A Princesa dos Cajueiros/II

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A Princesa dos Cajueiros por Artur de Azevedo
Segundo ato


Sala do conselho no palácio d’El-Rei Caju. A cena está armada para um julgamento. No centro, uma mesa coberta com veludo. Bancos em volta.

Cena I[editar]

Cortesãos, depois Nheco, depois os Ministros, depois El-Rei


(Ao levantar o pano, cada um dos Cortesãos está a arranjar os bancos, e a espaná-los. De vez em quando param o seu serviço e impõem-se mutuamente silêncio.)

Coro - Psiu! Psiu! Psiu!...

Ninguém levante a voz neste salão!

Haja silêncio e discrição!

Psiu! Psiu! Psiu!...

(Entra Nheco. Todos se curvam.)

Nheco - Oh! não façais cerimônia

Com quem delas mestre está!

(Recomendam-lhe silêncio, e, por gestos, pedem que lhes diga o que se tem passado.)

Vós sois pessoas idôneas:

Vou dizer-vos o que há.

Atenção!

Todos - Psiu!

Nheco (Baixo.) - Atenção!

Psiu!

Todos - Haja silêncio e discrição!


I


Nheco (Com mistério.) - Caso esquisito

Que é de pasmar,

Fato inaudito

De embasbacar,

Ontem, contrito,

Presenciar

Fui muito aflito,

Quase a chorar!

Coro - Psiu!...


II


Nheco - Digo e repito

Que é de assombrar!

Nomes não cito

Que se os citar,

Desacredito

Quem devo amar!

Nomes evito

Pronunciar...

Coro - Psiu...


III


Nheco - Eu me limito

Tal nova a dar;

Nomes omito,

Que é mau palrar...

Não facilito...

Sei me guardar!

Tudo hei vos dito...

Vou me banhar!

(Vai fugindo. Os outros impedem-lhe a passagem.)


Os Cortesãos - Não se vá!

Venha cá!

Do que há

Nos fará

Narração,

Confissão!

Far-nos-á

Descrição!

Nheco (Volta, e depois de muito mistério, irrompe alto.)

- Trá lá lá lá!

Metida em maus lençóis nossa Princesa está!

Todos - Trá lá lá lá!

Metida em maus lençóis nossa Princesa está!

Ai, que o caso é muito sério!

Nheco - Eis que chega o ministério!

(Arranjam-se Todos a um lado da cena.)

Entrada dos Ministros

- Ministros somos

Do rei melhor;

Chamados fomos

Para compor

O conselho feroz que vai julgar

A Princesa que deu pra namorar!

Nheco (Aproximando-se.) - Na qualidade de mestre

De cerimônias, que sou,

Fazer discurso que preste

Neste instante tentar vou

El-Rei (Entrando.) - Silêncio! o teu discurso é natural, dispense-o

Quem está como estou eu!

Todos - El-Rei Caju!

El-Rei - Silêncio!

(Descendo à cena, sombrio.)

Tor ló tó tó!

Tor ló tó tó!

El-Rei Caju quer ficar só...

Todos (Saindo misteriosamente.) -Tor ló tó tó!

Tor ló tó tó!

El-Rei Caju quer ficar só...

Nheco (Saindo por último, ao som dos derradeiros compassos.)

- Este momento apanho

Para tomar um banho...

Cena II[editar]

