A Luneta Mágica/IV/XXV

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXV


Quando me achei longe de casa e me supus livre, por algum tempo ao menos, da generosa perseguição da minha família, instintivamente procurei a luneta mágica, e senti inexprimível prazer, tirando-a do seio; em seguida apalpei o bolso do paletó, e consolei-me encontrando nele a carteira, onde eu tinha ainda de reserva alguns centos de mil-réis.

Duplamente satisfeito, experimentei logo uma exigência da minha natureza animal que as recentes emoções haviam feito calar, mas que de novo falava com dobrada força: tive fome, e dirigindo-me a um dos nossos melhores hotéis, tomei sala para dormir, e mandei que me servissem o jantar.

Como é grandioso, sublime o sentimento da amizade, quando pronto corre a cercar o amigo caído na adversidade!

Apenas sentei-me para jantar, vi-me de súbito cercado por Damião e mais seis outros mancebos que me eram dedicados, e se tinham apressado a vir em meu auxílio, e a oferecer-me os seus serviços, pois que a cidade toda já sabia, o que comigo acabava de passar-se.

Com lágrimas de reconhecimento agradeci tão doce demonstração de interesse e de estima, e convidei a esses excelentes amigos para jantar comigo.

Que duas horas gozamos! A nossa mesa foi sucessivamente servida das mais delicadas iguarias, e dos vinhos mais generosos, que deliciosamente nos prenderam juntos até o anoitecer.

Acabado o jantar, declarei com franqueza que precisava descansar e imediatamente os meus ótimos amigos deixaram-me só, retirando-se a rir não sei mesmo de quê.

Ia recolher-me, quando me apareceu o dono do hotel ou chefe da casa, a quem eu já perfeitamente conhecia e estimava, como homem de verdade, singeleza e consciência.

— Sr. Simplício, disse-me ele; eu devo prevenir a V. S.ª de que esses sujeitos que daqui saíram, são todos parasitas de profissão, e exploradores da inexperiência; o senhor deu-lhes um jantar, que lhe custa cento e trinta mil-réis, e eles desceram a escada a rir descompassadamente da sua boa-fé, a que ousavam dar outro nome que não me animo a repetir.

Fixei a minha luneta mágica sobre o homem que me falava, e com espanto meu a visão do bem me fez reconhecer que ele dizia sempre e ainda desta vez a verdade; mas a visão do bem ainda também à mesa do jantar me mostrara como protótipos de amigos fiéis e dedicadíssimos os sete mancebos que acabavam de retirar-se! . . .

Fiquei suspenso, perplexo, indeciso, triste e aborrecido.

Paguei o jantar; fui deitar-me, e ou pela fadiga resultante das fortes emoções, por que naquele dia passara, ou pela mistura dos vinhos que bebera sem dúvida menos sobriamente do que costumo, adormeci logo, caindo em profundo sono.

Despertei às duas horas da madrugada, e a meu despeito, velei até o amanhecer.

Revolvia-me na cama, contra mim próprio excitado; porque não queria refletir sobre a minha situação; mas refletia.

Cerrava os olhos para dormir; mas o espírito velava.

Chamava em meu socorro a imaginação que por momentos perturbava com ilusões forçadas a série de graves reflexões; mas em breve a imaginação se apagava, e as frias reflexões se impunham.

A força, a meu despeito embora, não dormi e refleti.

Evidentemente eu tinha despendido muito em mês e meio... mais de quinhentos mil-réis por dia, três vezes mais do que a renda anual da minha fortuna, segundo os cálculos de meu honradíssimo irmão.

Tão avultada desposa (que eu estou certo que empreguei com proveito da humanidade), sem dúvida, conforme os costumes e o modo de ver da sociedade egoísta, e dos homens da lei que não julgam pelo coração nem pelo Evangelho, será explicada, recebida e sentenciada como dissipação, e por conseqüência, e até por amor da minha pessoa, me darão um curador!...

A visão do mal me expôs a ser trancado por doido no hospício de Pedro II, a visão do bem expõe-me a ser declarado néscio, ou idiota, ou por muito favor apenas dissipador da minha fortuna, e como tal confiado, entregue absolutamente ao domínio de um curador, de um dono e árbitro da minha pessoa, de um senhor de quem serei quase escravo!

Pela visão do mal ou pela visão do bem, pelo ódio ou pelo amor da humanidade, pelo juízo mau a respeito de todos ou pelo juízo bom a respeito de todos, as duas lunetas mágicas levaram-me ao mesmo perigo, ao mesmo fim, a mesma calamidade.

Uma, a primeira me fez passar por doido; outra, a segunda, me faz passar por néscio! Doido ou néscio, não escolho; porque a conseqüência é a mesma.

O meu curador será provavelmente o mano Américo, que concebeu e lá manifestou a horrível idéia de quebrar a minha luneta mágica.

Portanto querem condenar-me à miopia perpétua, miopia que para mim é a cegueira, é a morte no seio da vida!

Desejo, tenho o direito de desejar ver, que é viver, e não querem permitir que eu viva, não me permitindo que eu veja!...

Não! não! e não!

Hei de até o extremo defender a minha luneta mágica.

E certo que começo a conceber algumas desconfianças em relação ao acerto e à infalibilidade das revelações da visão do bem.

As contradições que notei entre a inocência dos condenados da casa de correção e as sentenças sempre instas dos magistrados, e entre os sentimentos dos amigos que ontem jantaram comigo, e os avisos leais e cheios de verdade do dono do hotel desacreditam um pouco no meu conceito a visão do bem.

Se a visão do bem fosse o apólogo vivo, a expressão real da inexperiência; se pela visão do bem eu me tenho tornado o escárnio dos parasitas, o ludibrio dos trapaceiros, a zombaria de todos, o objeto da mofa e do ridículo do povo... ah! eu preferia ter sido fulminado por um raio...

O ridículo!... o ridículo é a queda no charco; é o aviltamento sem compaixão; é o pelourinho mil vezes pior que o patíbulo; é o azorrague mais cruel que a guilhotina; é a morte pelo desprezo...

Quero antes a perseguição do ódio, do que o acompanhamento do ridículo...

E dizem que riem-se de mim... que me apontam, como estúpida vitima de homens sem consciência, e de uma mulher sem brio, e sem coração...

Eu sei, e sinto, eu tenho consciência de que tudo isso é falso; mas riem-se de mim!...

Que hei de fazer?... nem sei; quebrar a minha luneta magica, origem e causa de todas estas torturas do espírito?... não; menos isso.

O erro dos homens é patente: quem vive e procede com acerto, sou eu.

Resistirei pois aos homens, e me deixarei matar, defendendo a minha luneta mágica que meu irmão condenou.

Eu refletia assim, e tinha ia esquecido as horas e o empenho de escapar às reflexões, dormindo, quando a aurora principou a espancar as trevas, e as auras matinais, refrescando o meu cérebro, me aditaram de novo e insensivelmente com o mais tranqüilo e suave sono.