A alma do outro mundo/IV

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A alma do outro mundo por Guimarães Júnior
Capítulo IV


A alma de Rosinha sobressaltou-se daí por diante, mais de uma vez, com a lembrança da noite da festa. Os rumores da música, o cheiro das flores e o cheiro das cambraias roçagantes, o fulgor vertiginoso das luzes, todo o romance provocador do baile e dos salões abria-se de par em par ante os olhos estáticos do seu coração virginal.

No recato sossego do humilde quarto do Jordão ela procurava debalde sufocar os gritos da recordação pungente e deliciosa que a atormentava sem cessar. Era uma luta tremenda em que o seu espírito estorcia-se ofegante.

Os luminosos fantasmas daquela noite do delírio e do prazer vinham reclamar à cabeceira da menina uma lágrima ou um sorriso de sincera reminiscência.

Ela abria a janela da alcova, debruçava-se febril, como se quisesse atirar-se à estrada deserta, e embebia os olhos abrasados nos nevoeiros esparsos.

— Meu Deus! — exclamava, unindo ao seio as mãos palpitantes. Isto não acabará nunca?

José Paz recebeu em sua alma, como um choque imediato, a melancolia da filha. Ficou sombrio, mudo, intratável, ele que era a tagarelice em carne e osso!

Foi aos Prazeres onde tinha negócio a tratar, e quando passava em frente à capela, viu no adro o vigário da freguesia.

José Paz cortejou-o humildemente.

— Por aqui, sr. José? Isto é volta de negócio, hein?

— É verdade, sr. vigário. Vendo falar com o Manuel do Ó a respeito de umas tábuas de pinho que me encomendaram dos Duros.

— Chegue-se, homem, chegue-se. Que cara é essa? Pareces-me assombrado! Tem te ido mal a vida?

O vigário era um homem repolhudo, sincero e de excelentes qualidades intelectuais. O povo dos arredores e da freguesia adorava-o e recebia-lhe as palavras como bálsamo para todas as dores.

É fora das cidades que ainda se pode encontrar hoje o verdadeiro culto e o sagrado respeito que o povo consagra aos sacerdotes de Cristo.

Em abono da verdade, declare-se já que o padre da roça, ou cingindo-nos à gíria do norte, o padre do mato, com dificuldade poderá conseguir ser mau entre as ovelhas do seu rebanho. Dir-se-ia que a solidão e os costumes inocentes desses lugarejos são incentivo profundo para a religião e para o comércio espiritual dos pastores da Igreja com os sentimentos de caridade, pobreza e santidade, impostos pela doutrina de Jesus.

Fiéis vivem ali em face da natureza brutal, virgem, robusta, cheia de divinos murmúrios e lampejos misteriosos, como os primitivos anacoretas no oásis do seu deserto, com a alma aberta às irradiações do céu e aos saborosos favos da meditação.

O crime refugiado nos centros das faustosas capitais deixou em invulnerável tranqüilidade o campo, onde se manifesta a plena luz a onipotência da virtude e a virtude da religião.

E, depois, tudo por lá explica a harmonia desse calmo poder, que faz girar a Terra tumultuosa, que acende o facho eterno dos astros, e derrama no cálice das flores a gota de orvalho e a gota de ambrosia.

Crescem as árvores sem tropeços nem estufas, salta do botão a rosa livre do monstruoso enxerto, deslizam as fontes, à vontade, entre as gramas verdes e por baixo das lianas virgens que se entrelaçam, jorram as cachoeiras, espalmam-se as ramas, suspiram as aves e cruzam-se no ar as borboletas de ouro, sem que a mão do botânico, a sanha do naturalista assassino, estorve-lhes o caminho, mude-lhes o rumo, corte-lhes as raízes, arranque-lhes as penas e cosa-lhes as asas independentes!

Como não ser religioso, não ser bom, não ser puro e nobre, cercado de tanta pureza e de tanta liberdade?

José Paz aproximou-se ao vigário, descobrindo-se com o mais infantil respeito.

— Então? Não me respondes, homem? Estás com a cara amarrotada hoje!

— Nem sempre a gente é feliz, sr. vigário!

— Conta-me lá as tuas infelicidades, anda. Senta-te aqui.

Acondicionou-se o padre sobre o musgoso paredão que rodeava o adro, e acenou a José Paz que fizesse o mesmo.

— Obrigado a Vossa Reverendíssima. Eu pouco me posso demorar. Ainda quero voltar com dia ao Jordão.