El-Rei, só


[El-Rei] - El-Rei Caju quer ficar só... E para que quer ficar só El-Rei Caju? Apenas para retardar este julgamento, porque afinal de contas, sou rei, mas também sou pai! Sou pai! e hei de passar pela sensaboria de ver subir ao cadafalso minha querida filha? Sim, que a Constituição é clara neste ponto, apesar de escura em Todos os outros. (Tirando um livrinho do bolso e lendo.) “Artigo duzentos. Toda pessoa real que, esquecendo o deCoro que deve a si própria e ao povo, der escândalo público, será julgada por um Conselho composto de quatro Ministros de estado, e, averiguado o delito, condenada a pena última”. Se se pudesse sofismar este maldito artigo duzentos! Vejamos por partes: “Toda pessoa real...” Minha filha é ou não é pessoa real? É. É real. É realmente real! Mas também quem se lembra de fazer um artigo contra as pessoas reais? Vejam se, nas partes descobertas do universo, os príncipes vão ao cadafalso por causa destas ninharias!.. “que esquecendo o de Coro que deve a si própria e ao povo...” Disto se esqueceu ela... Comeu queijo... !der escândalo público...” Escândalo foi! Lá ser, foi!... É o diabo! Não há meio de sofismar! E o Conselho não pode estar à espera! (Vai chamar o Conselho e para.) Mas, afinal d e contas, qual é o crime da minha filha? A pobre pequena passava aqui uma vida levada de Todos os diabos. Um dia deu-lhe a mosca... e... psit! Isso acontece à mais pintada! E não é que o rapaz é um rapagão? Simpatizo com ele... é uma coisa esquisita! Que bonitos olhos! Parecem-se tanto com os de sua Majestade a falecida minha mulher... Que olhos! vamos lá ver essa gente... Enquanto julgam vou pensar... Hei de achar furo. (Vai à porta por onde saíram os Ministros.) Olha esse Conselho que saia! (Sai pelo lado oposto.)

Cena III[editar]

Nheco, os Ministros


Os Ministros - Não pode ser! não há tempo!

1º Ministro - Com mil raios! Pois o senhor mestre de cerimônias quer abandonar-nos no momento do Conselho!

2º Ministro - Era o que faltava!

3º Ministro - Tomar banho quando serviço do Estado reclama-o!

4º Ministro - Incúria!

Nheco - Mas, Senhores Ministros...

1º Ministro - Com mil bombardas!

Nheco - Há vinte e tantos anos que não tomo banho!

4º Ministro - Quem esperou tanto tempo, pode esperar mais duas horas!

1º Ministro - Vamos! Mande entrar os réus, ou fuzilo-o, com mil canhões!...

Nheco - Este ferrabraz bem mostra ser Ministro da Guerra! (A um gesto seu, entram Paulo e a Princesa, escoltados por guardas, e Cortesãos de ambos o sexos, ao som de uma marcha triste. Sentam-se Todos. Os Ministros em volta da mesa. Os Cortesãos em bancos. Os réus em bancos especiais.)

Cena IV[editar]

Os Ministros, Cortesãos, guardas, Paulo, Princesa, depois os Advogados


Nheco (Aproximando-se.) - Como mestre de cerimônias que sou, vou proceder à leitura do artigo da Constituição, que tem relação com o cargo vertente. (Tira a Constituição do bolso.)

Os Ministros (Tirando cada um a sua Constituição.) - Nós Todos sabemos. (Abrem os livros.)

Todos (Menos os réus.) - E nós! (Estão Todos de livro na mão; leitura geral do artigo duzentos. Lendo.) “Artigo duzentos. Toda pessoa real que esquecendo o deCoro que deve a si própria e ao povo, der escândalo público, será julgada por um Conselho composto de quatro Ministros de Estado e, averiguado o delito, condenada à pena última.”

1º Ministro - Manda entrar os Advogados. (A um gesto de Nheco, entram os dois Advogados.)

1º Advogado (Muito alegre.) - Meus senhores, minhas senhoras, bom dia.

2º Advogado (Sorumbático.) - Bom dia.

4º Ministro - Diabo! este aposto que é o da acusação!

2º Advogado - Está enganado: sou da defesa.

4º Ministro - Ah!

2º Advogado - Mas acredite que é contra a vontade... O meu desejo era vê-la morta...

Todos - Oh!...

1º Advogado (Sempre muito alegre.) - Pois eu, apesar de vir acusá-la, queria vê-la livre de culpa e pena. Que diabo! Amar nunca foi crime!

Todos - Oh!

1º Advogado (Ao colega.) - Uma proposta? vá o senhor acusá-la; eu irei defendê-la.

2º Advogado (Vivamente.) - Aceito.

1º Ministro - A seus lugares, com mil duzentas e trinta e quatro espingardas! (Os Advogados tomam seus lugares. Erguendo-se.) Estão em presença deste Tribunal... porque, não sei se sabem, isto é um Tribunal, dois réus.

