A Carne/XIII

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A Carne por Júlio Ribeiro
Capítulo XIII

Até 1887 vivia-se em pleno feudalismo no interior da província de São Paulo.

A fazenda paulista em nada desmerecia do solar com jurisdição da Idade Média. O fazendeiro tinha nela cárcere privado, gozava de alçada efetiva, era realmente senhor de baraço e cutelo. Para reger os súditos, guiava-se por um código único - a sua vontade soberana. De fato estava fora do alcance da Justiça: a lei escrita não o atingia.

Contava em tudo e por tudo com a aquiescência nunca desmentida da autoridade, e, quando, exemplo raro, comparecia à barra de um tribunal por abuso enorme e escandalosíssimo de poder, esperava-o infalivelmente a absolvição.

O seu predomínio era tal que às vezes mandava assassinar pessoas livres na cidade, desrespeitava os depositários de poderes constitucionais, esbofeteava-os em pleno exercício de funções, e ainda... era absolvido.

Para manter o fazendeiro na posse de privilégios consuetudinários, estabeleciam-se praxes forenses, imorais e antijurídicas. Em Campinas, por exemplo, todo o crime cometido por escravos, fossem quais fossem as circunstâncias, era sistematicamente desclassificado; a condenação, quando se fazia, fazia-se no grau mínimo; a pena era comutada em açoites, e o réu entregue ao senhor, que exercia então sobre ele sua vindita particular.

O sucesso pavoroso, o linchamento atroz do feiticeiro pelos escravos da fazenda, não transpirou e, se transpirou, se alguma coisa chegou aos ouvidos das autoridades da vila, elas não se moveram.

O coronel, homem bom, compassivo, horrorizara-se a princípio com o fato que não pudera impedir; afinal entendera que o que não tem remédio está remediado, achara até que o exemplo não havia de fazer mal. Barbosa, conquanto tivesse passado boa parte de sua vida na filantrópica Albião, era filho de fazendeiro, como tal tinha sido criado: não estranhara, pois, o sucesso, gostara até da solução que ele trouxera a um caso complicado e gravíssimo.

A atmosfera de tristeza, de desalento, que um sucesso trágico gera sempre, foi-se pouco a pouco dissipando.

O viver da fazenda entrou logo em seus eixos: dir-se-ia até havia melhoramento, que se estava mais à vontade. Joaquim Cambinda inspirava medo, ninguém se atrevia a proferir uma palavra contra ele, e, todavia, exceto um pequeno número de adeptos de suas práticas, todos o odiavam. A sua morte, como a de todo tirano, fora um motivo de júbilo geral, alargara todos os pulmões que bebiam ar então a haustos largos. Desaparecera o perigo invisível e temeroso que a todo o instante a todos ameaçava.

A fruiteira continuava a ser muitíssimo frequentada por pássaros de espécies várias, por serelepes e até por ouriços caixeiros.

Lenita ia por diante com as suas razias matinais. Acompanhava-a então Barbosa, que lhe deixava todo o prazer das caçadas, reservando-se o trabalho. Era ele quem ia buscar as aves mortas, quem perseguia e apanhava as que caiam ainda vivas. Tendo achado um carreiro batido de caça, a alguma distância da caneleira, escolheu um lugar que lhe pareceu apropriado, limpou-o em bom espaço, deitou milho, fez uma ceva. Ao terceiro dia notou com prazer indizível que a caça acudia, que o milho estava comido. Em pouco tempo teve de renová-lo: tinha acabado. Entendeu que era tempo de construir um reparo. Fê-lo quadrangular, grande bastante para duas pessoas. Tapou-o em roda com palmas de guarirova, arranjou dentro um assento de varas, sólido, relativamente cômodo. Cravou no chão forquilhas para encostar as espingardas, dispôs olheiros por onde pudesse espreitar a caça. Antegostava a surpresa agradabilíssima que ia causar a Lenita, o arrebatamento, o êxtase em que ficaria ela, ao defrontar pela vez primeira com caça de importância com caça de grande pêlo.

