A Luneta Mágica/IV/XXX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXX


Examinei o ponto da cidade onde me achava, e logo conheci que havia parado para ver passar o préstito fúnebre no lugar, que é corte da Rua dos Barbonos, fim da das Mangueiras. e principio da dos Arcos.

A breve distancia estava pois mais adiante a ladeira do morro dantes chamado do Desterro, e desde o século passado de Santa Teresa.

Mais de um suicídio se tem realizado no alto, e nos desertos abismos daquele monte.

Instintivamente mas sem dúvida com a idéia da morte, dirigi-me para a ladeira, e comecei a subi-la passo a passo, com vagar e tranqüilidade, com ânimo sereno, e com o firme propósito de pôr termo a minha vida.

Eu não tinha comigo nem punhal, nem veneno, nem revólver, não levava pois arma, ou instrumento, ou meio de morte, e contudo subia a ladeira com intento de me matar.

A visão do bem me levava à morte.

Eu nunca visitara o sitio famoso do Corcovado; ouvira porém dizer que lá havia enorme precipício, profundíssimo abismo, no seio do qual a morte era certa para o infeliz que por acaso a ele se arrojasse.

Se as informações não eram falsas, o propósito me daria o fim, que receava do acaso ou da imprudência.

Não me era pois necessário levar comigo punhal, veneno, ou revólver: eu tinha por mim o abismo.

Fui subindo a ladeira tranqüila e pausadamente, descansando aqui, ali, e deleitando-me a ouvir o leve ruído das águas da Carioca, que em alguns pontos do antigo encanamento mandado construir pelos vice-reis do tempo colonial, parecem murmurar da negligência, ou da comparativa inferioridade da administração da nossa época, que vinte vezes por ano deixa o povo em penúria d'água, e diariamente lhe da água da Tijuca toldada, mal zelada, e não aquela tão pura e admirável a que o gentio chegava a dar o condão de acender' a inspiração da poesia

E fui subindo sempre.

A noite era formosa; a lua em fase plena mergulhava a cidade em um oceano de luz pálida, mas clara, suave, encantadora e romanesca.

Muitas vezes voltava-me para contemplar essa já grande Babel, esse labirinto de ruas que formam a opulenta capital do Brasil, e me embebia por minutos no grandioso panorama da bela sebastianópolis iluminada por milhares de flamas de gás, que simulavam enfeitiçá-la em noite de festa.

E de cada vez que me voltava para a cidade, eu dela me despedia, dizia-lhe o adeus saudoso e melancólico do filho que se separa da família, e que sabe que não voltará mais ao seu lar.

Eu subia sempre; o silêncio da noite era só interrompido pelo latir dos cães que, sentinelas vigilantes, guardavam as chácaras.

Ainda era cedo, mas a solidão completa; e todavia eu não tinha receio de encontro algum suspeito ou sinistro; receio de quê?... pobre e decidido a morrer, rir-me-ia do ladrão, do assassino que me atacasse.

Depois de muito longa marcha ouvi a voz de um homem que caminhava adiante de mim e que cantava uma rude cantiga com acompanhamento de viola, que ele próprio executava.

Apressei o passo e apanhei o cantor.

Era um guarda do aqueduto.

Trocamos a saudação de— boa noite.

— Vou seguindo o caminho do Corcovado?

— Sim senhor; mas a estas horas?

— É proibido?

— Não; já sei: quer amanhecer lá.

— Adivinhou.

— Pois eu vou dormir às Paineiras.

— Tanto melhor para mim. E das Paineiras ao Corcovado?

— Não há que errar.

Fomos seguindo em silêncio: no fim de meia hora perguntei:

— Por que não canta?

— Gosta?

— Muito.

— O canto anima o trabalho e ilude a fadiga, disse o guarda.

E afinou a viola e cantou outra cantiga também rude, e monótona, mas saudosa e melancólica.

No meio da solidão e da noite o canto do guarda produzia em mim indizível impressão de suave tristura.

Observei com a luneta mágica por mais de três minutos o guarda, e vi que era pobre, tinha mulher e dois filhos, vivia alegre, e por seus dotes merecia as honras da terra e a maior estima dos homens.

Revoltou-me a posição obscura desse homem distintíssimo pela nobreza de caráter, e pela santidade do coração.

Quando acabou a cantiga, perguntei-lhe:

— Que pensa da vida?

— Que custa a viver.

— Não é melhor a morte?

— E minha mulher? e meus filhos?

— É feliz?

— Conforme: se me dessem o dobro do que ganho, eu me julgaria dobradamente feliz um dia.

— E por que não dois dias e mais?

— Porque é quase certo que no segundo dia eu desejaria ainda outra vez o dobro do que estivesse então ganhando.

— E não tem aflições?

— Às vezes, e sobretudo quando não trabalho; mas em tais casos Luisa deixa a costura e vem perguntar-me o que tenho; correm os meninos a pular-me ao pescoço, e lá se vai a tristeza pelo morro abaixo; ou, se estou só em casa pego na viola e canto.

— Que pensa dos homens?

— Bem e mal: nem confio nem desconfio, e julgo que é melhor não pensar neles.

— Por quê?

— Porque todo tempo é pouco para cada um pensar em si, na sua família, no seu trabalho, e nas contas que deve a Deus.

Eu admirava a sabedoria do guarda do aqueduto, e compreendi perfeitamente o seu amor, o seu apego à vida pelo encanto da esposa e dos filhos.

Só o egoísta pode almejar as delícias da morte, sendo esposo e pai; eu porém procurei debalde uma noiva, não tenho filhos e posso portanto e devo morrer.

Enlevado pela conversação ia continuá-la, quando o guarda me disse:

— Estamos nas Paineiras, e aqui nos separamos.

Ensinou-me o fácil caminho que me levaria ao Corcovado, deu-me — boa noite— e desapareceu, metendo-se por um trilho quase encoberto pelo mato.