3º Ministro - Não apoiado!

2º Ministro - Como não apoiado?

3º Ministro - Não são dois réus: é um réu e uma ré. (Todos riem.)

1º Ministro - Silêncio! com cem cartuchos! Cumpre-me fazer uma observação... (Ao 4º Ministro, que ainda se ri às gargalhadas.) Esteja quieto, menino! (O 4º Ministro ri-se cada vez mais.) O culpado é Sua Majestade, que fez Ministro um fedelho, que ainda cheira a cueiros. (O 4º Ministro fica sério.) Cumpre-me fazer uma observação. O julgamento do réu Paulo aqui presente, era da competência do júri popular; mas como o povo tem mostrado de algum tempo para cá certas tendências democráticas, julgamo-lo nós, para que não no-lo absolvam por lá. - O Conselho... o Conselho conhece a história deste processo sumário: por denúncia de uma mulher do povo, o Ministério, que se achava reunido por amor do tratado de casamento de sua Majestade, o Ministério foi encontrar a herdeira presuntiva da Coroa em casa do pescador Paulo. Enquanto o rei tratava de dar uma mãe à Princesa, esta comprazia-se talvez em dar um neto ao rei. - Vossa Alteza tem que alegar alguma coisa em sua defesa.

Princesa - Em minha defesa, não; mas na de Paulo: ele não sabia quem eu era.

3º Ministro - Vossa Alteza namorava incógnita?

Paulo - Nego! Eu sabia perfeitamente quem era Sua Alteza!

1º Ministro - Tem a palavra o Advogado de acusação!


Coplas e concertante


I


2º Advogado (Erguendo-se.)

- Há muito tempo eu não acuso

Delito assim tão desmarcado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

2º Advogado - Senhores meus, tão grande abuso

Deve de ser bem castigado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

2º Advogado - Está na vossa consciência

Que a tal indecência

Exemplo bom deve ser dado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

2º Advogado - Mais não digo,

Não prossigo!

O que foi vós bem sabeis!

Eu sé quero,

Só espero

Que se cumpram nossas leis!

(Senta-se.)


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

1º Ministro - A palavra agora tem

Da defesa o Advogado


II


1º Advogado (Erguendo-se.)

- O deus de amor tem uma venda;

Cupido é muito endiabrado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

1º Advogado - Eu não sei mesmo o que defenda:

No’é crime amar e ser amado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

1º Advogado - Está na vossa consciência

Não ser indecência

Ter a Princesa um namorado!


Juntos


Uns - Muito apoiado! Outros - Não apoiado!

1º Advogado -Mais não digo,

Não prossigo!

Não é crime crime tal!

Um namoro

Sem deCoro,

Nessa idade era fatal!

(Senta-se.)

Princesa (Levantando-se vivamente do lugar em que está, e vindo à boca da cena.)


Tango


- Amor tem fogo,

Tem fogo amor;

Tem fogo intenso,

Devorador!

Põe-nos em jogo

O coração,

Nosso bom senso,

Nossa razão!

E lavra,

Palavra!

Sem descansar;

Começa

Depressa,

Custa a acabar...

Todos (Erguendo-se maquinalmente e acompanhando o canto com um ligeiro movimento de corpo.)

Paulo - Todos amam: japoneses,

Chineses, ingleses,

Franceses, malteses,

Portugueses, cordoveses,

Genoveses, irlandeses,

Hamburgueses, lubequeses,

Islandeses, holandeses,

Genebreses, escoceces!

Aragoneses,

Piemonteses,

Dinamarqueses

Cartagineses!

1º Advogado - Em vez de matá-los,

Casá-los pra bem!

2º Advogado - Em vez de casá-los,

Matá-los convém!

Matá-los!

1º Advogado - Casá-los!

Coro - Muito apoiado!

Não apoiado!

(Disputa geral, animada e calorosa.)

Coro Geral - Amor tem fogo,

Tem fogo amor;

Tem fogo intenso,

Devorador!

Põe-nos em jogo

O coração,

Nosso bom senso,

Nossa razão!