Deixou passar alguns dias para que a caça se familiarizasse com a choça, e, quando entendeu ser tempo azado, mandou acordar a Lenita bem de madrugada, muito antes da hora do costume. Saíram. Para atravessar o carreadouro e a picada, Barbosa teve de ir riscando fósforos; estava escuro como breu. Ao chegarem junto da caneleira ainda tudo era trevas. A copa das árvores formava uma pasta compacta, negra, indistinta do negror do céu. Lenita tinha sono, bocejava. A mucama encolhia-se toda, aconchegando-se no xale.

— Parece que perdemos hoje a hora, que viemos cedo demais, disse Lenita.

— Viemos a hora precisa, respondeu Barbosa.

— Os pássaros não começarão a vir nem nesta uma hora.

— Que venham quando quiserem: nós hoje não estamos cá por amor de pássaros.

Então por amor de que estamos?

— Vai ver. Marciana, você fica aqui. Sente-se, não faça a mínima bulha. Agora D. Lenita venha comigo.

— Onde vamos nós?

— Vai ver, tenha paciência.

A moça, intrigada ao último ponto, deixou-se guiar silenciosa, dócil. Barbosa ia adiante, mostrando o caminho: ora dava-lhe a mão, ora afastava um ramo, para que lhe não batesse no rosto. Chegaram à ceva.

— Entre, Lenita, disse Barbosa, colocando-se ao lado da porta do reparo, com modo tão cortês; como se a estivera convidando para chegar ao buffet em um salão de cotillon cerimonioso, aristocrático.

Lenita entrou confiadamente, resolutamente, naquele antro lôbrego, onde nada se podia divulgar.

Barbosa entrou também, riscou um fósforo, mostrou o banco a Lenita, fê-la sentar, dispôs-lhe a espingarda sobre a forquilha, assestou-lha sobre a ceva, sentou-se ao lado da moça.

— Mas isto que vem a ser, afinal de contas?

— É uma ceva. Agora silêncio, e esperemos.

No recinto, fechado pelo tapume espesso de palmas ainda verdes, havia um conchego relativo. Lenita, com as mãos agasalhadas em luvas de lã, envolta em water-proof de casimira encorpada, sentindo o calor doce de Barbosa, achava-se bem. Hauria o ar puro, fresco, da mata, respirava as emanações de guarirova, essas emanações irritantes de palmeiras, que adormentam o cérebro em uma lubricidade mística. Ouvia coar delícias o pingar manso e monótono de orvalho na camada de folhas secas. E despercebidamente o tempo ia passando. Amanheceu. A luz penetrou na mata, deu tom aos troncos, coloriu a folhagem, alumiou o chão pardecento e varrido da ceva, no qual o amarelo do monte de milho punha uma nota muito clara.

De repente Barbosa deu com o joelho em Lenita.

Um animal pequeno, esguio, elegante, emergia do mato, e avançava cauteloso, alongando o corpo fino. Chegou ao milho, retraiu-se, encolheu-se, fugiu aos corcovos, sumiu-se, reapareceu e, sempre arisco, sempre desconfiado, principiou a comer. Pouco a pouco perdeu o receio, ergueu as patas dianteiras, sentou-se sobre as traseiras, e, tomando uma espiga entre as mãozinhas, começou a roê-la com apetite, vorazmente.

Lenita, com o coração a bater descompassado, descorada, quase sem consciência, como por instinto venatório, aperrou a arma, fez pontaria, desfechou.

O tiro restrugiu pela mata, repercutiu com um baque seco nas quebradas distantes.

A clareira encheu-se de fumo.

A moça e Barbosa saíram correndo a ver o resultado do tiro.

Junto do milho, com o pêlo arrufado, percorrido a espaços por uma crispação fraca, estava o animal, atravessado de banda a banda pela chumbada mortífera.

Era uma cutia.

Ao vê-la ferida, prostrada, a exalar o derradeiro débil alento, o prazer de Lenita foi tão intenso, que dobraram-se-lhe as pernas, e ela caiu de joelhos, erguendo para Barbosa um olhar repassado de gratidão.

Levantou-se, largou a espingarda, tomou o animal, sopesou-o com ambas as mãos, a tremer, dementada pelo triunfo, em arrancos de risos nervosos.

