A alma do outro mundo/II

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A alma do outro mundo por Guimarães Júnior
Capítulo II

Rosinha ia fazer nessa época 22 anos. Estava na plena aurora da sua beleza e da sua mocidade. Não era das moças frágeis e pálidas dos nossos salões, que exprimem no sorriso magoado e na fronte abatida o cansaço proveniente das festas ruidosas em que o viço da mulher mais rápido foge do que o aroma das flores e a polpa do fruto abandonado.

Rosinha era forte, robusta, formosa, como uma verde floresta em todo o vigor da primavera.

Os seus olhos, de um negro magnífico, derramavam no mais simples movimento ondas de luz, e de sua boca, rubra como a pevide da romã, o sorriso fugia mais meigo e puro do que a espiral do incenso transparente.

Tudo nela valia um tesouro, um tesouro de lei, um tesouro virgem e copioso.

Era alva como o dia, e terna como os hálitos da noite.

Os rapazes do lugar andavam todos às tontas por causa da filha de José Paz.

Ela, porém, meneava a eloqüente cabeça e com um sorriso entre a ironia e o gracejo, despedia, um por um, os suspiros dos seus inúmeros namorados.

José Paz dissera-lhe um dia:

— Que tal achas o Manuel dos Afogados, hein?

Rosinha fitou os olhos rasgados e úmidos na boca entreaberta do rotundo autor de seus dias.

— Por quê?

— Responde direito, pequena. Isso não é responder ao que te disse!

— Por que me pergunta, meu pai? — repetiu ela tornando-se séria e pensativa.

José Paz era bronco, ótimo homem excelentíssimo cidadão, respeitador do próximo... mas bronco. Tem paciência, meu velho! Tu eras redondamente bronco!

Não compreendeu a intenção da filha e quis fazer valer os seus direitos paternais, sufocando na nédia perna duas volumosas palmadas.

A moça quebrou entre os dedos frenéticos as pétalas de um bogarim, e:

— Faça-se um favor, meu paizinho, um grande favor. Olhe: nunca me fale em casamento!

— E quem te disse que se tratava de casamento?

— Nada mais simples. O Manuel escreveu-me...

— Oh?!

— É verdade, escreveu-me!

— E o que rezava a carta?

Os olhos de José Paz faiscavam de curiosidade e de cólera.

— Pedia-me permissão para lhe falar nas suas idéias a meu respeito. Respondi-lhe que não lha dava e acabou-se!

— Toma uma beijoca! Toma!

Rosinha, sorrindo entregou as faces ao pai, que as expôs a um dilúvio de beijos tempestuosos.

O Manuel dos Afogados recebeu à noite um robusto desengano da boca de José Paz.

As amigas às vezes falavam-lhe em casamento. Rosinha erguia desdenhosamente os ombros e olhava com tristeza para o céu.

— Tens alguém de olho, hein! O Chico do Silva? O Clarindo da Eusébia? O Clarindo! Não se me dá de apostar em como é o Clarindo!

— Nem um, nem outro. o homem que eu hei de estimar um dia...

— Acaba!

— Ainda não nasceu, tola!

E terminava a sessão entre gargalhadas e motejos gerais.

A alma de Rosinha era semelhante a esses jardins agrestes que brotam no meio das florestas, cheios de plantas e de flores, mas sem o menor cultivo.

Faltava a tesoura do sagaz jardineiro para alinhar os graciosos canteiros e os selvagens pendões; essa tesoura era o amor que, mais dias menos dias, nos ataca nas encruzilhadas, altivo e irresistível como os bandidos espanhóis.

O amor, para Rosinha, valia o que vale uma folha seca no mais copado arvoredo da mata, um fruto mirrado no galho das mangueiras abundantes. Ela ria-se à idéia de poder amar um dia, o seu espírito brilhante arrufava-se ao simples pensamento de entregar aquela mão branca e acetinada às mãos absurdas dos habituais namorados do Jordão.

José Paz era homem de faca e calhau, como se dizia no tempo das frases sinceras. Adorava a filha e tinha horror aos janotas do Recife.

O caso passou-se da seguinte forma.

A madrinha de Rosinha, senhora de altos haveres e elegante posição habitava um custoso palacete na capital de Pernambuco. José Paz, que a conhecera no tempo em que a troca de alguns produtos agrícolas haviam-no conduzido à cidade convidou-a a ser madrinha da pequena. A mãe da menina morrera no ato de dar à luz a filha. José Paz, bronco mas prudente, pusera na pessoa da comadre todas as suas grandes esperanças para os dias das provações e das desventuras.

— Eu sou pobre — dissera ele -, porém sou arreconhecido. Vossa mercê verá. E, depois, a pequenina é uma mangabazinha! É bonita e jeitosa como os passarinhos do céu!

A ricaça sorrindo respondera à esquisita fraseologia do matuto com a mais fina e generosa cordialidade.

— Quer fazer o batizado aqui no Recife, ou prefere que eu vá ao Jordão? Estou pronta.

— Muito agradecido a senhora! — acudira o pai vermelho de gratidão e de calor. O batizado há de ser aqui mesmo. Eu trago a filhinha! Não me custa um fio de cabelo da cabeça!

