A Luneta Mágica/II/XLI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo XLI


Entraram.

Reconheci as vozes do doutor, do mano Américo da tia Domingas, e da prima Anica.

— Ele dorme, disse a prima Anica.

— Sono reparador, observou o medico com um tom magistral.

E logo tomou-me o pulso com a maior delicadeza para não me despertar; tocou-me a fronte, passando por ela a palma da mão, e examinou-me o calor dos pés.

— Do mais grave perigo está salvo, disse então o doutor; operou-se uma crise benéfica, e a congestão foi a tempo embaraçada. Respondo pelo nosso homem.

— A noticia não pode ser mais agradável, disse o mano Américo; mas eu receio muito alguma recaída...

— Não é impossível.

— A causa subsiste...

— Que causa?...

— A posse em que ele está da luneta que supõe mágica.

— Luneta que é obra do diabo! exclamou a tia Domingas.

— Luneta aleivosa e má, acrescentou a prima Anica.

— Minhas senhoras, não indiciem acreditar no poder mágico da famosa luneta para que eu não me convença de que devo tratar aqui de três doentes em vez de um.

— Essa é boa! tornou a tia Domingas: pois seria a primeira vez que o espírito maligno fizesse das suas no mundo? Bem se diz que os médicos não são religiosos.

— O senhor doutor talvez tenha razão, disse Anica; há porém coisas que fazem tontear a gente!

— Eu creio, respondeu o médico em tom brincão: a senhora por exemplo não tem em si o espírito maligno, e contudo aposto que terá feito andar às tontas as cabeças de muitos moços de bom gosto.

— Ora, ora.

— Mas, doutor, acudiu o mano Américo; tratemos seriamente deste caso: eu também não tenho a simplicidade pueril de acreditar no poder mágico da luneta fatal; todavia meu irmão está possuído dessa idéia.

— O que é mau sintoma, convenho.

— Muita gente se julga ofendida pela luneta e a teme...

— Segue-se que também é preciso tratar dessa gente que padece tanto, como seu irmão.

— O doutor graceja...

— Não; falo sério.

— Penso que convinha muito e ainda mesmo à força tomar essa luneta, e quebrá-la.

— Francamente, disse o médico; julgo que seu irmão iludido por um suposto mágico, tem-se tornado vitima da própria imaginação exaltada no maior extremo; com efeito essa ilusão, de que ele é escravo, assumiu o caráter de mania...

— Então...

— Ou é possível ou impossível curar-lhe a manta: se é impossível, para que atormentar seu irmão inutilmente? Se é possível, nós o curaremos da mania mais tarde...

— Mas...

— Agora eu o vejo escapando apenas a um ataque cerebral que ameaçou tomar proporções terríveis, e o ressentimento de qualquer violência que ele sofresse, seria capaz de levá-lo à sepultura.

— E a influência maléfica da luneta?...

— Proíbo que contrariem e que desgostem de qualquer modo o nosso doente.

— Então ele está realmente doido, senhor doutor? perguntou Anica.

— Cuidado, minha senhora; seu primo foi multo seriamente ameaçado de uma congestão cerebral; acudimo-lo a tempo; conseguimos prevenir um caso talvez desesperado, mas qualquer imprudência pode ainda ser fatal.

— A minha pergunta...

— Foi menos prudente; se seu primo a ouvisse receberia cruel impressão. Felizmente ele dorme.