E lavra,

Palavra!

Sem descansar;

Começa

Depressa,

Custa a acabar...

1º Ministro - Toca a safar! O Conselho, porque saibam que isto é um Conselho, tem que deliberar. (Os fidalgos retiram-se. Aos guardas.) Direita volver! Marche! (Os guardas saem.)

2º Ministro - Mas havemos de deliberar em presença dos réus?

3º Ministro - Passemos à sala das deliberações. Senhor Mestre de Cerimônias, fica-lhe confiada a guarda destes dois pombinhos. - Vamos! (Ao 3º Ministro.) Mexa-se.

2º Ministro - Também é tão gordo! Vejam que barriga!

4º Ministro - Pudera! É Ministro das Finanças! (Saem.)

Cena V[editar]

Paulo, Princesa, Nheco


Nheco - Vossa Alteza provavelmente vai morrer... Ao menos morre limpa... Eu parece que decididamente morro sem tomar banho! Faça idéia Vossa Alteza de que hoje, logo pela manhã, introdução de vossa futura madrasta, augusta noiva de vosso augusto pai. Ao meio dia, preparação da sala do Conselho. Eu pretendia tomar banho enquanto deliberavam: mas eis que me ordenam que vos guarde. E Todos os dias são assim!

Princesa - Nheco, és meu amigo?

Nheco - Quem pode ver-vos sem querer amar-vos?

Princesa - Pois bem, se te mereço piedade, deixa-nos a sós um momento.

Nheco - Deixar-vos a sós. Sereníssima Princesa? Vossa Alteza não viu que me confiaram a vossa guarda? Não, isso não faço eu! O mais que posso fazer é fechar os olhos... (Cantarolando)

Oh! não façais cerimônias

Com quem delas mestre está...

Princesa - Nheco, tu nunca amaste?

Nheco - Nunca tive tempo de tomar banho, quanto mais de amar...

Paulo - Descanse, pois não fugimos... Amamo-nos... Precisamos da solidão e do silêncio para desafogar...

Nheco - Ainda se eu tivesse tempo de meter-me na água...

Princesa - Anda... faze-nos a vontade... Antes de morrer, pedirei a meu pai que te aposente...

Nheco - Com o ordenado por inteiro?

Princesa - Sim.

Nheco - Então, vá lá! Se apanho a aposentação, hei de passar os restos dos meus dias metido num tanque! - Até logo. (À parte.) Não irei para muito longe... Nada, que se fugissem... (Sai)

Cena VI[editar]

Paulo, Princesa


(Correm um para o outro, abraçam-se e beijam-se ardentemente.)


Ambos - Enfim!

Paulo - Que sorte nos aguardará?...

Princesa - E fui eu que te perdi...

Paulo - Tu?! Oh! não! Não falemos nisso...

Princesa - Vivias feliz e despreocupado, em companhia dessa excelente mulher a quem tanto deves, e que a estas horas teme pelo seu destino... A caça... a pesca... era essa a tua existência descuidada! Que fatalidade nos atirou nos braços um do outro!

Paulo - Foi uma fatalidade, foi; mas não te recrimines, porque me considero feliz na minha desgraça! Morro contigo! Estava-me reservada essa ventura suprema!

Princesa - Meu pobre Paulo!


Dueto


Paulo - Que sorte funesta!

Princesa - Que funesta sorte!

Paulo - Nada mais no resta...

Princesa - Resta-nos a morte...

Ambos - Abrem-se os céus! Nas asas de ouro,

A morte vai nos conduzir!

Juntos, ó meu casto tesouro,

À eterna luz vamos subir!

Princesa - Castigo não se afigura,

Mas divinal, supremo bem,

A doce paz da sepultura

Que o fado meu trazer-me vem!

Paulo - Eu morro satisfeito!

Acaba a minha dor!

Gelado, negro leito

Encontra o meu amor!


Juntos


Paulo Princesa

Eu morro satisfeito! Serenas; ó meu peito,

Acaba a minha dor! Acabas, minha dor!

Gelado, negro leito Gelado, negro leito

Encontra o meu amor! Encontra o meu amor!

