A Luneta Mágica/IV/XXVII

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXVII


Meu irmão dá-me três dias de liberdade, o mesmo prazo que se concedia aos condenados à morte: três dias entre a intimação e a execução da sentença.

E todavia meu irmão é o melhor dos homens, e símbolo do amor fraternal.

Serei eu realmente néscio ou idiota?... mas eu penso, raciocino, reflito, e tenho consciência de que o faço.

Ninguém me chamou idiota, somente me julgaram doido, quando eu julgava os homens e as coisas pela visão do mal.

Será pois a visão do bem fonte de necedade?...

É certo que pela visão do bem eu vejo todos sem exceção, tudo sem exceção resplendendo pureza e perfeições; ainda não descobri defeito em alguém, ainda não pude julgar má ação alguma.

Com efeito esta inocência e perfeição de todos e de tudo excluem a idéia do pecado, e portanto a idéia do prêmio e do castigo na vida eterna, o prêmio, porque é distinção, e não podem haver escolhidos e distintos quando todos são igualmente bons; o castigo, porque não há que castigar.

Assim pois eu ataco pela base a filosofia, a doutrina católica...

Meu Deus! terei eu sem o pensar chegado até ofender a religião? . . .

A visão do bem da minha luneta será como a do mal acesa pelo demônio?... será infernal pelo excesso de mostrar sempre o bem em todos e em tudo?

Minhas idéias se baralharam, minha cabeça começou a pesar-me; receei a iminência de um ataque cerebral, ou algum acesso de loucura.

Tomei o chapéu e sai sem destino, levando fixada a minha luneta; dei por mim na Rua Direita, reconhecendo o Boulevard Carceller, e fui sentar-me isolado à sombra da árvore mais vizinha da Igreja do Carmo.

A defender-me da luneta que eu conservava fixada, levava cuidadoso. a desconfiança no coração; mas o Boulevard estava cheio de gente, de homens e de senhoras: percebi que muitos me apontavam com os dedos, que outros sorriam-se, observando-me; mas a despeito da minha desconfiança, não pude resistir à evidência: compreendi, convenci-me que estava diante de uma reunião numerosa, na qual todos os homens eram santos, todas as senhoras anjos.

Sobretudo senti que as senhoras me contemplavam embevecidas e perdidas de amor; eu ardia no fogo de vinte novas paixões!

Que sensações deliciosas!... todas essas criaturas angélicas riam-se olhando para mim, e encontrando o meu olhar, e no riso de cada uma delas eu encontrava um céu aberto, um romper de aurora no paraíso.

De súbito chegou-se a mim um mancebo com o semblante abatido, e repassado de dor, e mal podendo falar, expôs-me a sua situação que era das mais pungentes sem dúvida, e acabou, pedindo-me o óbulo da minha caridade para enterrar o filhinho, o filho único, que deixara em casa morto no colo da consternada esposa.

Vi que o mancebo, mísero pai, falava a verdade, e às ocultas dei-lhe algum dinheiro.

Seguiram-se logo ao infeliz jovem uma imediatamente depois de outra três moças que se chegaram a mim, esmolando para missas pedidas.

Essas esmolavam, rindo-se, e eram raparigas elegantes, espertas, e francamente alegronas e travessas, devendo ser conhecidas de muitos que ali estavam, pois que com muitos trocavam gracejos; chegadas porém a mim vi-as confundidas de pelo, e abrasadas de amor; fitei bastante com a minha luneta cada uma delas, e extasiei-me, encontrando em seus corações a mais santa piedade, e profundo sentimento religioso.

É claro que concorri, como devia, para as três missas pedidas. Não podia ser de outro modo.

O que me valia, considerando as três moças, e as outras senhoras, era o seu número, e a semelhança e força igual que produziam em mim tantas belezas e tão preciosas qualidades; porque eu estava doido de paixão por todas elas, e todas elas também por mim, coitadinhas!

Como isso era não posso razoavelmente explicar; era porém assim.

Todavia em seguida as moças veio logo uma velha que me confessou ser viúva pobre, tendo seis filhos, que até aquela hora não tinham almoçado... dei-lhe esmola.

Depois da velha correu a ter comigo um cavalheiro de maneiras muito distintas, e da mais perfeita cortesia, a quem acontecera um desses pequenos infortúnios, a que todos estamos sujeitos: acabando de comer pastéis, e de beber uma garrafa de cerveja, reconhecera haver esquecido a carteira, e achava-se naturalmente muito contrariado. Fiz o que qualquer outro faria no meu caso: reconhecendo a capacidade e merecimento do cavalheiro, que me pareceu trigo sem joio, entreguei-lhe a quantia necessária para pagar a despesa que fizera.

