A Alma do Lázaro/II/XXV

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 28 de abril de 1752

Tinha jurado não voltar ao eirado; e voltei arrastado por uma força a que não posso resistir.

Parecia-me que estava atado ao leito da dor, onde todo o dia me revolvi em uma angústia cruel, e todavia, ao toque de trindades, sem que desse tento de mim, caminhava como um espetro para aquele sítio, onde me disputam o céu e o inferno; porque ali está a fonte de meus júbilos e o antro de meus sofrimentos.

Assomava a lua no horizonte, como uma sultana a recostar-se nos estofados coxins de brocado azul, recamado de branco. Nas folhas dos coqueiros passava a brisa sutil, ramalhando as verdes palmas.

Da terra, bordada de quintais e granjearias, se exalava, como de uma caçoula, a suave fragrância do campo. O mar dormia em bonança; e o colo da onda arfava mansamente, como o seio da criança engolfada em sonhos ridentes.

Derramava-se no espaço uma doçura inefável, que parecia manar do céu em um jorro de luz alva e macia. Parecia-me às vezes que eu sugava no teu peito, mãe, um sorvo de leite vigoroso, que me infundia saúde e contentamento.

Nunca em minha vida, tive eu tamanha sede de ventura; também nunca a fortuna escarninha aproximara tão perto de meus lábios a taça falaz.

Ávido precipitei-me sobre ela, e pior que Tântalo, a quem o destino apenas retraía o pábulo, a mim trocou-o no mais negro fel.

Traguei a minha própria peçonha; e não morri, não, porque a morte seria uma redenção, e eu não expiei ainda toda a minha culpa de haver nascido, para ser um arremedo de homem...