Nheco (Voltando.) - Então? Vossa Alteza já desafogou? era tempo! Aí volta o Conselho!... (A música prolonga-se em surdina até o final da seguinte cena.

Cena VII[editar]

Paulo, Princesa, Nheco, Ministros, Advogados, Cortesãos, guardas.


1º Ministro - Sereníssima Senhora, o Tribunal, porque, afinal de contas, por mais que me digam, isto é um Tribunal... O Tribunal, dizia eu, usando da faculdade que lhe faculta o artigo duzentos da Constituição do reino, acaba de proferir a sentença que tem de ser cumprida tanto por Vossa Alteza como pelo indivíduo Paulo: estão ambos condenados à pena última.

2º Advogado - Apelo!

1º Ministro - Não há apelação nem agravo! - Guardas, sentido, com três mil buchas! Meia volta à direita, e prendam! prendam! (Três guardas levam Paulo e três a Princesa. Saem Todos graves e silenciosos, como entraram. A cena fica só por alguns momentos. Cessa a música.)

Cena VIII[editar]

Barão, Duquesa, depois El-Rei


(A Duquesa entra aflita; o Barão acompanha-a no mesmo estado de agitação.)

Duquesa - Não há remédio senão confessar tudo a El-Rei!

Barão - Eu perco a cabeça! E perco mesmo: isto não é figura de retórica. Vê Vossa Excelência como o demo as arma, Duquesa...

Duquesa - Estou resolvida a tudo, contanto que salve a minha filha!

Barão - Nossa filha, Duquesa...

Duquesa (De mau humor.) - Nossa filha, Barão!


Coplas


I


Por minha filha salvar

Do cadafalso

Mil passos pretendo dar

Embora em falso...

Sofrerei negra aflição

Eterna mágoa

Se der minha pretensão

Cos burros n’água!

Sou muito forte,

Mas desvelada;

Desesperada,

Nervosa estou!

Quem já viu sorte

Que mais capriche?

Madre infelice

Mísera sou!


II


Para salvá-la verá

Que me rebaixo,

Embora o trono se vá

Por água abaixo!

Se não lhe alcanço o perdão...

Que escaramuça!

Hei de pintar o Simão

De carapuça!

Sou muito forte,

Mas desvelada;

Desesperada,

Nervosa estou!

Quem já viu sorte

Que mais capriche?

Madre infelice

Mísera sou!

Barão - Aí vem Sua Majestade. Fale-lhe, que não tenho ânimo para isso. Uf! Não me posso ter nas pernas!

El-Rei (Entrando, angustiado.) - Barão, Barão! andava à tua procura meu velho amigo! Tenho te buscado por toda a parte! Onde te meteste?

Barão - Estava receitando: Vossa Majestade sofreu um violento abalo moral: precisa medicar-se. A receita cuja confecção levou-me três horas, já foi enviada para a botica.

El-Rei - Quem te fala aqui em despesa... quero dizer: em receita? O que eu quero é salvar minha filha! Põe-te em meu lugar: faze de que conta que és seu pai! Faça de conta que é sua mãe, Duquesa. - Tu, que tanto a estimas, Barão, não te lembras de algum meio? Não se pode sofismar aquele maldito artigo duzentos?

Duquesa (Irresoluta, ao Barão.) - Vai?

Barão - Vá! Um, dois, e... três!

Duquesa (Resoluta.) - Saiba Vossa Majestade que a Princesa, se ama o pescador Paulo, não lesa a majestade, nem ofende o povo que a venera.

El-Rei - Por quê?

Barão (Consigo.) - Um, dois, e... três! (Alto.) Real Senhor, o Príncipe Paulo é vosso filho!

El-Rei - Meu filho...

Barão - Vossa Majestade lembra-se do que me disse há vinte anos quando vossa real esposa estava para dar à luz? - Doutor, há de ser uma menina ou... Tur, lu, tu, tu, tur, tu, tu... verás quem é El-Rei Caju! Ora, como a Criança que estava para nascer era um menino, levei o menino para fora. eduquei-o longe das vistas de Vossa Majestade, e a menina tem até hoje passado por vossa filha. Acontece que vinte anos depois esta trapalhada, a menina apaixona-se pelo menino, o menino pela menina, e...