— Agora é irmos para a choça, que não tarda a vir mais caça, disse Barbosa e, raspando terra com os pés, cobriu o sangue e o pêlo que havia no chão; depois ergueu a espingarda de Lenita, apresentou-lha e pediu-lhe a cutia para levar.

— Leve-me a espingarda, eu quero levar a cutia, respondeu a moça.

Instalaram-se de novo na choça. Lenita carregou a espingarda, sentou-se, pôs a cofia diante de si, apoiou as pontas dos pés no seu corpo macio, cravou na ceva olhares vigilantes, cobiçosos, sôfregos.

Não esperou muito. Ouviu-se um estalar de ramos quebrados, e, um logo após outro, apresentaram-se dois vultos escuros, grandes, dois enormes porcos de eixo branco. Entraram no limpo da ceva confiados, lentos, mansos, caminharam direito ao milho, trombejando, foçando, fazendo estalar os dentes. Pararam, puseram-se a comer tranquilamente, descuidosamente.

Lenita engatilhou a espingarda, quis metê-la em pontaria. Barbosa impediu-a com um gesto enérgico.

— Não se mova, segredou-lhe rapidamente, ao ouvido. Estamos em perigo sério.

— Em perigo?

Os dois porcos continuavam a trincar, a esmoer o milho, sem suspeitar da vizinhança de gente.

Passaram-se dez minutos, dez séculos de ansiedade para Lenita.

Barbosa lento, cauteloso, sem fazer o mínimo rumor, como uma sombra, tirou a espingarda de Lenita, e pôs em lugar a sua, uma arma excelente de Pieper, canos shoke-rifled, calibre 12.

— Atire com esta, disse em voz baixa que mal Lenita o pôde ouvir, não tenha receio, não dá coice.

Lenita armou os dois cães, premendo os gatilhos para que não estalassem os gafanhotos nos dentes das nozes, levou a arma à cara e, quase sem apontar, disparou um tiro e outro imediatamente.

Os estampidos das cargas fortíssimas ribombaram pela mata de modo pavoroso: a fumaça enevoou a ceva, tapou tudo; sentia-se o cheiro forte, bom, de sulfureto de potássio, de pólvora queimada.

Lenita impaciente, incapaz de conter-se, quis sair. Barbosa a reteve.

— Cuidado! disse, esperemos que se dissipe a fumaça. O caso é sério. São queixadas.

— Então foi a queixadas que eu atirei?

— Foi, e felizmente não há bando, são só dois.

— Se houvesse bando?

— Estaríamos perdidos.

— São assim perigosos?

— Em bando, no mato, piores do que onça. Por amor das dúvidas, dê-me a espingarda, quero carregá-la.

Demoradamente foi-se dissipando o fumo. Barbosa e Lenita saíram. Junto do milho o chão estava escarvado, via-se muito sangue. De dentro do mato, de pequena distância, vinha um como grunhido, um ronco lastimado.

Barbosa ordenou a Lenita que se deixasse ficar e, com a espingarda armada, pronto a dar fogo, entranhou-se no mato, do lado donde vinham os grunhidos. Não teve que andar muito: a pouco espaço, perto um do outro, jaziam os dois porcos, alcançados ambos pelos tiros certeiros de Lenita. Um estava morto, o outro estertorava enfraquecido nos arrancos da agonia.

— Albo notanda dies lapillo!

Venha Lenita, venha ver o que fez ! gritou Barbosa.

Lenita, apressada, correu sem se importar com os ramos que lhe açoitavam, que lhe arranhavam o rosto, sem dar fé dos espinhos que lhe rasgavam a roupa. Chegou-se: ao dar com as suas vítimas, perdeu de todo a cabeça, teve uma como vertigem, soltou um grande grito, atirou-se a Barbosa, abraçou-o freneticamente. Depois caiu em si, retraiu-se confusa, desapontadíssima, correu a examinar os queixadas.

Baixou-se junto do que estava morto, examinou-lhe detidamente, minuciosamente : os cascos aguçados, as cerdas duras, longas, as orelhas tesas, a tromba lisa, os olhos pequeninos, sanguíneos, os colmilhos oblíquos, o queixo branco. Tirou as luvas, premiu-lhe, esvurmou-lhe a glândula tumefata das cadeiras, fez correr o líquido lácteo, catinguento.

