A Luneta Mágica/IV/XXI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXI


Alheio aos negócios e não conhecendo bem o valor do dinheiro; porque em conseqüência da minha dúplice miopia, miopia moral e física, meu irmão, como ia tenho dito por vezes, tomou conta da minha fortuna, e sabiamente a dirigiu, eu, neste último mês e meio despendi talvez sem cuidado nem medida, deixando-me dirigir pela visão do bem.

Deste erro, se foi erro, não tenho mais desculpa na miopia moral; porque desde que recebi as lições da visão do mal o meu espírito se esclareceu e tive consciência de que sabia e podia compreender as coisas e refletir sobre elas; ao menos porém eu acho escusa no abandono da minha educação em matéria de economia. Como não me era possível gastar, não me ensinaram a guardar, e em resultado quando pude ver e desejar, despendi sem me importar com a conta das somas que despendia.

Creio firmemente que tenho despendido muito bem; mas é certo que o mano Américo logo na primeira quinzena do mês último observou-me com doçura que eu estava gastando despropositadamente.

A visão do bem fez-me então ver, que o mano Américo assim me falara somente pelo escrúpulo com que zela a minha fortuna; confesso porém que me senti acanhado, e que experimentei verdadeira dificuldade de pedir mais dinheiro a meu irmão.

Eu já contava tantos e tão excelentes amigos que não hesitei em confiar a um deles os embaraços da minha situação.

— Há recurso fácil, respondeu-me esse fidus Achates, levo-te a um escrupuloso negociante que te emprestará todas as quantias de que precisares.

E com efeito conduziu-me à casa do mais nobre, benéfico, e generoso capitalista, que me, foi emprestando dinheiro a juros de três por cento ao mês, e assinando eu letras garantidoras das dívidas.

O processo me pareceu comodíssimo; porque eu obtinha por meio dele e com extraordinária facilidade tanto dinheiro, quanto me julgava necessário.

A minha vida econômica deslizava-se pois plácida e suavemente, e a visão do bem a abençoava, ensinando-me, que eu empregava santamente, e acertadamente algumas migalhas da minha inesgotável riqueza.

E fui vivendo assim até que em um dia rebentou a primeira bomba de uma girândola de loucuras, conforme a chamou o mano Américo.

Eu fiquei então estupefato.