El-Rei (Interrompendo-o tragicamente.) - Horror! Horror! três vezes horror! As abóbadas deste palácio repercutam ainda uma vez esta palavra: Horror! e outra: Horror!

Barão - É a mesma.

El-Rei - Afinal de contas, tiveste razão. O teu dever era salvar a própria vida. isso não impede, porém, que houvesse feito uma grandíssima maroteira!

Barão - Foi por instinto de conservação.

El-Rei - Por isso é que o rapaz parece-se tanto com minha mulher! Por isso é que simpatizo tanto com ele...

Duquesa - A natureza! a natureza!

El-Rei - Mas quem é o pai de minha filha? quero dizer - da suposta Princesa? Não lhe entrego nem a cacete! (Terrível.) De quem é a filha?... Responde!...


Terceto


Barão - É minha filha!

Seu papai sou!

Duquesa - É sua filha!

Quem tal pensou?

El-Rei - É sua filha!

Seu pai não sou!

Cruel partilha,

Desgraça pura,

A sorte escura

Me reservou!


I


Barão - Sob este corpo cansado

Que o tempo quase vergou,

Sob este corpo, coitado!

Um coração já pulsou...

Na flor da minha existência

Todo aos estudos me dei;

Namorado da ciência,

Em vez de amar, estudei

Por isso,

Ah! Ah!

Por isso,

Ah! Ah!

Tive somente um derriço

Olá!


II


Cataplasmas e calmantes,

Ungüentos e fricções;

Laxantes e mais laxantes;

Cerotos, basilicões,

Sulfatos, plantas, altéias,

Tudo o mais, que não direi,

Foi com estas panacéias

Que a mocidade passei!

Por isso,


Ah! Ah!

Por isso,

Ah! Ah!

Tive somente um derriço

Olá!

El-Rei - E esse derriço foi, Barão, que te valeu

A filha que passou por ser trabalho meu?

(A um gesto afirmativo do Barão.)

Passei por pai de quem não era!

Passo por pai de quem não sou!

Punido hás de ser tu, pudera!

Um juramento aqui te dou!

Ah!

(Dá uma grande volta pela cena, parodiando os artigos líricos italianos, e vem requebrar-se perto da Duquesa.)

Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!

Deixa, ó bela, dizer-to em francês!

Vê, meu anjo, vê que a voz me treme!

Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!


Juntos


El-Rei Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!

Deixa, ó bela, dizer-to em francês!

Vê, meu anjo, vê que a voz me treme!

Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!

Barão - Que ela o ama, que o ama, que o ama,

Caso é certo, mesmo sem francês!

Ora, faça a vontade à madama!

Ora faça, que o peço por três!

Duquesa - Oh! je t’aime, je t’aime, je t’aime,

Oh! je t’aime, meu bem, como vês!

Vê, meu anjo, vê que a voz me treme...

Oh! je t’aime, je t’aime em francês!

(O Barão e El-Rei dão juntos outra volta por toda a cena, prolongando a última nota, que a Duquesa corta de súbito, tapando-lhes as bocas quando descem à cena, cantando.)

Duquesa - Pois se me adoras,

Como protestas

E como atestas,

Meu coração,

Oh! tu, que uma alma

Tens, e tão boa,

Meu bem, perdoa

Dá-lhe o perdão!


Juntos


Duquesa - Pois se me adoras,

Como protestas

E como atestas,

Meu coração,

Oh! tu, que uma alma

Tens, e tão boa,

Meu bem, perdoa

Dá-lhe o perdão!

El-Rei - Eu, que te adoro,

Oh! pura! honesta!

Mulher modesta,


Meu coração,

Hei de, que o pedes,

Hei de lançar-lhe,

Hei de atirar-lhe

O meu perdão!

Barão - Se és bom sob’rano,

Como protesta

E como atesta

Teu coração,

Oh! tu, que uma alma

Tens, e tão boa,

Ó Rei, perdoa,

Dá-me o teu perdão!

El-Rei - Mas sem castigo não desejo eu que fique este mariola!...