— Foi feliz, disse Barbosa, risonho. Fez uma proeza de que se não podem gabar muitos caçadores velhos.

— E ao senhor o devo! Obrigada!

Havia tanta doçura, tanto sentimento no modo por que Lenita disse essa frase, que Barbosa sentiu um calafrio percorrer-lhe o dorso. Foi-lhe preciso uma violência enorme sobre si próprio, para conter-se, para impedir-se de atirar-se à moça, de cobri-la de beijos.

— Então, perguntou ele, voltarmos ao reparo, a esperar mais caça?

— Não, respondeu Lenita, queixadas com certeza não vêm mais, e seria profanar o dia e a espingarda atirar a caça inferior. Como havemos de levar estes monstros?

Eu mando um preto buscá-los com um cargueiro.

— A cutia ao menos eu quero levar.

— Pois levaremos a cutia.

— Aquele porco menor não quer morrer. Vamos nós dar-lhe mais um tiro?

— Não vale a pena, ele morre logo. Está muito mal ferido.

— Mas são mesmo queixadas?

— E dos maiores.

— Boa carne?

— Excelente, melhor ainda que a do tateto.

— Em que se diferencia o queixada do tateto?

— O queixada, Dycotylus torquatus, vive só na mata virgem, é maior e muito mais feroz do que o tateto, Dycotylus labiatus, que é pequeno, medroso e que vive às vezes na capoeira. A nota, porém, característica que os distingue é ter o queixada o queixo branco, como está vendo.

— E é daí que lhe vem o nome?

— Exatamente. Então, vamos?

— Com franqueza, estou sem ânimo de separar-me das minhas soberbas vítimas. Mas vamos.

E foram.

A ceva ficou deserta por muito tempo. De súbito, pequenino, atrevido mesmo pela sua insignificância, surdiu um rato, chegou-se sem cerimônias, entrou a roer o milho, o germe somente, o coração. Depois veio outro, e outro, um bando. O sol, coando um raio por entre a folhagem, ateava ao monte de milho solto e de espigas descascadas um incêndio de reflexos cor de ouro.

Rojando em ondulações por entre as plantas rasteiras da mata, entreparando num lugar, escutando em outro, veio avançando para a ceva uma cobra de grande talhe. Tinha o dorso fusco, sem brilho, maculado de losangos escuros, quase negros. A cabeça era chata, o focinho tronco, como que aparado, com duas fossazinhas tapadas, duas ventas falsas. De cada olho partia um traço escuro que ia fenecer no pescoço. A cauda terminava em um como rosário curto, de contas cómeas, ocas, achatadas, que, ao rastejar do animal deixavam escapar um ruído leve, quase imperceptível, do pergaminho fuxicado.

Chegou, viu os ratos, parou, foi-se torcendo em espiral, formou um rolo, donde emergia, atenta, vigilante, a pavorosa cabeça. O olhar negro luzente, gélido, tinha uma fixidez fascinadora. A língua lúrida, comprida, fina, bífida, açoitava o ar em rápidas lambidelas. Um dos roedores percebeu o réptil, fitou-o aterrado, encolheu-se, enovelou-se, arrepiou o pêlo, começou a chiar lastimosamente, miseravelmente. Os outros desapareceram.

Continuava a fascinação.

O desgraçado rato tremia. Começou de mover-se às guinadas, dando saltos irregulares, atáxicos. Não fugia, avançava para a cobra. Chegou-se-lhe muito perto. O rolo hediondo distendeu-se rápido, como uma mola de relógio, que se escapa do tambor, deu um bote. O animalzinho, ferido pelo dente fulmíneo, virou de costas. Dentro de um minuto estava morto.

A cobra desenrolou-se então de uma vez, estendeu-se ao comprido, abriu, escancarou uma boca enorme, começou a deglutir a presa, desarticulando as mandíbulas para dar passagem ao corpo relativamente volumoso...

Depois, saciada, farta, com o repasto a formar um bolo visível exteriormente no abdome dilatado, foi deslizando, lenta, preguiçosa, em busca de um abrigo, até que chegou ao reparo, entrou, enrodilhou-se embaixo do banco de varas, e aí começou o sono comatoso da digestão equídnica.

