhe respondeo: "Oo bispo, quanto vos agradeço ysso porque esse passo soo me esquecia da payxam". E estando assi veo-lhe hum muito grande accidente antes de lhe sayr a alma que o trespassou; e cuydando todos que era finado, ho bispo de Tangere lhe fechou os olhos e a boca, e ele o sentio e tornou a si e disse: "Bispo, aynda nam vem a ora". E falando sempre palavras sanctas, e encomendando a todos que nam chorassem entam por lhe nam fazerem torvaçam, beijando muitas vezes o vulto de Nosso Senhor e a cruz, com os olhos postos nele e a candea na mão, com todo seu perfeito saber e os sentidos muy espertos e a vista toda ynteira sem fazer geito nenhum, rezando sempre com os bispos verso por verso, e na derradeira com o nome de Jesu na boca com grandissima devaçam dizendo "Agnus Dei qui tolis peccata mundi miserere mei" lhe sayo a alma da carne domingo em se querendo poer o sol, vinte e cinco dias d' Outubro do ãno de Nosso Senhor Jesu Christo de mil e quatrocentos e noventa e cinco, em hidade de corenta ãnos e seis meses, dos quaes foy casado com a raynha Dona Lianor sua molher vinte e cinco e reynou catorze ãnos e dous meses; e sendo muito vertuoso na vida acabou desta maneira, que he muito pera aver enveja.