— A propósito, e tua filha?

José Paz devorou um retumbante suspiro.

— Vai de boa saúde, graças a Maria Santíssima.

O padre fitou lentamente o semblante carrancudo do matuto.

— Ora vamos, sr. José; você alguma tem que me esconde.

— Eu!

— Sim, você. Suspirou falando em sua filha de maneira a fazer-me acreditar em alguma coisa má que lhe tenha acontecido.

— Pois aí vai, sr. vigário. Pão, pão, queijo, queijo.

— Desembucha, homem!

— A pequena foi há poucos dias a uma... uma, não sei o que, um baile, parece-me que se chama também baile, no Recife, em casa da madrinha.

— A tal senhora rica?

— Isso mesmo. Eu teimei em não deixá-la arredar pé de minha companhia; mas Deus quer, Deus manda, o depois eu devo favores a comadre!

— Sê grato que o céu te agradecerá.

— Foi-se ao tal baile a menina, e voltou-me triste, que é mesmo de espantar a gente. Leva as tardes inteiras sem tugir nem mugir, ora lendo em um livro, ora revirando os olhos para o céu.

— Que lê ela com tanto interesse?

— Disso não entendo eu, sr. vigário. Mas a pequena foi sempre amiga de livros, e me parece a mim...

— Parece-te a ti, toleirão, que deverias ter proibido essas leituras, que nunca trazem ventura aos espíritos fracos e às almas vacilantes. Queima-lhe todos os livros.

— Oh! Sr. vigário!

— Queima-lhe os livros; é o primeiro passo para a salvação dela, e em seguida... mas tu não o farás!

— O quê?

— Não a deixes passear muito pelo Recife, nem figurar em casa de gente rica. A moça pobre, José, só possui a sua virtude que é o seu dote e a sua salvaguarda. Os bailes quase sempre são os inimigos da virtude!

José Paz deu um salto mortal, e fez-se da cor da cera.

— Não me compreendeste, homem. Tua filha é menina inteligente sagaz e delicada; conheço-a perfeitamente, e mais de uma vez lhe ministrei com as minhas mãos o doce corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se ela fosse uma brutinha, eu nada te diria; porém as relações com a madrinha, o tempo de colégio, e mais do que tudo, a sua finura de inteligência, ser-lhe-ão de pouco amparo, desde a hora em que o inimigo começar a fazer das suas!

— Vou queimar os livros todos!

— Estas tristezas dela têm por origem a idade e o melindre de sua natureza especial.

— Oh!

— Que é lá?

José Paz ia dar saída à palavra, e estacou de súbito.

— Fale! Fale, sr. José Paz, que fala com um amigo.

O matuto abaixou a voz:

— Rosinha trouxe uns vestidos, que a madrinha lhe deu, e umas bugigangas esquisitas.

— Incomoda-te isso?

Os olhos de José Paz fulguraram como as asas de um vaga-lume.

— Vou queimar tudo! exclamou ele vitoriosamente.

— Nada de bestidades, José!

— Nem bestidade, nem meia bestidade, sr. vigário! Ainda ontem estava a pequena a botar uns olhos tristes por cima do vestido estendido na cama, que fazia dó, O tal vestido cheio de requififes e trapalhadas com que ela foi ao baile da madrinha!

— Isso é próprio da idade, homem! Deixa a pequena. Em se tirando à mulher o vestido, é o mesmo que aparar as asas de um curió! O vestido é a asa dela!

— Por isso — replicou José Paz sentenciosamente — não é preciso que ela voe!

O vigário riu-se da saída do matuto, e pondo os olhos no horizonte, onde se aglomeravam com instantânea rapidez nuvens sobre nuvens:

— Vá tratar dos seus negócios, vá, José, que não tarda por aí algum chuvisco forte. Deus o guarde, e também à pequena.

— Amém, sr. vigário, e a Vossa Reverendíssima por muitos anos.

José Paz despediu-se do padre e já distava uns 20 passos do adro, quando o vigário o chamou de novo.

— Não faça asneiras José! Com bons conselhos e carinhos é que se levam as almas delicadas. Se tu entornas o caldo!

— Vossa Reverendíssima sabe quanto eu quero àquela filha; é a menina dos meus olhos e o sangue de minhas veias. Mas...

— Mas o quê? Acaba!

— Mas queimo-lhe os vestidos! Lá isso queimo!

E dobrou a encruzilhada que o conduzia à casa do Manuel do Ó.

