A Divina Comédia/Inferno/IX

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno — Canto IX
Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro


Dante pergunta a Virgílio se havia já percorrido outra vez o Inferno. Virgílio responde que já percorreu todo o Inferno e narra como e quando. Na torre de Dite se apresentam, no entanto, as três Fúrias e depois Medusa, que ameaçam a Dante. Virgílio, porém, o defende. Chega um anjo do Céu que abre aos Poetas as portas da cidade rebelde.

Do medo a cor, que o gesto me alterara,
Ao ver tornar Virgílio em retirada,
Serenou turvação, que o seu mudara.

Como escutando, espreita; que a cerrada
Névoa os ares em torno enegrecia,
E a vista, incerta, achava-se atalhada.

— “Mas é mister vencer nesta porfia...” —
Lhe ouvi — “se não ... socorro é prometido...
Oh! quanto a vinda sua é já tardia!” —

Bem vi que das palavras o sentido,
Que a declarar apenas começava,
Fora por outros logo confundido.

Porém maior receio me assaltava,
Na reticência auspício triste vendo,
Que na expressão talvez não se encerrava.

— “A esta hórrida estância, descendendo
Do limbo, pode vir quem só padece,
A esperança”, — inquiri — “toda perdendo?”

O Mestre respondeu: — “Raro aparece
Ensejo, que um de nós a andar obriga
Pelo caminho, que aos abismos desce.

“Ali, porém, já fui, quando inimiga[1]
Esconjurou-me Ericto, que os esp’ritos
Constrangia a fazer c’os corpos liga.

“Des’pouco eu me finara: por seus ritos
Ao círculo de Judas fui trazido
Para a sombra tirar de um dos precitos.

“É o lugar mais fundo e denegrido,
Mais remoto do céu, que os orbes gira.
Sei o caminho: esforça-te, ó querido!

“Este paul, que o bruto cheiro expira,
A cidade circunda do tormento,
Onde entrar não podemos já sem ira”.

Deslembro o que mais disse: o pensamento
Da torre altiva ao cimo chamejante,
Que os olhos me prendia, estava atento.

Lá o aspecto se erguia horripilante
De fúrias três; de sangue eram tingidas,
Feminis no meneio e no semblante.

De hidras verdes mostravam-se cingidas,
Cerastes, serpes cada uma tinha
Por coma, em torno à fronte entretecidas.

Virgílio, que conhece da rainha[2]
Do eterno pranto essas ancilas cruas,
— “Nas Érinis atenta” diz-me asinha.[3]

“Megera à esquerda está das outras duas,
Chora à direita Aleto e fica ao meio
Tisífone”. — E pôs termo às vozes suas.

Co’as unhas cada qual rasgava o seio,
Com seus punhos batiam-se, em tal brado,
Que ao Vate me acerquei, de pavor cheio.

Olhando-me dizia: — “Transformado
Em pedra seja por Medusa; o assalto[4]
Do ímpio Teseu não foi assaz vingado.

— “Volta a face; de luz o rosto falto
Conserva; que, se a Górgona encarar-te,[5]
Tu não mais tornarás da terra ao alto”. —

Disse o Mestre, e volveu-me à oposta parte;
E as mãos juntando às minhas que não bastam,
Os olhos amparar-me quis dessa arte.

Ó vós cujas idéias não se afastam
Das leis da sã razão, vede os preceitos
Que destes versos sobre o véu se engastam.

Eis sobre as águas túrbidas desfeitos
Troam sons de fracasso temeroso;
Tremendo, as margens sentem-lhe os efeitos.

O tufão assim freme impetuoso,
Que, de ardores contrários se excitando,
Sem pausa fere a selva, e furioso,

Quebrando ramas, flores arrancando,
Entre nuvens de pó soberbo assalta
Feras, pastores e lanoso bando.

Os olhos descobriu-me e disse: “Exalta
A vista agora até a espuma antiga,
Onde mais acre a cerração ressalta”.

Quais rãs, divisando a cobra imiga,
Todas da água no seio desaparecem,
E cada qual no lodo entra e se abriga,

Tais milhares de espíritos parecem,
Em derrota fugindo ante a figura
Que passa; nágua os pés não se umedecem.

Movendo a esquerda mão, a névoa escura,
Que lhe era em torno ao vulto, dissipava:
Só este afã lhe altera a face pura.

Ser ele conheci que o céu mandava;
A Virgílio voltei-me, e mudo e quieto
Ao aceno, que fez, eu me acurvava.

Quantos lumes reflete o iroso aspecto!
À porta chega: ao toque de uma vara
Abre-se a entrada do alcáçar infecto.

— “Ó turba vil, que o céu de si lançara!” —
Ao limiar falou da atroz cidade,
— “Donde vos vem da audácia a insânia rara?

“Por que recalcitrais à alta vontade,
Que sempre cumpre o seu excelso intento,
E à dor já vos cresceu a intensidade?

“Cuidais pôr ao destino impedimento?
Cérbero, o vosso, na memória tende:[6]
Trilhados inda estão-lhe o colo e o mento”.

Então pelo caminho imundo estende,
Sem nos falar, os passos semelhante
A quem outros cuidados a alma prende,

Daqueles, que há presentes, bem distante.
Nós à cidade afoutos caminhamos:
Deu-nos esforço o seu falar pujante.

Já, removido todo o pejo, entramos.
Eu, que sentia de saber desejo
Quanto o forte contém que franqueamos.

Como fui dentro, a tudo pronto, vejo
Campanha em toda parte ilimitada,
Mas não espaço às punições sobejo.

Como em Arle, onde o Rône faz parada[7]
Ou junto a Pola, de Quernaro perto,
De que à Itália a fronteira está banhada,

Stá de sepulcros desigual e incerto
O solo: outros assim a estância feia,
Mas de modo mais agro, tem coberto.

Entre eles chama horrífica serpeia
E os abrasa inda mais que frágua ardente
Que arte para amolgar o ferro ateia.

Alçada a tampa, é cada qual patente.
Dali surgia um lamentar profundo,
De miséreo gemido permanente.

— “Ó Mestre meu, quais foram lá no mundo” —
Eu disse — “aqueles, que no duro encerro
Denunciam tormento sem segundo?” —

“Aqui stão os hereges por seu erro,
Com seus sequazes dos diversos cultos:
São mais do que tu crês em cada enterro.

“Iguais com seus iguais estão sepultos,
Uns túmulos mais que outros são candentes”.
À destra então voltou: com tristes vultos

Passamos entre o muro e os padecentes.

Notas[editar]

  1. Ali, porém etc.: a alma de Virgílio já desceu no mais profundo do Inferno acompanhada pela bruxa Eríton. [N. T.]
  2. A rainha, Prosérpina. [N. T.]
  3. Erínis, ou as três Fúrias, filha de Érebo e da Noite. [N. T.]
  4. O assalto etc., Teseu desceu no Inferno para raptar Prosérpina. [N. T.]
  5. Górgona, o rosto de Medusa que petrificava quem o olhasse. [N. T.]
  6. Cérbero, guardião do Inferno, que foi vencido por Hércules, quando este desceu no Inferno. [N. T.]
  7. Em Arle etc., alusão aos túmulos romanos, numerosos na Provença perto de Arles e em Pola, na Ístria. [N. T.]