A Luneta Mágica/IV/XXVI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXVI


Levantei-me às dez horas da manhã, e tinha acabado de almoçar, ouvindo o sinal de meio-dia.

Dispunha-me a sair; mas vi entrar o meu amigo Reis, que vinha de propósito visitar-me.

No Reis depositava eu e deposito confiança sem limites. Ou todos o julgam pela visão do bem da minha luneta mágica, ou se eu me engano no juízo que faço do Reis, todos se enganam comigo.

Recebi o amigo Reis, como um cego, a quem se anuncia o primeiro raio de luz, e com ele a vida pelos olhos.

Apertamos as mãos, e nos sentamos um ao lado do outro.

— Temos sofrido muito ambos, e pelo mesmo erro, disse-me o Reis.

— Como?

— Eu errei, deixando-o entregar-se a um pretendido mágico; o senhor errou acreditando exageradamente nele.

— Mas se eu vejo!!!

— É porque ele conhece e esconde o segredo de elevar a maior, a mais alto, e ainda não calculado grau os vidros côncavos destinados a corrigir a miopia; tudo mais que ele emprega é delicadíssimo artifício de charlatanismo para excitar e inflamar a imaginação.

— A sua descrença é um erro...

— A minha tolerância é que tem sido erro; a notícia que imprudentemente fez publicar na imprensa diária da corte, e a fama da sua nova luneta deram causa a que meu armazém seja com freqüência procurado por pretendentes a instrumentos mágicos de ótica, sofrendo eu perseguições e desgostos, que mal pode calcular; isso porem é o menos.

— Que é então o mais?

— A situação em que se acha.

— Que pensa?

— Ouça-me com paciência: a sua pretendida visão do bem o tornou alvo das zombarias e do ridículo...

— Do ridículo?! ! !

— Não há vadio, nem trapaceiro que não tenha abusado da sua boa-fé; o senhor aparece em público associado e convivendo com as celebridades mais imorais e desprezíveis da cidade...

— Que me está dizendo?

— A verdade; todas as senhoras conhecem já a sua... mania de se supor amado por elas sem exceção de uma só, e de amar igualmente a todas, e isso as diverte de modo tal, que nenhuma o vê que não precise de grande esforço para conter o riso...

— O riso!...

— Enfim o senhor é o divertimento de muitos, e o objeto da compaixão dos homens graves, que acreditam indispensável que sua família o sujeite a mais zelosa curadoria...

Senti que sucumbia ao peso do meu infortúnio.

O amigo Reis prosseguiu:

— Seu irmão foi hoje a nossa casa e queixou-se da maléfica influência das duas lunetas mágicas saídas das minhas oficinas; tive de reconhecer a minha responsabilidade e, pedindo perdão, assegurei que mais nunca permitiria ao armênio outra operação mágica para facilitar-lhe nova luneta.

— Que fez!... exclamei tremendo.

— Seu irmão disse-me que antes de três dias seria nomeado seu curador, e que empregará até a força para recolhê-lo ao seio da família . . .

— Três dias... e depois a privação da luneta mágica, a cegueira, e a casa tornada cárcere!!!

— Quando seu irmão saiu, fui ter com o armênio e referi-lhe a sua desgraça, a sua lamentável...

— Necedade.

— Não me animava a dizê-lo; os seus grandes prejuízos, e ridículo proceder em conseqüência da visão do bem.

— E o armênio?

— Respondeu-me, levantando e encolhendo os ombros com cure gelada indiferença.

— Estou perdido...

— Então avisei severamente ao armênio, de que eu o despediria para sempre da minha casa, se nela praticasse uma única vez mais as suas pretendidas artes mágicas.

— E ele?

— Nem sequer olhou para mim; mas riu-se com o seu rir medonho.

— Não o despedirá!

— Despedi-lo-ei, se não me obedecer. Quanto ao senhor, meu jovem amigo, submeta-se a sua sorte: volte para o santo asilo da sua família, e deixe-se dirigir e guiar por seu irmão.

— Estou perdido, repeti lugubremente.

O Reis despediu-se e deixou-me só.