Barão - É melhor que as coisas fiquem no pé em que estavam. - Vossa Majestade tem amor de pai à Princesa, não tem?

El-Rei - Por força.

Duquesa - O Príncipe Paulo passará por filho de Sua Majestade, o rei da Ilha da Guarda Velha.

El-Rei - O meu augusto vizinho?

Duquesa - Depois de entender-me com ele, anuirá ao meu pedido, e perfilhá-lo-á.

Barão (À parte.) - Hum...

El-Rei - Sim, podemos contar com o assentimento do colega, que nada te recusa, como já disseste. Demais, sabendo que Paulo é meu filho...

Barão (Timidamente.) - É verdade.

El-Rei - Bico, Senhor Barão. - Senhor Barão! Nada! De hoje em diante não é mais Barão! Se está feito Barão por ter nascido uma menina, estás elevado a Visconde, maroto! É o teu castigo! - Vai chamar esta súcia! (O Barão sai.) Vou anular o julgamento... e, para segurança de minhas netas, convocar uma Constituinte para revogar o tal artigo duzentos.

Cena IX[editar]

El-Rei, Barão, Duquesa, Nheco, Ministros, Advogados, fidalgos, fidalgas, guardas, depois Paulo, Princesa


El-Rei - Trazei minha filha e Sua Alteza o Príncipe Paulo para esta sala!

Todos - O Príncipe Paulo!

Duquesa - Esse que supondes um simples pescador!

Barão - O réu.

El-Rei - É um príncipe disfarçado. Tudo isto foi uma comédia. Queria experimentar-vos. Sois íntegros.

1º Ministro (Aos guardas.) - Direita volver! Ide buscar os réus, com trinta mil carabinas! (Saem os guardas, e voltam com Paulo e a Princesa.) Está portanto anulada a sentença proferida pelo Conselho, que, aquilo, digam o que quiserem, foi um Conselho.

El-Rei (A Paulo, que entra com a Princesa e os guardas.) - Príncipe Paulo, dê cá um abraço!

Paulo - Príncipe!!...

Barão (A Paulo.) - Tudo será mais tarde explicado a Vossa Alteza.

El-Rei (Depois de abraçar e beijar o Príncipe.) - Dê a mão à Princesa: é sua!

Princesa - Paulo!

Paulo - E Teresa? Um vez que sou Príncipe...

Barão - Não vos dê cuidado.

El-Rei - O Barão não deve ficar impune. Mas... qual deve ser o castigo.

Um Lacaio (Entrando, acompanhado de dois homens que trazem grandes caixas.) - Aqui estão os remédios de Vossa Majestade, receitados pelo Senhor Barão. A botica ficou vazia.

El-Rei - Leva-os para fora. (Saem o lacaio e os homens. Ao Barão.) Querias que eu ingerisse aquela farmácia? Por causa do meu abalo moral, não é assim? mas como a filha era tua e não minha, tu é que hás de tomar aquelas drogas. (À parte.) Achei um castigo.

Barão (À parte.) - Morri.

El-Rei (Tomando a mão da Duquesa.) - Apresento minha noiva à corte. (À Princesa e a Paulo.) Casar-nos-emos no mesmo dia... (Grandes mesuras dos Cortesãos.)


Final


Coro Geral - Viva El rei Caju!

Viva o

Rei Caju!...

Princesa - É papai, do meu agrado,

Seja Nheco aposentado!

Nheco - Se aposentação apanho,

Oh! que permanente banho!

Paulo - O meu pedido é mais sério:

Deito abaixo o Ministério!

El-Rei - Caia, pois, o Ministério!

(A um gesto seu, os Ministros caem no chão)


Coplas ao público


Sei que o desejo, e único

Dos míseros autores,

É de fazer-te rir;

Assim, pois a comédia

Dispensa os teus favores,

E seja o Ministério

O único a cair.

Tur lu tu tu

Tur lu tu tu

Eis o que quer El-Rei Caju!

Coro Geral - Tur lu tu tu

Tur lu tu tu

Eis o que quer El-Rei Caju!...


[Cai o pano]