— Lenita passou o dia contentíssima, a lembrar-se a todo o momento da sua brilhante façanha venatória. Fechava os olhos, via as cevas, os queixadas. Estava satisfeita consigo, estava orgulhosa.

O jantar foi alegre.

Louro, coberto de rodelas de limão, apetitoso, tentador, figurou nele o lombo de um dos queixadas. A peça, nobre, a cabeça, la hure, desossada magistralmente por Barbosa, que, como o velho Dumas, era perito em culinária, campeou em um prato travessa, imponente, majestática, fragrante, cativadora.

— Hoje morro de indigestão, e é você quem me mata, Lenita, dizia o coronel, repetindo pedaço sobre pedaço. Há que anos que me não encontro com porco-do-mato! Essa cabeça está divina; como ela... só o lombo!

Logo depois do café, ela, Barbosa e a mucama seguiram para a ceva.

Muito embora seja quente o dia na mata há sempre frescor. A luz não era crua, mordente, como em uma campina rasa; esbate-se, quebra-se, dá aos contornos dos objetos um aveludado mole, uma languidez suavíssima. Os sons se abrandam, tomam um como timbre murmuroso. Na mata domina a todas as horas o que quer que é de vago mistério.

Lenita, nessa atmosfera balsâmica, sadia, achava-se feliz. Ao bem-estar gozoso, indefinível, que gera a boa digestão de um repasto suculento, juntavam-se alegrias de mente, a consciência de que seu amor por Barbosa era correspondido, o triunfo esplêndido, inesperado, incrível sobre duas temerosas feras. Fora por traição que as matara a tiro, escondida... embora! Na luta terrível da vida toda a arma aproveita. A astúcia é uma força. A espingarda de bala explosiva é que equipara o homem ao rinoceronte: para mostrar coragem irá o homem atacar o rinoceronte sem espingarda de bala explosiva? As alimárias da selva não se deixam aproximar, fogem mal farejam a vizinhança do homem; o homem só consegue tê-las em alcance escondendo-se, dissimulando-se: pois, para ser leal, irá o homem avisá-las a gritos de que se acha presente? A força é uma contração da fibra muscular, o pensamento é uma irritação da célula nervosa: por que não empregar uma contra a outra? Na batalha da existência, seja qual for a arma a empregar, o que impor é não ficar vencido: o vencedor tem sempre razão. Os queixadas tinham morrido. Lenita estava triunfante: o cérebro vencera o músculo mais uma vez. O fato era esse, o mais não entrava em linha de conta.

Barbosa quedou-se ao pé da caneleira, a estudar umas epífitas que descobrira sobre um tranco carcomido.

— Então não vem? perguntou-lhe Lenita.

— Já não. Leve consigo a Marciana, que pode ajudá-la no que for preciso. Perigo não existe mais : queixadas só havia aqueles, desguaritados de uma vara que por aqui estanciou, há meses. O administrador conhecia-os, já os tinha visto quando andou a tirar madeiras.

— Então até logo.

— Até já, eu não me demoro.

Lenita seguiu com Marciana por um pouco; mandou que ela se quedasse ali, junto de uma árvore, ao alcance da voz, às ordens; chegou-se à ceva, espiando de longe, cautelosa. A ceva estava deserta.

Entrou no reparo, sentou-se, dispôs a espingarda, começou a esperar.

Um bando de urus vinham-se aproximando; por duas vezes ouviu ela perto o seu harpejo aflautado, sonoro, intercadente. Mostraram-se, invadiram a ceva. Eram doze. Uns deitaram-se, desidiosos, dispépticos, arrufando as penas, espojando-se; outros entraram a comer gulosamente, sofregamente.

Lenita fez um movimento para erguer-se, e pisou em uma coisa mole, que achatou sob a pressão do seu pé. Ao mesmo tempo quase, uma como chicotada surrou-lhe as pemas, e ela sentiu no peito do pé esquerdo um ligeiro prurido, um pequeno ardor.

Fez-se um reboliço nas palmas do tapume, ao rés-do-chão, e ouviu-se o chocalhar áspero, nervoso, irritante, como de uma vagem seca de fava, em vibração frenética.

