A Harpa do Crente/VIII

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A Harpa do Crente
por Alexandre Herculano


Pela encosta do Líbano, rugindo,

O noto furioso

Passou um dia, arremessando à terra

O cedro mais frondoso;

Assim te sacudiu da morte o sopro

Do carro da vitória,

Quando, ébrio de esperanças, tu sorrias,

Filho caro da glória.

Se, depois de procela em mar de escolhos,

A combatida nave

Vê terra e vento abranda, o porto aferra,

Com júbilo suave.

Também tu demandaste o Céu sereno,

Depois de uma árdua lida:

Deus te chamou: o prémio recebeste

Dos méritos da vida.

Que é esta? Um ermo de espinhais cortado,

Donde foge o prazer:

Para o justo ela existe além da campa:

Teme o ímpio o morrer.

Plante-se a acácia, o símbolo do livre,

Junto às cinzas do forte:

Ele foi rei – e combateu tiranos –

Chorai, chorai-lhe a morte!

Regada pelas lágrimas de um povo,

A planta crescerá;

E à sombra dela a fronte do guerreiro

Plácida pousará.

Essa fronte das balas respeitada,

Agora a traga o pó:

Do valente, do bom, do nosso Amigo

Restam memórias só;

Mas estas, entre nós, com a saudade

Perenes viverão,

Enquanto, à voz de pátria e liberdade.

Ansiar um coração.

Nas orgias de Roma, a prostituta,

Folga, vil opressor:

Folga com os hipócritas do Tibre;

Morreu teu vencedor.

Envolto em maldições, em susto, em crimes

Fugiste, desgraçado:

Ele, subindo ao Céu, ouviu só gueixas,

E um choro não comprado:

Encostado na borda do sepulcro,

O olhar atrás volveu,

As suas obras contemplou passadas,

E em paz adormeceu:

Os teus dias também serão contados,

Covarde foragido;

Mas será de remorso tardo e inútil

Teu último gemido:

Do passamento o cálix lhe adoçaram

Uma filha, urna esposa:

Quem, tigre cru, te cercará o leito,

Nessa hora pavorosa?

Deus, tu és bom: e o virtuoso em breve

Chamas ao gozo eterno,

E o ímpio deixas saciar de crimes,

Para o sumir no Inferno?

Alma gentil, que assim nos hás deixado,

Entregues à alta dor,

Anjo das preces nos serás, perante

O trono do Senhor:

E quando, cá na Terra, o poderoso

As Leis aos pés calcar,

Junto do teu sepulcro irá o opresso

Seus males deplorar:

Assim, no Oriente, de Albuquerque às cinzas

O desvalido indiano

Mais de urna vez foi demandar vingança

De um déspota inumano.

Mas quem ousará à pátria tua e nossa

Curvar nobre cerviz?

Quem roubará ao lusitano povo

Um povo ser feliz?

Ninguém! Por tua glória os teus soldados

Juram livres viver.

Ai do tirano que primeiro ousasse

Do voto escarnecer!

Nesse abraço final, que nos legaste,

Legaste o génio teu:

Aqui – no coração – nós o guardámos;

Teu génio não morreu.

Jaz em paz: essa terra, que te esconde,

O monstro abominado

Só pisará ao baquear sobre ela

Teu último soldado.


Eu também combati: nus pátrias lides

Também colhi um louro:

O prantear o Companheiro extinto

Não me será desdouro.

Para o Sol do Oriente outros se voltem,

Calor e luz buscando:

Que eu pelo belo Sol, que jaz no ocaso,

Cá ficarei chorando.