O vigário gastou alguns momentos a contemplar a viagem ondulante das nuvens, que corriam para o poente.

José Paz chegou ao Jordão pela volta das sete horas; era noite fechada e a tempestade, que de todo havia desaparecido, fora substituída pelos meigos suspiros da aragem noturna e pelo revérbero dos astros no firmamento tranqüilo.

Rosinha estava à janela do seu quarto quando o pai bateu à porta.

José Paz entrou pensativo na pequena e pobre casa de sua residência. Deu a mão a beijar à filha e sentou-se com estrondo em um velho banco, que gemeu amedrontado.

— Falou com o Manuel?

— Falei, mas não se arranjou nada. Ando agora na maré das caiporas!

— Por que diz assim meu paizinho?

A menina enrolou os braços no pescoço do matuto, e encostou-lhe à barba hirsuta o rosto perfumado.

José Paz estremeceu, vítima de um ataque de ternura e com a mão livre acariciou a onda dos cabelos negros da menina, desmanchados sobre as costas virginais.

Imediatamente, porém como se fora mordido por uma cobra traidora, ele afastou de si Rosinha, e levantando-se de repente:

— Tu me queres fazer uma coisa que vou pedir?

A menina contemplou-o pasma.

— O que é?

— Está uma noite que faz gosto, e na porta do Chico há gente muita. Eu vou lá dizer que te venham buscar para um passeio.

— Mas meu pai..

— Vives aqui metida agora, que é um agouro tal e qual! É bom saíres, tomar ar, respirar à farta. o próprio sr. vigário...

— Que tem o sr. vigário? — acudiu Rosinha de minuto em minuto mais admirada.

— Nada; com o sr. vigário a coisa é outra. Fazes-me a vontade, não fazes?

— E vosmicê também vem?

José Paz recuou dois passos como se o apanhassem em flagrante delito.

— Eu não! Eu fico! Preciso ficar mesmo!

— Para quê?

— Ai! Ai! Isto é muito perguntar, minha dona.

— Só, não o deixo.

— Para ir ao Recife com tua madrinha me deixaste!

— Papai!

— Para ir ao baile da madrinha também me deixaste!

— Mas...

— Para dançar com o diabo também me deixaste!

— Não fale assim, meu Deus!

José Paz estremecia vivamente e o suor gotejava-lhe da cabeça descoberta.

— Portanto — terminou ele com voz firme e as sobrancelhas torcidas -, hás de fazer-me o favor de me deixar agora também!

E saiu arrebatadamente de casa.

Duas ou três raparigas do lugar, que estavam à porta do Chico valente, vieram buscar Rosinha.

A menina envolvera-se em um xale e esperava o resultado das extravagâncias paternas. O que seria aquilo? Por que motivo José Paz teimava em ficar só em casa naquela noite? Rosinha perdia-se em um dédalo de suposições impossíveis. Quando ela saía no grupo das raparigas, José Paz entrava em casa e fechava-se hermeticamente por dentro.

O matuto não dava para ladrão, decididamente.

Ao penetrar no quarto da filha as pernas oscilavam-lhe, como um mato de bambus fustigados pelo vento norte. Os olhos mexiam-se-lhe nas órbitas, à semelhança de duas quase extintas brasas, que de vez em quando desprendem um fugitivo clarão sanguinolento. Parou, prestando ouvido aos rumores suspeitos. Mas apenas a aragem nas árvores e o som flébil das vozes afastadas turbavam o repouso da noite. José Paz criou coragem, e abriu com a mão febril o baú da filha.

O quarto estava às escuras; por precaução o matuto apagara o candeeiro e o velho lampião, únicas luminárias dos seus domínios. Foi pelo tato que ele se aventurou entre as cassas, crivos e chitas do pobre guarda-roupa da menina. Apalpou nos cantos do baú, e seus dedos curvos arranharam a capa de cinco ou seis livros. Era a biblioteca de Rosinha: o Simão de Nantua, o Tesouro de Meninas, Paulo e Virgínia e outras produções da musa inocente e simples. O larápio, que descobre um saco de moedas, não exala suspiro de maior satisfação do que o que rugiu nas cavernas do peito de José Paz. Apertou nas mãos frenéticas os livros e uniu-os ao seio úmido e agitado.

Com a outra mão pôs-se a reconhecer de um a um os vestidos da filha.

O primeiro que caiu-lhe nas garras foi o da soirée do Recife. Era ele, era ele com toda a certeza! Aquela doçura da cambraia, as rendas e o perfume, até o perfume guardado nas flácidas dobras, como uma pura recordação!...

