A Pulseira de Ferro/II

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O dono da criança não apareceu, e padre Guilherme deliberou ficar com ela.

No dia seguinte, estirado na rede, em mangas de camisa, pronto para a sestazinha quotidiana, o vigário pensava que talvez fosse coisa providencial aquele intruzínho de cinco ou seis dias, que lhe atravessava no caminho. A vida lhe corria tão monótona e tão pobre de afetos em Candeias! Teria agora um ente a quem se devotasse com ternuras de pai. Queria bem a muita gente, era verdade, e dedicava-se quanto podia a todo o rebanho - mas era coisa diferente. Visitava enfermos e sãos, repartia a mancheias consolações e esperanças, acarinhava as crianças e os humildes, confortava os velhos e os tristes, e fazia tudo isso com o coração nos olhos, nos lábios, na ponta dos dedos abençoadores; mas tudo isso era apenas bondade, fruto piedoso de uma alma bem criada, que se cansara mortalmente só de percorrer com a imaginação a insondável maldade dos homens e a infinita estupidez da vida. Faltava-lhe o amor que é só amor, coisa diversa da bondade, amor de animal pelo filhote, a que não são estranhos nem os jacarés estúpidos nem os gaviões rapaces. Ia ter agora um filho, um filho quase de verdade, a quem se poderia dedicar de um jeito muito especial, bem pessoal e bem profundo... E padre Guilherme, sorrindo, sentia lá por dentro a música nova de uma paternidade inesperada.

A criança repousava no regaço da Rosa, sonolenta, chuchurreando maquinalmente a chupeta. De quando em quando, vagia baixinho, e o padre levantava a cabeça, à escuta:

- Ó Rosa, por que é que ele está chorando?

- À-toa, seu padre; porque é chorão.

Daí a pouco:

- Ó Rosa, não falta nada para esse pequeno?

- Não falta, respondia a mulata lá de dentro, abafando o riso na mão colada à beiçaria. E consigo: - O que é que havia de faltar, já se viu!

Padre Guilherme estirou-se mais na rede, cerrou os olhos sob o braço dobrado por cima da cabeça, e dormiu. A hora era propicia. Dentro, silêncio completo: a criança ressonava, a Rosa entrara a colhilar. Fora, só a chiadeira terebrante das cigarras, sob a curva do céu limpo, e ao longe, um retinir sacudido de malhos sobre a bigorna, na tendinha do Totico. O vigário dormiu beatificamente, a boca meio aberta, arrancando do goto, de quando em quando, um ronco arrastado e. feroz.

Sonhou com a criança, segundo confessou no mesmo dia ao bacharel Veloso, seu companheiro das palestras vesperais à frente da casa, sobre a calçada. Sonhou que o pequerrucho morrera, já homem, engasgado com a chupeta, e que a Rosa e o sacristão o esquartejavam, no largo da Matriz, com auxílio do Vito, que ria nos dentes brancos e fazia visagens de macaco satisfeito. Acordou sobressaltado, suando, com as mãos enclavinhadas nas franjas da rede, a boca aberta e seca. Olhou em torno, pôs-se à escuta. O silêncio era uma grande lagoa dormente, no meio da qual o padre vigiava, como numa ilha; e, semelhante aos frisos e arrepios que um ventinho brincalhão põe na superfície das águas paradas, chegava da cozinha um arruído ritimado, surdo e monótono - era a Rosa a aventar o feijão numa peneira, para o dia seguinte, sentada com todo o corpo na soleira alta da porta que dava para o quintal. Embaixo da rede, enrodilhado sobre os chinelos do padre, ronronava o seu gatarrão favorito, o "Chibante", luzidio, plácido e mimoso como um pecado. Na sua gaiola à janela, perto da mesa de jantar, entre as sombras leves das madressilvas, o papagaio cabeceava; e, fora, um casal de borboletas amarelas ia e vinha, revoluteando, bailando a uma música que só elas ouviam, na boca do túnel verde formado pelo estaleiro das abóboras.