A Luneta Mágica/IV/XXXI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XXXI


Lavado de suor e arfando de fadiga cheguei finalmente a alto ermo do Corcovado.

A lua brilhava formosíssima, e consultando o relógio, mercê da minha luneta mágica, vi que eram duas horas da madrugada.

Véu impenetrável de cerração cobria o mundo nos espaços imensos em torno do Corcovado.

Eu estava em pé no trono de vasto pais, submerso em dilúvio de neblina; compreendia a soberba majestade do meu sólio; mas tinha idéia das proporções dos meus Estados.

O vento frio fazia-me tremer, o ar leve e puríssimo deleitava-me a respiração.

Sentei-me; quis pensar na morte e não pude, porque meus olhos se cerraram, e dormi.

Despertei ao primeiro raio do sol, que refletiu no meu rosto.

Levantei-me.

Era ainda cedo para ver o mundo abaixo dos meus pés e em torno do Corcovado.

Passeando pela planura, conversei comigo mesmo.

Morrerei; mas antes de morrer quero ver as grandezas da terra que deste sublime trono erguido por Deus se revelam e manifestam aos olhos do homem.

Aqui da altura direi o extremo adeus aos meus lá embaixo.

Será o último serviço que deverei a minha luneta mágica...

O último?...

Oh! eu vou morrer, por que não experimentarei a visão do futuro?... que me importa que se quebre a luneta, quando mais não posso usar dela?...

Fora loucura não tentar a experiência?...

Este novo pensamento dominou-me; fixei a luneta, e observei em volta do Corcovado o aspecto da natureza...

A cerração se desfizera de todo... o mundo se mostrava, se patenteava amplo, completamente sem véus, sem nuvens...vi...

Oh! meu Deus! eu não descreverei, não tentarei descrever o lindo, o belo, o sublime panorama, que por todos os lados, se abriu à minha luneta mágica, as cidades e povoados, as terras, e o oceano. as montanhas e os abismos, os montes e os vales, as torrentes e as pedras, o céu e os campos, a providência, e o mundo, a riqueza do favor de Deus, e a miséria da incúria dos homens!!!

Ajoelhei-me e orei.

Ergui-me e ainda uma vez, e outra, e mais dez vezes enlevei-me na contemplação das majestades da criação que em torno do Corcovado se ostentavam...

Tudo era grande, tudo menos o homem que era o perdulário, e o esbanjador sacrílego dos tesouros da terra, que Deus lhe dera...

Senti que para não odiar, desprezava o homem, desprezei-me também, lembrei-me da morte, que olvidara em minha contemplação entusiasta, lembrei-me também do suicídio e da visão do futuro.

O suicídio era fácil: um abismo estava cavado abaixo de meus pés; atirar-me a ele e não morrer era impossível...

Experimentar a visão do futuro era igualmente muito simples: bastava-me fixar a luneta mágica por mais de treze minutos sobre algum objeto.

Instintivamente lembrei-me da capital do Império do Brasil.

Ter por impressão extrema da vida uma idéia dos tempos que ainda hão de vir para aqueles que deixarei vivos, era uma ambição arrebatadora; ter por extrema despedida do mundo o quadro aberto do futuro próspero da pátria, seria a mais suave consolação, se eu pudesse conseguir a visão do futuro antes de suicidar-me.

Fixei pois a luneta mágica sobre a cidade do Rio de Janeiro e vi. . .

Durante os três primeiros minutos: força vital, prodígios de riqueza do solo do Império, majestade da natureza e em grande número de homens incapacidade, inveja, capricho, nepotismo, vaidade comprometendo tudo, sacrificando tudo, perdendo tudo no culto do egoísmo, e de ruins paixões.

Depois de três minutos até treze: a mesma e ainda mais surpreendente opulência de tesouros naturais do solo, o mais sábio governo do mundo, a população mais moralizada e pura, a constituição e as leis do Império religiosamente executadas, trabalho inteligente, a indústria esplêndida, abundância de ouro, profunda instrução em todos, contentamento geral, o céu na terra enfim...

Além de treze minutos: a visão do futuro... primeiro e de súbito imensa e compacta nuvem negra cobrindo todo o horizonte e logo através dela vivíssimo e penetrante raio de luz que me feriu e deslumbrou, que me fez recuar e cair por terra, quebrando-se em migalhas a luneta mágica de encontro a uma pedra!

Achei-me em trevas; mas ergui-me de pronto, e sem hesitar corri para o abismo e bradando:

— Adeus!...

Saltei o parapeito, arrojando-me ao profundo precipício...

Mas duas mãos possantes suspenderam-me pelas orelhas, pelas orelhas me contiveram por momentos no espaço entre a vida e a morte, e, sempre pelas orelhas, me tiraram da boca do abismo, e me depuseram no chão.

— Ainda é cedo, criança! disse a voz rouca do homem que me salvara, puxando-me as orelhas.

Reconheci o homem pela voz.

Era o armênio.