A um canto do reparo, armada pronta para novo bote, estava a cascavel. Os olhos pequeninos, fixos, luzentes como diamantes negros, pareciam despedir relâmpagos gelados. O extremo da cauda, erguido verticalmente, tremia como o badalo de uma campainha elétrica, como um jato de vapor a escapar-se de um conduto estreito.

Lenita sentia-se ferida, conheceu o perigo em que estava. De um salto saiu do reparo, atirou-se para o limpo da ceva.

Os urus fizeram uma revoada temerosa, fugiram em todas as direções.

Com admirável presença de espírito, Lenita sentou-se no chão, descobriu a perna, tirou o sapato e a meia.

Na pele alvíssima do peito do pé viam-se dois arranhões paralelos, pequenos, de pouco mais de um centímetro de comprimento.

Lenita espremeu-os, limpou-os de uma como serosidade amarela que continham, tirou a fita que prendia a trança, amarrou a perna, acima do tornozelo, apertou muito a atadura.

Depois gritou pela rapariga, mandou que chamasse Barbosa a toda pressa.

Barbosa não se demorou.

Ao dar com Lenita, pálida, sentada no chão da ceva, sem espingarda, com o pé descalço, ficou pasmado, não sabendo o que pensar.

— Que tem, Lenita, que lhe aconteceu, perguntou acercando-se, ansiado.

— Estou picada de cobra.

— Não me diga isso, não brinque assim.

— É sério.

— Onde é que está picada?

— Aqui no pé, veja.

— Sabe que cobra foi?

— Cascavel.

Barbosa empalideceu; por um momento ficou como atordoado.

Dominou-se, porém, logo ajoelhou-se, tomou o pé de Lenita entre as mãos, examinou detidamente.

— Não há de ser nada; disse. Nenhuma veia importante foi tocada. A precaução que tomou de atar a perna com esta fita foi excelente. Agora, nada de acanhamento, entregue-se a mim deixe-me fazer o que entendo.

Tirou do bolso um charuto, trincou-o nos dentes, mascou-o, encheu a boca de tabaco dissolvido em saliva, tomou de novo o pé de Lenita, com respeito, com adoração quase, chegou-lhe a boca, entrou a sugar-lhe a ferida a sorvos vagarosos, contínuos, fortes.

Cuspiu, renovou o tabaco, repetiu a operação.

— É curioso, disse Lenita, eu nada sinto, nada absolutamente; é como se não tivesse sido picada.

— Mas tem certeza mesmo de que foi cobra, de que foi cascavel?

— Ora! Escute lá. Ouve?

No reparo continuava a chocalhada sinistra.

Barbosa tomou a espingarda, aperrou-a, aproximou-se do reparo, olhou pela porta, levou a arma à cara, fez fogo. Depois entrou e saiu logo com a cobra, morta, suspensa pela cauda. Tinha de seis a sete palmos, era muito grossa, um crótalo medonho, um monstro.

— Lenita, disse Barbosa, atirando o réptil ao chão, seria fazer-lhe injúria dissimular a gravidade do que aconteceu. Mas as providências tomadas dão-nos quase ganho de causa: você com a atadura impediu em tempo a circulação do sangue, e por conseguinte a absorção do veneno; eu suguei a ferida, e retirei o que era ainda possível retirar. Sente alguma coisa agora?

Apenas um pouco de turvação na vista.

— Vamos para casa. Vou seguir um processo racional de curativo, e espero vê-la logo risonha e alegre, outra vez, aqui na ceva. Não tire, não deixe afrouxar o amarilho da perna.

Foram. Lenita em caminho teve duas vertigens, quase caiu. Em algumas subidas ásperas Barbosa carregava-a. Marciana acompanhara-os levando as espingardas. Chegaram. Lenita despiu-se, deitou-se. Tinha frio, sentia sonolência.

Barbosa foi ao seu quarto e de lá voltou com uma garrafa de rum: abriu-a, encheu um cálice grande, fê-lo beber a Lenita, inteirinho de uma vez.

— Bom, temos meio caminho andado. Agora toda a docilidade, sim?

Lenita aquiesceu com um gesto triste.