Mas após o nobre cavalheiro avançavam lá para mim dez ou doze rapazes ao mesmo tempo, quando um venerando ancião, tomando-lhes os passos, e censurando-os com algumas breves, mas severas palavras, chegou-se ao banco que eu ocupava e disse-me:

— Mancebo inexperiente! Não vê, não sente, que está sendo vítima da zombaria de gente sem generosidade ou de maus costumes?... Para que deita fora o seu dinheiro?... Aqueles e aquelas que lho tomaram, simulando morte de filho, missas pedidas, fome de família, esquecimento de carteira, estão ali dentro da confeitaria, rindo às gargalhadas da sua inverossímil credulidade, comendo e bebendo à sua custa.

Fixei a luneta e vi: o velho era respeitável como as suas cãs, puro como os mártires da fé, verdadeiro como um axioma, severo como a lei, austero como a própria virtude, justo como a sentença da sabedoria.

— Que me diz, meu amigo?

— Eu não sou seu amigo, pois que nem o conheço; dói-me porém vê-lo deixar-se depenar por mulheres perdidas, e homens sem brio.

— É demais... tenho razão para reputá-las, e reputá-los dignos de toda a consideração...

— Infeliz moço! murmurou o ancião.

E logo depois tomando-me pelo braço, e obrigando-me a deixar o banco, acrescentou:

— Retire-se; recolha-se a casa; diga a seus parentes que cuidem mais e melhor do senhor.

— Os meus parentes!... esses declararam-me guerra... são ótimas pessoas, e muito me amam; mas alucinados perseguem-me...

— Como?

— Acreditam que sou... talvez maníaco, e querem nomear-me curador.

— Deixa-me dizer-lhe a verdade?

— Sem dúvida...

— Seus parentes tem razão.

Quase que me rompeu da garganta o grito de misericórdia! Fiquei como assombrado.

O ancião repetiu:

— Pobre moço! Recolha-se a casa.

E empurrando-me suavemente pelos ombros, foi sentar-se.

Eu apartei-me do Boulevard Carceller aflito, quase desesperado, e tanto mais que escutava atrás de mim, e no lugar donde me retirava, observações epigramáticas, tristes apreciações do meu estado, e até risadas de escárnio.

Minha situação piorava, o meu espírito se obumbrava cada vez mais, e as mais turvas e sinistras idéias começavam a invadi-lo.

Entrei com precipitados passos na Rua do Ouvidor: era a hora de mais costumada concorrência.

Eu mantinha a minha luneta sempre fixada; mas fixada sem consciência porque não queria ver, e não via; também não desejava ouvir, porém ouvia.

Pelos meus ouvidos pareceu-me estar ainda no Boulevard Carceller, porque era-me impossível não escutar risadas que mal se abafavam, ou que petulantes se desprendiam.

O meu nome era repetido em tom de compaixão por alguns, em tom de escárnio por outros.

Evidentemente ninguém me considerava, como eu queria ser considerado, e tinha direito de sê-lo.

— Aí vai ele...

— E o maníaco...

— É o Simplício...

— Coitado...

Eis as palavras, as designações cruéis, condenadoras, terríveis que me chegavam aos ouvidos!

Eu continuava a caminhar apressado, furioso, fora de mim, pedindo ao céu um abismo, onde caísse de súbito, um raio que me fulminasse. . .

Eu ia indo... sempre... quase a correr: deviam na verdade julgar-me desvairado...

De repente parei: uma voz argentina, suave, melodiosa exclamara:

— Como corre o bom anjo! É pena que não me visse! Segundo a regra morreríamos de amor um pelo outro, e ele me pagaria o jantar. . .

Olhei... fixei com a minha luneta mágica o demônio que assim tão barbaramente me ridiculizava... encarei-o... observei-o com ódio.

Ah! . . .

Era uma jovem no mais belo frescor da idade: vinte anos não mais, dezoito anos não menos; cabeleira de ouro com enchentes de anéis a inundar-lhe as espáduas nuas e alvejantes... colo nu, e seios quase de todo à mostra; vestido de duas salas, e toilette com mais cores que o arco-íris, meia perna patente... botinas justas de laços com botões a brilhar e de saltos de duas ou três polegadas... olhos radiantes, e boca a rir, mostrando os dentes brancos... sublimes...

Ela tinha parado e olhava-me provocadora, insolente, como a pedir-me jantar...

Esperei três minutos contemplando-a bonita para aborrecê-la escandalosa e infame...

Meu Deus! a visão do bem mostrou-me o que ela era...

Ela era a formosura... a pudicícia... o recato... um anjo!...

Insensivelmente meus joelhos se iam curvando; eu estava quase na posição, em que os devotos adoram a divindade, quando de todos os lados estrondaram gargalhadas...

A criatura angélica, gargalhando também saltou para dentro de um carro puxado por magnífica parelha, e fugiu-me...

As gargalhadas continuavam... era como uma pateada que me davam. . .

Em desespero, em frenesi, em fúria, corri, fugindo e fui encerrar-me no hotel.