Os dedos nervosos fizeram do vestido uma trouxa brutal e o arrancaram do baú violentamente, enquanto um grito de prazer voava da garganta de José Paz. Depois do vestido, o lenço bordado, os laços da cintura e dos ombros, as botinas de cetim e o leque tiveram o mesmo destino impiedoso.

José Paz fechou cautelosamente o baú, e dirigiu os passos trôpegos para fora do quarto. O latido de um cão na vizinhança fê-lo parar trêmulo no limiar como um malfeitor surpreendido A respiração assoviava-lhe através das úmidas narinas.

Carregado com o leve fardo, chegou à pequena cozinha e tirou da janela uma acha de lenha inflamada. Sacudiu-a no ar, e as chamas estalando com a resina do graveto aclararam o compartimento. A porta da cozinha dava para uma espécie de quintal, um terreiro despido de árvores, em cujo fundo corria uma parte da mata espessa.

Lançando ao meio do terreiro os vestidos e os livros José Paz tornou à cozinha e arrebanhou uma multidão de galhos secos e rolhas de cajueiro. Voltou de novo ao lugar onde deixara a pilhagem e, ajuntando em um molho compacto os galhos e as folhas, aproximou-lhes a chama do graveto. Repentinamente as labaredas da fogueira contorceram-se na pálida escuridão.

De joelhos, defronte das chamas, José Paz quis saborear por partes distintas, como um bom bebedor, gole a gole, a sua vingança e os resultados agradáveis de sua desafronta paternal. Lançou nesse novo auto-de-fé os livros em primeiro lugar, um por um, rasgando-os as folhas purificadas pelos olhos da ingênua leitora.

Quando se faziam em cinzas os volumes do Tesouro de Meninas, ele exclamava, batendo palmas e soltando uns uivos de alegria lupina:

— Queima-te, diabo! Queima-te, cão! Arde p'raí, tinhoso de uma figa!

Sucedeu ao Tesouro de Meninas o proverbial Simão de Nantua, a este o mimo de Bernardino de Saint-Pierre, e assim por diante. José Paz saboreava o estrago com o entusiasmo dos inquisidores espanhóis nas suas piedosas vinganças,

Chegou a vez do vestido e das restantes vítimas.

O leque abriu o caminho. As elegantes varetas de sândalo racharam-se ao primeiro contato do fogo.

Um meigo perfume elevou-se em espiral da chama azulada, como o incenso da formosura, o incenso do amor, o incenso da mocidade!

As botinas arderam com uma velocidade espantosa, José Paz, alegríssimo, alegríssimo e rubicundo, ia lançar à fogueira o vestido quando bateram repetidas vezes à porta da casa.

A mão erguida continuou a sustentar longe da chama a alva túnica, que o vento afagava como afaga a nuvem e as espumas.

As pancadas na porta reproduziram-se com mais vivacidade. José Paz, atordoado e confuso lançou à fogueira o vestido e correu à casa, Sem pensar sequer em desmanchar os vestígios do seu crime, o matuto puxou os ferrolhos da porta.

Era Rosinha.

— Que escuridão! — disse ela.

José Paz conservava-se calado.

Nesse momento abriu-se na fogueira mais larga labareda que refletiu até a estrada.

— Que luz é esta?! — exclamou Rosinha admirada. — Que vem a ser este fogo?

E correu à cozinha. José Paz seguiu-a como o perdigueiro segue as pistas do caçador precipitado.

Rosinha viu a fogueira no terreiro e dirigiu-se para lá. Voavam lutando com o incêndio alguns pedaços da cambraia e das rendas. Duas ou três capas de livros, torcidas e negras, feriram os olhos da menina que duvidou do que via.

— O que é isto, meu pai?

— Queimei tudo! Tudo! — bradou José Paz, com um grito de entusiasmo... — O teu vestido, a ventarola, os livros, os sapatos, tudo o que te estava tirando o sono e fazendo-te ficar triste à toa!

— Mas está doido, Deus do céu!

José Paz ria-se freneticamente e agarrando nas mãos geladas da filha:

— Já o demônio não te há de tentar mais, nunca mais, nunca mais! Foi o vigário quem me ensinou o remédio!

Os negros olhos de Rosinha acompanharam os derradeiros fragmentos de cambraia, que a aragem roubava ao fogo e perdiam-se na escuridão da noite.