Barbosa assentou-se à beira da cama, levantou discretamente uma parte das cobertas, tomou o pé ferido de Lenita, desfez o atilho da perna. Um vinco em círculo afundava-se lívido, um pouco acima do tornozelo. O pé estava inchado.

Esfregou por algum tempo a pele, restabelecendo a circulação; tomou depois a pôr a ligadura.

Lenita entrou a ficar ansiada, aflita.

— Dói-me a cabeça, foge-me de todo a vista, confundem-me as idéias.

— Tome mais um cálice de rum, é preciso.

— Torno, mas escute, diga-me uma coisa com franqueza, eu vou morrer, não?

— Não, não morre. Eu respondo pela sua vida.

— Não morro! Diz isso para me animar. Eu bem sei o que é veneno ofídico.

— Também eu, e por isso afirmo que não morre.

— Seja. Em todo o caso quero lhe dizer uma coisa, chegue-se aqui bem perto.

Barbosa aproximou a cabeça do rosto da moça.

— A minha convicção é que morro e eu não quero morrer sem lhe contar um segredo.

— Diga, Lenita, diga o que quiser, confie em mim, sou seu amigo.

— Amo-o, Barbosa, amo-o muito...

Barbosa teve um deslumbramento. Dominou-se, curvou-se, beijou Lenita na testa, castamente, paternalmente.

— Pobre menina!... Mas não morre! Tome mais um cálice de rum, sim?

— Ora, o primeiro já me atordoou.

— É mesmo para isso, tome.

Lenita ergueu-se, bebeu a custo, recaiu pesadamente sobre o travesseiro.

— Tenho sono... quero dormir...

E fechou os olhos.

Barbosa velou-lhe à cabeceira quase a noite toda: de meia em meia hora desfazia-lhe o atilho da perna e, depois de ter restabelecido a circulação por um pouco, tomava a apertá-lo: a moça não dava acordo. Inconscientemente, a dormir, murmurando palavras inconexas; ingeriu mais dois cálices de rum que lhe fez beber Barbosa, meio à força.

Pela madrugada despertou, chamou a mucama. Barbosa retirou-se discretamente, Lenita tornou logo a adormecer.

Quando amanheceu Barbosa interrogou a mucama:

— D. Lenita urinou?

— Urinou, sim, senhor.

— Deitou você fora a urina?

— Não, senhor, está ali no vaso, dentro do criado-mudo.

— Vá buscar.

A rapariga trouxe o vaso: estava acima de meio de uma urina carregada, sanguinolenta.

— D. Lenita suou?

— Não reparei, não senhor.

— Vá ver. Se tiver suado, troque-lhe a roupa, e traga-me aqui a camisa molhada.

Dentro de dez minutos a rapariga voltou com o camisolão de dormir, que tirara de Lenita, úmido, levemente tinto em alguns lugares, de um vermelho deslavado.

Ao meio-dia a moça acordou.

Estava fresca, bem disposta, sentia-se com apetite.

Barbosa mandou vir um caldo de frango, suculento, grosso, fê-la tomar uma xícara dele e beber um cálice de vinho velho.

O coronel, informado do que acontecera, estava aflitíssimo.

— Vegetalina, por que não lhe deu vegetalina? É um grande remédio.

— Grande remédio é o álcool, respondeu Barbosa. A vegetalina e outros quejandos específicos devem o efeito, que se lhes atribui, ao álcool em que são administrados.

— Olhe que a vegetalina tem arrancado muita gente da sepultura.

— E como se dá a vegetalina, não me dirá?

— Em cachaça forte, de vinte e quatro graus.

— Ora aí está. Lenita não tomou vegetalina, e eu a considero livre de perigo.

— Tinha pouco veneno a cascavel, era pequena?

— Era enorme.

— E Lenita, acha você que esteja livre de perigo?

— Ela teve a boa inspiração de atar a perna; chupei-lhe as feridas: pouco veneno foi absorvido.

— Você chupou? E pôs fumo na boca? Não tinha alguma fístula na gengiva, alguma escoriação na língua?

— Felizmente tenho a boca perfeitamente sã.

— E que lhe deu você a beber?

— Álcool excelente, rum de Jamaica.