Realizou-se, pois o batizado de Rosinha no Recife, com todo o aparato e pompa.

José Paz abria enormes olhos e desprendia uns suspiros capazes de, em colaboração com a trombeta de Jericó, abalar os alicerces do mundo.

A esplêndida comadre chamou-o à parte, à noite, e:

— Saiba de uma coisa, meu caro senhor — disse ela sorrindo meigamente. — Esta menina, de hoje em diante, considero-a filha minha!

José Paz cortejou três vezes, puxando os manguitos do casaco.

— Portanto, compadre, hei de ir mais de uma vez vê-los no Jordão, lugar que adoro, e outras vezes Rosinha virá passar comigo...

— Pouco tempo, sim, comadre? Pouco tempo. Esta menina é a coisa melhor que eu tenho no mundo e repare! Repare! Nos seus olhinhos parece que eu vejo rir para mim a alma da defunta!

O pobre do homem idolatrava a criança, como um náufrago o frágil remo que o ampara do choque horrendo das ondas.

Rosinha cresceu à sombra dos cuidados paternos e dos carinhos de sua ilustre madrinha. A comadre de José Paz ia de longe em longe ao Jordão, e era sinal de festa a presença da milionária entre os habitantes do lugarejo.

No tempo em que Rosinha contou 21 anos, a madrinha foi ao Jordão buscá-la com o maior alvoroço.

— Mas no dia dos anos dela! — murmurou José Paz, enfiado com a exigência da comadre.

— É por isso mesmo, compadre. Hoje à noite dou uma soirée...

O honradíssimo matuto abriu os olhos prodigiosamente.

— Soirée! — articulou ele, trôpego e pasmo.

— Não é caso de morte, não, meu amigo. Uma soirée é uma reunião alegre, galante com muita música, muitas moças, muitos rapazes distintos.

José Paz escapou de engasgar-se engolindo a frase dos rapazes distintos.

— Minha afilhada é moça de mais ou menos sociedade, e eu quero dá-la por pronta em pouco tempo.

— Pronta para quê, comadre?

— Santo Deus! O senhor está hoje com a bílis horrivelmente excitada, compadre! Diga-me uma coisa. Acha que eu estimo sua filha?

— Oh! Muito!

— Bravo; nesse caso deixe-me ser sempre guiá-la no mundo.

— Mas — gaguejou José Paz, esfregando um botão do colete a ponto de arrancá-lo — a Rosinha pouco pode ser, por mais que vossa mercê deseje! A pobreza...

— Quem lhe lembrou agora a pobreza, homem?

— Isso não precisa lembrar, comadre — atalhou José Paz com o sorriso triste; — é o meu pão nosso de cada dia!

— Espero em Deus proteger sua filha sempre — prosseguiu a milionária, ferindo o chão impacientemente.

José Paz meteu a viola no saco, e pôs-se a contar as tábuas do assoalho.

— Levo-a hoje; o trem de ferro não tarda. Rosinha! -chamou ela com a voz vibrante e imperiosa.

A menina veio abraçar a madrinha e receber-lhe a bênção, envolta em ondas de alegria.

A ricaça bateu nas faces da afilhada com um certo ar de importância materna que lhe ia às mil maravilhas.

— Veste-te depressa, anda.

— Aonde vou eu? — perguntou a menina, fitando os olhos luminosos no rosto carrancudo do pai.

— Vais ao Recife, vais à minha casa, vais a um baile!

— Vossa mercê — interrompeu José Paz, trêmulo — disse ainda agora que era uma... uma...

— Soirée ou baile vem a ser o mesmo, compadre. Uma soirée soberba, Rosinha! Hás de te recordar ainda dos lanceiros de que tanto gostavas? ... Tra, la, la, la, la, le, li, la, la!

José Paz estava em brasas; o suor corria-lhe da testa à barba com a rapidez das enxurradas nas grandes cheias.

A milionária acompanhou Rosinha ao quarto da menina, e enquanto auxiliava-a na simples e graciosa toalete:

— Prepara-te, meu bem que nunca te divertirás como hoje à noite!

— Hoje é o dia dos meus anos — volveu Rosinha enfiando o corpete de lã salpicada.

— Pois festejaremos o dia dos teus anos às direitas! Toma, toma o alfinete.

— E espera muita gente, minha madrinha?

— Alguma; gente escolhida, já se vê. Amanhã iremos passar o dia em Caxangá!

— Oh! Eu não volto de manhã cedinho?

— Qual!

— Papai maça-se deveras!

— Teu pai é um grosseirão de lei. Se não fosse teu pai e meu compadre, eu o trataria hoje como merece!

— Por que, Virgem do céu?

— Imagina que lhe falei na soirée, e o pobre do homem franziu o nariz, como se eu te fosse levar à tua perdição e ao teu mal!

— Ah! Ele franziu o nariz?

E Rosinha mirou-se ao espelho, parando por um instante os olhos inteligentes na sua imagem um pouco desmaiada e pensativa. As mãos que acolchetavam o vestido caíram frias ao longo do corpo.

As lufadas do vento norte traziam o longínquo uivo do vagão que se aproximava.