— Só?

— Só.

— Hum! não sei...

— O meu tratamento foi todo racional: pus em prática o que aprendi de Paul Bert, que o aprendeu de Claude Bernard. Vossa mercê conhece bem o jogo da circulação. O sangue hematoso nos pulmões vai, pela veia pulmonar, armazenar-se nos compartimentos esquerdos do coração: daí sai pela aorta, corre pelo sistema arterial, vivifica todo o organismo, chega aos capilares, transfunde-se, toma carregado de resíduos pelas veias, entra na aurícula direita do coração, recolhe os elementos reparadores trazidos pelas veias subclávias, passa para o ventrículo respectivo, volta a depurar-se, a reoxigenar-se nos pulmões, e assim por diante, sempre. Ora muito bem. No caso de uma infecção qualquer de veneno, de uma mordedura de cobra por exemplo, há três fases, três etapas indefectíveis: primeira, dissolve-se o veneno nos humores animais que se encontram na ferida; segunda, penetra o veneno nas veias e é levado ao coração; terceira, põe-se o veneno em contato com os elementos orgânicos do corpo por meio da torrente arterial. Meu pai sabe que o que constitui venenosa uma substância qualquer não é a sua qualidade, mas sim a sua quantidade: um miligrama de estricnina não é venenoso para o homem porque, tomado de uma vez, não o mata: um litro de conhaque é venenoso para ele porque, tomado de uma vez, fulmina-o. Um veneno que se elimina antes de exercer ação tóxica deixa de ser veneno. No caso de mordedura de cobra, para que o veneno produza efeito mortífero, é preciso que a sua eliminação seja desproporcional, é preciso que seja menor do que a absorção: é indispensável que haja acumulação no sangue. Pois bem: o veneno está na ferida, mas não pode subir, que lho impede uma ligadura. Impossível prolongar tal estado, traria a gangrena. Força é desfazer o atilho, deixar subir o sangue e com ele o veneno. Desfaz-se, deixa-se aos poucos, porém, de modo que o veneno que entra com o sangue não seja suficiente para produzir ação letal, de modo que seja eliminado antes que venha outra quantidade que, somada com ele, possa produzir essa ação. Assim, pois, solta-se a ligadura, aperta-se de novo, toma-se a soltar, toma-se a apertar, até que todo o veneno tenha percorrido o corpo e tenha sido eliminado sem efeito mortífero. O álcool excita os nervos, aviva a torrente circulatória; ajuda, portanto, facilita a eliminação.

— E há exemplos de curas realizadas com esse processo?

— Inúmeros. Claude Bernard salvava, quando queria, animais que ele próprio tinha ferido com flechas curarizadas. Na província do Rio uma amigo meu foi picado por um surucucu enorme, e eu salvei-o seguindo este tratamento.

— Então a Lenita?...

— É o meu segundo caso de cura: julgo-a tão livre de perigo agora como estava ontem, antes de ser picada.

— Posso vê-la?

— Por certo.

Entraram no quarto. Lenita estava sentada na cama, com as pernas encruzadas à chinesa, por debaixo das cobertas. Alegre, radiante, tinha esse ar de triunfo que têm todos os doentes escapos de moléstia grave. Um lenço de cambraia alvíssima, dobrado em tira, cingia-lhe a cabeça como um diadema, fazendo sobressair o brilho dos olhos, o negror dos cabelos, o doirado pálido das faces. Uma camisa de dormir, afogada, de seda crua, mal dissimulava nas pregas largas e moles a linha dura dos seios.

— Então, com que, pronta para outra! disse o coronel. Pois escapou de boa! É no que dão as caçadas. Podia estar morta a esta hora!

— Mas estou viva.

— E não ganhou medo ao mato?

— Não, ganhei experiência.

Serei vigilante, cautelosa para o futuro: não assentarei o pé em um lugar qualquer sem o ter examinado bem primeiro. E, realmente, mais foi o susto. Olhe eu tive um pouco de dor de cabeça, enfraquecimento geral, sonolência: sofrer, sofrer mesmo, não sofri.

— Foi feliz, acertou com bom médico.

Lenita volveu para Barbosa um olhar doce, repassado de gratidão.